Edição 469 | 03 Agosto 2015

Laudato Si’ para além da COP 21

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Leslie Chaves e João Vitor Santos | Tradução Luis Sander

Jennifer Morgan entende que a Encíclica reorganiza o debate em torno das questões ambientais. Como resultado, leva a discussão para além de reuniões de cúpula

Não é ao acaso que o Papa Francisco preparou a Encíclica Laudato Si’ para ser divulgada meses antes do encontro da COP 21, que ocorre em dezembro, em Paris. Na ocasião, países signatários de acordos internacionais voltam à mesa para discutir alternativas a fim de minimizar os impactos da ação do ser humano no meio ambiente. Jennifer Morgan, especialista em ralações internacionais, especificamente nas questões acerca de acordos climáticos, reconhece que a Encíclica terá grande influência na reunião de dezembro. “Ela destaca a oportunidade que a COP 21 dá às pessoas responsáveis pela tomada de decisões para que emitam um sinal para o mundo de que compreendem que as coisas têm de ser feitas de maneira diferente agora”, destaca.

Entretanto, acredita que o documento apostólico tem uma função que vai além de pautar o debate desses grandes encontros internacionais. “A Encíclica vai muito além da reunião da COP 21 na medida em que realmente envolve a comunidade de fé em geral de uma forma que impacta o cotidiano, nas decisões em nível local e nacional”, destaca, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Ou seja, para a especialista, é um estímulo para uma reflexão geral sobre a ética na relação com o Planeta. Parte da ideia de repensar as atitudes de cada um, de pequenos grupos e de governos locais. “Laudato Si’ coloca as questões ambientais em um novo lugar, um lugar que tem a ver com o cerne de nossa humanidade e nossa moralidade”.

Ao longo da entrevista, Jennifer ainda analisa os recentes acordos internacionais, as dificuldades e caminhos para a popularização do uso de fontes de energia limpa e o desafio da descarbonização em países ricos e naqueles em desenvolvimento. “Há uma boa compreensão e aceitação de que os países desenvolvidos têm condições de fazer e deveriam fazer mais do que os países em desenvolvimento. Está claro que há necessidade de um forte pacote de apoio para os países em desenvolvimento, para que eles possam se adaptar aos impactos da mudança climática e adotar um caminho para o desenvolvimento com níveis mais baixos de carbono”, indica.

Jennifer Morgan é diretora do Climate Program at the World Resources Institute (Programa de Clima do Instituto de Recursos Mundiais). Antes de ingressar no Instituto, trabalhou na Third Generation Environmentalism - E3G, como diretora de Mudança Global do Clima. Também atuou no Programa de Mudança Global do Clima do World Wide Fund for Nature – WWF (Fundo Mundial para a Natureza). A carreira de Jennifer também inclui trabalhos para a Rede de Ação US Climáticas, Fundação Robert Bosch, Conselho Empresarial Europeu para a Energia do Futuro Sustentável e para o Ministério do Meio Ambiente alemão. É bacharel em Artes pela Universidade de Indiana, em Ciência Política e Estudos Germânicos, tem mestrado em Artes pela Escola de Serviço Internacional da American University e em Relações Internacionais.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - É possível dizer que a questão do aquecimento global está efetivamente na agenda das relações internacionais? Por quê? O que possibilitou a situação?

Jennifer Morgan - Sim, é possível dizer que o aquecimento global está na agenda das relações internacionais. Isso se deve a uma série de fatores. Em primeiro lugar, a reunião sobre o clima em Paris , no final de dezembro, é um marco importante, que exige decisões dos chefes de Estado. Em segundo lugar, há líderes — ministros de Relações Exteriores, chefes de Estado — que têm uma preocupação profunda com a questão e a colocaram na agenda. E, em terceiro lugar, a consciência da importância das alterações climáticas para a segurança, para a paz, para a estabilidade aumentou ao longo dos anos recentes e, por isso, ela está no topo da agenda.

 

IHU On-Line - Em que medida o texto da Laudato Si’ está alinhado, em termos científicos, ao debate sobre os problemas ambientais? Traz algum avanço?

Jennifer Morgan - O conteúdo da Laudato Si’ está muito alinhado com a atual compreensão científica sobre questões ambientais e, especificamente, sobre a mudança climática. É de importância fundamental que o Papa tenha levantado essa questão como uma questão que diz respeito não apenas à ciência, mas à moralidade e tenha começado a envolver um grupo muito mais amplo de pessoas no debate. Esse é um avanço significativo.

 

IHU On-Line - Politicamente, o que a Encíclica representa para a luta pelo meio ambiente?

Jennifer Morgan - Laudato Si’ coloca as questões ambientais em um novo lugar, um lugar que tem a ver com o cerne de nossa humanidade e nossa moralidade. Os líderes políticos não podem simplesmente desejar que isso não exista, mas precisam se envolver com a questão, especialmente se ela parte de um líder como o Papa.

 

IHU On-Line - As discussões suscitadas pela Encíclica podem refletir nos debates da Conferência da ONU sobre o clima, a COP 21, em dezembro em Paris? De que maneira?

