Edição 243 | 12 Novembro 2007

A presença de heróis negros nos gibis

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IHU Online

Desde a origem da produção de história em quadrinhos, os negros já eram retratados como selvagens. Nos enredos do Tio Patinhas, lembra o professor Christian Arnold Leite, o patriarca e sua família se aventuravam pelo mundo, viajando pelo continente africano, ilustrado como um ambiente “povoado por selvagens, canibais”,  que trocavam favores por dinheiro. Aos poucos, esse enquadramento vem mudando, e atualmente, esclarece, “existe uma gama muito grande de produções que procuram apresentar personagens negros e negras de forma positiva”, colocando em primeiro plano a história do povo. Isso ocorre, segundo ele, porque está ocorrendo uma “transformação na forma de enxergar” os afrodescendentes brasileiros. Para ele, mais do que nunca, os negros devem ser representados nas histórias em quadrinhos com uma “imagem de lutadores, vencedores perante as adversidades de uma realidade social mundial e brasileira preconceituosa e racista em suas mais diversas manifestações”. Essas e outras declarações foram concedidas à IHU On-Line, por e-mail.

Christian Arnold Leite é graduado em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e especialista em Cultura Afro-brasileira, pela Faculdade INEDI CESUCA (Complexo de Ensino Superior de Cachoeirinha). Colecionador de Histórias em Quadrinhos (HQS) desde que foi alfabetizado, sendo as histórias em quadrinhos uma das suas primeiras leituras.

IHU On-Line - Como se deu o surgimento dos personagens negros nos comics books? Os quadrinhos brasileiros imitaram os americanos?
Christian Arnold Leite –
É difícil determinar uma data específica. Mas podemos dizer que estes personagens surgiram como coadjuvantes de personagens de outras etnias. Nós temos Mandrake, de Lee Falk e Phil Davis, de 1934, e seu eterno companheiro, assistente, guarda-costas, Lothar, rei de uma distante tribo africana. Temos, na primeira década do século XX, Mutt & Jeff, de Bud Fisher, personagens homens, brancos, adultos, cômicos, desenhados em tiras de suplementos dominicais. Álvaro de Moya , na sua obra clássica História da História em Quadrinhos, de 1986, apresenta uma cena em que os dois personagens estão perdidos e gritam “ÁGUA!”. No segundo quadrinhos da tira, aparecem cinco negros seminus, armados de lanças, “selvagens”, rindo e gritando juntos “COMIDA!”. O “negro africano selvagem” apareceu muitas vezes, mas em diferentes publicações, como nas Edições Disney. Um exemplo são as edições do Tio Patinhas e sua família de sobrinhos e netos em divertidas aventuras pelo mundo, sendo muitas delas ambientadas no continente africano povoado por selvagens, canibais, comandados por bandidos que trocam os seus favores, força, ferocidade, por quinquilharias e dinheiro.

No Brasil, nós temos a revista Tico-Tico, criada em 11 de outubro de 1905, tendo como alguns de seus personagens em quadrinhos o trio Reco-Reco, Bolão e Azeitona, dois meninos brancos e um negro. Temos o Gibi, termo brasileiro surgido com a revista Gibi, em 12 de abril de 1939, pelo editor e proprietário Roberto Marinho, através do jornal O Globo. O logotipo da revista era o menino negro no alto da capa falando, em algumas vezes, a palavra “Pelé”. Este termo, gibi, também é descrito como “um negro de traços grosseiros e rudes”. Esta é somente uma amostragem bem superficial. Podemos encontrar personagens negros, na sua grande maioria masculinos, em diferentes publicações desde o final do século XIX e início do século XX.

IHU On-Line - De que maneira os quadrinhos ajudam na construção e no desenvolvimento do conhecimento e da história?
Christian Arnold Leite –
A história em quadrinhos pode ser utilizada para trabalhar o conceito de tempo na História – sua duração, transformações, períodos históricos. A cartilha com textos e quadrinhos, O negro no Rio Grande do Sul, publicada pelo IPHAN em 2005 e ilustrada pelo quadrinista negro, brasileiro, Maurício Pestana  (ver site www.mauriciopestana.com.br) se utiliza de uma cronologia de tempo crescente para organizar fatos e acontecimentos dentro de uma ordem de temporal: datas, épocas, períodos e contextos históricos.

A história em quadrinhos pode ser utilizada para ilustrar aspectos sociais de sociedades e comunidades humanas durante a História. Também é um registro histórico da época em que foi produzido, tendo referências históricas e de vida de seu autor; o conjunto de valores e ideologias reproduzidas de forma direta e subliminar contidas na história em quadrinhos.

