Edição 354 | 20 Dezembro 2010

Utopia e heterotopia: o projeto jesuítico nas missões

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Patricia Fachin

As reduções jesuíticas não foram possíveis porque Portugal e Espanha se uniram para destruir os jesuítas, afirma a filósofa Ana Luísa Janeira

No século XVI, os jesuítas usaram estratégias diferentes para se aproximarem das diversas culturas e difundir o cristianismo pelos cinco continentes. No oriente, a veia condutora desse processo foi o conhecimento. No ocidente, especialmente na América do Sul, o contato se deu por meio da música e das ciências da natureza. A filósofa Ana Luísa Janeira, professora associada do Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estuda a experiência realizada pelos jesuítas ao redor do mundo nos últimos mais de 400 anos. Em entrevista concedida à IHU On-Line, durante o XII Simpósio Internacional IHU – A experiência missioneira: território, cultura e identidade, promovido de 25 a 28-10-2010, na Unisinos, Janeira enfatiza que, apesar de os jesuítas terem sido expulsos das missões, na união de forças entre Portugal e Espanha, percebe-se, ainda hoje, “que houve uma sensibilidade tal às características dos povos que permitiu que a pedagogia e a catequética permanecessem”. Janeira conta que visitou Chiquitania, na Bolívia, e se impressionou ao ver, nos aldeamentos, “crianças indígenas de sete, oito anos, descalças, quase sem roupas e com instrumentos na mão”. Segundo ela, “eles vão à aula de música: piano, violino. Há um desajuste completo entre essa loucura de conhecimento e as condições materiais”.

Para Janeira, as missões foram uma utopia e heterotopia. “Foi utopia no sentido de estratégia, como uma tentativa de realmente projetar um sonho. Entretanto, os jesuítas missioneiros estabeleceram uma aproximação efetiva com as populações e inverteram a situação. (...) O afeto que os jesuítas tiveram pelas populações fez a heterotopia: era algo de coração. A razão era utópica, mas com o afeto, virou heterotopia”.
Ana Luísa Janeira é professora na Universidade de Lisboa, Portugal, doutora em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris I, e autora de A Energética no Pensamento de Teilhard de Chardin (Livraria Cruz-Faculdade de Filosofia, 1978). Ela também esteve na Unisinos em 2009, participando do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Que estratégias epistemológicas os jesuítas utilizaram para se inserirem no oriente e no ocidente? A senhora pode nos contar como se deu a inserção deles na América, China, Japão e Índia e que heranças essa relação deixou nas culturas locais?

Ana Luísa Janeira –
Os jesuítas tomaram como fim primeiro da sua atuação no mundo um conceito de missão que passava por mecanismos muito bem estruturados da aproximação com os povos diferentes. Naturalmente, que, no oriente e no ocidente, a situação era diferente. Quando portugueses e jesuítas aproximaram a Europa do oriente, verificaram que estavam diante de civilizações e culturas com uma grande superioridade, como a China. No que diz respeito à América do Sul, a situação foi de entusiasmo pela natureza, a qual não era simplesmente bonita e diferente da que havia na Europa: ela assustava e realmente surpreendia de tal modo que os portugueses nunca deram a nenhum território o adjetivo de Éden (Paraíso). O Brasil foi o único território considerado um Éden.
A partir dessas percepções do oriente e ocidente, estabeleceram sistemas e programas de aproximação diferentes. Em relação ao oriente, eles tomaram consciência de que estavam diante de culturas e elites, e de que a corte dos mandarins era sábia, conhecedora e, por conseguinte, as ciências e o conhecimento poderiam ser um vínculo interessante. Por outro lado, os mandarins tinham consciência de que a presença dos jesuítas nos seus territórios deveria passar por uma questão de conhecimento. É aí que intervém a figura de Matteo Ricci , um jesuíta que observa que a questão da astronomia e da matemática era mobilizadora de uma elite chinesa importante que queria conhecer os astros, prever fenômenos e passagens de cometas. Neste contexto, estando prevista a chegada de um cometa, foi colocado à elite chinesa dos astrônomos e aos jesuítas o desafio de ver quem mellhor previa a passagem do cometa. De fato coube, ao jesuíta Matteo Ricci esta primazia e isso abriu as portas da China aos jesuítas.
No caso do Japão, o país não tinha um imperador, viviam em um período de feudalismo. Então, a aproximação se deu de outra maneira. A estratégia usada para aproximar jesuítas e japoneses foi feita através da ida de príncipes e jovens japoneses à Europa. Essa viagem permitiu que os japoneses percebessem como era a corte de Madri. Surpreendentemente, eles encontraram um bom acolhimento por parte dos europeus e conheceram os costumes dessa cultura. As elites europeias também perceberam as diferenças culturais e tentaram se aproximar daquela sociedade tão diferente.
No caso do Vietnã, a aproximação se deu de uma maneira significativa e ainda hoje está presente na medida em que os vietnamitas são os únicos orientais que usam caracteres latinos para escrever. Alguns jesuítas perceberam que deveriam usar os caracteres latinos para facilitar a estrutura dos catecismos. É curioso que ainda hoje o Vietnã continua usando esses caracteres.


