Edição 231 | 13 Agosto 2007

O desenvolvimento intelectual como formador de seres humanos livres e sujeitos da história

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De acordo com Jaime Giolo, a burguesia divide a humanidade entre “os que têm direitos intrínsecos e os que têm direitos, mas que, para usufruí-los, terão que conquistá-los”. Nesse contexto, ele afirma que Gramsci incentiva a formação intelectual dos operários, pois eles “deveriam combater nesse terreno e alçar essa classe social ao nível da filosofia da práxis”, o que, segundo o italiano, seria o “início do processo de transformação de seres dominados em sujeitos da história”.

Jaime Giolo é graduado em Filosofia, pela Universidade de Passo Fundo, mestre em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, ele é professor titular da Universidade de Passo Fundo, atuando junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação. É também coordenador geral de avaliação institucional e dos cursos de graduação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

Eis a entrevista com Giolo, concedida por e-mail à IHU On-Line:

IHU On-Line - Como Mário Maestri e Luigi Candreva, em Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário  descrevem o momento em que Gramsci foi traído pelos companheiros da esquerda?
Jaime Giolo -
Os autores citados mencionam, na verdade, três traições. A primeira deu-se em setembro de 1920, quando o nome de Gramsci foi rejeitado como candidato às eleições administrativas de outubro. Na ocasião, Gramsci militava, como toda a esquerda italiana, ainda no seio do Partido Socialista (o Partido Comunista só seria fundado em 21 de janeiro de 1921), organismo no qual seus amigos Palmiro Togliatti e Umberto Terracini  dominavam a seção socialista. Gramsci havia sido o grande mentor dos Conselhos de Fábrica, instituição, segundo ele, capaz de dar ao operariado a motivação necessária para ascender da consciência de assalariado à consciência de produtor, fazendo-o, dessa forma, cumprir sua missão histórica (revolucionária). Os Conselhos de Fábrica, com efeito, foram uma experiência organizacional dos trabalhadores de grande impacto e lhes permitiu ocuparem e dirigirem, entre agosto e setembro de 1920, grande parte das empresas industriais do norte da Itália. Negociações mal feitas e debilidades políticas da esquerda favoreceram a retomada das fábricas pelos donos do capital. Gramsci, além de atacado pela direita, sofreu também o ônus do sombreamento no seio de sua própria agremiação política e, nela, de seus companheiros mais próximos (Togliatti e Terracini).

Palmiro Togliatti protagonizou também a segunda traição, em 1926. Em 14 de outubro desse ano, Gramsci, membro do Parlamento Italiano e Secretário Geral do Partido Comunista Italiano (PCI) escreveu uma carta, em nome do PCI, ao Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) , condenando as brigas internas do partido soviético, sobretudo a perseguição iniciada por Stalin, Bukharin , Rikov  e Tomsky  contra Trotsky, Zinoviev  e Kamenev . No essencial, Gramsci afirmava que os últimos foram mestres dos comunistas italianos e deveriam ter lugar na política soviética. A carta foi enviada a Palmiro Togliatti, representante italiano na Internacional Comunista em Moscou, para que este a repassasse ao Comitê Central. Togliatti entregou a carta apenas para Stalin, obstruindo a esperança de Gramsci de estabelecer o debate no seio do PCUS e atraindo sobre ele a raiva do stalinismo.

A terceira traição veio novamente com Togliatti e outros integrantes do PCI (Grieco e Tasca ). Em 1927, quando Gramsci estava já preso pelo regime fascista, esses companheiros escreveram-lhe uma carta recomendando que tivesse comportamento duro perante os tribunais. No ano seguinte, uma nova carta, assinada por Grieco e expedida de Moscou, tratava de assuntos de política internacional. As cartas acabaram passando a mensagem velada aos controladores do cárcere de que Gramsci era, de fato, como a acusação sustentava, um homem perigoso e de grande influência na política interna e externa. Maestri  e Candreva  asseguram que essa foi uma tática usada por epígonos do PCI e da Internacional Comunista para manter Gramsci preso por muito tempo, tendo em vista ser ele um potencial articulador da esquerda contra a liderança que Stalin estava assumindo no contexto do comunismo internacional.

É decisivo considerar que a menção crítica a essas traições internas do partido e da esquerda (aliás, presentes em todas as organizações sociais) não deve obscurecer o fato de que o verdadeiro algoz e o terrível malfeitor de Gramsci e do operariado italiano foi o regime fascista, liderado por Benito Mussolini  e representante da alta burguesia, da aristocracia e demais forças conservadoras da época.
 
IHU On-Line - Gramsci propôs um novo tipo de educação, que desenvolvesse intelectuais na classe operária. Essas idéias correspondem à pedagogia crítica e à educação popular, teorizada por Paulo Freire? Que relações podemos traçar entre Gramsci e Freire? De que maneira as idéias de Gramsci influenciaram Paulo Freire, no Brasil?
Jaime Giolo -
Gramsci foi marxista e, como tal, considerava que o desenvolvimento intelectual, de base racional e científica, é decisivo para a formação de seres humanos livres e sujeitos da história. Além de tornar os seres humanos livres e sujeitos da história, a razão dialética revela a natureza humana objetiva (biológica e social), da qual se extrai o princípio moral da igualdade entre todos. Nenhuma outra cosmovisão, antes ou depois dele, sequer se aproximou do marxismo no implacável propósito de submeter tudo aos critérios da razão e do método científico. Por isso, o marxismo foi e é tão enfático na crítica da religião e de todas as interpretações que lançam mão de elementos místicos, metafísicos, esotéricos etc., para explicar a realidade. Por isso, principalmente, o marxismo fez a crítica à ideologia, que é o núcleo da justificação do domínio de classe e da exploração de muitos por poucos. A crítica à ideologia conduz o marxismo ao cerne da ciência social, pois, a partir dela, se abre e se constrói a crítica radical de toda a estrutura social. Tal crítica, que é a crítica da dominação, lança também as bases da ação libertadora: ação política e ação pedagógica; ação político-pedagógica ou ação pedagógico-política. Note-se que a proposta educacional marxista e demais propostas surgidas da esquerda sempre pretenderam desalojar a dominação que se instaura, para além da prática objetiva externa, também na mente das pessoas. Educar é, pois, sinônimo de libertar quando a educação opera segundo a ciência e a razão dialética e, assim, destrói os esquemas mentais onde a classe dominante sustenta a sua hegemonia.

