Edição 243 | 12 Novembro 2007

Arnaldo Antunes

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Editoria de Poesia

 

Nascido em São Paulo, em 1960, Arnaldo Antunes é um dos principais poetas pós-concretismo. Publicou os livros OU/E (edição do autor, 1983); Psia (2. ed. São Paulo: Iluminuras, 1991); Tudos (São Paulo: Iluminuras, 1990); As coisas (São Paulo: Iluminuras, 1992 – Prêmio Jabuti de poesia); 2 ou + corpos no mesmo espaço (São Paulo: Perspectiva, 1997); 40 escritos (São Paulo: Iluminuras, 2000); Palavra desordem (São Paulo: Iluminuras, 2002); ET Eu Tu (São Paulo: Cosac & Naify, 2003); Frases do Tomé aos três anos (Porto Alegre: Alegoria, 2006); e Como é que chama o nome disso (São Paulo: Publifolha, 2006), este uma antologia de sua obra. De 1982 a 1992, integrou o grupo de rock Titãs, no qual compôs canções como “Não vou me adaptar”, “Comida”, “O que”, “Miséria” e “Família”. Deixou o grupo para seguir carreira solo. Nesta, estreou em 1993, com o projeto multimidático Nome, lançado em CD, livro e vídeo (hoje em DVD), pela BMG/Ariola. Desde então, lançou mais sete discos e, em 2003, participou do projeto Tribalistas, ao lado de Marisa Monte e Carlinhos Brown.

Talvez Arnaldo seja vinculado à poesia concreta em razão de alguns de seus poemas visuais, mas a aproximação se dá mais em razão de seus versos curtos e de impacto, facilmente transponíveis para uma linguagem midiática, como a que encontramos em Nome. Seu primeiro livro, OU E, já apresentava inúmeros trabalhos de caligrafia, com o objetivo de dar movimento às letras e palavras, o que continua a fazer, sobretudo em trabalhos gráficos para exposições, alguns reunidos em Como é que chama o nome disso. Os poemas de Arnaldo guardam, com isso, uma proximidade com o universo infantil e com a descoberta da linguagem: “O camelo é um cavalo sem sede / Tartaruga por dentro é parede” e “A cegonha é a girafa do ganso / O cachorro é um lobo mais manso” são alguns dos versos do poema “Cultura”. Nesse sentido, Arnaldo trabalha com uma linguagem que se constrói a partir de analogias e paralelismos, com um certo tom de ensinamento. Isso cabe, por exemplo, numa cantiga, intitulada “Lavar as mãos”, que ele compôs para o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum: “Depois de brincar no chão de areia a tarde inteira / Antes de comer, beber, lamber, pegar na mamadeira / Lava uma (mão), lava outra (mão) / Lava uma, lava outra (mão) / Lava uma / / A doença vai embora junto com a sujeira / Verme, bactéria, mando embora embaixo da torneira / [...] / Na segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira / Na beira da pia, tanque, bica, bacia, banheira”. Esta linguagem didática se repete em algumas de letras mais críticas do poeta e músico, como “Miséria”: “Miséria é miséria em qualquer canto / Riquezas são diferentes / Índio mulato preto branco / Miséria é miséria em qualquer canto”. Ao mesmo tempo, alguns de seus poemas possuem uma disposição de definições de dicionário, em forma de aforismos, como “Pessoa”: “Coisa que acaba. Troço que tem fim. Sujeito. Que não dura, que se extingue. Míngua. Negócio finito, que finda. Festa que termina. Coisa que passa, se apaga, fina. Pessoa. Troço que definha. Que será cinzas”. No poema “As cores”, escreve: “Amanhecer. As cores costumam arder antes de esmaecer. Quando esfriam, o espaço entre elas e as coisas diminui. E borram quando transbordam. Os verdes maduram cedo. As luzes apagam preto. As cores começam azuis, dentro dos casulos brancos. Flores para elas”.

O poema inédito, a seguir, “Entre os dentes”, que Arnaldo Antunes enviou especialmente à IHU On-Line, parece trazer um diálogo com o cientificismo de um dos poetas prediletos do autor, Augusto dos Anjos, do qual Arnaldo gravou o poema “Budismo moderno” (no CD Ninguém), e que já lhe serviu de referência para compor a conhecida canção “O pulso”, gravada pelos Titãs, em que ele cita diversas doenças: “reumatismo raquitismo cistite disritmia / hérnia pediculose tétano hipocrisia”. 

 

Entre os dentes

entre os dentes restos,
como no reto, infectos
excretos, nichos
de bactérias abertos
na polpa doce
do osso exposto
em cáries
entre
os maxi
lares

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição