Edição 458 | 10 Novembro 2014

Liberdade e enfrentamento. Jesuítas no Paraguai, das Reduções ao exílio

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Andriolli Costa / Tradução: Benno Dischinger

Carlos Alberto Page explora a relação da Companhia com Encomendieros, índios Guarani e a própria coroa espanhola, que culminou na expulsão dos religiosos do país em 1767

Um dos poderosos braços da contrarreforma da Igreja Católica, a Companhia de Jesus, através de seu trabalho missionário, deixou para trás o eurocentrismo do Vaticano e imbricou-se nos mais diferentes cantos do mundo. Na China, com Matteo Ricci, ou na Índia, com São Francisco Xavier, os jesuítas aprenderam o valor do diálogo — e não da imposição — e da inculturação, características fundamentais que se manifestaram nas Reduções que controlavam na América Espanhola.

Professor e pesquisador da cultura Guarani-jesuítica, Carlos Alberto Page destaca que o sistema de reduções já era conhecido entre os Guarani, graças à ação dos franciscanos. No entanto, “os frades permitiam a exploração da mão de obra de suas reduções. Os jesuítas se posicionaram com fervor contra o sistema, tanto para fazer respeitar as leis quanto por convicção própria”. Esta postura lhes causou sérios problemas, tanto com as demais vertentes do catolicismo quanto com os colonos. 

“Desde que os jesuítas chegaram à América, houve sempre uma ‘campanha midiática’ de desprestígio a seu labor evangelizador, embora, na realidade, ocultava-se o desagrado que causava aos espanhóis a defesa feroz da liberdade das culturas originárias”, defende Page em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Assim, diversas iniciativas de difamação surgiram na Europa, tanto por parte do Marquês de Pombal em Portugal quanto do próprio Rei Carlos III, da Espanha. 

Alertava-se, por exemplo, que os jesuítas levantavam um exército de “silvícolas” para fazer frente à Coroa; ou ainda que sua república católica era um “estado dentro de um estado”. Intrigas que levantaram a opinião pública contra a Companhia e levaram à sua expulsão de todos os territórios espanhóis em 1767. 

“A expulsão dos jesuítas supôs um dos fatos de corrupção mais patéticos da história americana”, critica o professor. Dentre as grandes perdas ocorridas, a nível imaterial, ele ressalta as perdas para as próprias comunidades indígenas — mais tarde massacradas nas Guerras Guaraníticas. Assim, aos índios levou-se a cabo o “arrebatamento de um futuro de dignidade que tinham assegurado com estes grupos cristãos, respeitosos de suas culturas, [que] pôs fim à alternativa de sobreviver frente aos desígnios da conquista e ocupação”.

Carlos Alberto Page é graduado em Arquitetura pela Universidade Católica de Córdoba e doutor em História pela Faculdade de Filosofia, História e Literatura da Universidade de El Salvador. Atualmente é pesquisador independente do CIECS-CONICET, do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, na Argentina. É professor do mestrado e da especialização em Cultura Guaraní Jesuítica, da Universidad Nacional de Misiones, e do mestrado em Patrimonio Artístico y Cultura en Sudamérica, da Universidad de Buenos Aires. Por fim, ministra ainda o seminário Precisiones sobre la presencia de la Compañía de Jesús en la antigua Provincia del Paraguay. Perspectivas de estúdios, na Universidad Nacional de Córdoba.

Page é autor de diversas publicações, das quais destacamos: El Noviciado de Córdoba de la Provincia Jesuítica del Paraguay. Historia y recuperación arqueológica, 1607-1990 (Córdoba: CIECS-CONICET-UNC y Báez ediciones, 2013) e Las otras reducciones jesuíticas. Emplazamiento territorial, desarrollo urbano y arquitectónico entre los Siglos XVII y XVIII (Madrid: Editorial Académica Española, 2012). 

O professor participa da Mesa-Redonda Histórias de exílio nas memórias dos jesuítas expulsos da Província do Paraguai, no dia 13 de novembro, das 14h às 16h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. O evento faz parte da programação do XVI Simpósio Internacional IHU - Companhia de Jesus. Da supressão à restauração, e a programação completa pode ser encontrada em http://bit.ly/CiaJes2014. 

