Edição 354 | 20 Dezembro 2010

Rio Grande do Sul: um momento de indagações a respeito das perspectivas

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Patricia Fachin

Aglomeração industrial, migrações internas no estado em busca de melhores condições de trabalho e a baixa taxa de fecundidade são os principais aspectos que favorecem as desigualdades regionais no Rio Grande do Sul, constata o economista Pedro Bandeira

A crise das finanças públicas estaduais marcou a história do Rio Grande do Sul nos últimos 30 anos, agravando as desigualdades regionais ocasionadas pelo crescimento industrial concentrado na região nordeste do estado e as migrações internas. Em 1920, menos 40% da população gaúcha residia na região metropolitana, serra e vales adjacentes e, em 2010, “esta região passou a concentrar (...) mais da metade da população do Rio Grande do Sul”, aponta o economista Pedro Bandeira. Especialista em desigualdades regionais, Bandeira diz que essa situação é uma tendência que está se consolidando. “Esse fenômeno é causado por uma base econômica em que a cadeia produtiva gera pouca oportunidade local. Por outro lado, mesmo com taxas de fecundidade em declínio, a região metropolitana do estado continuará recebendo imigrantes em função da concentração da oferta de empregos”, assegura.

Embora o Rio Grande do Sul acompanhe o crescimento nacional, oscilando com maior ou menor desempenho, o economista estima que “os percentuais de participação do estado no PIB nacional irão reduzir a longo prazo”. A justificativa, explica, é o esgotamento da fronteira agrícola e a falta de perspectiva da indústria nacional.

Pedro Bandeira possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS, graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, mestrado em Economia pela New School for Social Research e doutorado em Ciência Política pela UFRGS.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - De que maneira a matriz produtiva da economia gaúcha se transformou entre 1980 e 2010? Quais foram as principais mudanças percebidas na economia regional?

Pedro Bandeira –
Os últimos 30 anos se referem a um período bastante heterogêneo da história econômica do Brasil e do Rio Grande do Sul. Embora as condições da economia brasileira e gaúcha tenham sido predominantemente negativas nos anos 1980, nessa época houve o crescimento da indústria calçadista concentrada na região do Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul, a qual gerou muitos empregos e um fluxo importante de migrações internas no estado.

Quando se fala em economia gaúcha, é importante ter presente a persistente crise das finanças públicas estaduais, as quais enfrentaram dificuldades. A taxa de investimento do setor público ficou incompatível com a possibilidade de a administração estadual ser um ator importante na produção do desenvolvimento. Somente nos últimos três anos a situação melhorou um pouco.


IHU On-Line – Quais as razões da desigualdade regional no Rio Grande do Sul? Que aspectos explicam esse fenômeno?

Pedro Bandeira –
No que toca ao tema das desigualdades regionais, houve uma persistente tendência a um crescimento industrial concentrado na região nordeste do estado, que compreende a região metropolitana, serra e vales adjacentes. Esta região passou a concentrar, devido às migrações internas em busca de oportunidades de emprego, mais da metade da população do Rio Grande do Sul em 2010. Em 1920, esta região concentrava menos de 40% da população gaúcha. Nas décadas de 1940 e 1950, a participação desta região diminuiu e as áreas do interior tinham um crescimento demográfico maior em função da expansão da fronteira agrícola no norte do estado. Em 1980, a participação da população na região metropolitana era de 46% e, em 2010, passou a ser 55%, ou seja, deu um salto de 10 pontos percentuais. Esse é um fenômeno importante e acontece em um momento em que as finanças públicas têm extrema dificuldade de investir em infraestrutura. Por isso, hoje, existem problemas como o estrangulamento da BR 116 e a precariedade na estrutura viária. A carência de investimentos nesse período passado deixa um passivo grande de obras e melhoramentos a serem feitos, os quais não podem ser financiados num prazo relativamente curto.
Também há uma tendência de esvaziamento demográfico em algumas regiões do interior. Os dados preliminares do Censo 2010 mostram que extensas áreas do interior do estado têm declínio demográfico. Se dividirmos o território do Rio Grande do Sul numa linha Norte/Sul, de Erechim a Asseguá, veremos que a oeste dessa linha, há declínio de população. Isso acontece por uma conjugação de dois fenômenos: a migração interna, ou seja, as pessoas continuam migrando para regiões que oferecem mais oportunidades de emprego (região nordeste); e a queda da taxa de fecundidade. A população do Rio Grande do Sul cresceu na última década cerca de 3,8%. Essa é uma taxa muito baixa.

