Edição 231 | 13 Agosto 2007

Democracia dos trabalhadores, essencial para a emancipação humana

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IHU Online

Para vencer o capitalismo, é necessário “a constituição de um novo proletariado, um novo movimento operário global, composto pela maioria da humanidade que trabalha, a fim de barrar a barbárie que vem sendo induzida pelo capital”. A consideração é do professor Marcos Del Roio, em entrevista concedida à IHU On-Line, por email. Del Roio acredita que para cessar as conseqüências negativas do mundo capitalista, faz-se necessária a construção de uma democracia dos trabalhadores, a qual, ele considera “essencial” para a “emancipação humana”.

Marco Del Roio é formado em História e Ciências Sócias, pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Ciências Políticas pela Unicamp e doutor na mesma área pela USP. Especializou-se em Política Internacional na Universidade de Milão e cursou pós-doutorado na mesma universidade e na Universidade de Roma Tre. Atualmente, ele é professor de Ciências Políticas da UNESP. Eis a entrevista:

IHU On-Line - No que se refere a materialidade do capital, em que medida Gramsci foi influenciado por Lênin?
Marcos Del Roio -
Lênin passou a ser um ator conhecido de Gramsci de forma mais efetiva
apenas depois de 1923. O que pode ser percebido é que Gramsci incorporou as reflexões de Lênin e dos bolcheviques sobre o desenvolvimento capitalista, particularmente sobre o problema do imperialismo. A preocupação com os temas do capital financeiro, por um lado, e com as periferias, por outro, mostram como Gramsci tinha clareza dos nexos essenciais que delimitam o imperialismo.

IHU On-Line - De que maneira Gramsci, a partir das idéias de Lênin, renova o conceito de hegemonia?
Marcos Del Roio -
A experiência de Gramsci na fase dos Conselhos de Fábrica de Turim, do periódico L’Ordine Nuovo, sugere como ele percebia que uma nova ordem social deveria brotar, tendo o processo produtivo como fundamento, e como a classe operária deveria ser a organizadora dessa nova ordem. A noção de hegemonia propriamente dita surge a partir do contato com o pensamento de Lênin. Para esse autor, a hegemonia era principalmente política, pois tratava-se de condensar uma aliança social que levasse a classe operária ao poder. No entanto, para o último Lênin, aquele que deu início ao período da NEP, a questão da hegemonia era mais complexa, na medida em que agora se tratava de garantir o consenso social na base do novo Estado, de criar os fundamentos econômicos-sociais do socialismo e a sua supra-estrutura político-cultural. A noção de hegemonia, já com Lênin, se amplia pra todas as dimensões da vida social. Esse é o ponto de partida de Gramsci que, ao pensar formas sociais mais avançadas do imperialismo, nota que a luta pela hegemonia do trabalho, desde logo, demanda ampliação das frentes de constituição da hegemonia. A luta deve se postar tanto na produção e na cultura quanto na instância política propriamente dita. Não é correto, portanto, dizer, como fazem alguns, que o conceito de hegemonia em Lênin e Gramsci são substancialmente diferentes.

IHU On-Line - Como se apresenta e se relaciona a sociedade civil e a sociedade política em Gramsci?
Marcos Del Roio -
A diferenciação orgânica entre sociedade civil e sociedade política (ou Estado) é obra da concepção liberal-burguesa e do modo burguês de organizar a vida social. A rigor, para Gramsci, a distinção entre sociedade civil e sociedade política é meramente metodológica, depende de como se aborda a totalidade social contraditória em desenvolvimento. Assim, por sociedade civil pode ser entendida tanto as relações sociais de produção e suas supra-estruturas imediatas como a totalidade social. Do mesmo modo, Estado pode ser entendido como a máquina burocrática e coercitiva “pública”, como Estado ampliado. Importante notar também o equívoco em que deslizam alguns interpretes ao suporem que o conceito de sociedade civil em Gramsci seja fundamentalmente diferente daquele de Marx e que seria uma dimensão apenas das supra-estruturas.