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Como se deu a relação entre jesuítas e os indígenas Guarani no Paraguai? 

Carlos A. Page - Parece-me que o tema central desta relação foi o “serviço pessoal”, uma variante de escravidão, impulsionada pelos espanhóis. Embora os Guarani já conhecessem o sistema reducional através das primeiras reduções franciscanas, os frades permitiam a exploração da mão de obra de suas reduções. Os jesuítas se posicionaram com fervor contra o sistema, tanto para fazer respeitar as leis quanto por convicção própria. Isto lhes ocasionou sérios problemas, que foram se acumulando com o tempo. Exemplos se somam desde a chegada do Padre Torres  a Córdoba (1607), com o rechaço dos jesuítas da parte dos ‘encomenderos’ — o que exigiu trasladar os estudos superiores para o Chile; passando pelas quatro expulsões que os jesuítas sofreram de Assunção, numa das quais o bispo da jurisdição, frei Bernardo de Cardenas , lhes saqueou e queimou a Igreja; até a trágica Guerra Guaranítica , demonstram aquela convicção de estar ao lado dos despossuídos, dos excluídos, dos explorados, sequestrados, torturados e escravizados. 

 

IHU On-Line - Quais versões existem sobre a relação entre os jesuítas e os Guarani? De que forma ela se diferenciou das demais experiências na América?

Carlos A. Page - O sistema reducional é iniciado nas Antilhas pelo próprio governador Nicolás de Ovando , por instruções reais de 1501 e 1503, com a finalidade de facilitar a exploração racional dos indígenas e dos recursos naturais, com a consequente aculturação e o pretexto da evangelização. Seguiram-se algumas outras experiências que fracassaram, até que foi decidido que o clero regular se encarregasse das reduções. 

Os primeiros a realizar este tipo de atuação foram os Jerônimos  (1517-1519), embora ideologicamente o plano utilizado correspondesse ao modelo de Bartolomé de las Casas  (1516), que buscava evitar a grande mortalidade dos nativos. A partir de então, foram experimentados todos os tipos de variantes reducionais, até mesmo as “aldeias” brasileiras, que os jesuítas levaram adiante em 1557 na Bahia. 

A chegada ao Peru em 1568 impôs uma nova experiência para os inacianos, como foram as três reduções que o vice-rei Toledo  lhes impôs administrar ainda na qualidade de párocos, o que não estava contemplado nas Constituições da Instituição. No entanto, tiveram que suportá-la ante a pressão do vice-rei. Por certo, a esta altura do tempo, as experiências reducionais haviam acumulado todo tipo de antecedentes, em geral nefastos. 

O primeiro contato que têm os jesuítas com os Guarani foi através das reduções franciscanas dirigidas por frei Luis de Bolaños , que até lhes ensinou a língua. Desde então os jesuítas vão paulatinamente construir seu próprio modelo, baseado na experiência americana, com seus muitos erros e poucos acertos. 

Entre as diferenças mais notáveis estava que os índios deviam reduzir-se em sítios o mais distante possível dos espanhóis. Buscavam proteger os índios das encomiendas  — que estavam proibidas —, porém os súditos espanhóis não somente não respeitavam a proibição, como também se obstinavam na caça e escravidão de índios. Isso tanto os bandeirantes paulistas como os ‘comuneros’ de Assunção. De tal modo que conforme as reduções entre jesuítas e Guarani vão evoluindo no tempo, paralelamente vai se exacerbando a cobiça dos europeus, os quais tratam de, por todos os meios, desprestigiar o trabalho dos missionários para favorecer-se com a mão de obra indígena. 

 

IHU On-Line – Qual a influência da Companhia de Jesus para a formação e o estabelecimento do idioma e da cultura Guarani no Ocidente?

Carlos A. Page - É preciso ter sempre em conta as experiências, tanto de São Francisco Xavier  na Índia e, sobretudo, de Mateus Ricci , que adaptou o cristianismo à realidade chinesa. Ainda que obviamente rechaçado pelo Papado, seu legado foi fundamental para as missões, pois o respeito pelas culturas originárias foi primordial. Dava-se atenção especialmente à língua, todas elas ágrafas e para as quais os jesuítas, com o fim de aprendê-las, criaram inumeráveis vocabulários. 

