Edição 389 | 23 Abril 2012

Campos sulinos: os desafios da conservação da biodiversidade

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Márcia Junges

Riqueza da fauna e da flora é característica do bioma, revela o engenheiro ambiental Gerhard Overbeck. Contudo, restam hoje cerca de 50% das áreas originalmente cobertas por vegetação campestre no Sul brasileiro

Um bioma extremamente rico, mas ainda pouco conhecido pela sociedade e, por isso, pouco valorizado. É a realidade dos campos sulinos, com um grande número de espécies de animais e plantas ameaçadas, pontua o engenheiro ambiental Gerhard Overbeck. A composição florística, por exemplo, está totalmente modificada nos locais onde foi transformada, seja em função da lavoura ou da silvicultura, que trazem modificações “nas propriedades do solo ou do banco de sementes e impedem a recuperação rápida e espontânea das áreas originalmente campestres”. Contudo, completa Overbeck, é preciso ter em consideração que a atividade pecuária preserva os campos em função do pastejo, mas ressalva: “Claro que também é importante ter áreas em reservas sem pastejo, nas quais podemos estudar o desenvolvimento da vegetação sem interferência humana ou nas quais até poderíamos experimentar diferentes tipos de manejo, analisar os efeitos sobre a diversidade de diferentes grupos de plantas ou animais, sobre serviços ambientais, etc.” Um dos principais problemas constatado nos campos sulinos é a conversão do uso da terra. “No total, restam hoje cerca de 50% das áreas originalmente cobertas por vegetação campestre no sul do Brasil”.

Engenheiro ambiental, natural da Alemanha, Gerhard Overbeck é mestre em Arquitetura de Paisagem e Planejamento Ambiental pela Universidade Técnica de Munique, onde cursou doutorado em Ciências Naturais com a tese Effect of fire on vegetation dynamics and plant types in subtropical grassland in Southern Brazil. Leciona atualmente no Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É um dos organizadores da obra Wandel von Vulnerabilität und Klima: Müssen unsere Vorsorgewerkzeuge angepasst werden? (Hannover, Bonn: ARL, DKKV, 2007). Overbeck esteve no Instituto Humanitas Unisinos – IHU quinta-feira, 19-04-2012, onde proferiu a palestra Rio+20 e desafios para a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos nos Campos sulinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais desafios para a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos nos campos sulinos?

Gerhard Overbeck – Os campos sulinos têm sofrido, nas últimas décadas, uma constante e elevada conversão para outros usos de terra. No total, restam hoje cerca de 50% das áreas originalmente cobertas por vegetação campestre no sul do Brasil; e menos ainda em algumas regiões, por exemplo, no Paraná. Além da perda direta de habitat, esta redução em área implica a fragmentação daquelas que ainda permanecem, com consequências negativas para a biodiversidade. Adicionalmente, o manejo inadequado de grandes áreas ainda campestres dificulta a manutenção da diversidade e dos serviços ecossistêmicos, principalmente por causa do sobrepastoreio, o qual também pode ser considerado problemático pelo ponto de vista econômico, já que não utiliza o recurso – campo nativo – em uma forma produtiva. Este manejo inadequado pode levar, entre outras consequências, ao aumento de espécies invasoras, por exemplo, do capim-anoni, uma espécie africana que chega a se tornar dominante em grandes áreas e reduz tanto a diversidade florística como a produtividade dos campos. Então, temos desafios bastante concretos e urgentes frente à degradação observada no bioma – mais ainda quando consideramos que a transformação em outros tipos de habitat continua com taxas altas em muitas regiões. 