IHU On-Line - O que a derrota do fascismo deveria ter significado para a Itália?
Marcos Del Roio -
Desde o primeiro momento, Gramsci se empenhou em compreender o fenômeno fascista pra poder combatê-lo. Essa compreensão se aprofundou na medida em
que o próprio fascismo se consolidava como ditadura de classe da burguesia. O fascismo teria surgido como uma reação burguesa diante do risco de que a revolução socialista alcançasse a Itália. Diante da debilidade da sua hegemonia, a burguesia precisara lançar mão do movimento de massas da pequena burguesia, a fim de derrotar a classe operária e recompor a sua hegemonia. De todo modo, avaliava Gramsci, o fascismo reproduzia apenas compromissos com o passado e defendia interesses parasitários. As tentativas de incorporação de método científico de trabalho e de modernização eram vistos como de base frágil. Pelas persistentes e agravadas contradições internas, Gramsci supunha que, na Itália, a queda do fascismo implicaria a queda do próprio capitalismo. Como se sabe, isso não ocorreu. Quando o fascismo ruiu, criou-se na Itália uma situação democrática que não redundou na transição socialista, mas na recomposição do poder burguês sob a forma de uma república democrática parlamentar.

IHU On-Line - Em que consistiu a sugestão de Gramsci para que o americanismo, o fordismo e a organização científico-racional do trabalho constituíssem a forma de reprodução do capital numa época imperialista?
Marcos Del Roio -
Gramsci sugere que o assim chamado, americanismo-fordismo poderia ser uma forma de o capital combater a lei da tendência histórica ao declínio da taxa de acumulação. Isso ocorreria pelo aumento da taxa de exploração do trabalho por meio do gerenciamento científico da produção e por meio da adequação do trabalhador aos novos métodos de trabalho. O amaricanismo-fordismo, porém, também agravaria as contradições capitalistas, por criar um novo trabalhador coletivo em condições de refletir sobre a sua condição operária e, assim, gerar uma subjetividade antagônica a própria dinâmica do capital. Ademais, Gramsci supunha também que o amaricanismo-fordismo, por conta da sua força econômica, tenderia a se sobrepor a Europa, que permanecia atrelada a diversos compromissos e interesses acumulados historicamente, agravando as suas contradições. Ao fim, note-se, Gramsci pensava nas contradições que tornariam possíveis a retomada do processo revolucionário na Europa e também na América.

IHU On-Line - Como o capital influencia e impede a construção de um novo movimento operário?
Marcos Del Roio -
A classe operária internacional que entre 1917-1921 se rebelou contra ordem e fez a revolução socialista, que, ao fim, ficou reclusa apenas na Rússia, foi destruída pela ação do capital. Isso ocorreu de duas maneiras: pela guerra e pela reorganização do processo de produção do capital. O americanismo-fordismo, tal como estudado por Gramsci, foi um esforço refletido pra combater a queda tendencial da taxa de acumulação e de reordenar a força de trabalho de modo a ser mais produtiva. Com a desqualificação do saber operário e o novo enquadramento da força de trabalho, a massa de trabalhadores é decomposta enquanto classe e   movimento político operário. Como um trabalho de Sísifo, a luta social dos trabalhadores recomeça, em busca de organização, agregação e consciência, a fim de compor uma subjetividade antagônica materializada frente ao capital.

A chamada reestruturação produtiva e a mundialização do capital, em uma palavra o imperialismo atual, procederam a decomposição, em grande medida, da classe operária fordista, que havia se formado na fase anterior e que começava ameaçar a acumulação capitalista com taxas declinantes após a expansão do pós-1945. Por meios variados, hoje, o capital tenta impedir a formação de uma novo movimento operário: pelas alterações gerenciais do trabalho, pela inovação tecnológica, pela propaganda, pela ideologia, pela repressão policial, pela cooptação de lideranças políticas etc., armas aliás tradicionais, apenas que mais sofisticadas.

