Edição 354 | 20 Dezembro 2010

IHU Repórter

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Por Rafaela Kley e Márcia Junges

Na hora de escolher a profissão que queria seguir, Denise Zaffari sabia exatamente o que não queria cursar – qualquer coisa ligada à área de ciências exatas. A inclinação para as humanidades ou ainda para a saúde fez com que desistisse de ser jornalista para se tornar nutricionista, profissão que desempenha com verdadeira paixão e dedicação. Professora do curso de Nutrição Clínica da Unisinos, o mais antigo do estado, Denise atua em várias outras frentes na universidade. Ciente de que terá que fazer escolhas em função de suas inúmeras demandas, ela está prestes a concluir seu doutorado na área de cardiologia. Nesta entrevista, a professora dá detalhes sobre como lutou para realizar seus sonhos, e o quanto continua se empenhando para tornar realidade aqueles que continua tendo. Mãe da menina Raquel, de 11 anos, e casada com o médico Alexandre Losekann, ela conta um pouco mais de sua trajetória neste IHU Repórter. Confira a entrevista.

Origens – Sou natural de Porto Alegre. Nasci em 1960 e sou a filha mais velha. Tenho um irmão de 40 anos, chamado Alexandre. Minha mãe Neida estudou, como todas as moças urbanas daquela época, no Instituto de Educação de Porto Alegre. Já meu pai, Etelvino, de origem italiana, veio de Erechim, mais precisamente de São Valentim. Nasceu na colônia e trabalhou na roça. Chegou a Porto Alegre aos 16 anos para estudar. Foi então que meus pais se conheceram.

Infância – Tenho lembranças interessantes dessa infância bastante urbana. Nas férias íamos para Erechim e, nesses momentos, eu convivia com o Nono e a Nona. Lembro muito da casa dos meus avós, com toda uma cultura italiana, comendo agnolini, grostoli, falando e ouvindo o dialeto. Os meus avós maternos moravam em de Porto Alegre e, pensando neles, algumas coisas interessantes também ficaram na minha memória. Meu avô materno se chamava Boaventura Firmiano da Silva Filho, o conhecidíssimo Enfermeiro Ventura, que atuava na antiga Assistência Pública de Porto Alegre, atual Hospital de Pronto Socorro. Em Porto Alegre existe uma rua no Bairro Vila Nova com o nome dele. Recordo das histórias que ele contava. Cresci convivendo muito com meus avós maternos. Minha avó, Mirandolina, também gostava de contar estórias. Criei a Raquel, hoje com 11 anos, cantando todas as cantigas de ninar e contando todas as histórias que eu ouvia quando pequena.

Família – Sou casada desde 1996. Meu marido, Alexandre Losekann, natural de Porto Alegre, é médico nefrologista, trabalha na área de transplante renal da Santa Casa de Porto Alegre. Ele também é professor da Faculdade de Medicina da PUCRS. Somos, portanto, uma família de professores universitários. Ele está fazendo doutorado no momento, na área de hepatologia na UFSCPA. Eu também estou fazendo doutorado, na área de cardiologia, no Instituto de Cardiologia. Digamos que temos uma “vida doméstica acadêmica”. Tanto eu como o Alexandre, infelizmente, não falamos os idiomas italiano e alemão que, no caso do Alexandre, era falado diariamente pelos seus pais. Temos uma filha, a Raquel, estudante do Colégio Anchieta. Ela participou da escolha dessa escola, cuja formação jesuíta nos agrada muito.

Estudos – Toda a minha formação educacional foi feita em escola pública. Hoje, infelizmente, isso quase não acontece mais. Só fui para o ensino privado na época da graduação, quando me tornei estudante da Unisinos.

Nutrição - Como todo adolescente da época fiz, junto com o terceiro anos do ensino médio,  o Cursinho Pré Vestibular Mauá, mas não passei no vestibular da UFRGS. Foi até bom, porque na época eu não sabia muito bem o que queria. Eu só sabia o que não queria cursar: nenhum curso ligado à área de ciências exatas. Hoje, revendo a minha trajetória, eu poderia ter estudado qualquer coisa ligada às ciências humanas ou da saúde. Pensei, na época, que poderia ser enfermeira, jornalista, relações públicas, advogada, menos nutricionista. Resolvi fazer vestibular na Unisinos para jornalismo. Em 1978/1 fiz o básico que ainda existia naquela época. Era uma espécie de nivelamento de conhecimentos. Um dia, vi umas meninas andando pelo campus com pastas nas quais estava escrito “Nutrição”. Fiquei pensando o que seria isso. Olhei o currículo do curso e achei muito interessante. Fui conversar com a então coordenadora do curso, Professora Beatriz Bocacius. Ela contou-me o que fazia um nutricionista e fiquei fascinada. Naquele primeiro momento enxerguei-me como nutricionista clínica, trabalhando num hospital. Ela deu-me nomes de pessoas que eu poderia procurar para ter mais informações. Foi assim que cheguei às coordenadoras dos serviços de nutrição do Hospital Moinhos de Vento e do Hospital de Clínicas. Conversei com ambas, que me apresentaram as atividades desenvolvidas nas instituições. Fiquei completamente encantada e decidi ser nutricionista.

Estágios - Troquei de curso logo em seguida ao básico. Nem cheguei a cursar o Jornalismo, na verdade. Formei-me em 1982. Durante toda a faculdade, batalhei por estágios a fim de adquirir conhecimentos. Durante toda a graduação, portanto, trabalhei na área de Nutrição. Atuei em Escolas de Educação Infantil da Prefeitura de Porto Alegre, especificamente na merenda escolar; trabalhei na antiga FEBEM como estagiária, inserida no Projeto Lares Vicinais, onde fazíamos o acompanhamento nutricional de crianças que eram cuidadas por  moradoras de diferentes comunidades para que suas mães pudessem trabalhar. Os estágio curriculares de produção de alimentos, nutrição e desenvolvimento humano e nutrição terapêutica realizei no Posto de Saúde da Vila Farrapos em Porto Alegre e na Santa Casa de Porto Alegre, respectivamente. A Santa Casa, nesta época, estava no auge de suas dificuldades financeiras e o cardeal Dom Vicente Scherer, juntamente com a Secretaria Estadual de Saúde assumiram a gestão da Santa Casa por ser um hospital da comunidade. Terminado o estágio curricular, fiquei ainda mais um tempo na Santa Casa como voluntária pois, apesar de todas as dificuldades estruturais, financeiras e de recursos humanos que haviam na época, me identifiquei muito com o trabalho e comecei a sonhar em ser nutricionista da Santa Casa algum dia.

20 anos de Santa Casa - Foi então que consegui um trabalho no Hospital Belém, em Belém Velho, o antigo Sanatório Belém. Tornei-me, então, nutricionista dessa instituição, trabalhando como voluntária. Atuei assim alguns meses e sempre pensava em voltar para a Santa Casa, o meu sonho profissional. Certo dia necessitei de auxílio para implantar um novo sistema na cozinha do Hospital Belém e voltei à Santa Casa para conversar com a minha supervisora local do estágio. Lá chegando, descobri que ela já não atuava mais no Hospital. Foi quando conheci a nutricionista Alice Pfaffenzeller, coordenadora da Divisão de Nutrição e Dietética que me auxiliou e para a qual deixei o meu currículo. Algum tempo depois fui chamada a participar de uma seleção e fui admitida como nutricionista em dezembro de 1983. Lá fiquei por 20 anos. Aprendi muito na Santa Casa; lá foi o local onde aprendi a ser efetivamente nutricionista e tive o privilégio de vivenciar praticamente todas as atividades ligadas à nutrição como gestão, clínica, produção de alimentos, saúde coletiva, etc... Tenho muito orgulho e me sinto grata por ter podido vivenciar todas essas experiências. Nos últimos 8 anos na Santa Casa exerci o cargo de Supervisora Técnica da área de nutrição clínica dos sete hospitais da rede. Participei, juntamente com a equipe da área de nutrição, de toda a reconstrução da Santa Casa que sofreu uma guinada positiva de 180 graus: um hospital completamente desestruturado e com sérias dificuldades financeiras que se tornou uma referência na assistência médico hospitalar.