Necessidade de manejo

O desafio que de certa maneira está por trás desta problemática é a baixa valorização dos campos sulinos, mais especificamente a dos campos nativos, pela sociedade. Por muito tempo, a conservação dos recursos naturais no Brasil – e da pesquisa ecológica – se preocupou muito mais com ecossistemas florestais de que com campos. Há relativamente pouco tempo que os campos sulinos passaram a ser um objeto de estudos ecológicos e que o interesse na conservação deste bioma foi e ainda vem sendo despertado. Sabemos que, para a conservação dos campos, precisamos de manejo (como pastejo, por exemplo) e que o tipo de manejo define a estrutura e composição da vegetação. Sabemos quais níveis de pastejo são aqueles que melhor podem contribuir para a conservação da diversidade e dos diversos serviços ecossistêmicos. Pois aí está a grande diferença em comparação com a conservação de outros tipos de vegetação, por exemplo, de florestas: os campos sulinos são um tipo de vegetação que depende de distúrbios como o pastejo ou, em alguns casos, até do fogo, já que o clima atual na região permite o crescimento de florestas.

São ecossistemas naturais e com espécies nativas, mas sem o manejo que remove ao menos periodicamente a biomassa vegetal que vai se acumulando. Há uma perda de espécies ou ainda uma sucessão para um tipo de vegetação florestal. Ou seja, para se conservar a biodiversidade dos campos, é necessário que haja um certo manejo. Essa situação é algo que é bem conhecido para tipos de vegetação abertos no mundo inteiro. Todavia, isso não está atualmente previsto na legislação e nem em planos de manejo de unidades de conservação, e com isso se põe a risco o grande potencial desta região, tanto para a conservação como para a produção sustentável.

IHU On-Line – Em que medida a Rio+20 é importante no sentido de se pensar e preservar esse ecossistema?

Gerhard Overbeck – A Rio+20 é uma conferência organizada pelas Nações Unidas, em nível mundial, e tem como objetivo reafirmar o compromisso político para um desenvolvimento sustentável. Especificamente serão abordados dois temas: a economia verde e a estrutura institucional necessária para se alcançar os objetivos de um desenvolvimento sustentável. Devido ao caráter internacional desta Conferência, não se pode esperar que sejam discutidos tópicos específicos de cunho regional ou até mesmo nacional; ou seja, não deverão surgir propostas concretas a serem implementadas imediatamente nos campos sulinos, ou em qualquer outro ecossistema. Mas, como outros eventos deste tipo, espera-se que a Rio+20 estimule as discussões sobre um desenvolvimento sustentável no mundo inteiro, e que crie objetivos políticos globais, os quais terão de ser implementados em políticas nacionais e regionais.

Desse modo, a Conferência em si não trará resultados práticos para a conservação dos campos sulinos. Porém, deverá estimular tanto um maior interesse em questões do desenvolvimento sustentável e da conservação do bioma como uma maior elaboração de políticas públicas voltadas para sua conservação e seu manejo adequado. E nós, pesquisadores, ambientalistas ou produtores, podemos “pegar esta onda” e aproveitar a possibilidade de entrar no debate, no âmbito mais regional aqui no Sul brasileiro mesmo, sobre a conservação dos campos sulinos. Afinal, de certa forma nós já temos aqui nos campos um exemplo de “economia verde”. Ao menos o potencial para construí-la – o que falta é uma política pública melhor desenvolvida que busque a conservação e o uso sustentável dos campos sulinos e que dê apoio técnico para produtores de uma maneira que eles não necessitem praticar tipos de manejo inadequados.

As expectativas públicas para resultados concretos de Rio+20 neste momento, dois meses antes da Conferencia, me parecem relativamente baixos. Mesmo assim, poderão sair sinais de grande importância deste evento. De qualquer maneira, a conservação da biodiversidade dos campos sulinos é a nossa própria responsabilidade. Não podemos esperar que um evento internacional resolva todos os problemas relacionados.

IHU On-Line – Quais são as características fundamentais da biodiversidade dos campos sulinos?