Na análise de história em quadrinhos sobre a questão afro-brasileira, podemos observar, principalmente na obra de Maurício Pestana, uma preocupação com uma análise histórica baseada em um ponto de vista militante e engajada com a causa da recuperação de uma história afrodescendente verossímil: a construção de um maior respeito pela herança de sofrimentos e lutas do povo afro-brasileiro, por respeito ao seu espaço na sociedade brasileira.

IHU On-Line - Como o senhor analisa os personagens étnicos nos gibis nacionais e internacionais? A questão cultural interfere na produção? De que maneira?
Christian Arnold Leite –
As possibilidades de análise de história em quadrinhos étnicos são diversas, como a própria produção de história em quadrinhos étnicos, em contínuo crescimento. Gostaria de tratar de duas obras muito importantes para mim. Tive a oportunidade de analisá-las no meu trabalho de conclusão no curso de especialização. Comecemos pela obra quadrinizada de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre , feita por Ivan Wasth Rodrigues , com adaptação de Estevão Pinto , estudo antropológico sobre a formação da história racial brasileira, tendo o homem branco europeu colonizador como personagem principal e as populações indígenas e africanas como personagens colaboradores na história do Brasil. Temos, nesta obra, uma visão histórica (cronológica, contextual, estrutural) e antropológica (expressões e manifestações culturais, identitárias, representativas, ideológicas) da formação racial da sociedade brasileira, através da visão européia e colonizadora e suas relações com populações ameríndias e africanas – moura e/ou muçulmana e negra tribal –, principalmente. Como o próprio título da obra, a análise histórica privilegia os espaços privado da casa-grande e sua senzala, e, no seu conteúdo iconográfico e textual, os espaços públicos da sociedade colonial brasileira rural e urbana. Na obra Violência histórica, com roteiro e desenhos de Maurício Pestana, o autor desenvolve uma crítica à herança escravocrata, racista, preconceituosa e excludente da sociedade brasileira presente na história de uma família brasileira de origem africana. Nesta obra, faz-se a descrição, representação quadrinizada da história dos africanos escravizados na África – Benin, 1789 – por navegadores/comerciantes europeus de escravos. Africanos que eram, nesta obra em história em quadrinhos, capturados e comercializados diretamente pelos caçadores de negros na África, transportados de forma violenta para o Brasil colonial, vendidos no mercado de escravos, obrigados a trabalhos forçados e pesados/desgastantes e degradantes. É descrita a vida nas senzalas, os castigos físicos humilhantes, as revoltas e rebeliões escravas, a criação dos quilombos e a vida neles, a abolição da escravidão e o seu subproduto, a criação de favelas com as populações ex-escravas nos centros urbanos brasileiros. São duas obras com uma mesma temática, a história do negro (a) na história do Brasil, mas conflitantes, na forma que esta história é descrita, entendida, analisada. Qual é a verdadeira história do negro africano no Brasil?

Influência cultural

A questão cultural, reprodução de manifestações materiais e imateriais de uma determinada etnia, comunidade ou civilidade/sociedade, foi, sim, importante na elaboração destas duas obras, como em outras mais. As duas obras são determinadas pela recuperação da história e da cultura de populações negras africanas e brasileiras, em relação com a própria formação da história e da cultura brasileira. A cultura negra, afro, é uma personagem presente e atuante na grande maioria das obras por mim analisadas.

IHU On-Line - De que maneira os negros são retratados nas histórias em quadrinhos desses autores que você cita? Como a historiografia negra, os quadrinhos passaram por mudanças?
Christian Arnold Leite –
Os personagens negros são apresentados tanto como submissos, escravizados, excluídos, como também revoltosos, libertários, militantes, orgulhosos de sua história/cultura. Podemos observar nas leituras das imagens e textos das obras até aqui citadas idéias e formas de observar o mundo real de outras épocas históricas: o preconceito com os indivíduos e populações afrodescendentes escravizadas ou libertas no Brasil; a presença negra na história brasileira, como submissos ao poder das elites brancas, ou revoltosos e violentos contra esta mesma elite e seus mecanismos de dominação; a resistência e perseverança de indivíduos e grupos afrodescendentes organizados contra a repressão e violência racial na sociedade brasileira; enfim, um conjunto considerável de informações a serem analisadas e problematizadas pelos pesquisadores e educadores atentos a estas obras em história em quadrinhos.