Hoje conservamos vocabulários como o da etnia lule do Chaco, que se extinguiu. No entanto, o idioma perdurou graças a esses incontáveis “vocabulários” redigidos pelos jesuítas. Mas também não só respeitaram como difundiram essas culturas americanas, bastando assinalar as monumentais obras de Sánchez Labrador , Paucke  ou Dobrizhoffer , entre outros. Obviamente que os Guarani eram os “preferidos” dos jesuítas, e tanto seus vocabulários como sua cultura se difundiram até os confins da Europa, a tal ponto que atraiu o interesse de franceses, como Charlevoix , ou de italianos, como Muratori , prestigiosos historiadores europeus de seu tempo. 

 

IHU On-Line – Quais as estratégias utilizadas pelos jesuítas para catequizar os Guarani, tendo em vista que eram um povo de divindades múltiplas e outro tipo de relação espiritual? Houve, como no Oriente, aproximações entre rituais católicos e dos locais?

Carlos A. Page - A experiência do Oriente — como dissemos antes — foi fundamental e base substancial de um método que o próprio santo Inácio levou às Constituições, que mantêm e aplicam seus sucessores, principalmente Juan Alfonso de Polanco  e São Francisco de Borja . O método em si não era exclusivo para Guarani e consistia em ter um acabado conhecimento das culturas indígenas, sobretudo sua língua (Const. II). Neste sentido, assim como no Peru os jesuítas aprendiam o Quíchua e o Aymará, no Colégio e Noviciado de Córdoba era exigido que estudassem Guarani antes de terminarem seus estudos e serem enviados às missões. Tinham as experiências de exímios linguistas como Ruiz de Montoya , entre muitos outros. 

Também houve a formação e utilização de seculares auxiliares para o trabalho apostólico (e isto inclui os escravizados africanos, pois é conhecida a participação de catequistas morenas). Esta importante instituição, usada pelos jesuítas, regulamentada por instrumentos legais da Coroa e do Pontificado, foram os “fiscais”, cuja função era a de suplantar o sacerdote, fundamentalmente ensinando a doutrina. Foram empregados desde o México até o Chile, lugar, este último, onde foram fundamentais por existirem 84 povoados com capelas, dirigidos por um “fiscal”, com faculdade de batizar e convocar à celebração da missa, sendo visitados anualmente pelos jesuítas. Inclusive os Guarani, como outras etnias americanas, acompanhavam em grande número os jesuítas (ou sem eles) em percursos apostólicos pelos territórios de cada redução. Isto, nas cidades hispânicas, era conhecido como “missões circulares” ou “volantes”, que faziam pregando não só nos arredores da cidade, senão também pelas ruas e praças. E participavam os professores dos colégios, inclusive o reitor e o provincial.

Nas reduções havia, além disso, especial educação e atenção espiritual a caciques e, sobretudo, a seus filhos, pois estes tinham o poder de transmissão vertical a seus súditos. Estes pontos assinalados estavam incluídos nas Leis das Índias e tendiam tanto à evangelização como à conservação dos cristianizados, como também o estabeleceu o Pontífice Pio V  (1567). 

Por último, dois pontos-chave que foram a benevolência e o cuidado não só do religioso, senão também do material e o tratamento verdadeiramente paternal dos jesuítas que, inclusive, eram permissivos em questões delicadas para a fé católica, porém sua aceitação era sumamente efetiva frente às imposições autoritárias. Finalmente, a evangelização foi possível pela altíssima e antiquíssima religiosidade guarani. 

 

IHU On-Line - É possível considerar a experiência paraguaia como a de uma república “comunista” cristã, como propõe o padre dominicano Clovis Lugon ?

Carlos A. Page - O termo “comunista” a muitos desagrada, porque nos séculos XVII e XVIII não “existia” o comunismo, o “comunismo de Marx ”, e pelo que ele implica ideologicamente frente à religião.  É como aqueles que rotulam a experiência guarani de “utopia”. No entanto, uma utopia é um mundo ideal, porém irreal, e este não é o caso das reduções que se desenvolveram com toda a amplitude de uma primitiva doutrina cristã, olvidada pelo poder da Igreja desde a Idade Média. 

