Edição 231 | 13 Agosto 2007

A redescoberta de Gramsci

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IHU Online

Para o sociólogo Luiz Alberto Gómez de Souza, não é necessário, como acreditava Gramsci nos anos 1930, substituir uma hegemonia por outra. Em entrevista à IHU On-Line, por e-mail, ele é enfático ao dizer que a sociedade pluralista e democrática deve superar a “própria idéia de hegemonia”.

Souza classificou o Brasil como um país que está se preparando para chegar ao poder com as classes populares. Como esse processo não é imediato, ele explica que muitas pessoas se decepcionaram com a “vitória de Lula, querendo que se realizasse magicamente o desejável, sem entender as limitações do possível em tempos de transição”. Sobre a atuação do governo atual, ele pondera: “Lula não se substitui aos setores populares, mas tenta abrir-lhes espaço, dentro do possível”.

Luiz Alberto Gómez de Souza é graduado em Direito pela PUCRS e pós-graduado em Ciência Política pela Facultad Latino-americana de Ciencias Sociales (Flacso), de Santiago do Chile, e doutor em Sociologia, pela Universidade de Paris Sorbonne Nouvelle. Atualmente, ele é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes. De sua vasta obra bibliográfica, destacamos A JUC: os estudantes católicos e a política (Petrópolis: Vozes, 1984. 259 p.). No sítio da IHU On-Line, podem ser conferidos artigos do sociólogo. No dia 11-05-2007, publicamos A chegada do Papa: palavras simplificadas e afirmações editadas, em 18-05-2007, Um véu de integrismo e fundamentalismo ameaça o mundo pluralista de hoje, e em 18-07-2007, Simplesmente Cristão. O material está disponível em www.unisinos.br/ihu.

IHU On-Line - Como surgiu o pensamento gramsciano no Brasil?
Luiz Alberto Gómez de Souza –
Nos anos 1960, houve uma redescoberta de Marx, até então engessado nos livros ortodoxos soviéticos. Num primeiro momento, foi o lançamento dos livros de Althusser, Pour Marx e Ler o capital. Influenciado pelo estruturalismo em voga, esse autor queria descobrir o marxismo como Teoria, um marco sem história, uma espécie de escolástica marxista. Não por acaso, teve influência entre cristãos e ex-cristãos. Marta Harnecker , sua principal discípula latino-americana, hoje em Cuba, fora dirigente nacional da JUC  chilena. Entre nós, a Ação Popular (AP) , deixava, depois do golpe, a influência personalista de Mounier  e adotava essa corrente. Alguns de nós fomos postos para fora. O curioso é que seus discípulos, na França, ocupados na leitura “científica” de Marx, não perceberam a importância de 1968, coisa de “pequeno burgueses”. Contou-nos Manuel Castells , no Chile, que quando começaram as manifestações de maio em Paris, a equipe de estudos althusseriana considerou o clima das ruas negativo para uma reflexão séria e resolveram tirar férias até uma normalização acadêmica. Faz pensar no Fabrice, personagem de Sthendal, bonapartista entusiasta, que queria estar numa batalha de seu líder e não soube ver a última, que se deu nas suas barbas, na cidadezinha belga em que se encontrava, chamada Waterloo. Uma contribuição importante de Althusser, porém, foi a idéia de sobredeterminação, valorizando o mundo das superestruturas.

Pensamento gramsciano

O pensamento de Gramsci surgiu em parte como uma reação. O Brasil fora pioneiro, antes da França, na redescoberta dele. A editora Civilização Brasileira, nos anos 1960, publicou a tradução de livros de Gramsci, coletânea parcial e censurada por Togliatti, ad usum da militância da III Internacional . O dirigente do Partido Comunista, que se dizia amigo de Gramsci, não se esforçou muito por acompanhá-lo ou ajudar a tirá-lo da prisão, onde escreveu o melhor de sua obra. Ali trabalhava sem parar, corpo chagado, de pé, a partir das poucas leituras que podia fazer, só visitado por sua cunhada russa e seu jovem discípulo, Pietro Sraffa. Mais adiante, os Cadernos do cárcere recuperariam a integralidade da obra completa.

Gramsci interessou-se pelos problemas da cultura, do poder e do estado e sobre a dualidade italiana. Uma idéia central, a hegemonia, que vinha de Lênin, foi renovada por ele. “Direção intelectual e moral da sociedade”, mundo das idéias e dos valores. Retomava o conceito de sociedade civil, que já estava em Hegel e em Marx, alongando-o para “o conjunto das organizações da assim chamada sociedade”. E ao lado colocava a coação, a partir da sociedade política. A relação sociedade civil – sociedade política, em Gramsci, se presta a diferentes interpretações. Seus textos não são completamente coerentes, mas fruto de uma reflexão rica e em transformação. Vai resgatar a história, congelada pelo estruturalismo. E a tomada do poder para ele terá duas estratégias, tiradas das teorias militares: “guerra de posições”, movimentos ainda que pequenos, na sociedade civil, e “guerra de movimento”, o avanço sobre o poder político.


IHU On-Line - Por que Gramsci chama a ditadura do proletariado de hegemonia?
Luiz Alberto Gómez de Souza –
Em primeiro lugar, Gramsci, homem do seu tempo, ainda vê o proletariado como o grande sujeito da história. As transformações da nova revolução tecnológica que vêm depois dele levam André Gorz  (Adeus ao proletariado) e outros, como Alain Touraine , a ampliar o tema do sujeito (Le retour de l’acteur). Para Gramsci, o capitalismo estava nas mãos da ditadura da burguesia, que detinha a hegemonia. Teria que ser substituído pela ditadura do proletariado, da classe, não do partido. Nisso encontrava o pensamento fecundo de Rosa Luxemburgo. Hoje, eu diria que não há que substituir uma hegemonia por outra, mas, numa sociedade pluralista e democrática, superar a própria idéia de hegemonia. Isso não podia ser pensado por Gramsci nos anos 1930.

IHU On-Line - Para ocorrer uma revolução, dizia Gramsci, é necessário compreender a as diferenças que existem entre uma sociedade e o poder político. Quais são as diferenças que ele evidencia? Essa idéia ainda é relevante nos dia de hoje, principalmente no Brasil?
Luiz Alberto Gómez de Souza –
É a distinção referida antes entre sociedade civil e sociedade política. Há que fortalecer a primeira (guerra de posições) para que a chegada ao governo seja realmente a chegada ao poder político, nos casos de sociedades civis frágeis, gelatinosas, dizia ele. Hoje, no Brasil, temos um governo que favorece (ou deveria favorecer) esse processo e ainda não é a chegada ao poder dos setores populares, mas a preparação parcial para isso, em meio a contradições e resistências do sistema. Quem não entendeu isso se decepcionou logo com a vitória de Lula, querendo que se realizasse magicamente o desejável, sem entender as limitações do possível em tempos de transição. E vemos uma extrema-esquerda míope minando o governo, em aliança inconsciente com as classes dominantes! Já acompanhei isso no Chile, onde morava de 1970 a 1973, sofrendo com a burrice suicida do MIR , da esquerda radical, que ajudou a desestabilizar o governo Allende .

IHU On-Line - No pensamento gramsciano, os sindicatos eram importantes para organizar a democracia entre o proletariado e a burguesia. Pensando no contexto atual do Brasil, os sindicatos realmente atuam como auxiliares dos sindicalizados ou passam por uma fase decadente, na qual defendem seus próprios interesses?
Luiz Alberto Gómez de Souza –
Hoje, temos uma visão mais ampla das organizações da sociedade civil. Os sindicatos, muitas vezes, estão presos à idéia de proletariado, dos operários organizados, muitas vezes corporativos ou ficam atrelados aos partidos de esquerda. Isso se viu na França em 1968, quando chegaram atrasados na rebelião dos jovens. No Brasil, o MST, por exemplo, é mais ágil que a CUT e a dialética MST. 

IHU On-Line – Gramsci sempre falou em hegemonia da classe operária, não da hegemonia do partido. Partindo dessa idéia, é correto afirmar que a partir do momento em que os partidos conquistam o poder, a classe operária o perde? Como essa relação ocorre no Brasil?
Luiz Alberto Gómez de Souza –
A grande pensadora nesse sentido foi Rosa Luxemburgo, em sua polêmica com o “Que fazer”  de Lênin e com seu vanguardismo, a partir de sua desconfiança em relação à chegada dos bolcheviques ao governo em 1917. “Ditadura do partido não, sim ditadura da classe operária”, ainda que se possa discutir hoje essa expressão. Também o jovem Trotsky, em 1905, já temia o substituvismo que chegaria com Stalin: “um partido se substitui à classe, um comitê central ao partido e finalmente um ditador ao comitê central”.

Mas não podemos dizer que quando o partido chega ao governo, a classe perde necessariamente. Isso é uma visão mecânica e não dialética. No caso do Brasil, volto ao que disse. O Governo Lula não substitui os setores populares, mas tenta abrir-lhes espaço, dentro do possível. O MST compreende isso, não o PSOL. O MST é duro na crítica e exige uma real reforma agrária, mas está pronto a sair às ruas contra ameaças de golpe. Aliás, hoje a grande mídia não esconde essa intenção e, como em 1964, temos a reedição de uma Marcha, preparada por “advogados da OAB paulista, jovens executivos da Fiesp” e “dondocas enfadadas em algum momento de suas vidas enfadonhas”, na opinião surpreendente e franca de Claudio Lembo (do PFL, ex-governador de São Paulo), no portal Terra.

IHU On-Line - Gramsci afirma que a classe operária deve ter várias organizações para conquistar o poder, e não pode conquistá-lo através de um só partido. Pensando no caso brasileiro, faltam organizações para reivindicar os direitos da classe operária? Como o senhor avalia as organizações que atuam no país?
Luiz Alberto Gómez de Souza –
Quando Gramsci fala de várias organizações (associações, movimentos), não se refere necessariamente a vários partidos. Aliás, ele fora o fundador o Partido Comunista Italiano e crítico do Partido Socialista do qual saíra. Mas, hoje, podemos dizer que a pluralidade partidária é necessária à democracia, assim como a aliança de partidos da esquerda com partidos de centro, para enfrentar a direita. A extrema esquerda radical, principista e abstrata, não entende isso.

Não se trata de defender apenas os direitos da classe operária, mas dos excluídos e dos vários segmentos progressistas. Temos muitas organizações pelo país afora, no mundo rural e urbano, movimentos sociais e, no caso de Igreja Católica, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e as pastorais sociais, movimentos de bóias-frias, mulheres, jovens, ecologistas, negros, índios etc. Há que vitalizá-los sempre mais. Esses movimentos não se resumem ao MST, e são mais importantes do que pensam alguns analistas que não percebem o dinamismo do Brasil real.

Termino dizendo que há que tomar o que Gramsci tem de estimulante e fazer, com ele, o que fez com Marx e Lênin. Também recuperar outros pensamentos. Hoje, estamos conscientes das limitações e das virtualidades do marxismo e redescobrimos as grandes intuições do personalismo comunitário de Emmanuel Mounier, revisitando idéias que nos foram decisivas há meio século, junto com Teilhard de Chardin  e L. J. Lebret , sem ortodoxias ou “pensamentos corretos”. Como queria Marx, há que subir do abstrato (um pensamento rígido e ideológico) ao concreto da realidade. E aí encontramos as “certezas difíceis” (Mounier) e em transformação, num momento em que os paradigmas fechados felizmente precisam cair. Gramsci e Rosa Luxemburgo podem ajudar-nos, desde que não os transformemos em ícones religiosos.

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