Edição 469 | 03 Agosto 2015

O grito da terra nos ecos da ciência. Laudato Si é a “Rerum Novarum de 2015”

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João Vitor Santos e Ricardo Machado | Tradução: Walter O. Schlupp

Michael Czerny, que integrou a equipe que auxiliou Bergoglio na redação da Encíclica, comenta o processo de construção do documento apostólico

O pós-modernismo da Laudato Si’, no sentido de superar uma racionalidade tipicamente moderna, reside, entre tantos fatos, na lógica que se nega a opor ciência e religião, respeitando as distintas naturezas de cada uma das correntes de pensamento. “O ponto de partida é escutar espiritualmente os resultados da melhor pesquisa científica em matéria de ambiente, disponíveis hoje, ‘deixando-os tocar-nos profundamente e fornecer uma base concreta para o itinerário ético e espiritual subsequente’. A ciência é a melhor ferramenta pela qual podemos ouvir o grito da Terra”, argumenta Michael Czerny, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“Questões extremamente complexas e urgentes são abordadas, algumas das quais são objeto de acalorado debate — como as mudanças climáticas e, principalmente, suas causas. O objetivo da encíclica não é intervir no que é da responsabilidade dos cientistas, menos ainda verificar exatamente de que forma as mudanças climáticas são consequência da ação humana”, aponta Czerny. Em sua opinião, as exigências de nosso tempo, a Crise Ecológica a que Bergoglio se refere na Encíclica, levam-nos a descobrir que perspectivas diferentes de mundo acabam se interligando quando se analisam os desafios de forma complexa. “As riquezas da fé e da tradição espiritual, a seriedade da investigação científica, os esforços concretos em diversos níveis de governo e da sociedade civil, a contribuição especial de cooperativas e organizações populares, todas visando um desenvolvimento equitativo e sustentável”, explica. Para Czerny, este texto de Bergoglio olha para a conjuntura instável do presente, desde a perspectiva do Evangelho e da fé cristã. “É a Igreja procurando evangelizar o Povo de Deus, ao enfrentarmos as maiores dificuldades, os mais difíceis obstáculos, na nossa jornada rumo ‘à vida, à vida em plenitude’.”

Michael Czerny, jesuíta canadense, foi fundador e primeiro diretor do Centro Jesuíta para a Fé Justiça Social, em Toronto, de 1979-1989. Depois atuou como diretor do Instituto de Direitos Humanos da Universidade Centro Americana – UCA, em El Salvador, quando, em 1989, um esquadrão militar salvadorenho assassinou os jesuítas Ignacio Ellacuría, Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Joaquín López y López, Amando López e Juan Ramón Moreno, além de uma trabalhadora doméstica, Elba Ramos, e sua filha, Celina. De 1992 a 2002, Czerny serviu como secretário de Justiça Social da Cúria Jesuíta e, posteriormente, como diretor-fundador-coordenador da Rede African Jesuit Aids – AJAN (na sigla em inglês) até 2010. 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como foi o trabalho de preparação da Encíclica Laudato Si’? Como foi feita a escolha de temas e abordagens que emergem do documento?

Michael Czerny - O primeiro projeto foi feito pelo cardeal Turkson  com a sua equipe. Depois eu, com ajuda de alguns, trabalhei nele. Em seguida, com alguns teólogos, fiz um terceiro projeto, enviando cópia à Congregação para a Doutrina da Fé,  à segunda seção da Secretaria de Estado e ao teólogo da Casa Pontifícia, pedindo que o estudassem bem para não dizer ‘tolices’.

 

IHU On-Line - Como se dá a relação entre ciência e religião na Laudato Si’?

Michael Czerny - O ponto de partida é escutar espiritualmente os resultados da melhor pesquisa científica em matéria de ambiente, disponíveis hoje, "deixando-os tocar-nos profundamente e fornecer uma base concreta para o itinerário ético e espiritual subsequente". A ciência é a melhor ferramenta pela qual podemos ouvir o grito da Terra. Questões extremamente complexas e urgentes são abordadas, algumas das quais são objeto de acalorado debate — como as mudanças climáticas e, principalmente, suas causas. O objetivo da encíclica não é intervir no que é da responsabilidade dos cientistas, menos ainda verificar exatamente de que forma as mudanças climáticas são consequência da ação humana. O Santo Padre nos alertou para isso em 15 de janeiro de 2015 em seu voo de Sri Lanka para as Filipinas. Na perspectiva da Encíclica — e da Igreja — é suficiente dizer que a atividade humana é um dos fatores que explicam a mudança climática. Temos, portanto, uma séria responsabilidade moral de fazer tudo ao nosso alcance para reduzir o nosso impacto e evitar os efeitos negativos sobre o ambiente e sobre os pobres. 

