Edição 354 | 20 Dezembro 2010

A França “redescobriu” o Brasil? Como o prestigioso Le Monde repercutiu o legado da “era” Lula e sua sucessão

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Augusto de Sá Oliveira

O atormentado príncipe dinamarquês Hamlet, imortal personagem do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), ao nos afirmar que “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, nos deixou como herança a reflexão de que o campo da incerteza no Universo é muito maior do que podemos imaginar ou admitir. Atualizando suas ideias, talvez possamos afirmar que há mais coisas entre o céu e a terra do que imaginam os homens que realizam grandes negócios em torno de aviões militares, de caças de última geração e preços estratosféricos.

O presidente Lula tem afirmado categoricamente sua opção preferencial pela França, isto é, admitido publicamente que a política desenvolvida pelo Itamaraty na relação bilateral com este país faz parte de uma “aliança estratégica” que pode justificar, inclusive, relegar ao segundo plano, em grandes negócios, aspectos econômicos, tais como preço de equipamentos (caças) em função da centralidade de aspectos políticos. E a França, ou sua mídia impressa de maior destaque, que julgamento faz do Brasil na “era” do presidente Lula? E quais as perspectivas que vislumbra para o país?

Não é tarefa fácil avaliar a herança de um governo de oito anos (dois mandatos sucessivos) em um país de vergonhosa “dívida social” para com os “de baixo”. Imagina-se que o desgaste pelo exercício do poder leve a um final de mandato fraco ou decrépito, tal como aconteceu com o governo FHC. No entanto, que outro dirigente do mundo pode se vangloriar de deixar o poder com uma taxa de aprovação de 80%, pergunta Martine Jacob, uma das organizadoras da edição especial, em editorial.

O ex-governador Brizola (RS/RJ) costumava dizer que o Brasil é um gigante, mas estava ajoelhado, era preciso levantá-lo. A ideia de que o país é um géant, adotada pelo Le Monde, especial que traz o título “Brasil: um gigante se impõe”, portanto, não é nova. Nova, talvez, seja a ideia de que esse gigante (mais de 15 vezes maior do que a França) agora se impõe, ponto de vista que defende a publicação. Em aproximadamente 100 páginas, o veículo se propõe a fazer um balanço dos 25 anos de democracia no país. Esse balanço é amplamente positivo, como afirma a própria publicação, e em particular em relação a Lula. Ele é a figura central deste documento que analisa a diplomacia, a política, a economia, a sociedade, enfim, uma viagem por um “país-continente”. As ideias do presidente Lula são apresentadas em artigo, sob a forma de um abcedário, cujo título é atribuído a ele: “Nenhum ator social foi excluído: eis a minha herança”.

Temas espinhosos, tais como a violência urbana e a dobradinha nepotismo-clientelismo, ficam por conta, respectivamente, do historiador brasileiro Luiz F. de Alencastro e do cientista político Alain Rouquié, ex-embaixador da França no Brasil.

As principais cidades brasileiras são tratadas especificamente: SP, RJ, Salvador, Porto Alegre, Belém. A revista recupera um texto de Jorge Amado, de 1980, um relato sobre Salvador, a Rome noir, cidade-mãe do Brasil, terra de mistérios, vindos das noites de baticum nos terreiros de candomblé, conforme o escritor baiano. Porto Alegre é lembrada como o lugar onde se sonha outro mundo.
Uma das últimas entrevistas do etnólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), dada ao Le Monde em 2005, é reproduzida, relatando porque a estadia no Brasil dos anos 1930 marcou sua vida.
Questões delicadas da política internacional, como a união regional, a parceria militar Brasil-França, etc., também são tratadas. Sobre a aliança continental há um artigo de Paulo Paranaguá, brasileiro radicado na França, em que autor afirma que o Brasil se recusa a assumir uma verdadeira liderança na América Latina para não ferir suscetibilidades da Argentina, México ou dos pequenos países. De acordo com o autor, a verdadeira razão seria o fato de que Brasília não pensa sua prosperidade econômica como dependente da dos seus vizinhos. Acho as ideias de Paranaguá fora de lugar e época. Prefiro a ideia de que, como afirma o periódico espanhol El País, a América Latina marcha sob a liderança suave de Brasília.

A parceria econômica e militar Brasil-França é tratada em artigo específico que começa afirmando que o país, gigante e líder natural da América Latina, não possui Forças Armadas modernas à altura de proteger suas fronteiras e grandes riquezas naturais e, como um grande ator mundial, não possui um instrumento digno de ser capaz de dissuasão. A questão de fundo é a compra, pelo Brasil, de 36 aeronaves de combate: restam na disputa o Rafale, da Dassault Aviation francesa, o F-18 Super Hornet, da Boeing norte-americana, e o Gripen, da Saab sueca. A publicação lembra que a França aguarda confiante a decisão de Lula, pois o país aceita transferir sua tecnologia ao Brasil. Eles estariam satisfeitos em contribuir para reforçar um país democrático com quem compartilham uma longa fronteira terrestre na Guiana Francesa, afirma a revista.
Para finalizar, sua opinião sobre a “parceria estratégica” firmada entre os presidentes Sarkozy e Lula, cita uma fonte diplomática não identificada que afirma ser o acordo do tipo “ganha, ganha”.

Como conclusão, avalio que o Le Monde se não chega a ser elogioso em demasia, neste número especial; é bastante favorável, muito simpático à redemocratização do país, à herança política do governo Lula e às nossas perspectivas no mundo contemporâneo. O motivo deste ponto de vista tão favorável seriam os grandes interesses comerciais franceses na relação com o Brasil? Peut être!

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