Edição 338 | 11 Agosto 2010

História contínua: os Guarani de ontem e hoje

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

De acordo com o historiador Jairo Rogge, pesquisas indicam que os guarani têm origem amazônica e migraram para o sul do Brasil há cinco mil anos

Ao estudar a expansão dos povos guarani no Brasil, o historiador Jairo Rogge constata que há “uma forte articulação dessas populações com um ambiente ecológico específico, que é o das matas e várzeas de rios e áreas de solo fértil”. Essa relação destes povos com o meio ambiente “parece ter moldado um sistema sócio-cultural muito marcado, que deu origem a um modo de vida tradicional e sempre exaltado”, enfatiza.
Em entrevista à IHU On-Line, por e-mail, ele ressalta que, embora a cultura guarani tenha sido influenciada pelo contato com diversos colonizadores, os povos indígenas também deixaram marcas na cultura gaúcha. “Talvez a maior influência dos guarani é nos fazer perceber que as sociedades indígenas não são uma ‘entidade do passado’, não estão congeladas no tempo e no espaço e não correspondem à noção popular de que ‘índio é tudo igual’. Muito pelo contrário, estão aí, convivendo conosco, tendo desejos semelhantes, angústias semelhantes às nossas, lutando por espaço, comida, saúde, educação, embora possuindo uma lógica distinta da nossa”. E dispara: “Somente quando soubermos respeitar essa diferença, que ao mesmo tempo tem tantas coisas em comum, é que aprenderemos a ser mais ‘humanos’”.

Jairo Rogge é doutor em História pela Unisinos. Desde 1992, é pesquisador da Universidade e desenvolve atividades no Instituto Anchietano de Pesquisas, na área de Arqueologia, com ênfase em Arqueologia Pré-Histórica.

Jairo Rogge ministrará, juntamente com a professora Maria Cristina Bohn Martins e com o professor Walmir Pereira, a palestra Introdução ao seminário: integração e algumas reflexões iniciais, parte da programação do Seminário Jogue Roayvu: História e Histórias dos Guarani. Pré-evento do XII Simpósio Internacional IHU: A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade, em 12/8/2010, às 19h30min, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU. A inscrição pode ser feita no endereço eletrônico <http://migre.me/ZudT>.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais as datações mais aceitas para a presença Guarani no sul do Brasil? Como, por que e em que contexto histórico ocorreram as primeiras ocupações dos povos guarani no sul do Brasil?

Jairo Rogge - Os sítios arqueológicos guarani mais antigos que conhecemos e que possuem datações confiáveis são encontrados por volta do final do primeiro século da Era Cristã, há cerca de 1.800 anos. As populações de língua tupi-guarani, entre as quais encontram-se os guarani, têm uma origem amazônica. Embora ainda faltem muitos estudos nesse sentido, a hipótese é de que esses grupos tenham iniciado, por questões de aumento de densidade populacional nas áreas de origem, uma ampla migração em direção sul há cerca de cinco mil anos, tendo alcançado o sul do Brasil e o litoral atlântico através da colonização progressiva das florestas que acompanham os vales dos grandes rios das bacias do Paraguai/Paraná, Uruguai e Prata. Nessa época, uma série de expansões indígenas estavam ocorrendo no território brasileiro e, junto com elas, quase sempre estava associada a utilização de plantas domesticadas, como o milho, a mandioca, a batata doce entre outras.

IHU On-Line - No processo de migração pelo Brasil, como os Guarani se dispersaram ao longo de todo o país? O que os levou a optar por determinadas regiões?

Jairo Rogge - O que houve realmente foi um amplo processo de expansão através de diversas ondas migratórias, gradualmente ocupando os vales dos grandes rios e seus tributários, buscando áreas dominadas pela floresta tropical e sub-tropical, com solos férteis e alto índice pluviométrico. Essas condições ecológicas eram procuradas, pois havia toda uma adaptação anterior a esse tipo de ambiente, criando um modo de vida próprio que os guarani buscavam replicar incessantemente. Em geral, regiões onde tais condições não ocorriam, não eram ou eram pouco ocupadas pelos grupos tupi-guarani.

IHU On-Line - Que aspectos o senhor destaca na formação e dispersão dos grupos proto-guarani no sul do Brasil?

Jairo Rogge - Uma coisa que chama a atenção quando se estuda a expansão guarani é justamente a forte articulação dessas populações com um ambiente ecológico específico, que é o das matas e várzeas de rios e áreas de solo fértil. Essa estreita relação ecológica também parece ter moldado um sistema sócio-cultural muito marcado, que deu origem a um modo de vida tradicional e sempre exaltado pelos guarani. Outro aspecto importante é a incrível prescritividade da cultura, especialmente quando tratamos da arqueologia guarani.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição