Edição 354 | 20 Dezembro 2010

A intransigência e os limites do compromisso

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Por Márcia Junges | Tradução: Benno Dischinger

Fragilidade e incapacidade de abertura ao Outro são sintomas da intransigência moral que grassa em nossos dias, define o filósofo francês Paul Valadier. O compromisso pode ser a sua contrapartida, mas sem compactuar com a injustiça ou a imoralidade

“A atitude intransigente que insiste em afirmar como invariáveis e inegociáveis os próprios princípios fundamentais, é sinal de uma fragilidade interna e de uma incapacidade de abrir-se à presença do Outro”. O diagnóstico é do filósofo francês Paul Valadier, padre jesuíta, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, “a intransigência fundamentalista desemboca, assim, para o imoralismo mais escandaloso, embora ela mesmo diga que é incapaz de dirigir um olhar sobre si mesma e de reconhecer seus próprios erros, tendendo mesmo a condenar aqueles que não compartilham de seu ponto de vista unilateral e contestável”. O resultado é que “cada um se fixa sobre suas próprias certezas, um modo de se defender contra o que se julga serem agressões vindas do outro ou contestações da própria maneira de fazer”. Tal fechamento e enraizamento não demonstram saúde ou certezas, pelo contrário: são “o sintoma de um pavor de ver desmoronar o universo recebido e familiar”. O compromisso seria a contrapartida para a instransigência, mas este anda em maus lençóis atualmente, afirma Valadier: “o homem do compromisso, dir-se-á, brinca com o demônio cedendo com demasiada facilidade em suas convicções. Ele compactua com a injustiça, o deixar ser ou acontecer, o conformismo ambiental, a imoralidade comum. Ele se deixa deslizar num desfiladeiro que só pode conduzi-lo de compromisso em compromisso, até compactuar com o mal. Ser-lhe-á repreendido o fato de justificar o mal em nome do bem ou de referir-se a valores aparentemente incontestáveis, mas que ocultam condutas mais que suspeitas”. E arremata: “Em nome de um bem ou de um valor abre-se caminho a um mal. Onde se percebe, aliás, que compromissos bastardos chegam concretamente à atitude intransigente que recusa ver as consequências desastrosas de suas decisões, feitas sob o disfarce de altos valores!”

Valadier é professor de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Sobre Nietzsche escreveu, entre outros livros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche et Marx (Paris: Cerf, 1974); Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); e Nietzsche l’intempestif (Paris: Beauchesne, 2000). Foi conferencista no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de indivíduos?, com as conferências A moral após o individualismo e O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo. A esse respeito, confira o artigo O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo: leitura filosófica e teológica, publicado na coletânea O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos (Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Leopoldo: Unisinos, 2009). Neste dia 13-08-2009, convidado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ele proferiu a conferência Narrar Deus no horizonte do niilismo. Paul Valadier escreveu, também, La part des choses. Compromis et intransigeance (Paris: Lethielleux – Groupe DDB, 2010), e em português Elogio da consciência (São Leopoldo: Unisinos, 2001).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Em que sentido a intransigência é sinônimo de fragilidade? De que maneira essa intransigência se liga aos fundamentalismos religiosos, por exemplo?

Paul Valadier -
A amplidão das mudanças de toda ordem, econômicas, sociais e culturais é um traço característico da época atual. A presença da internet há alguns anos, à qual ninguém escapa, seria disso ilustração: o mundo inteiro, em sua variedade e prolixidade, nos é entregue em domicílio sem esforço algum. Tal fenômeno não ocorre sem provocar efeitos de comoção das identidades das pessoas e dos grupos. O mundo assim oferecido não deixa ninguém indiferente. E, assim, cada um se encontra tocado, ou até mesmo abalado em sua identidade racional, pessoal, religiosa. A comparação de todos com todos só pode conduzir a uma relativização de nossas maneiras de fazer, pensar e crer.

