Edição 439 | 31 Março 2014

K. em busca da verdade

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Luciano Gallas

Livro do jornalista Bernardo Kucinski reúne realidade e ficção para resgatar do fundo da memória os acontecimentos sombrios do período do regime militar no Brasil

Um pai em busca da filha, sequestrada pelo regime de repressão militar brasileiro e desaparecida desde então. Este é o fio condutor central da história narrada pelo jornalista e professor Bernardo Kucinski no livro K. Relato de uma busca (São Paulo: Cosac Naify, 2014), finalista dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de Literatura de 2012, traduzido para o espanhol, catalão, alemão e inglês e em tradução para o italiano e o hebraico. A obra, relançada no contexto da efeméride de 50 anos do golpe civil-militar de 1964, utiliza-se de uma narrativa ficcional para contar a história da família do autor: K., o personagem central, é inspirado no pai de Bernardo, Majer Kucinski, e na sua busca por informações sobre a filha Ana Rosa Kucinski Silva, sequestrada pelos órgãos de repressão dentro do campus da Universidade de São Paulo – USP, instituição na qual exercia a função de professora de Química.

Ao narrar sobriamente a trajetória angustiada do pai na procura sobre a verdade em torno do desaparecimento da filha, Bernardo Kucinski resgata da memória de familiares, amigos e interlocutores em geral os fatos que estavam guardados nas lembranças de cada indivíduo — muitas vezes esquecidos, até —, reconstruindo a pesada atmosfera que encobriu o Brasil em meados da década de 1960 e que acobertou atos de opressão, arbitrariedade, desrespeito a direitos, perseguições, impunidade e uma sensação disseminada de insegurança. Produzido com objetivos majoritariamente literários, “K. não tem nenhum objetivo educativo, ou de denúncia, ou o que seja”, afirma o autor, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “K. não vai mudar a postura de complacência da sociedade brasileira em relação aos crimes e criminosos da ditadura. Poderia mudar um pouquinho se o governo incluísse sua leitura e de alguns outros livros sobre o período nos currículos escolares. Mas, para isso, seria preciso antes mudar o próprio governo e, mais que isso, mudar a natureza do nosso aparelho de Estado e de nossa forma de fazer política”, completa.

Bernardo Kucinski é descendente de uma família de judeus imigrantes da Polônia — o pai, Majer Kucinski, foi escritor e crítico literário da língua iídiche. Possui doutorado em Ciências da Comunicação pela USP, aposentou-se como professor titular da mesma instituição junto à Escola de Comunicações e Artes — Departamento de Jornalismo e Editoração, foi assessor especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República entre 2003 e 2006, editor-assistente da revista Veja e do jornal Gazeta Mercantil e correspondente no Brasil dos jornais ingleses The Guardian e Latin America Political Report, além de cofundador de jornais alternativos, entre os quais Amanhã, Opinião, Movimento e Em Tempo, e do sítio Carta Maior. É autor também do livro Você vai voltar pra mim e outros contos (São Paulo: Cosac Naify, 2014).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em geral, a história brasileira é pouco conhecida no exterior. Um dos méritos do livro K. seria o de revelar no estrangeiro este período marcado pela violência e pelo autoritarismo que foi o regime de ditadura militar?
Bernardo Kucinski –
A história brasileira é pouco conhecida no exterior, mas bem conhecida pelos poucos que a conhecem; no Brasil, é mal conhecida por quase todos que a deveriam conhecer. O que nos ensinam são chavões. Quanto à ditadura militar, é menos ainda conhecida. Já foi esquecida como presente e ainda não entrou nos currículos como História. Com tudo isso, K. não foi escrito com nenhum objetivo pedagógico ou outro. Foi escrito por necessidade pessoal do escritor. Só isso.

IHU On-Line - Embora seja uma obra de ficção, o livro é baseado na história real de familiares que inspiraram os personagens retratados na trama. Por que sua opção pela ficção em detrimento de uma obra biográfica? Em complemento, quanto há de autobiografia nesta obra ficcional?
Bernardo Kucinski -
A opção foi pela criação literária e começou com uma outra obra, ainda não publicada, que não tem as características autobiográficas de K. Também escrevi muitos contos tratando de situações diversas, não apenas de repressão e ditadura. Em meio a esse processo de conversão à literatura, nasceu K., como um fenômeno não planejado e imprevisto. Quanto há de autobiográfico em K.? Eu diria que é tudo autobiográfico, mas tudo recriado no plano literário através de fusões de personagens e deslocamentos no tempo e no espaço. A matéria-prima é autobiográfica, a narrativa é ficcional.

IHU On-Line - O personagem K. é baseado na história do seu pai, Majer Kucinski, que tinha origem judia e nacionalidade polonesa. O nazismo foi o motivo de Majer Kucinski ter viajado para o Brasil? De que forma se entrelaçam os autoritarismos do nazismo e do regime militar brasileiro no livro?
Bernardo Kucinski -
Meu pai não veio fugido do nazismo. Veio um pouco antes, fugido da polícia polonesa que o perseguiu para ajudar a fundar um partido político sionista de esquerda, o Poalei Tzion Smal (Partido dos Trabalhadores Sionistas de Esquerda). O nexo entre tudo o que aconteceu na Europa e o que aconteceu aqui está na natureza universal dos regimes ditatoriais, seus traços comuns de desumanidade, estupidez e maus propósitos. Cada um tem seu discurso, sua bandeira, suas particularidades, mas todos têm em comum o uso da violência e a bestialidade.

