Edição 469 | 03 Agosto 2015

A sintonia fina entre Laudato Si’ e as ciências econômicas, sociais e naturais

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Ricardo Machado e Leslie Chaves | Tradução Walter O. Schlupp

Para Partha Dasgupta, a religião pode ser um caminho para despertar o respeito ao meio ambiente

Ciência e religião têm travado um diálogo profícuo no debate sobre as questões ambientais documentado na Encíclica Laudato Si’. Compartilha desse ponto de vista o doutor em Economia Partha Dasgupta, que defende que a Encíclica está alinhada à compreensão científica contemporânea dos diversos aspectos da Crise Ecológica. Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador aponta que, para além do argumento científico sobre os danos que a ação da humanidade causou ao ambiente, o Papa chama a atenção para a urgência de conscientização sobre a gravidade do problema e a mudança de atitude. “A Encíclica está apontando para a necessidade de que façamos a coisa certa ao natural, mesmo quando ninguém esteja olhando”, ressalta.

Nesse sentido, Dasgupta observa ainda que Bergoglio bem reconhece na Laudato Si’ a insuficiência de políticas como a prescrição de impostos e subsídios corretivos sobre bens e males ambientais. Segundo o pesquisador, a religião poderia contribuir para a educação ambiental desde a infância, evidenciando a dimensão moral da Crise Ecológica e fomentando o respeito e o amor à natureza. “Numa cultura cada vez mais urbana, isto poderá ser crucial”, constata. 

Partha Dasgupta nasceu em Bangladesh, na Índia, graduou-se em Física pela Universidade de Delhi e em Matemática pela Universidade de Cambridge, onde também obteve o título de doutor em Economia. Atualmente é professor emérito de Economia na Universidade de Cambridge, professor pesquisador na Universidade de Manchester e membro da Faculdade St John, todas instituições localizadas no Reino Unido. Entre as suas publicações destacam-se Economics: A Very Short Introduction (Oxford: Oxford University Press, 2007), obra traduzida para 11 idiomas; Ecosystems and Human Well-Being: Synthesis (Washington, DC: Island Press, 2005); e The Economics of Non-Convex Ecosystems (Amsterdam: Kluwer Academic Publishers, 2003). 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – De que forma a Laudato Si’ provoca tensionamentos à perspectiva científica, sobretudo à econômica?

Partha Dasgupta - Eu não acredito que haja qualquer coisa na Encíclica que não seja coerente com a compreensão científica contemporânea dos fenômenos que o Papa levanta. Claro, existem diferenças terminológicas, mas elas não chegam a constituir diferenças em relação à sua leitura das interações entre o ser humano e a natureza. 

Por exemplo, ele usa o termo “Ecologia Integral” para designar os processos que configuram as relações entre ser humano e natureza. Os conceitos econômicos da Encíclica são sadios. Se você ler os documentos apresentados no Simpósio da Pontifícia Academia, sob o título “Humanidade Sustentável, Natureza Sustentável: Nossa Responsabilidade” , de abril de 2014, você vai constatar que a Encíclica se alinha tanto com as ciências sociais quanto com as naturais.

 

IHU On-Line – Nesse sentido, que novidades a Laudato Si’ traz ao debate relacionado às questões ambientais em perspectiva com a racionalidade econômica?

Partha Dasgupta - O Papa argumenta que há uma dimensão moral que não pode ser incorporada simplesmente mediante impostos e subsídios corretivos sobre bens e males ambientais. Eu acredito que ele está certo, porque é impossível monitorar quem faz o que a qual aspecto da natureza: o capital natural tem uma tendência inata para deslocar-se ou viajar. Pássaros e insetos voam, o vento sopra, água flui. Em vista desse fato, as políticas de regulamentação, não importa quão bem concebidas, não serão suficientes. 

A Encíclica está apontando para a necessidade de que façamos a coisa certa ao natural, mesmo quando ninguém esteja olhando. É por isso que há necessidade de mudar nossa cultura. A natureza não é apenas mais uma mercadoria, assim como seres humanos não são meras commodities.

 

IHU On-Line – Em que medida a desigualdade, econômica e social, é resultado da Crise Ecológica que vivemos?

Partha Dasgupta - Empiricamente isto é muito difícil de se estimar. Por um lado, o mundo rico consome mais recursos através da importação de produtos primários e seus derivados, de modo que as pegadas ecológicas das pessoas nos países ricos excedem em muito a sua produção [ou pegada] ecológica local. Por outro lado, não sei o que aconteceria se o Produto Interno Bruto - PIB do mundo inteiro fosse distribuído por igual entre as pessoas. Quanto eu saiba, a pegada ecológica global aumentaria.

 

IHU On-Line – De que forma o aquecimento global afeta economicamente e socialmente as populações mais vulneráveis? Por que a racionalidade econômica dominante parece ser incapaz de resolver esta questão?

Partha Dasgupta - A mudança climática global é um processo que envolve um mal público global de hoje: "a temperatura média global". A racionalidade econômica dominante não contradiz esse entendimento. O que está acontecendo é que as nações têm interesses diferentes sobre o assunto, e até agora elas nada fizeram em prol de um acordo coletivo sobre a contenção das emissões, aumentando as transferências de ajuda para regiões vulneráveis do mundo pobre. Uma economia padrão recomendaria que o mundo atenda a essas obrigações para o futuro e para os contemporâneos.

 

IHU On-Line – Como a fragmentação e a compartimentação dos conhecimentos nos conduziu à Crise Ecológica em sentido conceitual?

Partha Dasgupta - Não penso que a fragmentação do conhecimento seja particularmente grave aqui. Na verdade, os cientistas que trabalham em questões ecológicas sempre tiveram uma abordagem interdisciplinar. É a demanda pelo conhecimento produzido por cientistas ecológicos que é baixa. Interesses escusos produzem argumentos espúrios contra o fato indiscutível de que a humanidade tem causado uma Crise Ecológica, e o público em geral, por sua vez, não tem interesse em tomar conhecimento, porque poderia obstruir suas inclinações diárias.

 

IHU On-Line – Quais são as principais contribuições da perspectiva religiosa para os estudos científicos? 

Partha Dasgupta - A contribuição da igreja seria chamar a atenção para a dimensão moral do problema. Ela poderia começar insistindo em que a educação agora deve incluir ecologia, que as crianças aprendam sobre os processos da natureza. Dessa forma, elas podem vir a amar a natureza. Numa cultura cada vez mais urbana, isto poderá ser crucial. ■

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