Atualmente, existe uma gama muito grande de produções que procuram apresentar personagens negros e negras de forma positiva, em primeiro plano na sua própria história. Exemplo disto é esta obra bastante interessante e recente, Quilombo - Espaço de resistência de crianças, jovens, mulheres e homens negros, produzida pela organização REDEH , RJ, em parceria com o MEC, tendo como autores Paulo Corrêa Barbosa coordenador pedagógico, e Schuma Schumaher  coordenadora geral da REDEH. Esta obra é o resultado de pesquisas sobre comunidades quilombolas do estado do Rio de Janeiro. Nela, é retratada a visita de uma turma escolar composta por crianças quilombolas e sua professora quilombola a seis comunidades. Nestas visitas, a turma é recebida por representantes das comunidades quilombolas e são relatadas as situações de vida das comunidades que se autodeterminam quilombolas: como surgiram as comunidades; seus problemas para o reconhecimento legal das terras, entre outras. Este tipo de produção, um projeto educacional de recuperação parcial da história das comunidades quilombolas brasileiras em história em quadrinhos, é de uma importância histórica, uma inovação na forma de utilizar-se dos desenhos para a formação social e histórica dos educandos do estado do Rio de Janeiro e do próprio Brasil.

IHU On-Line - E no material didático? Como o senhor percebe o ensino da cultura afro-brasileira em sala de aula? As ilustrações dos livros incentivam que tipo de sociedade?
Christian Arnold Leite –
Acredito que há a necessidade de comprimento de determinações educacionais estabelecidas por órgãos governamentais, como também de sanar uma demanda legal apresentada por diversos movimentos sociais em defesa da construção e/ou recuperação de uma história e de uma identidade afro-brasileira. Esta demanda tornou-se juridicamente legal através da lei federal nº 10.639/03 – MEC de 2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de conhecimentos e histórias das populações afro-brasileiras e africanas, como é discutido pela professora Tânia Silva em seu artigo “Lei 10.639/03 está aí, só falta cumprir!!!” na Revista de História (Memorial do Rio Grande do Sul. Edição Especial. Estudos Afro-brasileiros. Aplicabilidade da Lei 10.639/03), na qual ela coloca que “na lei 10.639/03 é urgente uma pedagogia multirracial, práticas pedagógicas desafiadoras, críticas, coletivas e emancipatórias”. A lei exige desacomodar conceitos, resgatar a nossa temporalidade como um sujeito histórico que construímos este País. As histórias em quadrinhos poderão auxiliar nestas questões. Existem poucos livros didáticos gratuitos aos estudantes e escolas que trabalhem a história e a cultura africana e afro-brasileira. Assim, os quadrinhos poderão ser utilizados para ilustrar ou explicar histórias e situações ficcionais ou real-históricas sobre a sociedade brasileira nos seus preconceitos, estereótipos, nos seus valores e construções históricas ao público leitor destas obras, seja qual for a sua etnia. Um exemplo disto é a história em quadrinhos Luana e sua turma, de Aroldo Macedo (São Paulo, 1998), projeto educacional de valorização da imagem da criança negra conscientizada, através do resgate da história cultural do afro-brasileiro. A coleção de histórias em quadrinhos Luana e sua turma é uma obra que faz parte de um conjunto maior, um projeto educacional de utilização de história em quadrinhos para o ensino de cultura afro-brasileira de crianças negras ou não. Dentro deste projeto, encontram-se outras obras sobre a história do Brasil e dos afrodescendentes – o descobrimento, a história de Zumbi dos Palmares , entre outros projetos que procuram contar a história de nossa nação através dos olhos infantis de uma menina negra, esportista, estudiosa, respeitadora, amiga de seus amigos e amigas de diferentes origens étnicas.

Todas as edições trazem histórias de como o próprio autor descreve no primeiro “gibi”, “uma afro-brasileira sem medos, rancores, com o espírito desarmado e pronto para distribuir amor e amizade”. São voltadas para crianças brasileiras, não importando a sua origem étnica. A turma é composta por afro-brasileiros, nipônicos, entre outras possíveis origens. Todas as histórias possuem um fundo moral – ecológico, valores de conduta, amizade, esporte, família, enfim, um conjunto de situações e enredos que procuram apresentar propostas de conduta éticas corretas, valorativas, tanto para os afro-brasileiros como para todas as crianças “brasileiras”.

