Edição 417 | 06 Maio 2013

O percurso filosófico de Heidegger: caminho de pensamento

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Márcia Junges e Graziela Wolfart

Ao analisar o confronto do pensamento de Heidegger e Santo Agostinho, Maria Manuela Brito Martins defende que o pensador alemão exige esforço constante de leitura e releitura e que sua especulação é importante para o domínio da reflexão filosófica, teológica e psicanalítica

“Se atentarmos bem ao pensamento do filósofo (Heidegger), veremos o quanto o pensamento de Agostinho foi importante e decisivo para a sua especulação, quer no período que precede a elaboração de Ser e Tempo, quer mesmo após a sua ‘virada’ metafísica”. Essa é a opinião da professora portuguesa Maria Manuela Brito Martins, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ela, relativamente ao pensamento Antigo, Heidegger efetua uma “atualização” e reatualização do modo de refletir de diversos autores para o nosso espaço temporal hodierno. “Quanto ao período medieval, também não deixa de utilizá-lo, convocando-o aqui e acolá. O mais provável é que não o tenha feito de forma contínua, nem tenha desenvolvido algumas das suas melhores intuições a este respeito. Porém, e apesar disso, Heidegger parece insistir numa transição do pensamento escolástico para a modernidade, extraindo deste último as consequências mais fulcrais para o seu próprio pensamento”, completa.

Maria Manuela Brito Martins é professora na Universidade Católica Portuguesa – Polo do Porto. É doutora em Filosofia e Letras pela Universidade Católica de Lovaina, no Institute Supérieur de Philosophie. É autora de, entre outros, Itinerário da mente para Deus. Uma leitura introdutória (Porto: Centro de Estudos Franciscanos, 2009); e A teologia da história de São Boaventura. Tradução da obra de J. Ratzinger (Porto: Centro de Estudos Franciscanos, 2010). 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a importância do neoplatonismo no pensamento de Heidegger?

Maria Manuela Brito Martins – Para responder a esta pergunta, com toda a seriedade filosófica e intelectual, seria necessário conhecermos, na íntegra, a obra de Martin Heidegger . Mas, de fato, os mais de 80 volumes até agora editados, pela Martin Heidegger Gesamtausgabe, não nos permite fazer tal avaliação. No entanto, podemos acompanhar o ritmo do pensamento do autor, de forma a poder elucidar algumas das suas posições fundamentais relativamente ao pensamento neoplatônico, quer a partir da época de Friburgo e Marburgo, quer já no seu período metafísico e pós-metafísico.

De forma sucinta, podemos, dizer, portanto, que a apropriação heideggeriana do neoplatonismo poderá ser tida em três aspetos fundamentais: 1) O neoplatonismo tal como Heidegger o entende, em particular, nos seus cursos que datam do período de Friburgo e Marburgo. Damos aqui alguns exemplos: no seu curso sobre Filosofia Antiga (GA 22, 1926), Heidegger expõe o pensamento neoplatônico, nomeadamente plotiniano, quanto ao estatuto das categorias aristotélicas relativamente ao ser. Já no seu curso sobre Os problemas fundamentais da Fenomenologia (GA 24, 1927), Heidegger retoma a questão fundamental do tempo em Plotino, permitindo-lhe assim avançar sobre a questão da temporalidade originária. 2) O neoplatonismo cristão, em particular, aquele que é veiculado pela mística cristã, que, retrabalhando os motivos essenciais do neoplatonismo greco-latino e na sua articulação com as temáticas bíblicas fundamentais, se encontram no Pseudo-Dionísio, Bernardo de Claraval , Mestre Eckhart , Lutero  etc. Relativamente a este aspecto, surgiu um estudo que trabalhou as fontes da mística medieval no pensamento de Heidegger. 3) Por último, o alcance e/ou o desafio do pensamento neoplatônico relativamente à tese de Heidegger sobre a história do pensamento metafísico ocidental, quanto ao esquecimento do ser e quanto ao seu desnivelamento entre ser e ente. Sobre este último aspecto, têm surgido estudos que de forma esparsa, quer cronologicamente falando, quer doutrinalmente, vão apontando para algumas achegas a este debate. Todavia, o diálogo está longe de ter terminado. Sobre este último ponto, devemos notar que só quando tivermos uma melhor compreensão da obra integral de Heidegger, poderemos avaliar o caminho para onde o filósofo aponta.

IHU On-Line – Em específico, que influência Agostinho exerce na filosofia heideggeriana? 

