Edição 338 | 11 Agosto 2010

Reprimarização faz economia brasileira retroceder

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Patrícia Fachin

Internacionalizar empresas significa exportar capitais e isso não é bom para o Brasil, defende o economista Reinaldo Gonçalves

“Há nítido processo de reprimarização da economia brasileira com o avanço da agropecuária e da mineração em detrimento da indústria de transformação”, constata Reinaldo Gonçalves, à IHU On-Line. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, ele explica que ao invés de um processo de desindustrialização, ocorre no Brasil uma “rereprimarização”, ou seja, “o maior avanço relativo é o da indústria extrativa mineral”. Para ele, “a concentração de financiamento para a infraestrutura orientada para produção e exportação de commodities aprofunda ainda mais o modelo liberal periférico e a reprimarização”.
Gonçalves também critica a política de financiamento do BNDES e argumenta que a consolidação de “‘campeões nacionais’ implica centralização do capital e enfraquece a democracia, visto que os grandes grupos econômicos tornam-se, cada vez mais, os principais jogadores no financiamento de campanha”. 
Questionado sobre o crescimento econômico dos últimos anos, ele dispara: “Não se iludam com os dados deste ano eleitoral. Este crescimento tem dependido de forte endividamento das famílias, empresas e governo”.
Reinaldo Gonçalves é professor de Economia Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Entre outros, é autor (em co-autoria com Luiz Filgueiras) do livro A Economia Política do Governo Lula (Rio de Janeiro: Contraponto, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A economia brasileira dá sinais de desindustrialização ou industrialização?

Reinaldo Gonçalves – De fato, há perda relativa da indústria de transformação na geração de renda da economia no passado recente. Este processo está associado ao avanço do Modelo Liberal Periférico no país há duas décadas. Para ilustrar, se considerarmos somente a renda gerada na agropecuária, mineração e indústria de transformação, constatamos as seguintes participações percentuais na renda (média móvel três anos):

 Agropecuária Mineração Ind. de transformação
1993 21 4 75
2002 25 6 69
2009 24 10 66

Ou seja, há nítido processo de rereprimarização da economia brasileira com o avanço da agropecuária e da mineração em detrimento da indústria de transformação. Portanto, é mais apropriado falar em rereprimarização que em desindustrialização, visto que o maior avanço relativo é o da indústria extrativa mineral.

IHU On-Line – A atual política econômica favorece, ou não, uma desindustristrialização/rereprimarização?

Reinaldo Gonçalves – Sim. Este processo é consequência da política macroeconômica assentada em juros altos, câmbio flexível e superávits primários (com déficit nominal). O principal resultado desta política é o viés restritivo que faz com que, no passado recente, a economia brasileira tenha fraco desempenho comparativamente a outros países em desenvolvimento e ao seu próprio histórico. No período de oito anos o fraco desempenho do governo Lula é explicado, precisamente, pela combinação de estratégias retrógradas, políticas equivocadas, interesses dominantes e erros de gestão. Em todo o período 2003-10, a economia brasileira tem desempenho que fica muito aquém da sua experiência histórica. Os dados mostram que não é somente no primeiro mandato que o governo Lula tem fraco desempenho. Meu estudo sobre o desempenho da economia brasileira em perspectiva histórica mostra que o governo Lula ocupa a 8ª pior posição no Índice de Desempenho Presidencial (IDP-final) para um conjunto de 29 presidentes. A melhora marginal decorre, em grande medida, da estimativa de crescimento econômico para 2010. Entretanto, o fato a destacar é que o governo Lula tem IDP final inferior à média (58,6) e à mediana (61,1) para todos os governos do período republicano. (Ver: http://migre.me/13n6H.)

IHU On-Line – As privatizações de serviços públicos contribuíram para uma possível desindustrialização/rereprimarização? Em que sentido?

Reinaldo Gonçalves – O processo de privatizações é parte do Modelo Liberal Periférico. O modelo é liberal por que é estruturado a partir da liberalização das relações econômicas internacionais nas esferas comercial, produtiva, tecnológica e monetário-financeira; da implementação de reformas no âmbito do Estado (em especial na área da previdência social) e da privatização de empresas estatais, que implicam a reconfiguração da intervenção estatal na economia e na sociedade; e de um processo de desregulação do mercado de trabalho, que reforça a exploração da força de trabalho. O modelo é periférico por que é uma forma específica de realização da doutrina neoliberal e da sua política econômica em um país que ocupa posição subalterna no sistema econômico internacional, ou seja, um país que não tem influência na arena internacional, ao mesmo tempo em que se caracteriza por significativa vulnerabilidade externa estrutural nas suas relações econômicas internacionais. E, por fim, o modelo tem o capital financeiro e a lógica financeira como dominantes em sua dinâmica macroeconômica. (Ver: FILGUEIRAS, L., GONÇALVES, R. A Economia Política do Governo Lula. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2007.)