Tal abalo experimentado no cotidiano gera irradiações e crispações. A confrontação com outros universos de pensamento, ao menos pela imagem senão na realidade, nos fragiliza. E isso é particularmente verdade para os sistemas religiosos e os sistemas morais que dessa forma se sentem contestados, relativizados, comparados uns aos outros. Não é, pois, nada estranho ver aparecer, tanto em moral, como em política ou em religião, atitudes fundamentalistas: cada um se fixa sobre suas próprias certezas, um modo de se defender contra o que se julga serem agressões vindas do outro ou contestações da própria maneira de fazer.
Estes enraizamentos nos próprios fundamentos são acompanhados pela intransigência: ante o que se estima ser uma contestação, e é forte a tendência de se afirmar ou de afirmar os princípios morais, políticos e religiosos recebidos da própria tradição. Este fechamento não é, nem de longe, um sinal de saúde e de certeza tranquila: é antes o sintoma de um pavor de ver desmoronar o universo recebido e familiar. Ele eleva ao nível de ameaça a presença do outro - o outro em sua religião, em sua cultura, em suas ideias. Neste sentido, a atitude intransigente que insiste em afirmar como invariáveis e inegociáveis os próprios princípios fundamentais, é sinal de uma fragilidade interna e de uma incapacidade de abrir-se à presença do outro. Reafirma-se com teimosia o que se sente ameaçado e se procura enraizar-se no que se estima ser contestado.


Valores não negociáveis

O apelo reiterado de certos bispos dos Estados Unidos da América no sentido de defender “valores não negociáveis” no momento das recentes campanhas presidenciais, notadamente os valores que se referem às relações sexuais, é bastante característica da intransigência. Um traço que não engana se manifesta no fato que a intransigência se atém a um princípio julgado essencial (“não negociável”) e reduz o seu olhar a ponto de não mais perceber a importância de outros princípios não menos essenciais.

A condenação justificada do aborto, por exemplo, conduziu a não ver ou a minimizar, no julgamento social e político, outros cacifes gravíssimos, outros comportamentos e outros atos fundamentalmente imorais: a mentira do Estado sobre as pretendidas armas de destruição maciça do Iraque “justificou” uma guerra de consequências lastimáveis, não somente para o infeliz povo iraquiano, mas para as relações globais entre o Ocidente (identificado pelos muçulmanos ao cristianismo) e o mundo muçulmano, e nós sabemos que os cristãos orientais pagam os custos desses erros políticos.
A insistência intransigente sobre o aborto para emitir julgamento sobre a qualidade dos candidatos presidenciais cegou a consciência moral a ponto de se vir apoiar políticos mentirosos, justificadores da tortura, belicistas e, na realidade, impotentes para modificar as legislações concernentes ao aborto. A intransigência fundamentalista desemboca, assim, para o imoralismo mais escandaloso, embora ela mesmo diga que é incapaz de dirigir um olhar sobre si mesma e de reconhecer seus próprios erros, tendendo mesmo a condenar aqueles que não compartilham de seu ponto de vista unilateral e contestável.


IHU On-Line - Por que o compromisso é tão mau visto em nossos dias? Que tipo de compromisso é possível hoje, frente ao niilismo e a intransigência moral, política e religiosa?

Paul Valadier -
É nesse contexto que é preciso compreender o alcance e a necessidade do compromisso. Nós não estamos jamais ou muito raramente na vida diante de absolutos, mas sempre envolvidos em situações concretas nas quais exigências contraditórias se impõem a nós e onde, portanto, é necessário fazermos escolhas. Não se escolhe o absoluto, mas o melhor ou o mal menor, tendo em conta tudo o que não nos é possível honrar. Tal é o compromisso, e assim se virá a votar, por exemplo, em determinado candidato, embora não estejamos de acordo com a totalidade de seu programa, mas porque ele nos parece ser o mais apto que, em síntese, propõe boas medidas para a cidade. Restará ver, também, como ele colocará seu programa em prática, pois sabemos que entre as promessas e a realidade há muitas vezes uma grande distância!
É verdade que tal atitude pode facilmente deslizar para o comprometimento e, por esse motivo, o compromisso tem má reputação. Engajar-se no próprio louvor não seria justificar uma espécie de jogo duplo que se acomoda mal com uma vida correta e sincera? Repreender-se-á ao homem o compromisso de proclamar o valor ou a força dos princípios, mas de agir de modo totalmente diverso e de fazer concessão à atmosfera do tempo, à facilidade preguiçosa; consequentemente, ele será considerado suspeito de viver uma espécie de esquizofrenia entre afirmação dos princípios e acomodações práticas. O farisaísmo seria a figura ideal dessa atitude. Separa-se ou recorta-se, assim, de um lado, uma vida interior ou algo íntimo secreto, e, do outro, uma vida pública conforme as normas correntes e admitidas.


