Edição 389 | 23 Abril 2012

Plantas medicinais, riquezas do bioma

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Thamiris Magalhães

Muitas são as espécies vegetais da Caatinga ampla e tradicionalmente utilizadas como medicamentos fitoterápicos e é crescente o número e os efeitos causados pelo uso dessas plantas, explica Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel

“É bastante considerável o número de plantas com efeitos medicinais no bioma Caatinga que contribuem e que poderão contribuir para um melhor tratamento e alívio de sintomas indesejáveis relacionados a diferentes enfermidades, tanto para a população humana como para a animal”. Essa é a avaliação de Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ela, a forma mais adequada para sua utilização na indústria farmacêutica se dá como resposta a estudos desenvolvidos por pesquisadores de diferentes especialidades, como botânicos, farmacêuticos, químicos, médicos, entre outros, “os quais, em conjunto, informarão desde uma segura identificação da espécie botânica, tipo e doses de substâncias, até formas de uso e/ou aplicação”. Rejane afirma ainda que a população, de modo geral, utiliza as plantas medicinais a partir do conhecimento passado por familiares, a famosa indicação “boca a boca”, “sem controle e segurança, podendo ocasionar sérios riscos à saúde ou, até mesmo, à vida de quem utiliza estas plantas”.


Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel é graduada em Ciências Biológicas pela Faculdade de Filosofia do Recife – UFPE. Possui mestrado em Botânica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE e doutorado em Botânica pela mesma instituição. Atualmente é Professora Associada II da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde coordena as atividades no Laboratório de Fitomorfologia Funcional. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Ecologia Vegetal, especialmente em Fitomorfologia Funcional, aplicando informações da Morfologia e Anatomia Vegetal. É membro do Corpo Editorial dos periódicos: Revista de Geografia (Recife), Revista Brasileira de Geografia Física e Journal of Hyperspectral Remote Sensing.
Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como podemos definir didaticamente o bioma Caatinga?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
Podemos definir o bioma Caatinga como uma formação vegetacional constituída por um conjunto de paisagens caracterizadas por uma vegetação que perde suas folhas durante longos períodos de estiagem e volta a ficar verde após curtos períodos de chuva. A Caatinga é dominada por tipos de vegetação com características xerofíticas – formações vegetais secas, que compõem uma paisagem cálida e espinhosa – com estratos compostos por gramíneas, arbustos e árvores de porte baixo ou médio (3 a 7 metros de altura); caducifólias (folhas que caem), com grande quantidade de plantas espinhosas (exemplo: leguminosas), entremeadas de outras espécies como as cactáceas e as bromeliáceas.
IHU On-Line – Qual a maior biodiversidade que o bioma oferece?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel – A maior biodiversidade do bioma Caatinga está nos tipos de vegetação existentes: a xerofítica – plantas secas, espinhosas, de porte baixo, sem folhas em épocas secas e muitas suculentas.


IHU On-Line – Quantas e quais são as diversidades de plantas que a Caatinga oferece? Elas podem servir como medicamentos em alguns casos?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
A Caatinga se caracteriza por apresentar vegetação sob estresse ambiental, especialmente associado à falta de água, excesso de luminosidade e temperatura. Como resposta a extremos desses fatores, as plantas desenvolvem mecanismos de defesa que estão associados à produção de “princípios ativos”, os quais apresentam efeitos farmacológicos e, por isso, são utilizados na produção de medicamentos. Muitas são as espécies vegetais da Caatinga ampla e tradicionalmente utilizadas como medicamentos fitoterápicos e é crescente o número e os efeitos causados pelo uso dessas plantas.


IHU On-Line – Há um número considerável de plantas medicinais no bioma? Elas podem contribuir no tratamento de algumas doenças? De que maneira elas podem auxiliar para uma melhor utilização farmacêutica?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
É bastante considerável o número de plantas com efeitos medicinais no bioma Caatinga que contribuem e que poderão contribuir para um melhor tratamento e alívio de sintomas indesejáveis relacionados a diferentes enfermidades, tanto para a população humana como para a animal. A forma mais adequada para sua utilização na indústria farmacêutica se dá como resposta a estudos desenvolvidos por pesquisadores de diferentes especialidades, como botânicos, farmacêuticos, químicos, médicos, entre outros, os quais, em conjunto, informarão desde uma segura identificação da espécie botânica, tipo e doses de substâncias, até formas de uso e/ou aplicação.