IHU On-Line – Ao apoiar empresas nacionais, o Brasil está tentando compensar as privatizações feitas no passado? Como, na sua avaliação, o país tem apoiado suas empresas nacionais?

Reinaldo Gonçalves – É difícil dizer o que é pior: empresas públicas usadas com objetivos políticos menores e, portanto, ineficientes, ou empresas privadas que gerenciam monopólios/oligopólios sem o aparato regulador eficaz. A existência de grandes empresas nacionais com poder econômico e, portanto, poder político também é um grave problema. A política de “campeões nacionais” implica centralização do capital e enfraquece a democracia, visto que os grandes grupos econômicos tornam-se, cada vez mais, os principais jogadores no financiamento de campanha. A questão central está no equilíbrio entre grandes e pequenas empresas operando sob esquemas regulatórios eficazes de controle de práticas de negócios restritivas (abuso do poder econômico).
 
IHU On-Line – Quais os efeitos do desenvolvimento industrial no crescimento econômico brasileiro?

Reinaldo Gonçalves – Historicamente, a industrialização foi motor do crescimento econômico no Brasil no período 1930-80. Entretanto, ela deixou sequelas importantes como a extraordinária desigualdade, a pequena capacidade de geração de emprego, vulnerabilidade externa estrutural (desnacionalização do aparelho produtivo e fragilidade do sistema nacional de inovações) e ineficiência sistêmica da economia brasileira.

IHU On-Line – O que significa a política econômica do BNDES? Ela financia a industrialização do país? O que isso sinaliza enquanto política econômica?

Reinaldo Gonçalves – A atual conduta do BNDES implica sérios problemas. A concentração de financiamento para a infraestrutura orientada para produção e exportação de commodities aprofunda ainda mais o modelo liberal periférico e a rereprimarização. No período 2003-08, a exportação absorveu 43% dos desembolsos do BNDES e as atividades intensivas em recursos naturais responderam por 51%. O BNDES financia a internacionalização de empresas e isto significa, de fato, a exportação de capitais – vazamento de excedente econômico – que é fundamental para o crescimento econômico. Boa parte do investimento externo das grandes empresas brasileiras resulta da estratégia de hedge de grupos familiares frente ao “risco Brasil”.  O BNDES tem estimulado a centralização de capitais, o que implica maior concentração do poder econômico e, portanto, do poder político. Assim, o banco enfraquece a já frágil democracia brasileira. Os financiamentos também implicam maior desigualdade na distribuição da renda na medida que em grandes grupos econômicos beneficiam-se de taxas de juros subsidiadas via recursos do Tesouro. O BNDES também contribui negativamente para a melhora do meio ambiente quando financia projetos intensivos em recursos naturais no contexto de fraco aparato regulatório. O melhor exemplo é a convergência do “arco do boi” com o “arco do desmatamento” na Amazônia, sem falar, naturalmente, das obras de infraestrutura como hidrelétricas. Os “campeões nacionais” do BNDES são, em grande parte, exploradores de recursos naturais que se apropriam de um lucro anormal baseado na frágil regulamentação.  O banco tem preferência por dono da capitania hereditária e barão da privatização e vê o empresário schumpeteriano como um ser extra-terrestre. Em síntese, o BNDES está criando mais problemas do que trazendo soluções para o país.

IHU On-Line – O que a exportação de commodities representa a longo prazo?

Reinaldo Gonçalves – O subdesenvolvimento e a vulnerabilidade externa estrutural. Apesar de haver redução da vulnerabilidade externa conjuntural, houve elevação da vulnerabilidade externa estrutural da economia brasileira durante o governo Lula. Ademais, a vulnerabilidade externa comparada (Brasil em relação a outros países e ao passado recente) não parece ter se reduzido. Ademais, nos últimos anos houve expansão de novas formas de vulnerabilidade externa da economia brasileira como o crescimento do estoque de investimento externo no mercado de capitais, a elevação do passivo externo líquido do sistema financeiro brasileiro e a crescente presença de não-residentes no mercado de derivativos. A crescente dependência em relação às commodities só agrava este problema. O mesmo ocorre em relação ao aumento da presença de capital estrangeiro no aparelho produtivo. Este ano deve ocorrer um fenômeno importante: a remessa de lucros deve ser maior do que o ingresso líquido de investimento direto estrangeiro. E, portanto, o passivo externo (que chegou a US$ 1.081 bilhões no final de maio) deve continuar crescendo.

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