Edição 342 | 06 Setembro 2010

Os “velhos escolásticos” continuam presentes

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Márcia Junges e Alfredo Culleton - Tradução Benno Dischinger


IHU On-Line - Qual é a relevância dos jesuítas na Segunda Escolástica?

Luiz Alberto De Boni -
Os grandes nomes da Segunda Escolástica foram, quase todos, de dominicanos e jesuítas. De início encontramos mais dominicanos, e isso tem uma lógica, pois o texto que foi adotado para ser comentado em aula foi a Suma Teológica de Tomás de Aquino, um dominicano; havia também renomados frades desta ordem lecionando já antes que fosse fundada a Companhia de Jesus. Foram dominicanos, entre outros Silvestre Prierias (1456-1523); Tomás de Vio Caietano (1469-1534); o grande Francisco de Vitoria (1483-1546); Domingos de Soto (1494-1560) e Domingos Bañez (1528-1602). Aos poucos, porém, os jesuítas encontraram o próprio espaço e tiveram brilho próprio. Chegaram a tanto por dois motivos: em primeiro lugar, pela convicção da Companhia de Jesus de que, naquele momento histórico, era necessário investir pesado na educação e, por isso, as melhores cabeças foram encaminhadas para as universidades; em segundo lugar, porque Tomás de Aquino foi adotado pela Companhia como o pensador a ser seguido como modelo. E assim surgiram nomes como os de Luís Molina (1535-1600); João Mariana (1536-1624); Roberto Bellarmino (1542-162); Francisco Suárez (1548-1617); Gregório de Valência (1549-1603); Gabriel Vasquez (1551-1604) e Leonardo Lessio (1554-1623).

Para falar da relevância desses jesuítas, dou apenas dois exemplos. Hugo Grócio, calvinista, goza de grande consideração no mundo jurídico, como sendo aquele que sistematizou a teoria do direito natural. Pois bem, basta ver a quantidade das citações em O direito da guerra e da paz nas quais apela para esses nomes da Segunda Escolástica e se constatará que na leitura desses dominicanos e jesuítas ele encontrou quase todo o arcabouço teórico de que precisava. O segundo exemplo tem a ver com Francisco Suárez, o filósofo mais lido no século XVII e início do século XVIII. Ora, como os protestantes haviam criticado acerbamente os escolásticos, alegando que estes deram muita atenção aos filósofos e pouca à Bíblia, eles acabaram por não produzir nenhum grande pensador nas primeiras décadas de sua história. Daí, quando quiseram fazer Filosofia, descobriram que as suarezianas Disputationes metaphysicae (atualmente sendo traduzidas para o português) eram um excelente livro para tanto (e continua sendo). São as surpresas da história: protestantes de tempos passados aprendendo filosofia na obra de um papista! Aliás, costumo dizer a meus alunos que, se Suárez, em vez de ser um espanhol católico, fosse um alemão luterano, ou um holandês calvinista, ou um inglês anglicano, seria muito mais citado e o apresentariam como um dos grandes filósofos da História, o que ele, de fato, foi.
 

IHU On-Line - Com quais áreas do conhecimento a Segunda Escolástica dialoga atualmente?

Luiz Alberto De Boni -
Há ciências nas quais os autores são sempre atuais; noutras, não. Um aluno, que tenta construir um pequeno telescópio, não irá pesquisar a obra de Al-Hazen, de Rogério Bacon ou de Galileu; ele vai logo procurar um manual atualizado que trata do tema. Do mesmo modo, os engenheiros que lançam uma sonda em direção a Marte não vão ler a obra de Newton sobre a lei da atração dos corpos, mas se valem de um programa de computador para fazer os cálculos. Isto é, não é preciso ler a obra de Galileu ou de Newton para ser um grande físico.

Já no Direito, por exemplo, Cícero, Ulpiano, Grócio continuam vivos e atuais; juristas, juízes e advogados os citam. O mesmo acontece com a Filosofia. Pobre do aluno que julgasse que, para ser um bom filósofo, seria suficiente dominar a obra de Heidegger  ou de Wittgenstein. Aristóteles, Agostinho, Kant  são autores atuais que têm ainda muito a nos dizer. Umberto Eco  – o autor de O nome da Rosa –, ateu confesso, escreveu que, quando se depara com grandes problemas teóricos, costuma recorrer a Tomás de Aquino (morto em 1274).

O mesmo acontece com a Segunda Escolástica. Devem ser poucos os economistas que vão ler um autor desse período para saber o que ele escreveu sobre a teoria da moeda; poucos também os físicos que vão procurar lá o que se aventou a respeito do movimento. Entretanto, em questões de Metafísica, de Ética e de Política aqueles velhos escolásticos estão presentes.

E concluo com um exemplo. Quando George Bush , o pai, resolveu invadir o Iraque, solicitou autorização ao senado, e este pediu parecer aos assessores jurídicos. Um colega da USP, numa conferência, mostrou que a resposta dos assessores seguia exatamente a argumentação de Francisco de Vitoria, nas duas Relectiones de indis (Conferências sobre os índios), ao tratar do direito natural, do direito dos povos e das relações entre as nações. Não é preciso dizer que Vitoria discordava frontalmente do furor bélico busheano.


Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Luís Alberto De Boni à IHU On-Line.

* Repensando a política atual através da Idade Média. Edição número 198, Revista IHU On-Line, de 02-10-2006

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