Gerhard Overbeck – Bioma, de acordo com a definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, é “um conjunto de espécies animais e plantas que vivem em formações vegetais vizinhas em um território que possui condições climáticas similares e história compartilhada de mudanças ambientais, o que resulta em uma diversidade biológica própria”. Considerando os campos sulinos, ainda temos que diferenciar os campos do bioma Pampa (na metade sul do Rio Grande do Sul), e os campos do bioma Mata Atlântica (ocorrem em mosaicos com a mata com araucária, na metade norte do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e Paraná), cada um com características específicas. Os campos no sul do estado têm a sua continuação nos campos de Uruguai e Argentina. Em termos florísticos, o número de espécies encontradas nas áreas de vegetação campestre é impressionante: trabalhos atuais de pesquisadores do Departamento da UFRGS apontam para a presença de mais de 2.500 espécies vegetais campestres somente no Rio Grande do Sul. Entre elas, muitas espécies raras ou endêmicas, ou seja, espécies que ocorrem somente no Rio Grande do Sul ou até mesmo em algumas partes do estado, às vezes em um ou em pouco locais.

Embora nem todos os grupos de animais tenham sido estudados com o mesmo grau de detalhamento, também já se conhece uma alta diversidade de muitos grupos. E para citar um exemplo: das 480 espécies de aves que ocorrem no bioma Pampa , cerca de 120 vivem exclusivamente em áreas campestres. Em termos de biodiversidade, os campos sulinos são, então, extremamente ricos – só que este fato ainda é pouco conhecido na sociedade, e, por causa disso, há uma baixa valorização dos campos.

IHU On-Line – E da flora desse bioma, em específico, o que há de singular?

Gerhard Overbeck – Dentro da família botânica das gramíneas, que formam a matriz da vegetação campestre, há dois grandes grupos: espécies hibernais (adaptadas a condições climáticas mais temperadas) e espécies estivais (adaptadas a condições climáticas mais tropicais). Nos campos sulinos, situados na transição entre climas temperado e tropical, os dois grupos de gramíneas ocorrem juntos, de maneira que as espécies hibernais são mais evidentes na primavera e as espécies estivais, dominantes no verão. Essa característica bastante singular também possibilita um bom aproveitamento do recurso forrageiro em diferentes épocas do ano. Além disso, como já mencionado, os campos destacam-se pela sua alta diversidade florística, a qual pode ser observada em várias escalas espaciais. Por exemplo, em um único metro quadrado de uma área “típica” dos campos sulinos, são facilmente encontradas entre 20 e 30 espécies, se não mais. Dentro dos campos sulinos, algumas regiões destacam-se por outras características, como na Serra do Sudeste, em que os campos são caracterizados por alta presença de espécies lenhosas. E podemos destacar a riqueza específica de algumas famílias vegetais – por exemplo, nos campos do Rio Grande do Sul ocorrem cerca de 450 espécies de asteráceas, 450 espécies de gramíneas e 200 espécies de fabáceas (leguminosas) – para só destacar as famílias botânicas com maior número de espécies. 

IHU On-Line – Quais são as principais ameaças que esse bioma tem sofrido?

Gerhard Overbeck – Como destacado no início da entrevista, o maior problema é a perda de área como consequência de sua conversão para outros usos de terra. Esse é um processo que continua e pode facilmente ser observado na região Sul, causando perda de habitat para espécies campestres e fragmentação dos campos remanescentes. O preocupante é que esta conversão acontece cada vez mais até em regiões onde o solo não está muito apropriado ao uso como lavoura, ou seja, os outros tipos de uso de terra não são práticas sustentáveis. Mas uma vez perdido, provavelmente é muito difícil restaurar a vegetação campestre. Além disso, práticas inadequadas de manejo, por exemplo, carga alta de animais, levam a perda de diversidade através da seleção de certas espécies e podem causar problemas de erosão e de perda de produtividade. 

IHU On-Line – Os campos sulinos são um bioma ameaçado de extinção?

