Edição 338 | 11 Agosto 2010

Economia brasileira e a síndrome do Peter Pan

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Patrícia Fachin

Para o economista Fernando Ferrari Filho, “o projeto nacional passa pela elaboração de uma estratégia novo-desenvolvimentista, que assegure crescimento sustentado da economia brasileira

O Brasil não está passando por um “processo de desindustrialização. Não quero dizer, com isso, que a questão da apreciação cambial, a falta de uma política industrial e tecnológica, incentivos creditícios e fiscais ao setor industrial etc. não sejam pontos que devem merecer as atenções das autoridades econômicas”. A opinião é do economista Fernando Ferrari Filho e foi expressa na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Na avaliação do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, o Brasil continua “tendo a ‘síndrome de Peter Pan’, ou seja, não é possível ‘aumentamos a taxa de juros e apertarmos as metas fiscais toda vez que a inflação ‘descontrola-se’, distanciando-se do alvo da meta, afetando, assim, o ritmo de crescimento da economia”.

Fernando Ferrari Filho é graduado em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, doutor em Economia pela Universidade de São Paulo – USP, e pós-doutor pela University of Tennessee System (1996). Publicou, nos Cadernos IHU ideias nº 37, o artigo As concepções teórico-analíticas e as proposições de política econômica de Keynes, disponível no link .

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em outra entrevista que nos concedeu, o senhor alertava para a perspectiva de uma desindustrialização da economia brasileira. Tal processo está acontecendo?

Fernando Ferrari Filho – Eu não diria que o país esteja em um processo de desindustrialização. Não quero dizer, com isso, que a questão da apreciação cambial, a falta de uma política industrial e tecnológica, incentivos creditícios e fiscais ao setor industrial etc. não sejam pontos que devem merecer as atenções das autoridades econômicas. Muito pelo contrário, tais aspectos devem estar na agenda econômica do próximo presidente da República. Não é mais possível continuarmos tendo a "síndrome de Peter Pan", ou seja, aumentarmos a taxa de juros e apertarmos as metas fiscais toda vez que a inflação "descontrola-se", distanciando-se do alvo da meta, afetando, assim, o ritmo de crescimento da economia. Temos que crescer! O Banco Central "peterpaniano" parece não querer crescimento.

IHU On-Line – A atual política econômica favorece, ou não, uma desindustrialização?

Fernando Ferrari Filho – A política cambial brasileira é equivocada. Ademais, a combinação juros elevados e câmbio apreciado tem nos feito atrair "poupança externa" que, historicamente, não gera crescimento e desenvolvimento. Centrando a atenção na questão cambial, o reflexo de um câmbio apreciado (há anos), em um contexto de desaquecimento da economia mundial pós-crise do subprime, acabou gerando, novamente, mega-déficits na conta de transações correntes do país; por exemplo, para 2010, estima-se um déficit na referida conta da ordem de US$ 50,0 bilhões. Como parte desse déficit decorre do crescimento das importações, tanto de bens de consumo quanto de bens de capital, logo o setor produtivo doméstico é afetado.

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