O mal em nome do bem

Esta primeira acusação desemboca quase inelutavelmente naquela, ainda mais grave, de cumplicidade com o mal ou de comprometimento com ele. O homem do compromisso, dir-se-á, brinca com o demônio cedendo com demasiada facilidade em suas convicções. Ele compactua com a injustiça, o deixar ser ou acontecer, o conformismo ambiental, a imoralidade comum. Ele se deixa deslizar num desfiladeiro que só pode conduzi-lo de compromisso em compromisso, até compactuar com o mal. Ser-lhe-á repreendido o fato de justificar o mal em nome do bem ou de referir-se a valores aparentemente incontestáveis, mas que ocultam condutas mais que suspeitas. Assim, evocar-se-á a dignidade da pessoa para justificar o suicídio assistido, como se apelará à liberdade da mulher ou à livre disposição de seu corpo para legitimar a interrupção voluntária de uma gravidez. Posição aparentemente inexpugnável, já que ela se reveste de valores incontestáveis e indiscutíveis (dignidade, liberdade). Mas ela chega de fato a justificar atos pelo menos ambíguos ou mesmo meridianamente repreensíveis no plano da moral e do direito. Em nome de um bem ou de um valor, abre-se caminho a um mal. Onde se percebe, aliás, que compromissos bastardos chegam concretamente à atitude intransigente que recusa ver as consequências desastrosas de suas decisões, feitas sob o disfarce de altos valores!


Coragem moral

Enfim, dir-se-á que o homem de compromisso dá testemunho de leviandade, de moleza, de falta de coragem; ele não seria senão um escravo que concorda com a ordem ou a desordem estabelecida, ao “politicamente correto”; ele seria um cordeiro que se submete a ordens injustas, pelo simples fato, por exemplo, que elas são dadas pela autoridade, quando, se ele fosse um homem correto e coerente, ele resistiria ao mal e à injustiça, mesmo que ela fosse ordenada pelos poderes “legítimos”. Contrariamente, discernir-se-á na intransigência uma coragem moral que não se dobra ante o intolerável, a despeito de pagar por isso o preço, um preço que pode ser pesado, mas que uma vida humana digna desse nome deve ser capaz em certos casos (talvez extremos e raros) de assumir. Finalmente, para empregar uma palavra raramente utilizada em nossos dias, não existe vida humana e moral sem se aceitar sacrifícios, e até mesmo o sacrifício da própria carreira, das próprias ligações afetivas e, por vezes, da própria vida em nome das próprias razões de viver que se resumem efetivamente no respeito de alguns princípios fundamentais.


IHU On-Line - Qual é a ética necessária e possível em nossos dias? Que espaço resta para a solidariedade num mundo relativista e niilista?

