Edição 389 | 23 Abril 2012

Retratos coloridos e em preto e branco. Os muitos mundos da favela

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Graziela Wolfart

José Luiz Bica de Melo comenta alguns aspectos do filme 5x Favela – agora por nós mesmos e percebe que a obra apanha a complexidade das relações sociais onde estão muitas vezes embaralhadas as normas cotidianas e as leis, a necessidade e o drama, a ordem e a desordem tecendo laços de sociabilidade

Quando você pensa em favela, que imagem lhe vem à cabeça? O cinema nacional possui muitas obras que retratam o cotidiano das comunidades/favelas. Mas que tal assistir a um filme produzido pelos próprios moradores? É o caso de 5x Favela – agora por nós mesmos, que será exibido no Ciclo de Filmes Realidades do Brasil: Relações de poder e violência, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no próximo dia 24 de abril, das 19h30min às 22h20min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.

Quem estará no evento debatendo a obra com o público é o professor da Unisinos José Luiz Bica de Melo. Ele aceitou conceder a entrevista a seguir à IHU On-Line, por e-mail, em que aponta que os cinco episódios que compõem o filme retratam uma “dimensão da realidade social brasileira, complexa, plural a desafiar a ficção e a análise social”. Ao assistir ao filme, Bica percebe que “o morador das favelas deseja ser. Não tem vergonha de estar na favela e é um equívoco pensar que está sempre querendo descer ao asfalto. Quer dignidade, respeito, alegria, sonho, beleza, casa, luz, trabalho digno. Como em todo lugar. Talvez o grande desafio seja descolonizar um imaginário que, estando de fora e de longe, não compreende o que significam as comunidades para quem lá vive. O mundo não é dividido entre bons e maus. Maldade e bondade podem estar em todo lugar. Aqui e lá”.

O professor Dr. José Luiz Bica de Melo é graduado em Ciências Sociais pela Unisinos e especialista em Educação Popular pela mesma instituição. Cursou mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Qual é a realidade social brasileira retratada no filme 5x vezes favela – agora por nós mesmos?

José Luiz Bica de Melo –
5x favela – agora por nós mesmos é composto por cinco episódios dirigidos por cineastas cuja origem é a favela ou as comunidades, conforme aparece no filme, produção que resultou de oficinas orientadas por cineastas como Fernando Meirelles, Ruy Guerra e Walter Salles. Retrata a realidade social brasileira tomando como lócus as comunidades do Rio de Janeiro tratando das desigualdades, necessidades, dramas humanos, tráfico de drogas, violência e sonhos, sem, no entanto, reduzir o olhar da câmera às análises dicotômicas (bandidos x mocinhos, os “bons” x os “maus”, trabalhadores x vagabundos) como em alguns casos do cinema brasileiro, mas apanhando a complexidade das relações sociais onde estão muitas vezes embaralhadas as normas cotidianas e as leis, a necessidade e o drama, a ordem e a desordem tecendo laços de sociabilidade. Os episódios retratam uma dimensão da realidade social brasileira, complexa, plural a desafiar a ficção e a análise social.
IHU On-Line – Em que sentido o filme 5x vezes favela – agora por nós mesmos contribui para a reflexão sobre as relações de poder e violência que marcam a complexa realidade social brasileira?
José Luiz Bica de Melo – De várias maneiras. O que pode ser exemplificado pelo desejo e o sonho de obter um diploma de curso superior e romper com a condição de classe buscando escapar de um “destino” que parecia ter sido previamente traçado; o desejo de uma criança (e seu amigo) de tudo fazer para que, no dia do aniversário do pai, tivesse carne numa mesa que convivia com arroz e feijão; as disputas entre bandos rivais pelo controle da comunidade em que as chamadas forças públicas estão mescladas com a violência, o que faz com que amigos de infância sejam colocados em polos opostos dilacerando sonhos e planos; uma situação em que mesmo a comunidade está cindida em duas – a ponte, nesse caso, é emblemática como elemento que separa e que, ao mesmo tempo, une os sonhos de infância por onde passam e conseguem voar a solidariedade e a amizade mostrando os primeiros sinais de germinação. Por fim, a demonstração da capacidade de rir da própria pobreza, sem comiseração ou lamento, mas com capacidade de, numa noite de Natal, não deixar que a escuridão tome conta. 5x favela – agora por nós mesmos é uma bela e poderosa âncora para a reflexão sobre os poderes e as violências (e os contrapoderes sutis, quase invisíveis) em nossa sociedade.


IHU On-Line – Como as cinco histórias se relacionam e o que há de mais comum e de mais contrastante entre elas?