Jennifer Morgan - A Encíclica vai muito além da reunião da COP 21 na medida em que realmente envolve a comunidade de fé em geral de uma forma que impacta o cotidiano, nas decisões em nível local e nacional. Entretanto, ela também destaca a oportunidade que a COP 21 dá às pessoas responsáveis pela tomada de decisões para que emitam um sinal para o mundo de que compreendem, verdadeira e profundamente, que as coisas têm de ser feitas de maneira diferente agora. Os riscos, especialmente para as pessoas pobres e vulneráveis, são grandes demais para que se fique apenas assistindo.

 

IHU On-Line - De que forma a senhora avalia a recepção da Encíclica nos principais países envolvidos no novo acordo climático internacional, que será formalizado na COP 21?

Jennifer Morgan - Acho que os principais países levaram a Laudato Si’ a sério. Alguns estão realmente envolvendo seu público com ela, outras nem tanto. Mas isso realmente depende do país, já que cada um deles tem uma relação diferente com a fé e interligações governamentais.

 

IHU On-Line - Na Encíclica é ressaltada a incompatibilidade do atual modelo de consumo e desenvolvimento econômico com a preservação do meio ambiente. De que maneira a senhora analisa essa relação? É possível conciliar estes dois aspectos?

Jennifer Morgan - Está claro que o mundo precisa desenvolver novos caminhos econômicos e em termos de desenvolvimento para satisfazer as necessidades diárias das pessoas e, ao mesmo tempo, enfrentar a mudança climática. Muitas ações e decisões podem, na verdade, atacar ambos os problemas. Por exemplo, passar a usar energia limpa reduz a poluição do ar e seus danos e, ao mesmo tempo, reduz o risco da mudança climática. Há, entretanto, necessidade de entender muito mais profundamente como a sociedade baseada no consumo e os valores que ela projeta impactam o meio ambiente e, por conseguinte, as pessoas.

 

IHU On-Line - De que forma avalia a trajetória de debates e proposições de políticas para descarbonizar a economia? Houve avanços nas discussões e na implementação de medidas efetivas? O que espera do novo acordo internacional? 

Jennifer Morgan - Até agora, os debates em torno da descarbonização são ambíguos. Mudar a forma como o mundo usa a energia e o tipo de fonte energética é um empreendimento de vulto e representa uma enorme transição. Há muitos atores que não querem ver essa transição, pois lucram com a situação atual. Há países que estão avançando em nível local, regional e nacional. A Alemanha está tomando a dianteira rumo a uma matriz formada em 80% por energias renováveis no ano de 2050, e esse processo está bem encaminhado. A Etiópia está tentando encontrar um caminho alternativo para o desenvolvimento a fim de reduzir a pobreza e enfrentar a mudança climática. A China está procurando se concentrar mais na inovação do que na manufatura.

Esses esforços estão reduzindo os custos da energia renovável a um ponto em que a energia solar consegue agora competir com os combustíveis fósseis em alguns mercados. Isso precisa sofrer uma aceleração e um aumento de escala. O acordo internacional deveria incluir sinais claros de que a economia global será descarbonizada ao longo deste século e incluir momentos de curto prazo em que os países podem fortalecer sua ambição de chegar lá. Ele também precisa oferecer apoio para que os países pobres em desenvolvimento sigam esse rumo.

 

IHU On-Line - Como os planos de combate ao aquecimento global gerenciam a questão das desigualdades no desenvolvimento econômico dos países? As políticas são equânimes, considerando a relação entre as diferentes quantidades de carbono emitidas pelos países e o contingente populacional atingido?

Jennifer Morgan - No debate internacional, a abordagem para enfrentar a desigualdade é dupla. Em primeiro lugar, cada país está oferecendo agora o que pode para atacar o problema com base em sua capacidade. Há uma boa compreensão e aceitação de que os países desenvolvidos têm condições de fazer e deveriam fazer mais do que os países em desenvolvimento. Prevendo que esses compromissos sejam definidos em nível nacional, ela permite que essas diferenças sejam integradas no acordo. Em segundo lugar, está claro que há necessidade de um forte pacote de apoio para os países em desenvolvimento, para que eles possam se adaptar aos impactos da mudança climática e adotar um caminho para o desenvolvimento com níveis mais baixos de carbono.

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo que não tenha sido abordado?

Jennifer Morgan - Paris oferece uma oportunidade para uma guinada global, com base na Laudato Si’ e nas muitas ações que estão em andamento no mundo todo. A Conferência deveria acelerar o ritmo e aumentar a escala da mudança, mas os governos precisarão do apoio de seus povos para ter a coragem de agir de acordo com a escala e o ritmo necessários para que se evitem efeitos devastadores no mundo todo. ■

 

Leia mais...

- Um ‘marco histórico’ para a maioria dos ativistas. Notícias do Dia, de 09-06-2015, no sítio do IHU, disponível em http://bit.ly/1CX8G0H.

- Presenças e ausências que brilham na Cúpula do Clima. Notícias do Dia, de 28-09-2014, no sítio do IHU, disponível em http://bit.ly/1VAIhMi.

- Congresso dos EUA assombra a reunião do clima da ONU. Notícias do Dia, de 18-11-2013, no sítio do IHU, disponível em http://bit.ly/1IohrTO.

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