Edição 243 | 12 Novembro 2007

O que estamos fazendo com o nosso planeta?

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IHU Online

De acordo com a administradora de empresas Tâmara Karawejczyk, a principal mensagem do filme A corporação é “alertar sobre o que estamos fazendo conosco e com nosso planeta, pois o que se mostra vai além do mundo do business. Penso que os estudantes precisam ser preparados para assistir a este filme, fazendo uma reflexão sobre seu comportamento consumista, sua maneira de olhar o mundo e ganhar dinheiro e como se pode viver de uma forma mais ética”. Karawejczyk explica que o filme aborda exemplos como o de uma blusa fabricada por uma grande marca americana e “revendida no mundo todo por um alto valor (pela marca), na realidade paga misérias para quem produz o produto. Isto Marx e outros pensadores já discorriam sobre a relação capital trabalho. O que eu acho mais preocupante é que ainda ensinamos administração, negócios etc., sem considerar o lado ético desta relação”.

 

Karawejczyk é graduada em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu (STJ), especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mestre em Educação pela Unisinos e doutora em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com a tese A articulação entre mudança e aprendizagem organizacional em uma instituição de ensino superior: uma contribuição para o entendimento deste fenômeno organizacional.
Nesta quarta-feira, dia 14-11-2007, o filme A corporação será exibido no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, e será comentado pela Profa. Ms Catia Venturella, da Unisinos. O evento ocorre na sala 1G119, às 19h30min.

IHU On-Line - Críticos dizem que o filme A corporação deveria ser obrigatório nos colégios e nas universidades. A senhora concorda com essa afirmativa? Qual é a mensagem que o filme propõe, e que deve ser assimilada pelos estudantes?
Tamara Karawejczyk -
Concordo em partes, porque se não irá parecer que é a única fonte de verdade. O que o filme nos mostra é a realidade das grandes corporações americanas (principalmente) sobre as relações de trabalho. É claro que o lucro e aumentos de rentabilidades estão por trás das denuncias realizadas, quando as grandes corporações assumem o papel do Estado e o direito das pessoas a uma cidadania e vida digna, tudo fica sendo visto pelo olhar do ganho. A principal mensagem do filme é alertar sobre o que estamos fazendo conosco e com nosso planeta, pois o que se mostra vai além do mundo do business. Penso que os estudantes precisam ser preparados para assistir a este filme, fazendo uma reflexão sobre seu comportamento consumista, sua maneira de olhar o mundo e ganhar dinheiro e como se pode viver de uma forma mais ética.

IHU On-Line - Como o filme nos ajuda a compreender os bastidores das grandes corporações e sua lógica de funcionamento?
Tamara Karawejczyk -
Ele mostra, por exemplo, que uma blusa de grande marca americana, revendida no mundo todo por um alto valor (pela marca), na realidade paga misérias para quem produz o produto. Isto Marx e outros pensadores já discorriam sobre a relação capital trabalho. O que eu acho mais preocupante é que ainda ensinamos administração, negócios etc., sem considerar o lado ético desta relação. 

IHU On-Line - Como a senhora avalia o poder exercido pelas grandes corporações mundiais? Qual é o papel dessas empresas no século XXI?
Tamara Karawejczyk -
Na sociedade do conhecimento, as grandes empresas têm tido um papel fundamental. São elas, afinal, que evoluem a teoria administrativa, porém a ambição e o poder sem medidas fazem com que tudo gire em torno dos grandes lucros e das grandes negociações, esquecendo-se das pessoas que estão no meio de tudo isto. Há uma frase no filme O corte que nos alerta para quando ninguém mais tiver poder de compra, para quem as grandes empresas venderão? Estas são coisas que precisam ser revistas, mas sem a criação de uma inquisição administrativa.

IHU On-Line - Que aspectos a senhora destacaria como problemas nas corporações mundiais, atualmente?
Tamara Karawejczyk -
Acho que todas as corporações atualmente têm problemas relacionados ao meio ambiente e às questões de responsabilidade social. Usufruir de todo o meio que cerca a organização e não devolver nada em troca precisa ser repensado. Apesar de esta ser uma demanda que tem sido muito discutida no meio empresarial.

IHU On-Line - Como a senhora percebe a responsabilidade social das grandes empresas brasileiras?
Tamara Karawejczyk -
Percebo que existe muita coisa a ser feita. Inicialmente, muitas organizações começaram a pensar no assunto devido ao próprio marketing gerado pela mídia, mas, hoje, acredito que houve avanços muito grandes. Temos, no Rio Grande do Sul, o Projeto Pescar e projetos da fundação Maurício Sirotsky, que merecem um maior destaque. As pequenas e médias empresas é que precisam ampliar a sua conscientização, já que este é o contingente da maioria das empresas brasileiras.

IHU On-Line - Segundo o ex-secretário do Trabalho de Bill Clinton, Robert Reich, o movimento de responsabilidade corporativa é uma farsa, pois os presidentes das empresas não têm mais autonomia. A senhora concorda com a opinião dele?
Tamara Karawejczyk -
Não conheço a realidade americana para opinar lá, mas no Brasil não acho que seja uma farsa. O que acontece nos EUA é que os presidentes das empresas não são os donos da empresa , e sim um grupo de acionistas. Para mover questões de responsabilidade social, seria preciso incrementar estas discussões nas próprias reuniões anuais destes donos de ações. No caso brasileiro, em que a maioria das empresas ainda são familiares e sem acionistas, fica mais fácil por um lado incrementar a responsabilidade corporativa, porém, por outro lado, ainda existe muito amadorismo na gestão destas empresas e uma prática de responsabilidade social exige um amadurecimento do sistema de gestão da empresa como um todo.
 Acho que estamos nos encaminhando neste século para uma ampliação dos sistemas de gestão das empresas brasileiras, em que a responsabilidade social e corporativa devem estar nestes avanços.

IHU On-Line - Em algum momento da história as empresas pensaram efetivamente em seus funcionários, ou sempre vislumbraram o lucro?
Tamara Karawejczyk -
Acredito que pensar que as empresas somente querem lucro é algo muito maniqueísta. Mesmo que pensem somente nisto, as grandes empresas contribuíram para a evolução da tecnologia, da descoberta de novos medicamentos, da inovação e melhoria de uma serie de serviços e produtos a serem oferecidos à população. O que ainda precisam rever é a questão do ser humano dentro destas organizações. Esta é uma discussão que ainda nem começou. Onde fica o homem/mulher trabalhadora deste século XXI? Qual é o seu papel enquanto trabalhador e cidadão? Estas são questões que ainda necessitam de maiores ampliações da consciência coletiva, seja empresarial ou não.

 

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