José Luiz Bica de Melo –
O fio condutor dos cinco episódios é mostrar o quanto de riqueza, de solidariedade, de sonho, de astúcia e de violência também faz parte do cotidiano das pessoas das comunidades. Crianças, adultos, jovens, velhos, todos no mesmo caldeirão do fazer cotidiano, do fazer a vida a cada dia e por vezes, da vida por um fio. Por apresentar as comunidades em sua complexidade, o filme nos mostra, sob a forma espelhada, os contrastes: territórios mapeados e apropriados pelo tráfico, os serviços públicos que não chegam às comunidades, a arma que mata, mas também a alegria do encontro, a mão amiga que conforta, a festa, o café, a cerveja, a sensualidade e o lugar do inesperado, do surpreendente na vida de cada um. Retratos. Coloridos. E em preto e branco. Muitos mundos.


IHU On-Line – Que visão/imagem sobre a favela no Brasil é passada na obra?

José Luiz Bica de Melo –
5x favela – agora por nós mesmos apresenta uma sociedade que se urbanizou, mas de forma desigual, sem planejamento na ocupação do solo urbano, sem ampliação dos serviços necessários, com cidadania limitada, com amplas áreas onde o Estado, por meio de seus múltiplos serviços, está ausente e onde muitas vezes impera aquilo que o sociólogo José de Souza Martins chamou de forças repressivas do privado. As comunidades não se reduzem a isso. Sem dúvida, esses elementos decorrentes de uma estrutura de desigualdades, que tem sido apenas arranhada na superfície, fazem com que persistam desigualdades e germine a violência e o sofrimento.


IHU On-Line – Como definir o perfil do morador de favela e quais seus maiores desafios?

José Luiz Bica de Melo –
O morador das favelas deseja ser. Não tem vergonha de estar na favela e é um equívoco pensar que está sempre querendo descer ao asfalto. Quer dignidade, respeito, alegria, sonho, beleza, casa, luz, trabalho digno. Como em todo lugar. Talvez o grande desafio seja descolonizar um imaginário que, estando de fora e de longe, não compreende o que significam as comunidades para quem lá vive. O mundo não é dividido entre bons e maus. Maldade e bondade podem estar em todo lugar. Aqui e lá.


IHU On-Line – Que tipo de preocupação moral aparece na obra em relação aos valores das comunidades que vivem na favela?

José Luiz Bica de Melo –
Os cinco episódios de 5x favela – agora por nós mesmos foram roteirizados, dirigidos e produzidos por cineastas que nasceram nas comunidades do Rio de Janeiro e muitos lá vivem até hoje. Há uma preocupação que não é propriamente moral: é cultural e estética. Mostrar a complexidade das relações humanas nas comunidades, entre os desejos e o medo, entre a luz e a escuridão, entre uma pipa que cai e um desejo que voa, entre uma ponte que separa (e une) e uma mão que bate (e ampara), entre a lágrima de tristeza e dor e a camaradagem, o encontro e o amor (que acontece onde menos se espera). Todos inesperados. Como a vida e a morte. 5x favela – agora por nós mesmos nos possibilita pensar isso tudo. Turbilhão.


IHU On-Line – Qual a novidade do filme 5x vezes favela – agora por nós mesmos em relação ao Cinco Vezes Favela de 1962?

José Luiz Bica de Melo –
Os cinco episódios de Cinco Vezes Favela, de 1962, expressavam o desejo de jovens cineastas de classe média que buscavam mostrar a favela como lugar da violência, da brutalidade e da alienação e, assim, despertar a “consciência de classe”. Procurava enfatizar (mesmo que não explicitamente) que esse lugar necessitava de intelectuais que levassem o esclarecimento e que o Cinema Novo, ao escancarar essa “realidade”, contribuiria para o fortalecimento de uma consciência política. Esse era um dos propósitos do Centro Popular de Cultura – CPC da União Nacional dos Estudantes – UNE, em que foi gestado por Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman Cinco Vezes Favela. Cinquenta anos se passaram. A dimensão política da realidade social das comunidades não foi abandonada em 5x favela – agora por nós mesmo, mas o olhar da câmera agora é outro, o sujeito que a movimenta, agora é outro: a complexidade das relações nas comunidades, a forma plural de fazer política, a dimensão estética e artística fazendo com que não se espere messianismo do cinema. Cinema é, antes de tudo, arte. Arte de abertura, não de fechamento. De um olhar que não diz “é assim”, mas que procura dizer “está sendo assim”, “nós mesmos estamos mostrando desde dentro”. Essa é a magia do cinema (aquele do passado e o de hoje). As dinâmicas da sociedade mudaram e 5x favela – agora por nós mesmos capta magistralmente esse movimento.

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