Edição 231 | 13 Agosto 2007

“O socialismo ou é democrático ou não é socialismo”

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IHU Online

Para Giovanni Semeraro, as classes populares “chegam à hegemonia quando se tornam dirigentes”. No entanto, conquistar a hegemonia não pode ser considerado apenas um fato político, mas uma “transformação que afeta a economia e o modo de construir o conhecimento de um país”, explica. Semeraro destaca que é dentro desse processo que se constrói a “identidade das classes populares”.

Giovanni Semeraro é graduado em Filosofia, pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e em Educação, pela Fundação Getúlio Vargas e doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professor adjunto da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Filosofia Política e Educação (NUFIPE).

Confira a seguir a entrevista, concedida por e-mail, à IHU On-Line

IHU On-Line - Em seus escritos, Gramsci dizia que, para as classes populares conquistarem a hegemonia, elas precisam passar por um processo constitutivo de sua identidade, de sua intelectualidade e por uma educação que exige a construção de um saber avançado. Essa situação proposta por ele ainda é um desafio para a Educação Popular? Que medidas são necessárias para aprimorar, atualmente, o conhecimento para as classes populares?
Giovanni Semeraro -
As classes populares chegam à hegemonia quando se tornam dirigentes. Este é um processo que não é fácil, porque significa organizar-se para sair da subalternidade e educar-se para a autodeterminação. Ser dirigente, de fato, implica possuir um pensamento próprio que não dependa de ideologias alheias. Mas, acima de tudo, significa ter uma personalidade política coerente e elaborar uma proposta de sociedade superior à vigente, capaz de convencer pelas soluções que apresenta aos problemas reais, em condições de universalizar direitos, reorganizar a economia e o Estado a favor da grande massa da população. Conquistar a hegemonia, portanto, não é só um fato político, mas também uma transformação que afeta a economia e o modo de construir o conhecimento de um país. É dentro desse amplo processo que se constrói a identidade das classes populares, de modo que elas se tornem – como dizia Gramsci - “especialistas e políticas”, ou seja, dirigentes. A Educação Popular no Brasil, em sua longa experiência, já conquistou avanços consideráveis na política e no saber. Além do processo de libertação do colonialismo, no entanto, é preciso continuar a se organizar para apropriar-se não apenas dos conhecimentos mais avançados em todos os campos, mas para aprender a reinventar o país imprimindo a marca da ética e da socialização à ciência, à política, à economia, à relação com a natureza.

IHU On-Line - Que alternativas e caminhos o senhor propõe para a consolidação de uma cidadania emancipatória? É preciso reinventar a democracia?
Giovanni Semeraro -
Mais do que “cidadania emancipatória”, que pode sugerir a inclusão (impossível) em um sistema restritivo de “democracia capitalista” que não se quer tocar, preferiria falar em “democracia que socializa” direitos e deveres, que se concretiza não apenas no momento das eleições, mas, principalmente, na distribuição dos bens materiais e simbólicos coletivamente produzidos. Para consolidar o processo democrático no Brasil, o caminho a seguir é a socialização do território, da habitação, do sistema de saúde, das instituições públicas, do conhecimento qualificado, da comunicação, da economia. Para a emancipação, portanto, não é suficiente garantir uma esfera pública aberta à “comunidade” dos “falantes”, como sugere, por exemplo, Habermas , mas é necessário, acima de tudo, a universalização dos direitos, o que permite a possibilidade até de poder falar e disputar modelos alternativos de sociedade e democracia. Isto não que dizer que se deva reinventar a democracia do nada, porque há conquistas na história e no próprio liberalismo que se precisa reconhecer e assimilar, sem permanecer nos seus limites.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que, ainda hoje, a democracia é um desafio para os socialistas. Como se aplica, a partir das idéias de Gramsci, a democracia no socialismo?
Giovanni Semeraro -
O socialismo ou é democrático ou não é socialismo. A democracia é desafio para os socialistas autoritários, o que é uma contradição, porque na prática nem socialistas eles são. Fora disso, os tais “especialistas” em democracia ignoram ou querem esquecer as extraordinárias contribuições, evidentes na história, de legiões de socialistas e comunistas em defesa da democracia e no avanço dela em todos os continentes. Na verdade, o que está faltando à democracia dos “especialistas” é a dimensão do socialismo. Pois, se formos partir das idéias de Gramsci, além de “aplicar” a democracia (supondo que exista uma fórmula) no socialismo, é necessário, acima de tudo fecundar a democracia com as perspectivas do socialismo. 

IHU On-Line - Em que medida as idéias de Gramsci ajudam na elaboração de um mundo pós-moderno? Estamos carentes de políticos como ele?
Giovanni Semeraro -
Antes de mais nada, seria preciso especificar o que se entende por pós-moderno. Se com essa expressão não muito feliz, queremos indicar o fim dos grandes discursos (das metanarrativas), das grandes promessas, da arrogância humana, da ditadura da razão, dos problemas inúteis etc.. As idéias de historicidade, de subjetividade, de falibilidade, de cultura popular, de valorização do particular, da “filologia” humana etc., presentes em Gramsci, se sintonizam com o projeto pós-moderno. Se por pós-moderno se entende a dissolução da consciência, do sujeito, da história, do partido, dos projetos, da política, da razão como tal etc., Gramsci ajuda muito a “desconstruir” este pós-moderno de marca neoliberal. Embora o quadro seja complexo, esta segunda concepção de pós-modernidade está levando à despolitização, ao relativismo, à apatia, à evasão, à indiferença, à valorização do fragmento, do imediato, ao autismo e ao intimismo, com grave perda da visão do todo, das relações sociais, da grande política, da possibilidade da revolução, da entrega à militância e aos ideais da solidariedade humana. Dentro desse horizonte, a vida humana e social se amesquinha e não se surpreende com o fato de que hoje há carência no mundo de políticos como Gramsci.