IHU On-Line – De que maneira as plantas medicinais da Caatinga são utilizadas pela população local do ecossistema?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
De modo geral, a população utiliza as plantas medicinais a partir do conhecimento passado por familiares, a famosa indicação “boca a boca”, sem controle e segurança, podendo ocasionar sérios riscos à saúde ou, até mesmo, à vida de quem utiliza estas plantas.
IHU On-Line – A senhora acredita que a Caatinga é o bioma menos estudado do Brasil? A que se deve esse fato?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel – Não diria que o bioma Caatinga é o menos estudado no Brasil, mas necessita de maiores incentivos para a pesquisa, especialmente em virtude de sua grande riqueza quanto à biodiversidade e potencial econômico em diferentes áreas. A pesquisa com espécies de valor medicinal é uma delas; é uma das linhas que desperta maior interesse público em diferentes países, destacando-se Cuba. No Brasil, a utilização de fitoterápicos através do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos dentro do Sistema Único de Saúde – SUS, desde dezembro de 2008, tem estimulado um maior número de pesquisas com as plantas medicinais.


IHU On-Line – Por que afirma que neste ecossistema os indivíduos passam por períodos de déficit hídrico? Em que isso consiste?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
A região nordeste do Brasil é caracterizada pelos climatologistas por apresentar longos períodos de estiagem, o que, consequentemente, causa deficiência hídrica nos indivíduos que ali vivem, especialmente à vegetação. Os organismos vivos estão constituídos por mais de 80% de água e a vegetação depende da disponibilidade da água presente no solo ou proveniente de chuvas para realizar a fotossíntese e produzir seu próprio alimento. Os efeitos da escassez ou falta de água são sentidos em diferentes escalas, desde a simples queda prematura de folhas até a morte das plantas, especialmente aquelas mais jovens e que não possuem estruturas de reserva de água que podem ser utilizadas durante os períodos de estiagem.


IHU On-Line – A senhora tem realizado inúmeras pesquisas referentes às plantas na Caatinga. Nesse sentido, quais foram os principais resultados obtidos em seus trabalhos e de que maneira eles podem auxiliar a população que reside no local?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
A pesquisa realizada por nós, no Laboratório de Fitomorfologia Funcional – LAFF do Departamento de Biologia/Botânica da Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, está voltada para as plantas estabelecidas em diferentes biomas do Nordeste, como a Mata Atlântica, a Restinga, o Manguezal e a Caatinga. Dentre esses biomas, a Caatinga tem recebido atenção especial no que se refere às estruturas morfoanatômicas e suas aplicações funcionais, especialmente relacionadas à fotossíntese, transporte de água no interior das plantas, resposta ao ataque de microrganismos como fungos e bactérias, e plantas de interesse e/ou uso medicinal pela população local.
Resultados
Os resultados obtidos são divulgados através de meios de divulgação variados, como eventos científicos e acadêmicos em diferentes instituições de ensino no país e de revistas especializadas em diferentes campos de interesse. Os mais relevantes para uso da população local são relativos à segurança no uso da planta que verdadeiramente possui aquelas substâncias chamadas de “princípios ativos” e que são responsáveis pelas respostas positivas aos sintomas indesejáveis causados por doenças. O de maior destaque está sendo enviado para publicação e está relacionado a uma planta que comprovadamente tem efeitos antiasmáticos e que é utilizada pela população local como xarope.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?
Rejane Magalhães de Mendonça Pimentel –
Nosso Laboratório de Fitomorfologia Funcional – LAFF da UFRPE deseja registrar nossos agradecimentos pelo apoio recebido do Departamento de Biologia da UFRPE e de órgãos de fomento como a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco – FACEPE e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq pela concessão de bolsas de estudo e de pesquisador, além de recursos financeiros que possibilitaram a melhoria na qualidade, ampliação de tipos de análises e o desenvolvimento de abordagens tecnológicas de maior relevância para a qualidade de nossos resultados. Além disso, registramos nossos agradecimentos aos pesquisadores de outros departamentos da UFRPE de outras instituições do país, especialmente àqueles da UFPE, pela colaboração e parceria, sem os quais não teríamos avançado adequadamente em nossas pesquisas. Enfatizamos que todos eles, órgãos de fomento e pesquisadores, foram fundamentais para atingirmos um de nossos maiores objetivos, enquanto professora de uma instituição de ensino superior no Nordeste brasileiro, que é a formação de recursos humanos, muitos dos quais já estão atuando em diferentes setores de nossa sociedade, garantindo a disseminação dos conhecimentos adquiridos.

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