Edição 389 | 23 Abril 2012

Caatinga, ecossistema heterogêneo

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Thamiris Magalhães

Na verdade, este bioma é formado por várias fitofisionomias e, por isso, alguns autores já utilizam a denominação no plural “as Caatingas” brasileiras, diz Lúcia Helena Piedade Kiill

“Em minha opinião, para se minimizar os impactos sobre a Caatinga, a sensibilização de agentes multiplicadores e a educação ambiental seriam os meios mais indicados para se divulgar a riqueza e a importância da sua biodiversidade”, pontua Lúcia Helena Piedade Kiill, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para a bióloga, diante dos cenários das mudanças climáticas globais, as plantas e animais da Caatinga constituem um patrimônio biológico de valor incalculável. “Essas espécies estão totalmente adaptadas às condições locais, apresentando estratégias para conviver com a escassez de água, a irregularidade das chuvas, as altas temperaturas, etc.” E completa: “além da importância biológica, essas espécies apresentam diversos potenciais que, se manejados de forma sustentável, poderiam se tornar uma alternativa para o desenvolvimento da região. A flora da Caatinga apresenta espécies de potencial frutífero, medicinal, aromático, melífero, forrageiro, ornamental, que podem ser consideradas como uma alternativa sustentável para a região”.

Lúcia Helena Piedade Kiill possui graduação em Ciências Biológicas pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo – USP e mestrado em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Nessa instituição, concluiu o doutorado em Biologia Vegetal.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como avalia a devastação e o desaparecimento de plantas e animais na Caatinga?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
A devastação e o desaparecimento da Caatinga podem ser considerados como um dos impactos ambientais mais relevantes para o semiárido brasileiro. Hoje, a degradação e fragmentação de ambientes naturais são consideradas como uma das principais causas de extinção, pois, além de reduzirem os habitats disponíveis para a fauna e flora locais, aumentam o grau de isolamento entre suas populações, o que pode acarretar perdas de variabilidade genética. Por ser tratar de um bioma de ocorrência exclusivamente no território brasileiro, a Caatinga possui flora e fauna endêmicas da região, ou seja, que não ocorre em nenhum outro bioma. O desaparecimento dessas espécies, mesmo antes de serem estudadas, dificulta o entendimento dos processos ecológicos e, consequentemente, de ações para minimizar esses impactos.


IHU On-Line – Quais são as árvores e espécies brasileiras consideradas ameaçadas de extinção na Caatinga? Como podemos definir esta situação no bioma?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
Por ser considerado como um bioma ainda pouco estudado, torna-se difícil quantificar as espécies ameaçadas de extinção e quantas já foram extintas antes de serem conhecidas. Atualmente a lista de espécies da flora ameaçadas de extinção divulgada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - Ibama - contempla cerca de 50 espécies de ocorrência na Caatinga. Porém, como já se sabe que mais de 60% da área do bioma encontra-se de alguma forma alterada pela ação antrópica, acreditamos que este número possa ser muito maior. Entre as famílias botânicas, as cactáceas se destacam como o grupo com maior número de espécies sob ameaça. Quanto à fauna, a lista está sendo atualizada. Para a Caatinga, as aves e os mamíferos podem ser considerados como os grupos mais ameaçados, principalmente pela caça e venda de animais silvestres.


IHU On-Line – Qual a importância das espécies endêmicas para o patrimônio biológico do bioma?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
Diante dos cenários das mudanças climáticas globais, as plantas e animais da Caatinga constituem um patrimônio biológico de valor incalculável. Essas espécies estão totalmente adaptadas às condições locais, apresentando estratégias para conviver com a escassez de água, a irregularidade das chuvas, as altas temperaturas, etc.
Além da importância biológica, essas espécies apresentam diversos potenciais que, se manejados de forma sustentável, poderiam se tornar uma alternativa para o desenvolvimento da região. A flora da Caatinga apresenta espécies de potencial frutífero, medicinal, aromático, melífero, forrageiro, ornamental, que podem ser consideradas como uma alternativa sustentável para a região.


IHU On-Line – Como podemos caracterizar as diversidades florísticas encontradas na Caatinga?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
A Caatinga não é um ecossistema homogêneo. Na verdade, este bioma é formado por várias fitofisionomias e, por isso, alguns autores já utilizam a denominação no plural “as Caatingas” brasileiras. Essa variação na composição vegetal está relacionada a vários fatores, destacando-se tipo de solos, volume das precipitações, altitude e as próprias associações entre as plantas. De modo geral, a Caatinga pode ser caracterizada como um complexo vegetal rico em espécies lenhosas e herbáceas, sendo que as primeiras geralmente perdem as folhas na estação seca, e as segundas apresentam ciclo anual.


IHU On-Line – Qual o papel das árvores, com suas folhas, flores e frutos, para a alimentação dos animais e da população no bioma?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
A flora da Caatinga desempenha importante papel na relação com a fauna e com o sertanejo. No primeiro caso, as plantas podem ser consideradas como fonte forrageira para animais silvestres e domésticos. As flores fornecem néctar, pólen, óleos e resinas para diversos grupos de visitantes (abelhas, borboletas, moscas, besouros, aves, morcegos etc.) e os frutos servem de alimento para aves, mamíferos e répteis. Além disso, seus troncos e galhos são utilizados como locais de nidificação, havendo estreita relação entre espécies vegetais e determinadas espécies de abelhas, por exemplo. Quanto ao sertanejo, como comentando anteriormente, a Caatinga apresenta plantas consideradas medicinais e já consagradas pelo uso popular. Outras, a exemplo do umbuzeiro, são importantes fontes de renda para a comunidade local, que se mantém pelo extrativismo de seus frutos.


IHU On-Line – De que maneira a ecologia reprodutiva da flora pode contribuir para o uso racional dos recursos disponíveis na Caatinga?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
O conhecimento da ecologia reprodutiva das plantas, a exemplo da fenologia, dos processos de polinização das flores e de dispersão das sementes, é essencial para se conhecer as interações entre flora e fauna de um ecossistema e como os impactos causados um grupo pode refletir direta ou indiretamente sobre o outro. Para que uma espécie possa ser utilizada de forma sustentável, sem comprometer essas associações, estudos de sua ecologia reprodutiva são fundamentais para que possamos, a médio e longo prazo, usá-la sem comprometer seus processos ecológicos.


IHU On-Line – Quais são as plantas encontradas no bioma que servem de uso medicinal?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
Vários são os exemplos de plantas da Caatinga que apresentam potencial medicinal. A literatura lista mais de 40 espécies entre árvores, arbustos, cipós e herbáceas, cujas folhas, raízes, cascas ou sementes são utilizadas no preparo dos medicamentos caseiros. Dentre essas espécies, destacamos a aroeira do sertão, baraúna e umburana de cheiro, espécies arbóreas consideradas ameaçadas de extinção.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Lúcia Helena Piedade Kiill –
Sim. Em minha opinião, para se minimizar os impactos sobre a Caatinga, a sensibilização de agentes multiplicadores e a educação ambiental seriam os meios mais indicados para se divulgar a riqueza e a importância da sua biodiversidade.

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