Gramsci compreendeu que o senso comum, embora dotado de um núcleo de racionalidade (bom senso), é, na realidade, um baú onde estão guardadas coisas novas e velhas, idéias de outros tempos e outros lugares, preconceitos, ilusões, misticismo. Nesse campo sincrético, a ideologia dominante lança suas sementes em solo fértil e instala facilmente o poder da dominação. A formação intelectual dos operários deveria combater nesse terreno e alçar essa classe social ao nível da filosofia da práxis, o início do processo de transformação de seres dominados em sujeitos da história. É apenas o início do processo de transformação (a base da nova hegemonia), porque a transformação global se dá pela revolução, ou seja, pela reconfiguração das relações de produção, a partir daqui, sob o controle de quem, de fato, trabalha e produz a vida material de toda a sociedade.

Entre Gramsci e Paulo Freire, há cruzamentos claros, dados pela vinculação de ambos a projetos de esquerda. Paulo Freire, entretanto, não era marxista e nem leu Gramsci na sua formação intelectual. Leu, por certo, mais tarde, quando sua contribuição pedagógica já estava dada. Paulo Freire provém de um meio intelectual cristão, um cristianismo que se tornou progressista pela apropriação de teses fenomenológicas e existencialistas e por conviver com o mundo do trabalho por meio da Ação Católica (JUC, JEC). Também por conviver, em alguns aspectos, com movimentos e partidos de esquerda. Paulo Freire, tal como Gramsci, percebeu que a mentalidade popular era hospedeira das idéias e princípios morais, políticos e econômicos da classe dominante. A transformação dessa realidade seria feita por um processo dialógico, chamado pelo autor de conscientização. Essa conscientização torna o ser humano sujeito por meio da prática do diálogo e pela incorporação de instrumentos lingüísticos que possibilitam a leitura do mundo (alfabetização). Em Paulo Freire, a razão, a ciência e a revolução não estão claramente articulados e não têm a importância que têm em Gramsci. Os sujeitos populares de Paulo Freire articulam-se socialmente em comunidades eclesiais de bases ou grupos simples de destinação diversa (econômica, cultural, desportiva, política), típicos do ambiente rural e das periferias urbanas. São sujeitos alfabetizados, mas não propriamente intelectualizados. Os sujeitos de Gramsci são os operários urbanos ou o campesinato rural, articulados em Conselhos de Fábrica, sindicatos e, sobretudo, partidos políticos, indivíduos intelectualizados e preparados para tomar o controle geral da sociedade.

IHU On-Line - A necessidade de criar uma cultura na classe trabalhadora, segundo Gramsci, era fundamental para demonstrar que os valores da burguesia não eram os desejáveis da sociedade. Nesse sentido, alguns operários tornam-se intelectuais, e lutam pelas suas idéias. Esse contexto não lhe parece contraditório, uma vez que os operários, depois de intelectualizados, também passam a querer impor os seus valores como os desejáveis da sociedade?
Jaime Giolo -
Os valores da burguesia são altamente questionáveis porque, no fundo, eles repartem a humanidade entre os que têm direitos intrínsecos e os que têm, em tese, direitos, mas para usufruí-los terão de conquistá-los (o bom burguês diria: tem de merecê-los). E o fato é que, mantidas as regras do jogo, jamais os conquistarão (os merecerão). A burguesia não é composta por um grupo humano mau e, por isso, dominador; assim, também as classes populares não são compostas por pessoas boas e ingênuas e, por isso, passadas para trás. A burguesia é tão somente a classe social, que maneja e controla a economia no contexto do capitalismo, regime que, por natureza, concentra a propriedade e a renda. Ora, em qualquer sistema, mas de modo especial no capitalismo, quem maneja a economia tem tudo a seu favor (política, cultura, dignidade etc.), e quem está excluído da economia não consegue nada. Ocorre que quem opera a economia capitalista precisa, por razões estruturais, dominar o trabalho de quem está do outro lado e, até certo ponto, manter uma parte da população na marginalidade. Os valores que são construídos e defendidos, com unhas e dentes, por essa classe, são injustos e impróprios para quem mantém uma mirada intelectual que contemple a sociedade como um todo. Essa mirada intelectual mais ampla (a que contempla a sociedade como um todo e que, por isso, merece ocupar o lugar daquela que contempla apenas uma classe) só pode ser assumida e implantada pela ascensão política dos que são sistematicamente mantidos do lado de fora e ela somente se realiza de forma plena quando as relações materiais de produção forem também alteradas (revolucionadas). Enquanto as condições materiais de produção se mantiverem inalteradas, a contradição mencionada na pergunta é sempre possível. Um operário que se intelectualiza adquire condições de trocar de classe social e, em muitos casos, é isso o que acontece. Esse intelectual, via de regra, muda também de cosmovisão. Deduz-se disso, que não vale a pena intelectualizar as classes populares? Nada mais burguesa do que essa tese, pois ela se destina a manter as coisas como estão. Se é difícil mudar uma formação social mesmo intelectualizando as classes populares, sem isso essa possibilidade será bem mais remota.

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