IHU On-Line - No enredo do livro, o personagem K. procura pela filha, uma militante política desaparecida durante o regime de exceção. A personagem é baseada na história de sua irmã, Ana Rosa Kucinski Silva, professora de Química na Universidade de São Paulo - USP. Em que circunstâncias ocorreu a prisão de sua irmã pelos militares?
Bernardo Kucinski -
O pouco que se sabe é que minha irmã e meu cunhado foram sequestrados em plena luz do dia por grupos ligados ao DOI-Codi  de São Paulo e ao delegado Fleury . Desapareceram sem deixar traços. Não há nenhum registro de ordem de prisão, entrada em delegacia, abertura de inquérito, nada. Os órgãos de repressão agiam como quadrilhas de bandidos, totalmente à revelia de qualquer lei, mesmo das leis que eles mesmos baixaram. Seus corpos nunca foram encontrados. Ambos tinham vida normal, legal, com empregos, e usavam seus nomes reais. Também eram casados de papel passado. Ambos eram militantes da ALN .

IHU On-Line - O ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra afirmou em entrevista ao jornalista Alberto Dines  que recebeu o corpo de Ana Rosa para ser incinerado. Que informações a família tem a esse respeito?
Bernardo Kucinski -
Nenhuma informação. A do Cláudio Guerra é a única e deve ser recebida com reservas.

IHU On-Line - O livro K. reúne muitos e diversos pontos de vista sobre o regime militar. O esforço para aproximar-se da veracidade dos fatos incluiu a abordagem de métodos usados pelos militantes na clandestinidade, algumas vezes violentos. Este esforço corresponde a um exercício de reflexão sobre uma banalidade do mal presente nas ações humanas implementadas durante o regime de exceção?
Bernardo Kucinski -
K. de forma alguma coloca no mesmo nível opressores e suas vítimas. O livro não apresenta personagens favoráveis ao golpe, no sentido de endossá-los. O livro apresenta uma variedade de colaboradores com a repressão, desde agentes diretos, como um torturador, até juízes de tribunais e donos de redes de televisão, passando por informantes e professores da Universidade de São Paulo em estado de desrazão.

Quanto aos militantes da clandestinidade, eu os cobro essencialmente por não terem o discernimento de parar quando a luta já estava perdida, o que levou à perda desnecessária de muitas vidas, inclusive as de meu cunhado e minha irmã. É absolutamente falso o pressuposto de que métodos usados pelos militantes na clandestinidade eram algumas vezes tão violentos quanto aqueles usados pelos agentes da ditadura. Os militantes da clandestinidade nunca penduraram ninguém num pau de arara, nunca estupraram, nunca mutilaram, nunca deram choques elétricos na vagina de mulheres amarradas e indefesas, nunca torturam pais na frente de seus filhos, nunca levaram ninguém à loucura e ao suicídio. Nunca desapareceram com corpos. Para não dizer que nunca cassaram professores de universidades.

Quanto à tese da banalidade do mal, não passa de um jogo de palavras. Não tem fundamento. A Hannah Arendt  pisou na bola, por motivos que não vou aqui discutir. Não há banalidade nenhuma no mal. Esse tipo de malignidade é fruto de ações concretas, de lavagens cerebrais, de lutas pelo poder, de mentes doentias e psicopatas, que nada têm de banal.  

IHU On-Line - K. pode contribuir para que a sociedade brasileira revisite e reflita sobre seu passado, de forma a criar condições para compreender muitos de seus problemas atuais? Pode também colaborar para superarmos a condição de impunidade dos crimes de tortura e assassinato praticados no Brasil pelo regime de exceção?
Bernardo Kucinski -
Como eu já disse, K. não tem nenhum objetivo educativo, ou de denúncia, ou o que seja. É uma obra literária. Em todo o caso, K. não vai mudar a postura de complacência da sociedade brasileira em relação aos crimes e criminosos da ditadura. Poderia mudar um pouquinho, um tantico, se, por exemplo, o governo incluísse sua leitura e de alguns outros livros sobre o período nos currículos escolares. Mas, para isso, seria preciso antes mudar o próprio governo e, mais que isso, mudar a natureza do nosso aparelho de Estado e de nossa forma de fazer política.

IHU On-Line - Uma das ideias mais fortes presentes no livro é a continuidade da luta de K., que militava pela causa judia, na luta da filha, e contra a violência do regime militar brasileiro. Ele não conhecia a militância da filha. Em que contexto este valor de defesa dos direitos humanos está presente na vida de seu pai?
Bernardo Kucinski -
Trata-se, nesse caso, de um humanismo muito presente na cultura judaica, talvez por sermos um povo tão perseguido. No caso específico do meu pai, há também o componente do iluminismo, que marcou a sua geração e a herança do papel dos intelectuais na Europa dos séculos XIX e XX, a “intelligentsia”, com eram chamados. Essa intelligentsia não conseguia se ver senão no papel de críticos e contestadores.

IHU On-Line - Quais suas expectativas ao escrever e publicar K.?
Bernardo Kucinski -
Ao escrever, nenhuma. Ao publicar, alguma satisfação, em especial pela forma como foi recebido pelos antigos militantes da luta armada e presos políticos da época. Como se trata de um livro único, pela forma como nasceu, digamos, de parto natural, ou, para usar outra imagem, como se tivesse sido psicografado, não me disse muito sobre minhas possibilidades como escritor. Nesse sentido, o novo livro de contos Você vai voltar pra mim tem uma importância especial para me dizer se sou escritor ou mero escrevinhador.

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