Há 30 anos já havia imigração nas regiões do interior. Entretanto, nascia um número maior de pessoas. Ou seja, havia um crescimento demográfico baixo, mas positivo. Regiões como a fronteira oeste, que compreende Uruguaiana e Alegrete, têm dados contundentes: a população da fronteira em 2000 era de 553 mil habitantes; em 2010, caiu para 527 mil. Em dez anos houve uma redução de 25 mil habitantes. Municípios importantes da história do Rio Grande do Sul, considerados grandes centros urbanos, como Santana do Livramento tinha 90 mil habitantes e hoje tem 81 mil. Isso representa uma queda de quase 10%. Alegrete, que foi capital farroupilha, tinha 84 mil e hoje tem 77 mil. Se essas cidades continuarem perdendo em média o mesmo número de habitantes, elas terminariam antes do final do século – claro que isso é um exagero, uma maneira de dramatizar o processo. De qualquer maneira, mantida essa tendência, em 2050 esses municípios serão menores.
Esse fenômeno é causado por uma base econômica em que a cadeia produtiva gera pouca oportunidade local. Por outro lado, mesmo com taxas de fecundidade em declínio, a região metropolitana do estado continuará recebendo imigrantes em função da concentração da oferta de empregos. A industrialização gaúcha se espalha lentamente no território e está localizada em alguns eixos como Tabaí/Canoas, Santa Cruz/Lajeado, Caxias, Passo Fundo, alguns polos como Erechim, Horizontina. Com exceção desses eixos, o interior vive de agroindústria, cuja base são produtos agrícolas da região. Essa situação parece uma tendência que está se consolidando. Se esse crescimento concentrado tiver continuidade, teremos dificuldade de enfrentar problemas ambientais, por exemplo. Basta ver o caso do Rio dos Sinos e do Rio Gravataí. A questão ambiental é um tema importante para a agenda pública: é preciso amenizar os fluxos tentando, por meio de políticas públicas, estimular mais empregos nas regiões do interior. Outra medida fundamental é melhorar os padrões de planejamento integrados intermunicipal. Do contrário, a qualidade de vida na região metropolitana será deteriorada.


IHU On-Line - As desigualdades são inevitáveis?

Pedro Bandeira -
Elas são, até certo ponto, inevitáveis. Entretanto, na medida em que as desigualdades têm consequências negativas, é preciso políticas públicas que, por um lado, se deem conta de que é preciso organização para enfrentá-las. Por outro lado, criar políticas para estimular a economia de regiões menos dinâmicas. É fundamental, também, planejar a estrutura física das regiões que estão recebendo as migrações, porque um dos problemas das desigualdades regionais é fluxo migratório. Isto sobrecarrega as regiões dinâmicas. Políticas públicas que levem em conta que isso irá acontecer, devem preparar as cidades receptoras.
As economias de aglomeração são um fator importante na localização industrial e a tendência é as indústrias se localizarem proximamente de fornecedores, de serviços de apoio e isso gera um padrão concentrado e, às vezes, disfuncional, pois nem a indústria se beneficia, pois tal concentração gera congestionamento, por exemplo. É isso que acontece, atualmente, com as empresas que estão localizadas ao longo da BR 116.
Hoje estão construindo a rodovia do Parque, a qual vai criar uma nova zona industrial e gerar uma nova mobilidade. Então, da mesma forma que a aglomeração gera vantagens, ela também apresenta desvantagens.


IHU On-Line - Com as sucessivas crises nos anos 1980, 1990 e a crise do setor calçadista nos anos 2000, é possível perceber hoje, na economia gaúcha, em um novo desenho industrial, especialmente com a consolidação de polos tecnológicos?