Mestrado e doutorado – Fiz mestrado na área das ciências cardiovasculares na UFRGS, ainda enquanto funcionária da Santa Casa. Eu queria muito ser professora, embora eu soubesse que, deixar a Santa Casa, seria muito difícil. Eu sempre penso que é preciso encarar novos desafios, novos processos e novos conhecimentos. Assim, em 2003 participei de uma seleção para professor do curso de Nutrição da UNISINOS; passei na seleção e então pedi demissão da Santa Casa com o objetivo de desbravar outros horizontes. No meu doutorado, no Instituto de Cardiologia, faço parte de um grupo de pesquisa que estuda os efeitos do chá verde e do chimarrão na melhora da função endotelial, ou seja, estudamos os possíveis benefícios destas bebidas na prevenção da aterosclerose. Não temos ainda resultados da minha pesquisa, embora na literatura já existam alguns estudos evidenciando o poder antioxidante destes chás.

Unisinos – Em 2003 iniciei minha carreira como professora do curso de Nutrição da Unisinos. Atualmente leciono para as turmas de 6º e 8º semestres do curso. Componho, junto com a Professora Regina Alcântara, a comissão de coordenação do Curso de Especialização em Nutrição Clínica; sou professora do Projeto Social de Assistência Ampliada à Saúde (PAAS); coordeno o Projeto Social Banco de Alimentos/UNISINOS/FIERGS e, neste semestre, estou assumindo outro desafio que é, juntamente com as professoras Luciana Teichmann e Vera Lúcia Bertinatto, coordenar o Curso de Gastronomia da nossa Universidade. São muitas as frentes de trabalho e circular em várias instâncias me faz conhecer melhor a Universidade que, aliás, abre muitas oportunidades de trabalho aos seus professores. Sei também que, para o ano de 2011, novamente terei que fazer escolhas na UNISINOS por conta de que, por estar iniciando em uma nova atividade de coordenação de curso torna-se necessário um aprendizado do processo e uma dedicação maior em termos de carga horária.

Lazer – Penso que se trabalha demais, então o lazer precisa sempre ser “perseguido”. Gosto de cinema e leitura. Eu, meu marido e minha filha amamos viajar.

Religião – Tenho formação católica de família, mas não sou, digamos assim, uma praticante fervorosa. Vou à missa com minha filha em alguns domingos na capela do Colégio Anchieta. Temos uma filha e acreditamos que é importante para ela ter um referencial religioso, sendo que, mais tarde ela irá escolher qual religião irá seguir. Essa formação religiosa, na minha opinião, é muito importante para que se desenvolva a solidariedade, a fraternidade, o respeito às diferenças e ao meio ambiente. De toda forma, creio que existe algo muito maior do que a vida na Terra. O que é, não sei.... mas acredito que exista.

Sonho – Tenho muitos sonhos. Terminar o doutorado no final do ano que vem é um deles, e o mais imediato. Também quero ver a Raquel encaminhada na vida do ponto de vista de formação de valores, ética, e que também seja “alguém na vida” profissionalmente falando. Cada final de semestre vejo vários sonhos realizados, pois amo ser professora. Ver os alunos aprendendo, se formando e indo para o mundo do trabalho é realizar um sonho a cada semestre. Além disso, meu marido e eu temos a idéia de morarmos em Canela, Nova Petrópolis, algum lugar menos tumultuado quando nos aposentarmos.

Unisinos – Digo que sou filha da Unisinos. Vejo a universidade com um potencial enorme de crescimento a cada semestre, algo que tem se concretizado ao longo dos anos. Já dei aula em outra universidade e ser professora aqui é completamente diferente. A Unisinos é de vanguarda. Temos autonomia para trabalhar e inovar e isso é estimulante. A formação que passamos para os alunos é de alta qualidade. Temos, além de um forte currículo técnico, os valores do humanismo social cristão, que também são oferecidos. A solidariedade, o respeito às diferenças são fundamentais na formação dos alunos. A expansão da Unisinos para outros campus é igualmente importante, levando nossa marca para outros locais. Tive a oportunidade de escolher ficar em outra universidade ou aqui e optei pela Unisinos.

IHU – É algo surpreendente dentro da Unisinos. Pude conhecê-lo melhor no início do semestre, quando participei do planejamento estratégico dos órgãos suplementares da reitoria. O IHU é ainda pouco conhecido dentro da universidade. É um potencial cultural formidável e congrega grande parte da intelectualidade da nossa instituição.

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