 

IHU On-Line - Na elaboração da Encíclica, o Papa Francisco consultou cientistas. Como eram esses encontros? Teólogos e religiosos da Santa Sé se reuniam diretamente com cientistas? Quais eram os pontos de maior divergência e de maior consenso?

Michael Czerny - Desde o início, a Encíclica Laudato si’, "Sobre o Cuidado da Casa Comum", leva ao diálogo todas as pessoas e povos, todas as instituições e organizações que compartilham essa mesma preocupação de "nossa casa comum." A situação mundial nos leva a descobrir que perspectivas diferentes, porém importantes, estão cada vez mais interligadas e complementares: as riquezas da fé e da tradição espiritual, a seriedade da investigação científica, os esforços concretos em diversos níveis de governo e da sociedade civil, a contribuição especial de cooperativas e organizações populares, todas visando um desenvolvimento equitativo e sustentável.

 

IHU On-Line - Quais são as bases teológicas da Laudato Si’? Qual o conceito central da Encíclica e qual a origem desse conceito?

Michael Czerny - O significado de Laudato si’ não é primeiramente “verde” ou de “ecologia católica”. Em vez disso, é a mais recente da série de encíclicas que desenvolveram a Doutrina Social da Igreja desde a Rerum Novarum  do Papa Leão XIII, em 1892. De fato, Laudato si’ pode ser lida como a "Rerum Novarum de 2015". Como as encíclicas sociais anteriores, lança a luz eterna do Evangelho, da fé cristã, sobre as circunstâncias desafiantes e cambiantes dos nossos temas. É a Igreja procurando evangelizar o Povo de Deus, ao enfrentarmos as maiores dificuldades, os mais difíceis obstáculos, na nossa jornada rumo “à vida, à vida em plenitude” (Jo 10,10). 

 

IHU On-Line - O senhor já declarou estar impressionado com o trabalho da equipe que fez a encíclica. Mas quem é essa equipe? Poderia nos relatar detalhadamente como foi esse trabalho? Qual era a dinâmica?

Michael Czerny - Além de todos os que contribuíram, entre editores e revisores, também há tradutores e outras pessoas envolvidas no processo de dar a sua forma final ao texto. Que o Senhor, que conhece a todos pelo nome, os abençoe generosamente pelos seus esforços.

 

IHU On-Line - O Cardeal Turkson preparou o primeiro esboço da Encíclica. Como foi esse trabalho? Quais as mudanças mais significativas que o documento sofreu desde a primeira até a última versão? Havia pontos de divergências? Quais?

Michael Czerny - O “pai” da encíclica é claramente o Papa Francisco. O processo foi de diálogo e de consulta, de escrita e reescrita. As notas de rodapé testemunham as numerosas e variadas contribuições, desde os seus predecessores São João Paulo II  e o Papa emérito Bento XVI,  passando por muitas Conferências Episcopais, bem como o “amado” patriarca Bartolomeu,  pensadores e escritores, tanto antigos como modernos.

 

IHU On-Line - Que desafios Laudato Si’ deixa para católicos e não católicos?

Michael Czerny - O primeiro desafio, que é realmente um convite, é ler Laudato si’ lenta e refletidamente, do início ao fim, não uma, mas várias vezes.

 

IHU On-Line - Como se deram as discussões com outras religiões na composição do documento? Qual a importância do diálogo inter-religioso na questão ecológica revelada pela Laudato Si’?

Michael Czerny - Uma das duas orações com que a Encíclica termina é uma oração para a nossa Terra, que podemos partilhar com todos aqueles que acreditam em um Deus criador. "Traga cura sobre nossas vidas, para que possamos proteger o mundo e não depredá-lo, para que possamos semear beleza, não poluição e destruição."

 

IHU On-Line - Um dos pontos que chamam atenção nesta Encíclica são as inúmeras referências a documentos de conferências episcopais. Qual o significado? Como foi esse trabalho de busca por essas referências?

Michael Czerny - A encíclica reúne, por isso, o pensamento do Papa Francisco, que já foi manifestado na sua primeira homilia enquanto pontífice, a 19 de março de 2013, com as contribuições de bispos e conferências episcopais, teólogos e cientistas, tradição católica e contribuições ecumênicas.

 

IHU On-Line - O senhor declarou certa vez que o Papa Francisco não deve produzir uma encíclica que trata especificamente da pobreza. Por quê? Como esse tema aparece na Laudato Si’?

Michael Czerny - Em dezembro de 2013, é verdade, eu não esperava o Papa Francisco escrever uma encíclica sobre o tema da pobreza, porque a Igreja ainda está digerindo a grande encíclica de 2009 Caritas in veritate, de Bento XVI. Em São Francisco de Assis, segundo Laudato Si’, "se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior" (n. 10). 

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