Edição 243 | 12 Novembro 2007

Simone Weil: um pensamento que atinge a raiz das coisas

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IHU Online

Em Simone Weil - A força e a fraqueza do amor (Rio de Janeiro: Rocco, 2007), Maria Clara Bingemer, professora do departamento de teologia da PUC-Rio e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da mesma universidade, diz que se cruzaram dois amores de sua vida. O primeiro é a reflexão sobre a violência e o segundo, seu encanto pela figura de Simone Weil. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Maria Clara descreve Simone como uma mulher radical, que “não faz nada sem ir até a raiz das coisas”. Ela foi “radicalmente intelectual; radicalmente ativista política; radicalmente militante e radicalmente mística e apaixonada pelo Deus que experimentou, cuja intimidade lhe foi possibilitada”.

Bingemer é graduada em Jornalismo, mestre em Teologia e doutora em Teologia Sistemática. Ela concedeu uma entrevista sobre os jesuítas na edição número 183 da IHU On-Line, de 5-06-2006, intitulada Os jesuítas e a expansão da cultura moderna. Na edição 220, do dia 21-05-2007, intitulada O futuro da autonomia, uma sociedade de indivíduos?, Maria Clara Bingemer concedeu outra entrevista: “Igreja que deseja ser ouvida numa cultura pós-cristã precisa ter um testemunho forte, crível e consistente, que acompanhe o discurso”. Na edição 224, de 20-07-2007, ela participou da IHU On-Line, com a entrevista “O documento (de Aparecida) não tem o profetismo e o sopro libertador que caracterizou Medellin e Puebla”. Confira mais detalhes sobre Simone Weil, na entrevista a seguir:

IHU On-Line - Qual é o seu principal objetivo com a produção desse livro? Como surgiu o encantamento pela figura de Simone Weil ?
Maria Clara Bingemer -
Neste livro, se cruzam dois amores de minha vida: o primeiro a reflexão sobre a violência. Considero a escalada de violência um dos problemas mais graves do mundo atual e considero luminoso o pensamento de Simone Weil sobre este tema. Ela tem intuições certeiras, fulgurantes, como filósofa e como mística. E também como cientista política, já que foi uma aguda observadora da realidade de seu tempo. Além disso, ela viveu um dos momentos mais conturbados da história da humanidade: o genocídio nazista. Nesse momento, ela era uma judia possuída pela experiência de Jesus Cristo e, aproximando-se do cristianismo, queria ficar em seu país e não fugir e sofrer o martírio lutando no front. Não pôde fazer isso e morreu de dor, por causa disso, sozinha em Ashford, Inglaterra. Aí se cruza o segundo amor: meu encanto pela figura dessa mulher, que morreu aos 34 anos e cujos escritos somam hoje 19 volumes de obras publicadas. Parece-me que Simone Weil tem algo extremamente atual a dizer aos homens e mulheres de hoje. É uma radical, ou seja, alguém que não faz nada sem ir até a raiz das coisas. Foi radicalmente intelectual; radicalmente ativista política; radicalmente militante; e radicalmente mística e apaixonada pelo Deus que experimentou e cuja intimidade lhe foi possibilitada. Ao mesmo tempo, conserva em sua vivência mística uma extrema, autêntica e radical secularidade, laicidade. Simone Weil discute com a instituição eclesial, como muitos de nossos contemporâneos, têm dificuldades em aderir a ela plenamente e permanece sempre na soleira, no umbral, como dirá a seu amigo e confidente, o dominicano Pe. Joseph Marie Perrin. É uma precursora de muitas coisas: da inserção entre os mais pobres, duas décadas antes dos padres operários na França e quatro décadas antes da Teologia da Libertação. É uma pioneira do diálogo inter-religioso. Quando Simone descobre profundamente a Deus, intui e proclama que Ele está presente e se revela também nas outras religiões. Ela não tem reparos em dialogar desde sua experiência cristã com o hinduísmo e outras religiões orientais. E também em discutir com a religião que é a da sua cultura de origem, o judaísmo. Por tudo isso, é um ser radical e plural, que deve ser mais conhecido pelas novas gerações. E por isso também me encantou.
 