Pedro Bandeira –
Penso que sim. Entretanto, o estado está vivendo um momento de indagações a respeito das perspectivas. A primeira delas é referente ao câmbio. A valorização do real tem se mostrado difícil de resolver; o Brasil é competitivo em algumas commodities agrícolas; tem atraído muito capital. Então, a tendência é que o câmbio continue valorizado. Mantendo-se essa situação, qual será o impacto sob a indústria? O Brasil corre o risco de se tornar um país exportador de produtos primários, com um grau de desindustrialização. As indústrias já estão com dificuldades de competir no exterior e esse é um cenário que está em desdobramento.

A crise da indústria calçadista vem se desenhando há algum tempo, embora esteja mais estabilizada. Os parques representam a busca de alternativas e são significativos para a região.


IHU On-Line – Está o desempenho da economia gaúcha diretamente atrelado ao desempenho econômico nacional? A economia nacional irá encerrar o ano com crescimento estimado em 7,5, 8%. Qual a participação da economia gaúcha nesse cenário?

Pedro Bandeira –
O Rio Grande do Sul tem acompanhado a média de crescimento nacional, às vezes com melhor ou pior desempenho. Entretanto, alguns aspectos conspiram contra o estado. Há muito tempo a fronteira agrícola está esgotada, quer dizer, não há áreas que não foram ocupadas no Rio Grande do Sul. Áreas de pecuária se transformaram em espaço de reflorestamento, de lavoura. Então, o estado tem conseguido mudar o perfil da produção agrícola para se manter importante na agricultura brasileira. Todavia, ao lado disso, estados do centro-oeste ainda têm espaço para estimular a expansão da fronteira agrícola. Nesse sentido, o Rio Grande do Sul continuará sendo importante, mas os percentuais de participação do estado no PIB nacional irão reduzir a longo prazo.
No que se refere à indústria, os resultados dependem da perspectiva da indústria nacional. Há uma tendência de dispersão crescente da indústria brasileira. A participação de São Paulo no PIB industrial do Brasil já foi muito maior do que é na atualidade e o Rio Grande do Sul, que teve pequenas brechas nesse período, não é tão expressivo como outros estados. Ele continuará sendo importante na economia nacional, o quarto ou quinto maior PIB, mas uma série de fatores indicam que as participações do Rio Grande do Sul na economia brasileira não tenderão a aumentar.


IHU On-Line - Quais são os desafios da economia gaúcha, num momento em que o Estado brasileiro investe em grandes grupos nacionais com atuação internacional?

Pedro Bandeira –
Noto que grupos empresariais do Rio Grande do Sul passam a ter expressão econômica internacional muito significativa como Gerdau, Marcopolo. O estado, junto com São Paulo e Santa Catarina, conta com expressiva participação de grupos empresariais locais. Esse é um diferencial importante na história econômica do estado, ou seja, é um dos poucos estados em que se forma uma “burguesia industrial”.


IHU On-Line - Que balanço faz da economia gaúcha no momento atual? Como estão as finanças públicas do estado hoje? Qual a atuação do estado hoje?

Pedro Bandeira –
A minha sensação é de que a situação não é tão dramática quanto no passado, mas o Estado ainda não criou uma margem suficiente para ter um nível de investimento compatível com as necessidades. Não sei se isto está presente no horizonte do próximo governo.


IHU On-Line - Que políticas econômicas são imprescindíveis no próximo governo? Como Tarso deve conduzir a economia gaúcha? Desafios?

Pedro Bandeira –
Sem desprezar outros temas, enfatizaria a questão da desigualdade regional e do planejamento de algumas regiões. O risco de prejuízos devido aos efeitos danosos da aglomeração já são sentidos. Isso causa perda de qualidade de vida, de eficiência econômica. A agenda do planejamento das regiões aglomeradas deve entrar na agenda do governo. Quem quer construir um futuro melhor tem de enfrentar essa realidade o mais rápido possível.

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