Ocidente

Na América do Sul, no caso dos guarani , a estratégia passou pela música e pela ciências da natureza. Os jesuítas perceberam que haviam se deparado com um território que tinha uma natureza riquíssima e a aproximação deu-se por meio de sistemas agrícolas e agropecuários. Quando vemos as boiadas gaúchas, temos de pensar que elas foram assumidas pelas reduções como um processo para alimentar os índios que estavam nas reduções e, por outro lado, para exportar para a Europa.

Percebi, quando fui a Chiquitania, na Bolívia, que a natureza era favorável aos aldeamentos, pois a visibilidade permitia ver povos que viviam entre si. Por exemplo, um fogo à noite permitia que os povos soubessem onde estavam e, simultaneamente, os arroios e rios permitiam o deslocamento rápido nas pirocas.

Outro elemento fortíssimo foi a música. Os jesuítas eram, particularmente, sensíveis a formas de penetração que pudessem seduzir. Constituíram, nas reduções, coros. Visitei Chiquitania e uma das coisas mais impressionantes foi ver, nos aldeamentos, crianças indígenas de sete, oito anos, descalças, quase sem roupas e com instrumentos na mão. Eles vão à aula de música: piano, violino. Há um desajuste completo entre essa loucura de conhecimento e as condições materiais. Quando estive em San Javier, na Bolívia, lembro de terem dito que há poucos dias, 200 jovens foram para Munique participar de um festival barroco. Todos estavam ligados à música. Sabendo que a Alemanha é tão exigente musicalmente, é espantoso.

Isso, depois de os jesuítas terem sido expulsos, é prova de que houve uma sensibilidade tal às características dos povos que permitiu que a pedagogia e a catequética permanecessem mesmo depois deles terem sido expulsos. A memória desses povos atribui o que foi dos jesuítas a eles. As comunidades não dizem: “Somos assim”. Pelo contrário, dizem: “Aprendemos com os jesuítas essas ou aquelas manifestações culturais”. Isso é muito interessante e revela que os exercícios espirituais e a Ratio Studiorum  correspondem a dois corpos de conhecimento com uma imensa sensibilidade às características humanas e psicológicas dos indivíduos e, simultaneamente, uma capacidade de subversão muito grande que eles souberam explorar numa forma que ainda hoje vietnamitas, japoneses, bolivianos, missioneiros remetem para os jesuítas a raiz de determinados aspectos de sua própria cultura.


IHU On-Line - Como os diversos continentes foram compreendidos pelos jesuítas e como as culturas locais impactaram o objetivo global jesuítico: a expansão do cristianismo? Como se deu essa relação entre local e global?

Ana Luísa Janeira –
Quando dizemos global, geralmente nos referimos a aspectos relacionados com a cultura dominante, que hoje é a norte-americana.
A cultura global histórica é europeia, ou seja, a cultura global do século XVI se refere à imposição que a Europa faz aos outros povos.

No que diz respeito aos jesuítas, tínhamos um europeu eurocêntrico, consciente de uma superioridade, simultaneamente, um europeu que correspondia a uma elite porque era culto, intelectualmente bem preparado, dominava a cultura humanística da época, além de conhecer diversos idiomas para se comunicar com outros povos. São logocêntricos porque acreditam muito na razão e pensam que ela é soberana.
Através das Cartas Ânuas que os jesuítas enviavam para Roma e através de cartas que escreviam uns para os outros – além da preocupação que tinham em registrar tudo e constituírem um arquivo –, eles trocavam experiências e adaptavam situações. Era preciso adaptar princípios que levavam de Roma a determinadas circunstâncias porque já haviam lido outras experiências. Isso permitiu uma globalização que tinha dominância europeia.


IHU On-Line - Como a senhora avalia o projeto missioneiro, após os 400 anos das reduções jesuíticas?

Ana Luísa Janeira –
Primeiro, gostaria de esclarecer o uso da palavra missioneiro. Não existe no dicionário português a palavra missioneiro e, sim, missionário. Prefiro usar a palavra missionário para tratar da presença jesuítica no mundo e, restringir a palavra missioneiro para se referir aos 30 povos das missões. Os 30 povos conseguiram uma realidade muito específica e complexa no conjunto da atividade missionária dos jesuítas porque se beneficiaram do fato de haver espanhóis por um lado e portugueses por outro, e de não haver uma fronteira entre Portugal e Espanha na América do Sul – já bastava a que havia na Península Ibérica. O ideal era utilizar os jesuítas como tampão para equilibrar a balança política e econômica dos ibéricos na América do Sul - temos de pensar que a dimensão territorial dos trinta povos tinha a dimensão da França atual.