Paul Valadier -
Se o compromisso se impõe malgrado todas as críticas possíveis, é porque a vida moral concreta não consiste em afirmar princípios ou “valores (assim-ditos) não negociáveis”. Todo mundo sabe que não é preciso matar nem roubar, nem mentir. Mas o que significa isso na situação concreta em que devo decidir-me? Por quais caminhos passa o respeito a tais princípios? Os princípios morais direcionam a pessoa ao exame do conjunto dos parâmetros da situação em que ela deve julgar e agir, conduzindo-a a analisá-los, a separar o que importa do que é secundário e depois a decidir por aquilo que lhe parece, em consciência, como o melhor e o que mais encerra futuro: para este enfermo quando se é médico, para esta criança quando se é educador, para esta empresa quando se é engenheiro, para este país no momento de um voto de cidadão. Não se trata do ideal em si e por si, mas do que se impõe aqui e agora, para desbloquear uma situação ou resolver um problema, a fim de abrir um futuro. Na Igreja, o papel da comunidade ou do conselheiro espiritual consiste justamente em ajudar uma determinada pessoa a avançar no caminho da vida boa e santa, e não de colocá-la diante dos “valores inegociáveis” ou dos princípios absolutos, quando ela é chamada a avançar na situação em que se encontra (saúde, vida familiar, problemas econômicos, aflição psicológica eventual...). A autoridade na Igreja, como a entende São Paulo , consiste em ajudar a crescer, e não em esmagar as consciências, e muito menos “para destruir” (Segunda epístola aos Coríntios, 13, 10). E aqui a pessoa ainda será conduzida, sem dúvida, a encontrar a justa via, o compromisso adequado, a renunciar eventualmente a tal grande princípio para não escandalizar o fraco por sua intransigência (Primeira epístola aos Coríntios, 10, 23-33).


IHU On-Line - Que espaço resta para a solidariedade num mundo relativista e niilista?

Paul Valadier -
É certo que o contexto niilista que marca nossas sociedades (mais ou menos, aliás, pois aqui também é preciso evitar as generalizações enganadoras) realmente não favorece nem a ideia de compromisso, nem mais globalmente um comportamento moral responsável. Se por niilismo se entende, com efeito, que nada mais vale, que nada tem sentido, que a única saída é o apocalipse, como o anunciam muitos profetas de desgraças (Günther Anders , entre outros, em Die Antiquiertheit des Menschen [A antiguidade do homem], 1956, ou René Girard , em Achever Clausewitz [Concluir Clausewitz], 2007), é certo que a decisão moral se torna vazia de conteúdo. Vale mais, então, deixar o mundo correr à catástrofe ecológica, nuclear, terrorista, e desfrutar sem limites do presente. Mas também se pode retrucar a este catastrofismo que o “bê-a-bá” da vida moral consiste precisamente em desconfiar dos enfeitiçamentos niilistas, em recusar o “tudo é vão”, em erguer-se conta toda forma de fatalismo que aniquila a vontade humana. Pois, de fato, considerando sua vida pessoal e relacional, não é verdade que tudo seja vão: podemos amar nosso (a) cônjuge e nossos filhos, empreender na cidade ou em nossos lugares de trabalho, desfrutar da beleza das coisas, entreter nosso espírito pela cultura, procurar conhecer e encontrar esses “outros” que temem o fundamentalista. Em suma, podemos desfrutar da vida aqui e agora, certamente não de uma vida ideal que só existe em nossas fantasias, mas da existência humana concreta, tal como ela nos cabe dia após dia. Dessa forma, ainda fazemos recuar a violência, embora talvez de maneira infinitesimal, o que é sempre melhor do que (o) nada. Não é isso uma vida humana verdadeira e uma vida cristã que se deixa conduzir pelo acontecimento e, portanto, pelo Espírito que fala nos sinais do tempo, decifrando dia após dia, no risco da liberdade?


Leia mais...

>> Paul Valadier já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* Narrar Deus no horizonte do niilismo: a reviviscência do divino. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009

* O desejo e a espontaneidade capciosa. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 127 da Revista IHU On-Line, de 13-12-2004

* O futuro da autonomia, política e niilismo. Publicada na edição 220 da Revista IHU On-Line, de 21-05-2007

* “A esquerda francesa está perdida”. Publicada nas Notícias do Dia do site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 27-05-2007


Leia mais...

>> Paul Valadier tem duas publicações pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Confira.

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 15 dos Cadernos IHU em Formação

* A moral após o individualismo: a anarquia dos valores. Publicada na edição 31 dos Cadernos Teologia Pública

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