A “Utopia” de More  é a origem da busca de uma sociedade melhor, igualitária, inclusiva. Um bom intento de concretizá-la, e com isso deixar de ser utopia, foram as reduções Guarani. No entanto, que curioso, tinham como objetivo impedir a exploração dos colonialistas escravistas, com um sistema comunitário que incluía o trabalho obrigatório para todos, e onde as terras, casas, instrumentos de trabalho e todo o trabalho produzido coletivamente eram da comunidade, e o cuidado de viúvas, órfãos e incapacitados, assistência religiosa, médica e educacional era para todos igual. Esse era o cristianismo em seus inícios e eram os principais postulados marxistas. Ambos historicamente desvirtuados. 

Ainda assim, estes princípios foram reivindicados por setores da Igreja, como foi o Movimento de sacerdotes para o Terceiro Mundo , que se colocaram junto aos despossuídos, com um profundo caráter humanista. Surgiram do Concílio Vaticano II  e, sobretudo, da progressista encíclica Populorum Progressio  do Papa e recente beato Paulo VI , que parece redigida para os antigos jesuítas do Paraguai. 

 

IHU On-Line - O que levou o rei Carlos III , da Espanha, a promulgar a Pragmática Sanción , expulsando os jesuítas do Paraguai?

Carlos A. Page - Esta é uma pergunta tão complexa, mas que, por sua vez, se pode sintetizar em uma só palavra: “ódio”. Carlos III representava o poder bourbônico na Europa, o qual se expressava num exacerbado absolutismo e regalismo, em que se avassalou a hierarquia eclesiástica ao seu poder real. Para a expulsão não se traçaram causas justificadas para semelhante decisão, que foi continuada por um processo de duvidosa legalidade. A Companhia de Jesus era contrária às ideias políticas que sustentava Carlos III e seu governo e, portanto, era preciso extirpá-la de uma sociedade onde gozava de autoridade moral. O desenvolvimento alcançado nas missões era um obstáculo para as reformas absolutistas da Coroa. Pois, ante o avanço econômico e cultural alcançado dentro daquela marginalidade geográfica, não constituíram nunca um estado autônomo ou independente, como maliciosamente se insistiu durante longo tempo. E dentro do regalismo bourbônico não era aceito outro espaço político além do próprio. Essa intolerância se manifestou numa série de paulatinas mudanças que lentamente deterioraram as tradicionais e estabelecidas relações entre a Igreja e a Coroa. Mas, também, na imediata erradicação dos programas de ensino que difundiam pensamentos que questionavam o poder absoluto do Estado. 

 

IHU On-Line - Pesquisadores afirmam que havia, na época, um temor da Europa frente à possibilidade de os jesuítas na América estarem formando exércitos de “silvícolas” para fazer frente à coroa. Qual a pertinência destes comentários? Havia realmente tal temor? 

Carlos A. Page - Desde que os jesuítas chegaram à América, houve sempre uma “campanha midiática” (para usar um termo atual) de desprestígio a seu labor evangelizador, mas que, na realidade, ocultava o desagrado que causava aos espanhóis a defesa feroz da liberdade das culturas originárias. Inumeráveis informes injuriosos ao rei faziam com que os jesuítas, através de seus Procuradores, tivessem que ir até a Corte para desmentir as acusações. Não poucas vezes os opositores tornaram público seu repúdio aos jesuítas, como o ocorrido em Córdoba ou Assunção, que mencionamos antes. Mas a Guerra Guaranítica intensificou e consolidou através dos argumentos antimonárquicos o aprofundamento desse descrédito. Muitos panfletos e textos de todo tipo se ocuparam em criar esse clima de “temor”. Destaquemos apenas dois. 

Primeiramente a “Relação abreviada da república dos jesuítas...”, da qual em princípio se fizeram várias cópias depois da guerra. Esta foi a mais erosiva injúria que receberam os jesuítas, em que se destaca um despotismo jesuítico imposto com base na exploração dos Guarani. Foi lançada de forma anônima em 1757, embora se saiba que o autor foi o marquês de Pombal . Foram publicados 20 mil exemplares, um número muito grande para a época! Foram inclusive traduzidas para o francês, italiano, alemão e latim. 

