Edição 342 | 06 Setembro 2010

A Escola de Salamanca e a Segunda Escolástica

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Ángel Poncela González | Tradução Benno Dischinger

Contexto e importância da Segunda Escolástica, bem como o projeto Scholastica Colonialis, conduzido por Roberto Hofmeister e Alfredo Culleton, são tema do artigo do filósofo espanhol Angel Poncela González

Uma proposta ambiciosa e necessária para “ativar o interesse pelo estudo e pela difusão do pensamento da Segunda Escolástica em nível mundial”. Assim o filósofo espanhol Angel Poncela González define o Projeto Scholastica Colonialis, conduzido por Roberto Hofmeister, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e Alfredo Culleton, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. A respeito da Escola de Salamanca, González afirma que “não existe um acordo unânime dentro da comunidade científica acerca da natureza, dos traços característicos e da relação de autores que a integram”. As reflexões fazem parte do artigo a seguir, escrito especialmente à IHU On-Line.

Ángel Poncela González é licenciado em Filosofia e em Humanidades pela Universidade de Salamanca. Sua monografia está em processo de edição e intitula-se As raízes do pensamento jurídico europeu. Teorias da justiça e do direito das gentes. É doutor em Filosofia pela Universidade de Salamanca com a tese Francisco Suárez, leitor de Metafísica IV e XII. Possibilidade e limite da aplicação da tese Onto-teo-lógica às disputas metafísicas, também em processo de edição. Desde 2008, é professor no Departamento de Filosofia e Lógica e Filosofia da Ciência da Universidade de Salamanca e é coordenador do bacharelato da mesma.
Confira o artigo.



Penso que deveríamos situar o principal influxo de Salamanca precisamente na origem do movimento de recuperação do pensamento escolástico medieval, ou seja, da Segunda Escolástica. Salamanca e, em concreto, as aulas de seu “Estudo Geral” na atual universidade, é o lugar no qual se produziu a renovação da Filosofia Escolástica e, de maneira particular, da via tomista, que acabou exaurida no século XIV pelos excessos e sutilezas das diversas interpretações lógicas às quais foi submetida, sendo finalmente eclipsada pelo humanismo italiano. Tal recuperação daria lugar ao período histórico que, dentro da Filosofia, conhecemos como a Segunda Escolástica. Assim tem sido reconhecido pela maioria dos filósofos do século vinte, se bem que com diversos matizes, tais como Ortega y Gasset , Heidegger ou Zubiri , deixando à margem toda uma plêiade de historiadores cuja menção seria quase impossível esgotar.

Partindo do magistério do dominicano Francisco de Vitoria – catedrático de Prima Teologia no estudo salamanquense desde 1526 até 1546 e sua ação de implantar a Suma Teológica como livro-texto, em substituição do manual oficial (o conhecido Libro de las Sentencias de Pedro Lombardo), junto à imposição do método do ditado nas salas de aula –, foi se forjando uma tendência filosófica caracterizada por pensar os problemas de seu tempo desde uma ótica aristotélico-tomista.


Interesses do Império

Tais problemas constituíam os mesmos que foram demandados pelo sistema político do momento, ou seja, a monarquia imperial espanhola caracterizada, entre outras muitas coisas, por atribuir a si a tarefa apostólica da salvação das almas de todo o orbe por meio da evangelização da doutrina cristã católica. É a partir deste apostolado, primeiro nas Índias e mais tarde no continente europeu, que surge toda uma série de problemas de tipo pragmático que o Império deve resolver. São frequentes, nesta época, as consultas dos políticos espanhóis aos teólogos de Salamanca, presenciais ou mediante correio, buscando os modos teóricos de harmonizar o que denominamos o “choque de civilizações” com os interesses do Império espanhol, tanto materiais quanto espirituais. E, são igualmente frequentes as publicações de escritos dos escolásticos salamanquenses, nos quais se oferece resposta aos problemas gerados pela conquista, por exemplo, à questão concreta das Leis Novas (1542); e, em particular, à fórmula do “requerimento”, ilustrada na apaixonante polêmica sustentada entre Sepúlveda e Las Casas e que terminará nas instruções de Valladolid, de 1556, nas quais se autorizou o estabelecimento dos espanhóis no Novo Mundo, sem dano nem violência aos indígenas.