IHU On-Line - Os heróis negros dos desenhos ajudam na conscientização e na humanização dos jovens leitores?
Christian Arnold Leite –
Acredito que sim, embora não exista material suficiente sobre a leitura desses quadrinhos e de sua aceitação, ou não, por parte dos alunos da rede escolar pública ou privada no Brasil. Mas possuímos experiências marcantes como projetos em desenvolvimento e com um futuro promissor. Outro projeto é dentro desta perspectiva de valorização e maior visibilidade da imagem do afrodescendente nos meios de comunicação, informação e formação/educação, a Série Olodum Griô, parceria do quadrinhista Maurício Pestana e da ONG Olodum, de Salvador/BA. A proposta deles é contar histórias que mostrarão as contribuições dos negros na construção do Brasil. A proposta iniciou com o primeiro volume, Revolta dos Búzios. Uma história de igualdade no Brasil. Na obra, é relatada a história do maior movimento de revolta e rebelião urbana e popular do Brasil Colonial. Uma revolta daqueles que sonhavam com uma república democrática no Brasil com o fim da escravidão e das desigualdades entre brancos e negros”. Este projeto tem como objetivos muito mais que a história em quadrinhos em si. A Escola Olodum, braço educacional do Olodum, encabeçou reivindicações de reconhecimento e valorização dos heróis e personagens negros participantes de movimentos e organizações de luta histórica pelo reconhecimento da história e direitos afro-brasileiros: inclusão do nome de personagens/heróis negros desta revolta, como de outros, no Livro dos Heróis, no Panteão da Pátria em Brasília; instalação de locais, espaços em imóveis para a produção e preservação da história africana e afrodescendente nas Américas e no Brasil; ruas de Salvador com nomes de personagens negros desta revolta “em homenagem aos heróis baianos e mártires da independência nacional”; a criação de um prêmio de Literatura com o nome de um herói dos búzios, João de Deus, João de Deus do Nascimento, alfaiate baiano, e um dos principais líderes do movimento que morreu enforcado e depois teve a sua cabeça exposta em via pública por cinco dias como um exemplo à população negra e revoltosos sobreviventes. Esta série Griô está em produção. Haverá novas edições com personagens negros atuando na defesa de suas vidas e de suas histórias. O próximo por sinal será sobre João Cândido e a Revolta da Chibata . Este projeto merece a maior atenção possível por parte dos leitores, educadores, professores e pesquisadores. É algo novo, positivo e forte nas suas convicções, com a participação do quadrinhista e ativista social Maurício Pestana nas ilustrações e composição da história, e de uma organização reconhecida também por seus projetos de resgate da cultura e da história afro-brasileira, que nos dão leitores de história em quadrinhos, e a perspectiva de estar “absorvendo” um conjunto de informações e idéias de transformação dos modos de se enxergar o afro-brasileiro na história e na atualidade. Fiquemos, convictamente, atentos a tudo isto.

IHU On-Line - O imaginário dos desenhistas brasileiros que se inspiram na cultura negra para criar quadrinhos ainda é “rotulado”?
Christian Arnold Leite –
Acredito que esteja acontecendo uma transformação na forma de enxergar homens, mulheres, crianças, idosos negros/afrodescendentes/brasileiros nas história em quadrinhos. O que se pretende passar ao leitor de história em quadrinhos ditos étnicos, de diversão? O homem negro e a mulher negra somente como historicamente escravos de populações brancas de origem européia? Ou como participante da sua própria história e da história das nações em que se encontraram e se encontram na atualidade? Uma coisa fascinante é poder criar personagens masculinos e femininos com um teor, uma imagem de lutadores, vencedores perante as adversidades de uma realidade social mundial e brasileira preconceituosa e racista em suas mais diversas manifestações.

Um dos primeiros heróis negros das histórias em Quadrinhos Norte-Americanos foi o Pantera Negra, monarca de um reino africano, Wakanda, que se tornou um país próspero e independente perante as ações imperialistas européias e norte-americanas. A pantera é o símbolo, o totem de seu reino. Ele é a personificação deste totem, a alma mística de um povo, ele se deixa possuir por este ser animal e elemental. Ororo, Tempestade, mutante negra filha de uma princesa africana, considerada como uma deusa na África por causa de seus poderes climáticos – controle sobre os elementos do clima e com isso podendo até voar. Os dois são agora um casal. Casaram na revista Marvel Action (número 08, de agosto de 2007). Trata-se de algo incrível na história dos quadrinhos mundiais. Um casal maravilhoso, belíssimo fisicamente, eticamente, seres quase perfeitos nas suas convicções morais e físicas, que deram uma nossa perspectiva. São rei e rainha deste reino, diplomatas, guerreiros, respeitados e temidos pela comunidade internacional no universo ficcional/real da Marvel. Nas histórias em que eles aparecem, como no próprio casamento, vários heróis negros também estão presentes e atuam nas histórias. Questões como racismo, apartheid, discriminação, violência, conflitos políticos nacionais e internacionais, intolerância social e racial fazem parte das suas histórias solos e agora como um casal. Como já disse, isto aqui apresentado é somente uma amostragem muito rápida de um universo interessantíssimo de história em quadrinhos étnicas/temáticas de um valor visual e informativo extremamente relevantes para toda e qualquer pessoa que goste de história em quadrinhos e que as queira conhecer.

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