O outro texto, intitulado “Nicolás I rey de Paraguay y emperador de los mamelucos”, se refere a um suposto monarca (não se aclara se jesuíta ou guarani) que disputaria os domínios da Espanha. Obviamente é um livro anônimo, publicado na França em 1756, reimpresso em 1967, onde seus tradutores incluíram como ilustrações até uma suposta medalha comemorativa ao rei paraguaio, embora se desconheça a existência de alguma. Quer dizer que ontem como hoje a insegurança e o temor se transferem à sociedade de maneira impune a partir dos poderes máximos. E às vezes têm resultados catastróficos. 

 

IHU On-Line - De que forma estes acontecimentos estão ligados à supressão da Companhia? 

Carlos A. Page - Falávamos dos resultados catastróficos, referindo-nos justamente ao longo processo de expulsão dos jesuítas. Pois não se trata de um acontecimento isolado que sucede em 1767, senão que se vai construindo até as últimas consequências, como o foi a supressão de 1773. Pois, como mencionamos antes, os jesuítas sempre foram um incômodo. E as campanhas de desprestígio se sucederam, enquanto os Bourbon esperavam a oportunidade, embora fosse ridícula, para dar o bote. 

Assim aconteceu com Portugal que, logo após o atentado contra José I  em 1758, acusa de instigadores os nobres Távora  e Aveiro, os quais foram despojados de seus títulos, de suas propriedades e toda sua família foi esquartejada. Também é acusado o jesuíta Gabriel Malagrida , por ser confessor das famílias e do rei. Por isso e sem mais, foi enviado à fogueira, e os jesuítas foram expulsos de Portugal no ano seguinte. 

Isso logo sucederá aos jesuítas franceses, porque um mau negócio do jesuíta das Filipinas Antoine de Lavalette  obrigou a Companhia de Jesus a pagar suas dívidas e, como esta não o fez, o Parlamento de Paris, com plena anuência de Luís XV , decidiu expulsá-los em 1762. Finalmente, na Espanha, envolvida numa profunda crise econômica, ante os suntuosos gastos de Carlos III, produziram um motim contra o ministro da fazenda, marquês de Esquilache . O rei confiou a investigação ao conde de Campomares  com uma sentença posta de antemão: que os culpados eram os jesuítas. E expulsaram os inacianos. Não contente com tudo isso, Carlos III enviou José Moñino  como embaixador em Roma, cuja missão era convencer e até redigir e fazer firmar ao Papa Clemente XIV o breve de extinção canônica, obtido em 1773. Por certo, ambos os protagonistas foram compensados, um com o título de Conde de Floridablanca e o outro com a restituição dos reinos de Benevento e Avinhão. 

Passaram-se 41 anos, os protagonistas mudaram e o Papa Pio VII  restituiu o pouco que havia ficado da Companhia de Jesus num ato solene onde pessoalmente e na própria Igreja del Gesú entregou aos escassos 120 sobreviventes a Bula de 1814.

 

IHU On-Line - Como se deu a expulsão dos jesuítas do país? Houve muita truculência? O que passaram estes religiosos que de repente se viram nesta situação?

Carlos A. Page - O exílio representa um dos mais sentidos dramas do ser humano. Nascido da intolerância para um pensamento diferente, nunca deixa de apresentar-se como a ferramenta mais usada pelos opressores para encaminhar os seus rivais ao confinamento. A expulsão dos jesuítas foi um ato de despotismo em que cerca de 5 mil religiosos foram sentenciados à condenação do exílio, por um decreto real e sem juízo prévio, incluindo pena de morte se regressassem. As injustificadas acusações variavam entre os crimes mais atrozes, sem se ter escutado a defesa de um só dos acusados. Indubitavelmente, e para nosso caso em particular, a expulsão significou uma perda com consequências negativas para o desenvolvimento cultural ibero-americano. 

Repentinamente se ausentaram centenas de prestigiosos professores, cientistas e missionários que haviam trazido à sociedade uma rica herança cultural. Muitos destes mesmos personagens escreveram as notícias do que significou o padecimento do exílio numa viagem quase interminável. Estes relatos começam com uma breve descrição do lugar onde se encontravam, seguido do momento em que irrompem os soldados e é feito o translado como prisioneiros. Por estes textos descritivos conhecemos os acontecimentos daqueles dias, que podem ser analisados dentro de várias perspectivas. Mas, a mais importante era a de deixar na memória um acontecimento carregado de injustiças de que foram vítimas.