IHU On-Line - Como o senhor descreveria o "filósofo democrático" criado por Gramsci? Há alguma inspiração platônica nesse conceito, como a do filósofo legislador?
Giovanni Semeraro -
Nas pegadas de Marx, Gramsci revoluciona a política, ao defender que as classes subalternas podem tornar-se sujeitos políticos. E surpreende até os próprios marxistas, ao afirmar que “todos são filósofos”. O “filósofo democrático”, portanto, que Gramsci encarna, é o novo, revolucionário intelectual que abandona a sua posição de superioridade e separação, se reveste de humildade e se envolve com as concretas lutas populares, de onde deriva o seu conhecimento e para onde dirige seu trabalho intelectual. Não podemos esquecer que, antes de Paulo Freire , Gramsci fala de uma relação dialética, de reciprocidade e simbiose, entre o “sentir” do povo e o “saber” do intelectual, de modo a reconhecer que “todo mestre é aluno e todo aluno mestre”. De onde se explica uma outra inovação introduzida por Gramsci ao falar de “intelectual coletivo”, quer dizer, de um processo de construção do conhecimento que acontece na sociedade e que se opõe à visão elitista do saber ou à caça por superdotados. Estamos nos antípodas da tradição milenária sistematizada por Platão, que reserva a um grupo restrito de pessoas os segredos do conhecimento e a tarefa de dirigir os outros.

IHU On-Line – Ao reconstruir o pensamento marxista, de que maneira Gramsci relaciona e aprofunda as relações entre filosofia e política?
Giovanni Semeraro -
Em sintonia com Marx, que havia lançado o desafio aos filósofos de não se limitar a interpretar o mundo, mas de dedicar-se também a transformá-lo, Gramsci afirma que “a filosofia deve tornar-se política para ser verdadeira” e, ao mesmo tempo, “que a política deve tornar-se filosofia” para ter sentido e respiro de longo alcance. O filósofo, portanto, não pode deixar de ser político, assim como este ser um filósofo. Gramsci segue a lição de Marx, a partir do qual não é mais possível separar o pensar do agir, o mundo material do universo das idéias. Mas, com uma acentuação diversa de Marx, que se concentra mais nos processos econômicos, Gramsci enfatiza mais a estreita relação entre filosofia e política, concentrando o seu pensamento sobre o processo de formação da hegemonia, na análise das contradições na história do seu tempo e na formação das classes populares. Por isso, a sua reflexão se vincula organicamente ao compromisso político e à cultura. Quando a filosofia se separa desse terreno, se torna metafísica, assim como a política se torna mera ação imediata e burocrática se estiver desligada de visão filosófica de conjunto.

IHU On-Line – Qual é a relação dialética que Gramsci criou entre ciência e vida?
Giovanni Semeraro -
Essa questão está interligada às perguntas anteriores, de modo que se para Gramsci “todos os homens são filósofos”, poderíamos dizer também que todos são cientistas, pelo fato de que não é mais possível imaginar a construção da ciência separada das soluções que os homens buscam na vida real. Na sociedade hegemonizada pelas classes populares, o que deve entrar a fazer parte dos laboratórios e das pesquisas são os problemas concretos da vida humana, as necessidades reais da população e a condição do planeta, com o qual estamos descobrindo uma vinculação cada vez mais estreita. Neste sentido, quem faz ou deveria fazer ciência não é mais o cientista isolado, o gênio iluminado que inventa e patenteia seus achados. As descobertas e a construção do conhecimento são tarefas de todos e, a seu modo, o conjunto da população concorre com suas experiências, suas intuições e sinalizações que devem ser valorizadas. Também, nesse caso, é necessário universalizar as possibilidades, os instrumentos e os recursos, subtraindo-os aos interesses do capital e de grupos privados.

IHU On-Line – O senhor afirma que a filosofia da práxis, para Gramsci, tem uma concepção própria, que deve ser mantida longe tanto da “contaminação da filosofia do Iluminismo e do evolucionismo cientificista”, como do “espontaneísmo” e do “pragmatismo que constrói a filosofia ‘utilitaristicamente’ no sentido imediatista”. Em que consiste essa concepção de Gramsci sobre a filosofia da práxis? E por que ela deve ser mantida distante destas filosofias citadas?
Giovanni Semeraro -
A novidade da filosofia da práxis consiste no fato de que as massas populares deixam de ser receptáculos passivos e se tornam protagonistas da política e da construção do conhecimento. Tudo isso é inaudito na história da humanidade, sempre separada em classes pela violência e a coerção. Mais inaudito ainda é que essa nova visão de política e de filosofia não devem ser parciais e redutivas, explorando só alguns pontos que interessam a grupos privados, mas deve ser orgânica, global e ao alcance de todos. Por isso, Gramsci não nivela por baixo ao apontar a formação político-intelectual dos subalternos: o que exige deles é nada menos que o desenvolvimento de um ser humano integral que seja ao mesmo tempo político, filósofo, cientista e artista, que sabe recolher as melhores tradições no campo do saber e da vida coletiva para tornar-se criativo, livre e socializado. Isto que dizer que a filosofia da práxis não cabe apenas nos limites do Iluminismo que enaltece a razão e a individualidade, do pragmatismo que valoriza a ação pontual e a eficiência, do evolucionismo que encerra o ser humano na biologia e no naturalismo.

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