Edição 439 | 31 Março 2014

“Os animais são nossos companheiros, não nosso alimento”

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Márcia Junges e Andriolli Costa / Tradução: Isaque Gomes Correa

O teólogo Charles Camosy, autor de livros sobre o amor cristão aos animais, alerta sobre a cumplicidade do consumidor com a crueldade contra os animais

“Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra", comanda o primeiro capítulo do livro do Gênesis. No entanto, para o teólogo Charles Camosy, este “domínio” que Deus deu ao homem vem sendo muitas vezes mal interpretado ao longo dos anos. “Nosso domínio deveria seguir o exemplo de Jesus, para quem liderança significa serviço não violento aos que estão à margem. Os animais devem constar como pertencentes a este tipo de população marginal”, propõe.

Camosy, que concede entrevista por e-mail à IHU On-Line, critica duramente a crueldade contra os animais para fins de alimentação. De acordo com ele, o simples fato de desejarmos nos alimentar de suas carnes não é motivo suficiente para promover o sofrimento dos “animais não humanos”. “Para muitas pessoas, o único momento em que elas interagem com animais durante todo o dia é quando os comem.” O filósofo trata do veganismo e do vegetarianismo como alternativas, destaca a diferença de seu pensamento com o de Peter Singer (outro autor que defende os direitos dos animais) e marca sua posição sobre os fetos humanos, cujos direitos — tal como dos animais — são muitas vezes recusados.

Charles Camosy possui graduação em Filosofia e em Comunicação e Teatro pela Universidade de Notre Dame. Pela mesma universidade, possui também mestrado em Teologia Sistemática e doutorado em Ética Cristã, além de doutorado em Filosofia pela University of California. Atualmente é professor assistente de Ética Cristã na Universidade de Fordham (EUA). Além do livro que baseia esta entrevista, intitulado For Love of Animals: Christian Ethics, Consistent Action ( Franciscan Media: Cincinatti, 2013), Camosy é autor de Too Expensive to Treat? - Finitude, Tragedy, and the Neonatal (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Press, 2010) e Peter Singer and Christian Ethics: Beyond Polarization (Cambridge: University Press, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que consistem as práticas condenáveis às quais você se refere sobre a criação de animais em confinamento nas fazendas industriais nos EUA?
Charles Camosy -
Estas práticas não estão limitadas às fazendas americanas, mas são projetadas para maximizar as “unidades proteicas por metro quadrado”. Elas incluem manter os porcos em “gaiolas de parto” nas quais eles passam a maior parte de suas vidas sem mesmo ter um espaço para se virar para trás. As peruas criadas possuem o peito tão grande que sequer conseguem fazer sexo com seus pares, precisando que o sêmen do macho seja “obtido manualmente” para inseminar artificialmente a fêmea. Galinhas chocadeiras passam a vida inteira em gaiolas empilhadas, com 50 cm² de espaço, sendo atingidas pelas fezes das galinhas acima. Hoje, as galinhas são geneticamente manipuladas de tal forma que elas nunca se sintam “estufadas” e comam tanto quanto possível, no menor espaço de tempo; portanto, elas estão constantemente famintas. Eu poderia dizer muito mais, incluindo as práticas repugnantes empregadas para matarmos estes animais, mas você entendeu. Eles são vistos como meras “coisas” que estão ao nosso dispor, como qualquer outro tipo de produto em um supermercado.

IHU On-Line - Em que aspectos consumir a carne desses animais é compactuar com um ato vergonhoso e pecaminoso?
Charles Camosy
- Na medida em que compramos carne com base no preço, somos cúmplices dos atos vergonhosos e pecaminosos acima trazidos. Afinal, o motivo pelo qual as “fazendas industriais” tratam os animais de forma tão terrível é porque tentam reduzir os custos para que possamos comprar seus produtos pelo preço mais baixo. Precisamos comprar carnes de animais que foram bem tratados — e, portanto, mais caras — ou teremos de nos recusar a comprá-las de vez.

IHU On-Line - Em que medida há uma compreensão equivocada do livro do Genesis sobre como devemos conviver com os animais não humanos?
Charles Camosy -
O livro de Gênesis, capítulo 1, diz que nos foi dado o “domínio” sobre os animais. Porém, nosso domínio deveria seguir o exemplo de Jesus, para quem liderança significa serviço não violento aos que estão à margem. Os animais devem constar como pertencentes a este tipo de população marginal. De fato, Gênesis 1 diz que os animais estão “bem”, independentemente dos seres humanos, e ordena a nós, humanos, que tenhamos uma dieta vegetariana (comer animais aparece apenas após o pecado ter entrado no mundo). Gênesis, capítulo 2, mostra que Deus traz os animais a Adão “porque não é bom que o homem esteja só”. A compreensão é a de que os animais são nossos companheiros, não nosso alimento.