IHU On-Line – Qual é a importância da obra no sentido de tornar Simone Weil mais conhecida no Brasil? 
Maria Clara Bingemer -
A primeira pesquisadora a escrever sobre Simone Weil no Brasil foi a professora Eclea Bosi , da Universidade de São Paulo (USP), que publicou, nos anos 1970, uma coletânea de textos comentada da filósofa francesa. Foi a partir deste livro que aconteceu minha “conversão” a Simone Weil. No entanto, ela e seu pensamento ainda são muito pouco conhecidos no Brasil. Trata-se de um pensamento difícil e desafiante, para a sociedade, para a academia, para a Igreja. No entanto, apesar de desafiante e talvez mesmo por causa disto, trata-se de um pensamento essencial para o momento atual. Por isso, creio e espero que essa obra torne a sua figura mais conhecida no Brasil. No primeiro capítulo, faço uma biografia resumida da autora, para, posteriormente, entrar diretamente no cerne de seu pensamento sobre a violência e a paz. Depois, a comparo com outros pensadores e pensadoras seus contemporâneos, a fim de situar sua reflexão no contexto ao qual pertence, embora deixando patente sua identidade e originalidade.
 
IHU On-Line - Quais são os principais pontos de comparação do pensamento de Weil com Emmanuel Lévinas e René Girard, e com as mulheres judias Edith Stein e Etty Hillesum?
Maria Clara Bingemer -
Emmanuel Lévinas  tem um pensamento vigoroso sobre a questão da violência a partir da centralidade do outro e da alteridade. Segundo ele, o outro em sua indigência constitui uma epifania para o ser humano e o acusa de uma violência pela qual é responsável ainda que não se reconheça praticante de atos julgados como violentos. Essa paixão pela figura do outro também está presente em Simone Weil, sobretudo pela categoria de “malheur”, desgraça.  Ela dirá que a atenção prestada ao infeliz, ao desgraçado, é um milagre maior do que andar sobre as águas ou ressuscitar um morto. Portanto, toda falta de atenção, omissão ou desamor a este será necessariamente uma violência. A responsabilidade pelo outro, tanto para Lévinas como para Simone Weil, é o único caminho de redenção da violência. Com René Girard  há bastantes pontos em comum. Os dois fazem uma recusa incondicional a uma violência que seria prescrita, ou seja, exigida pela divindade em algumas circunstâncias. René Girard, por sua vez, declarou explicitamente, em entrevista, ter sido influenciado pela leitura do texto de Simone Weil “L’Iliade ou le poème de la force” (eu traduzo esse texto no livro). São dele as palavras sobre o texto em questão: “Este texto prodigioso sobre o conflito e a violência se revelou, para mim, de uma influência decisiva, sem que eu seja disso, por outro lado, realmente consciente”. Além disso, René Girard reconhece e legitima a noção de Simone Weil de “paixão coletiva”, descrita por ela como “um impulso de crime e de mentira infinitamente mais poderoso que qualquer paixão individual”. Ele reconhece que “aquilo que eu chamo de desejo mimético figura (em Simone Weil) em tudo que releva da obsessão da multidão, da obsessão da influência.  Ela tem uma intuição muito penetrante das influências coletivas”.
Edith Stein  e Etty Willesum  são duas mulheres judias contemporâneas de Simone Weil.  As três vivem juntas o terror nazista, as três têm uma experiência religiosa, mística, embora por caminhos diferentes: Edith como carmelita, Etty como mística sem referência institucional, Simone como cristã no umbral da instituição. As três encontram na escrita o caminho redentor para compreender sua experiência e lutar contra o monstro da violência de seu tempo e as três produzem um pensamento escrito que lega às gerações futuras seu sacrifício como um testamento de vida.  É fascinante ver como há pontos de contato e semelhança entre estas três grandes figuras femininas.
 
IHU On-Line - Qual é o peso dos valores cristãos no pensamento de Simone Weil?
Maria Clara Bingemer -
Na verdade, há alguns valores cristãos que estão profundamente presentes na vida e no pensamento de Simone Weil desde muito antes de sua experiência mística cristã de ser possuída pelo Cristo em pessoa. Por exemplo, o espírito de pobreza, a caridade, a primazia do outro sobre o ego etc. Todos esses valores ela os viveu profundamente. Inclusive, algumas figuras cristãs a fascinaram desde sempre. Por exemplo, São Francisco de Assis . No momento em que Simone Weil faz seu encontro definitivo com o Cristo, esses valores são então reconhecidos por ela e por ela nomeados e identificados. Tudo o que lhe resta de vida após isso – alguns poucos anos – será dedicado a aprofundar o encontro com esse Cristo que deu novo sentido a sua vida.  Ela, então, irá não apenas viver os valores cristãos, mas identificar-se cada vez mais com a pessoa de Jesus Cristo, muito especialmente com Jesus Cristo Crucificado. Sua vida será crística e sua morte igualmente. Ela morrerá, como Jesus, no mais absoluto despojamento, solidão e pobreza, ansiando por um martírio que nunca lhe chegou da maneira sonhada. Trata-se de alguém realmente configurado pela experiência mística cristã, que não é nada mais do que o seguimento radical de Jesus Cristo.

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