Gerhard Overbeck – Como destacado anteriormente, um bioma pode ser definido principalmente em base das condições climáticas específicas. Contudo, quem pode ser ameaçado de extinção não é o bioma (o qual pode ser alterado), mas só o tipo de vegetação e as espécies que fazem parte desta vegetação podem ser ameaçadas ou, até mesmo, extintas. Há um grande número de espécies (tanto de animais como de plantas) incluído na lista oficial de espécies ameaçadas. A lista das espécies ameaçadas da flora, publicada com o Decreto 42.099, editata em 31-12-2002, contém cerca de 10% da flora campestre. Mesmo sabendo disso, não temos, na grande maioria dos casos, programas de conservação para essas espécies, nem um monitoramento das populações. Além disso, importantes serviços ecológicos podem estar em risco com a perda de vegetação campestre. 

IHU On-Line – Em 2007, pesquisadores apontaram que o avanço da agricultura e da silvicultura, a cada ano, destrói cerca de 140 mil hectares do Pampa gaúcho. Qual é a situação recente e em que medida a agropecuária e o plantio de eucalipto vem alterando a composição dos campos sulinos?

Gerhard Overbeck – Não disponho de números atuais, mas acredito que esta situação – ameaça dos campos por mudanças no uso de terra – não tenha mudado muito, de forma geral. Além das áreas totalmente transformadas, percebemos que há mais e mais áreas degradadas, as quais necessitam de esforços de restauração. Obviamente a composição florística dos campos sulinos está totalmente modificada nos locais em que são transformados, e, após alguns anos de uso como lavoura ou silvicultura, algumas modificações nas propriedades do solo ou do banco de sementes no solo impedem a recuperação rápida e espontânea das áreas originalmente campestres. Ou seja, poucos anos de uso de uma área para lavoura podem significar a perda da diversidade florística para sempre. Mas mesmo se restam áreas de campos entre os plantios de eucalipto (principalmente na parte sul do estado) ou pinus (no planalto), elas geralmente sofrem impactos negativos dos plantios por causa da fragmentação, por exemplo. E, se não há manejo, como o pastejo, tais estas áreas vêm perdendo espécies. 

IHU On-Line – Os campos sulinos são suficientemente representados em Unidades de Conservação? 

Gerhard Overbeck – Por um lado, a percentagem de vegetação campestre contida em Unidades de Conservação é muito baixa – são cerca de 2,6 hectares. De forma geral, considera-se que, no mínimo, a parcela equivalente a 10% de cada tipo de vegetação deveria estar incluída em Unidades de Conservação – estamos longe disso.

Por outro lado, temos de cuidar qual tipo de conservação os campos sulinos precisam. Como os campos representam um tipo de vegetação que necessita de manejo, proteção integral, ou seja, com exclusão total da ação humana, não é o tipo de conservação adequada, ao menos não exclusivamente. Precisamos de áreas em que os campos são protegidos da conversão para outros usos de terra e, de certa forma, mais intensivas e impactantes para o manejo. Mas temos que lembrar que é justamente a atividade pecuária que conserva os campos! Claro que também é importante ter áreas em reservas sem pastejo em que podemos estudar o desenvolvimento da vegetação, sem interferência humana, ou em que até poderíamos experimentar com diferentes tipos de manejo e analisar os efeitos sobre a diversidade de diferentes grupos de plantas ou animais sobre serviços ambientais, etc. Contudo, o importante é que a conservação dos campos não possa ser algo pontual, em poucas Unidades de Conservação, mas que seja implementado no bioma inteiro, aliando conservação e utilização sustentável dos recursos naturais. Assim, temos todo o potencial de criar uma economia verde, tal como proposta pela Rio+20. Assim, podemos conservar não somente a biodiversidade, mas também todas as práticas culturais associadas com os ecossistemas campestres, que representam uma parte importante da cultura gaúcha.

Literatura sugerida

PILLAR, V.D.; MÜLLER, S.C.; CASTILHOS, Z.M.d.S.; JACQUES, A.V.A.: Campos sulinos. Conservação e uso sustentável da biodiversidade. Brasília: MMA, 2009. 

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