Os jesuítas se acomodaram à sua nova vida no exílio, que também o foi para suas instituições, pois o Colégio Máximo da Província do Paraguai continuou funcionando no exílio, primeiro em Ímola e logo em Faenza, contando com sete professores que chegaram a ter 60 alunos. E seguiram escrevendo num eterno rememorar suas vivências com seus amados índios que em todo momento recordavam e queriam mostrar ao mundo como seres extraordinários. 

 

IHU On-Line – A riqueza dos jesuítas ganhou caráter lendário no Paraguai, gerando inclusive histórias sobre lugares escondidos onde o tesouro dos jesuítas teria sido ocultado durante a expulsão da Companhia pela coroa espanhola. De onde viria esta suposta fortuna? O que foi feito dela após a expulsão, em 1767?

Carlos A. Page - A expulsão dos jesuítas supôs um dos fatos de corrupção mais patéticos da história americana. Não esconderam nenhum tesouro e tudo o que tinham foi confiscado, isto é, roubado, sem indenização de nenhum tipo. Os governadores mandaram os soldados que não só expulsaram de suas casas os jesuítas, senão que também deviam fazer inventários e taxações. Em seguida enviaram administradores que saquearam esses bens, que perderam uns 70% de seu valor, para logo argumentar que, obviamente, não eram rendosos e era preciso vendê-los. E eles mesmos terminam comprando-os a preços irrisórios e em longas quotas quinquenais. Poucas vezes as pagaram e, apesar das reclamações dos poderes da justiça, com as independências políticas pouco tempo havia para esses reclames, e assim terminaram. Pois todos estes fatos deixaram um antecedente inextinguível das políticas latino-americanas dos séculos seguintes, de despojamento, entrega e, sobretudo, de impiedade moral. Por outra parte e com respeito aos nativos, o resultado do arrebatamento de um futuro de dignidade que tinham assegurado com estes grupos cristãos, respeitosos de suas culturas, pôs fim à alternativa de sobreviver frente aos desígnios da conquista e ocupação. 

 

IHU On-Line – Como é hoje a presença da Companhia de Jesus no Paraguai?

Carlos A. Page - A Companhia de Jesus, embora restaurada em 1814, quando dela restava somente um punhado de anciãos, chegava altamente desprestigiada. Todos estes antecedentes que mencionamos como “campanha midiática” haviam causado os efeitos esperados em grande parte da sociedade em todo o mundo. A palavra “jesuíta” havia deixado de ser usada e até era conveniente não empregá-la. E custou muito reverter esta situação de injustiça, porque incluía a perda da memória. Os jesuítas atravessaram um século XIX carregado de problemas políticos e institucionais. Voltavam a ser rechaçados uma e outra vez. Porém, ao meu humilde entender houve um gonzo que foi a Congregação de 1892 que elegeu o P. Luis Martín  como Preposto Geral. 

A partir de então os jesuítas sentiram que deviam fazer conhecer ao mundo seu passado de glórias e admiráveis entregas para “o outro”. E a valoração dessa história se materializou na criação do Arquivo Romano do Instituto (ARS), na confecção do Atlas do P. Carrez  (1900), do Colégio de Escritores cuja missão fundamental foi escrever as histórias da Companhia através de suas antigas Assistências. Assim, a de Portugal a escreve o P. Francisco Rodrigues , a de Espanha o P. Antonio Astraín , e outros grandes colaboradores, como o foram em nosso meio os Padres Pablo Pastelles e, sobretudo, Pablo Hernández, os quais, junto aos padres Carlos Leonhardt  e Guillermo Furlong , se constituíram na base fundamental de uma historiografia que revalorizou o legado cultural dos jesuítas, multiplicado hoje em centenas de estudiosos do passado. 

As reduções, como âmbitos daquela epopeia, foram restauradas e mostradas a um mundo absorto que com tanta admiração chegaram a ser reconhecidas como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Todo um longo processo de reivindicação no qual jamais um Carlos III, ou um Pombal, ou um Moñino teriam pensado que, depois de tantos anos, hoje a Igreja Católica fosse governada por um Papa jesuíta, proveniente daquelas terras que deram origem a tanta injusta malícia.  

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