IHU On-Line - Por que a humanidade deve bondade aos animais não humanos?
Charles Camosy
- Bem, se a pessoa for católica, podemos citar o Catecismo da Igreja Católica que insiste que “devemos bondade aos animais”. A linguagem de justiça é usada. Devemos bondade aos animais, e precisamos dar isso a eles, especialmente se respeitarmos o ensino (a doutrina) católico.

IHU On-Line - A partir disso, em que medida o antropocentrismo é um dos pilares que explica esse comportamento consumista e exploratório que a humanidade vem demonstrando para com os animais não humanos?
Charles Camosy -
O antropocentrismo é uma parte significativa deste comportamento. Para muitas sensibilidades modernas, especialmente conforme mais e mais pessoas migram para as cidades, os animais se tornam simplesmente invisíveis. Não pensamos sobre eles, e certamente não pensamos no que devemos a eles em termos de justiça. Para muitas pessoas, o único momento em que elas interagem com animais durante todo o dia é quando os comem. É preciso mudar isso e nos tornarmos mais cientes de como nossas ações contribuem para o sofrimento dos animais não humanos, além de nos recusarmos a tomar parte deste comportamento consumista e abusivo.

IHU On-Line - Deixar de consumir carne ou mesmo reduzi-la em nossa dieta podem ser contrapontos ao consumismo no qual a humanidade se encontra mergulhada?
Charles Camosy -
Sim, poderia. E as tradições cristãs têm uma longa história de práticas alimentares éticas, incluindo a rejeição de consumir carne. Deveríamos prestar mais atenção a estas práticas, especialmente durante a Quaresma.

IHU On-Line - O veganismo e o vegetarianismo surgem como opções éticas para deixarmos de lado o consumo de carne?
Charles Camosy -
Sim, são. E eu acho que eles são métodos úteis de resistência. Não há uma “única resposta certa para todo mundo” quando se trata de como resistir à exploração de animais em nossa cultura consumista. O que precisamos é encontrar formas que funcionem para cada um de nós.

IHU On-Line - Ao mesmo tempo em que boa parte da humanidade nega a dignidade dos animais não humanos, o mesmo ocorre com os fetos, por muitos considerados “sem direitos”. Quais são as implicações éticas desse tipo de posicionamento?
Charles Camosy -
De algum modo, nossa história humana de pecado pode ser contada como constituindo episódios em que o poderoso domina o fraco, principalmente quando a dignidade do fraco é inconveniente para o poderoso. A dignidade dos animais é inconveniente àqueles de nós que querem comer carne fresca. Mas a dignidade de nossas crianças no pré-natal também é inconveniente àqueles no poder, especialmente quando estes bebês representam prejuízos às nossas carreiras e capacidades de vivermos um estilo de vida consumista. É por isso que o a Doutrina Social Católica insiste que devemos ter uma opção preferencial pelos mais vulneráveis; estas populações precisam de uma voz que as defenda em sua dignidade contra os poderosos. Eu acredito que tanto os animais não humanos quanto nossas crianças pré-natais (embora obviamente os bebês não sejam iguais aos animais) são populações marginalizadas que precisam de nós para falarmos por eles.

IHU On-Line - Quais são os principais pontos de debate e convergência de seu pensamento com Peter Singer ?
Charles Camosy
- Em primeiro lugar, as opiniões de Peter Singer estão em meus pensamentos quando trato deste assunto; então eu o agradeço por isso. Ele tem feito um belo trabalho no sentido de que levemos mais a sério o status moral dos animais. E embora eu concorde com ele sobre o fato de que nosso interesse em comer carne animal não pode justificar o mal que lhes causamos, discordo, sobretudo, de seu utilitarismo preferencial. Discordo, obviamente, por completo dele sobre o status moral das crianças em estado pré-natal e neonatal, mas também discordo dele sobre a forma como descrevemos o valor dos animais não humanos.

A teoria moral dele o limita a falar somente de prazer, dor e preferências, mas os cristãos podem falar do florescer dos animais, já que Deus os criou. Se um pássaro morre, isso é ruim. Mas ele pode ter morrido sem dor, caso no qual o utilitarismo terá problemas para explicar por que tal morte é ruim. Os cristãos podem dizer que a morte de um pássaro é ruim por ter falhado em ser e florescer conforme os desígnios de Deus a fim de contribuir para com o universo repleto de vida criatural. Como falhou em ser e florescer como o animal que é, sua morte é ruim. Assim, a forma como nós, humanos, tratamos os demais animais é terrível, não só porque eles sofrem, mas também porque a estas criaturas não se permite ser e viver como as espécies que elas constituem, na forma como Deus desejou.

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