Escola de Salamanca

Em primeiro lugar, é mister assinalar que, pese ao aparente do caso, não existe um acordo unânime dentro da comunidade científica acerca da natureza, dos traços característicos e da relação de autores que integram a chamada Escola de Salamanca. E, por isso, é fundamental mostrar, de saída, o conceito que cada investigador maneja acerca da Escola. Se adotarmos uma visão rígida, característica, embora não exclusiva nem excludente dos estudos puramente teológicos, a escola se vê reduzida à solução dos problemas que concernem às questões de fé por parte de um número de teólogos inferior a trinta. Existe na matéria uma relação diretamente proporcional entre os enfoques dos investigadores e os interesses de cada um de nós. Assim, falamos igualmente da Escola de Salamanca, da Escola espanhola de Paz, ou da Escola espanhola de direito internacional, como também da Escola espanhola de moral econômica, ou de Renascimento teológico salamanquense do século XVI, etc. Qualquer uma destas denominações é correta, na medida em que corresponde à verdade histórica contemplada como história dos efeitos, ou seja, ao conjunto das diversas soluções que o numeroso e heterogêneo grupo de pensadores, adscritos às diversas cátedras de Salamanca, ou antes, educados nesses bancos do Estudo Geral por mestre e discípulos, apresentaram aos problemas que lhes foi demandando sua época. É um eixo que podemos estabelecer desde o começo da docência vitoriana até meados do século XVII, dois séculos que coincidem historicamente com o predomínio da instituição monárquica espanhola, no primeiro século, e do papado agasalhado pela Companhia de Jesus, no século seguinte. Desta maneira, a Escola de Salamanca abandona sua forma circular perfeita para converter-se numa semente comum da qual brota o pensamento moderno hispano-americano. Somente a partir desta concepção ampla e flexível - como convém observar -, tem cabimento propor a questão da possível influência do pensamento da Escola de Salamanca na ideologia independentista americana. É uma questão interessante, em relação à qual se tem realizado movimentos de rastreamento muito válidos, dedicados a assinalar a presença de algumas teorias de pensadores desta Escola, concretas e de determinado país, mas sobre as quais carecemos hoje de um estudo de conjunto.


Projeto Scholastica Colonialis

Acerca do Scholastica Colonialis, projeto dirigido pelos doutores das universidades brasileiras UFRGS e Unisinos, Roberto Hofmeister e Alfredo Culleton, hei de comentar-lhes que me parece uma aposta tão ambiciosa como necessária para ativar o interesse pelo estudo e pela difusão do pensamento da Segunda Escolástica em nível mundial. O estudo da História da Filosofia em geral e, com particular insistência da Filosofia do século XX, na qual nos educamos como jovens investigadores que participamos do projeto, revela uma reutilização constante, por parte daquelas, das metodologias, conceitos e teorias herdadas da escolástica, como modo de enfrentar os problemas contemporâneos. Cabe, portanto, pensar não só na genialidade daqueles pensadores do período moderno e barroco, senão na potencialidade daquelas teorias e conceitos, a fim de serem aplicados a âmbitos diversos dos originais, de maneira semelhante ao modo como fizeram os membros participantes do movimento filosófico salamanquense.

O projeto se encontra, na atualidade, em fase de aprovação, embora caiba pensar que terá uma valoração positiva, dado seu grande interesse. Além de fomentar o intercâmbio de alunos de mestrado e de investigadores entre todas as universidades participantes, se facilitará o acesso e a difusão do conhecimento científico através de ações concretas de implementação informática ao campo respectivo; bem como de congressos internacionais em cada uma das sedes e seminários de investigação. A Faculdade de Filosofia da Universidade de Salamanca colaborará de duplo modo: em primeiro lugar, tratando de levar tudo a termo, dentro das competências específicas encomendadas e, em segundo lugar, economicamente. Com o fim de auxiliar na execução do projeto, solicitamos uma ajuda à Agência Espanhola de Cooperação Internacional, que acaba de financiar um novo projeto intitulado Scholastica Salmanticensis e que vem complementar o anterior, cruzando os objetivos compartilhados pelas universidades participantes e por ela própria. Esperamos sinceramente que ambos os projetos logrem o financiamento público necessário para que possamos desenvolvê-los e, assim, oferecer aos alunos e à comunidade científica novas idéias e materiais para o estudo e a reflexão, contribuindo deste modo ao fomento real do conhecimento.

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