Vazio: uma hipótese de controle

Fui educada na Europa, num Colégio das Irmãs Doroteias . Tive sempre a sensação – quando elas contavam histórias, ao longo dos exercícios espirituais que praticávamos, dos meninos na América do Sul, ou seja, dos tupi-guarani – de que era educada como um tupi-guarani e tinha curiosidade de saber se, na Europa e no Brasil, a educação tinha sido semelhante. Essa foi a origem do meu entusiasmo por estudar essa questão, embora o grande entusiasmo tenha surgido há 10 anos, quando estudei um edifício da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que tinha sido, primeiramente, o noviciado dos jesuítas em Lisboa, o Noviciado da Portuguesa. Estudei no edifício e comecei a achar que havia uma arquitetura muito modular usada pelos jesuítas. Então, minha curiosidade foi esta: será que o que eles fizeram para os edifícios do ponto de vista da arquitetura teve ou não semelhanças e influências com a construção dos aldeamentos indígenas? Ou seja, será que os princípios de controle dos aldeamentos foi utilizado na arquitetura urbana, também com o objetivo de controle? Comecei a ler o livro de Antonio Sepp e a imaginar como seria o aldeamento. Conhecia bem as regras da arquitetura e achava que determinadas regras deveriam ser passadas ao urbanismo. A primeira planta das reduções que vi, me deixou confusa: achava que eu ou a planta estava errada. Curiosa, visitei as missões e cheguei à conclusão de que o claustro dos jesuítas do colégio tinha a mesma arquitetura dos aldeamentos, era a praça das reduções, e o sistema de controle era o mesmo: o vazio é sempre uma hipótese de controle. Então, no caso das reduções, as torres da Igreja controlavam o que se passava na praça. Como as casas dos índios estavam dispostas em uma forte geometria, por um lado, os torreões dos sinos, permitiriam, segundo dizem, realizar observações astronômicas, mas, também, o controle. O que Foucault diz sobre o panóptico também pode ser aplicado às reduções. Então, verificamos que o sistema foi montado para resultar. Os jesuítas não montam nada que não seja para resultar.
Os jesuítas vieram para ficar; quando foram expulsos, deve ter sido uma tragédia para ambas as partes (jesuítas e guarani). Os jesuítas nunca imaginaram que seriam expulsos. As reduções não foram possíveis, não porque o projeto não tivesse viabilidade, mas porque, de fato, o poder europeu ibérico não permitiu. Diria que na história de Portugal e Espanha, nunca portugueses e espanhóis estiveram tão unidos quanto para conter e destruir os jesuítas.


IHU On-Line - A experiência missioneira foi uma utopia ou heterotopia?

Ana Luísa Janeira –
Foucault considerou, dentro dos vários exemplos das heterotopias, seja um jardim, um barco, em termos de relações coloniais, que as reduções jesuíticas do Paraguai teriam sido uma heterotopia.
Pessoalmente, diria que não é uma coisa ou outra. Acho que foram as duas coisas: foi utopia no sentido de estratégia, como uma tentativa de realmente projetar um sonho. Entretanto, os jesuítas missioneiros estabeleceram uma aproximação efetiva com as populações e inverteram a situação. As relações entre eles (jesuítas e guarani) não eram possíveis no contexto europeu, pois esta era uma situação de superioridade frente ao selvagem. Não era para ser amigo, pai, filho. Mas o afeto que os jesuítas tiveram pelas populações fez a heterotopia: era algo de coração. A razão era utópica, mas com o afeto virou heterotopia. Foi por isso que se tornou trágica e dramática a saída dos jesuítas, para ambos. Os guarani ficaram “sem pai”. Do ponto de vista simbólico isso é importante.

Quando estou no Rio Grande do Sul e vou às missões, tenho consciência de que os missioneiros são, primeiro, missioneiros; segundo, gaúchos; e, só em terceiro lugar, brasileiros. Eles sempre se remetem àquela realidade que existiu no Rio Grande do Sul. É muito forte o nome da província se chamar missões. A realidade das missões foi fortíssima e identitária. Os jesuítas lançaram elementos que permitem raízes identitárias, quer dos missioneiros, quer dos vietnamitas. Se eles queriam libertar, libertaram, porque libertaram a gente e assumiram a nossa própria identidade.

 

>> Leia Mais...

Ana Janeira já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Acesse no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).

• Missões jesuíticas em terras não cristãs. Entrevista publicada na edição número 313, de 03-11-2009, intitulada Filosofia, mística e espiritualidade. Simone Weil, cem anos

• “A energia máxima será sempre o amor”. Entrevista publicada na edição 316, de 23-11-2009

• Em 22-10-2010, o IHU publicou o Caderno IHU número 33 intitulado Globalização missionária: a memória entre a Europa, a Ásia e as Américas, de autoria de Ana Luísa Janeira

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