IHU On-Line - Por que o senhor afirma que a constituição do proletariado em classe é a única possibilidade de impedir que o capital se transforme no sujeito único da história e coloque a sobrevivência da humanidade em risco?
Marcos Del Roio -
O virtual esfacelamento do movimento operário, no decorrer dos últimos 30 anos como parte do empenho do capital na recomposição de suas taxas de acumulação, coincide com uma ação destrutiva sobre a força de trabalho e sobre o ambiente. Assim, uma ação histórica orientada pelo interesses do capital tende a devastar o ambiente terrestre e a vitimar grande parcela da humanidade. A saída difícil, mas necessária, é a constituição de um novo proletariado, um novo movimento operário global, composto pela maioria da humanidade que trabalha, a fim de barrar a barbárie que vem sendo induzida pelo capital na sua desesperada ação para se preservar indefinidamente.

IHU On-Line – É possível, no mundo atual, construir a democracia dos trabalhadores?
Marcos Del Roio -
A construção de uma democracia dos trabalhadores é a condição mesma e a forma essencial de luta contra a barbárie e pela emancipação humana. Não é tarefa simples e seus meios não estão predeterminados, mas tem que partir de princípios estabelecidos anteriormente pela tradição de luta revolucionária, como o auto-governo, a autogestão, o antagonismo frente o capital. Essa democracia dos trabalhadores é um aspecto constitutivo e distintivo de uma revolução socialista internacional, que, por sua vez, é o meio possível de reverter a barbárie tecnológica e a catástrofe ambiental, que avançam sobre a humanidade.

IHU On-Line - O que o senhor destacaria ou apresentaria como sendo o “Moderno Príncipe”, na atualidade?
Marcos Del Roio -
Muito se questiona sobre o sujeito e a forma de organização da luta contra o capitalismo no mundo de hoje. Quando Gramsci formulou a hipótese do Príncipe Moderno como expressão do movimento operário em fase de proposição da hegemonia, tê-lo como analogia do Príncipe de Maquiavel, obra que expressou um importante e decisivo momento da história italiana. Segundo Gramsci, o Príncipe de Maquiavel seria um líder militar com condições de liderar um exercito formado por camponeses cultivadores com objetivo de expulsar os franceses e germânicos da Itália e de anular o poder da Igreja.

Era imprescindível, então, um estreito vínculo entre liderança política-militar-intelectual e massas populares. Essa experiência não aconteceu naquele momento histórico, mas exemplos bem-sucedidos de relação estreita entre massas e intelectuais foram a Revolução Francesa e a Revolução Russa. O sucesso da revolução socialista dependia então de uma relação muito particular entre intelectuais e massa, entre cultura e trabalho manual. O Príncipe Moderno só poderia ser um organismo que surgisse da luta de classes, do amadurecimento dos trabalhadores como classe operária, da sua capacidade de gerar os seus próprios intelectuais.

Esse organismo se constituiria a partir da classe, mas sempre como parte da classe e seria o embrião de uma nova forma de viver, um instrumento de execução de uma reforma moral e intelectual de longo alcance, necessariamente materializada em novas formas de produzir a vida material. Esse organismo em desenvolvimento, a um certo ponto, colocaria, na ordem do dia, a superação do capital e a hegemonia do trabalho, além da democracia dos trabalhadores.

As instituições sociais da classe operária se enfraqueceram e mudaram a sua inserção no mundo de hoje. O Príncipe Moderno foi derrotado como fora o projeto de Maquiavel.  Nas condições de hoje, quando é muito incipiente a formação desse novo movimento operário, dessa humanidade que se emancipa pelo trabalho, o organismo coletivo de massa, que poderá ser um Príncipe do novo século, ainda está longe de ter o seu perfil discernível. Mas terá que ser bem mais que os partidos operários comunistas do século XX. Esse organismo se desenvolve conforme a classe se desenvolve e a luta avança.

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