Maria Manuela Brito Martins – Certamente exerce uma influência importante e decisiva. Para isso, bastará ler atentamente a obra Sein und Zeit para o perceber. O parágrafo 42 de Ser e Tempo é consagrado à questão do Cuidado (Sorge). Neste contexto, Heidegger explica a interpretação fundamental do Dasein enquanto Cuidado. Para isso, explica que é num quadro de interpretação da antropologia agostiniana greco-cristã, que ele a recoloca em direção dos fundamentos essenciais da ontologia aristotélica. Se atentarmos bem ao pensamento do filósofo, veremos o quanto o pensamento de Agostinho foi importante e decisivo para a sua especulação, quer no período que precede a elaboração de Ser e Tempo, quer mesmo após a sua “virada” metafísica.

IHU On-Line – Em que sentido a especulação neoplatônica augustiniana é um dos elementos fundamentais no pensamento do filósofo alemão? 

Maria Manuela Brito Martins – Em primeiro lugar, trata-se de compreender a importância da especulação neoplatônica no pensamento do filósofo alemão e como este neoplatonismo se posiciona relativamente ao legado essencialmente (ainda que não só) platônico-aristotélico. Só partir daqui é que se poderá compreender a importância da especulação neoplatônica augustiniana na reflexão heideggeriana. Em segundo lugar, a especulação neoplatônica augustiniana insere-se no âmbito do neoplatonismo medieval, retransmitido ao longo dos séculos, chegando à época contemporânea. Desse modo, os motivos neoplatônicos augustinianos e medievais poderão dar uma melhor compreensão do pensamento do próprio Heidegger, tendo em vista os resultados da leitura heideggeriana do pensamento filosófico ocidental. Na verdade, esta mesma ideia está patente claramente no texto Agostinho e o neoplatonismo (GA60, 1921), ou ainda noutros textos que não são unicamente dedicados a Agostinho, como o texto O significado da doutrina das categorias em Duns Escoto, de 1915, e ainda nas Interpretações fenomenológicas de Aristóteles (GA 6, 1922), em Ontologia: hermenêutica da facticidade (1923), Introdução à investigação fenomenológica (GA 17, 1923/24), e em textos posteriores, como Sobre a essência do fundamento (1929) ou ainda no texto O que é a metafísica? (1929). 

IHU On-Line – Em que obras essa característica se apresenta de maneira mais destacada?

Maria Manuela Brito Martins – Há dois textos fundamentais em que Heidegger se debate com o pensamento de Agostinho: o primeiro é o curso dado por Heidegger em Friburgo no semestre de verão de 1921, intitulado: Agostinho e o neoplatonismo. Nele Heidegger expõe, em particular, o livro X das Confissões apropriando-se de alguns dos temas centrais da reflexão agostiniana, como sejam as noções de Cura – Sorge – (Cuidado) e de tentatio, como determinações antropológicas fundamentais. Ambos os conceitos serão determinados no âmbito da reflexão heideggeriana, nomeadamente em Ser e Tempo. 

O segundo texto em que Heidegger expõe isoladamente o pensamento de Agostinho é uma conferência dada, em 1930, no mosteiro de Beuron. Essa conferência, ainda inédita, mas estando já projetada no plano de publicação da Gesamtausgabe, analisa a concepção agostiniana de tempo, no livro XI das Confissões, confrontando-a com a concepção aristotélica no livro da Física, e de seguida apontando para a concepção kantiana.

Lembremos ainda o texto de 1924 sobre O conceito de tempo, onde Heidegger utiliza o pensamento de Agostinho. Neste contexto, a passagem do livro XI das Confissões serve para o filósofo alemão associar a questão do tempo e as afeções (affectiones animi), ou seja, a Befindlichkeit, que é um dos temas fundamentais em Ser e Tempo. Todavia esta questão será retomada posteriormente no período metafísico de Heidegger.

IHU On-Line – Em que aspectos os escritos de Agostinho são decisivos para as problemáticas da temporalidade e da ontologia em Heidegger?

Maria Manuela Brito Martins – Os textos de Agostinho, como referido acima, são essenciais para a problemática da temporalidade. Mas esta ideia não está patente somente em Heidegger, mas em Husserl, que ao escrever as “Lições para uma consciência íntima do tempo”, cita o doutor hiponense como sendo um dos maiores marcos do pensamento filosófico ocidental para o questionamento do tempo. Heidegger não faz mais do que prolongar esta linha de pensamento. No parágrafo 81 de Ser e Tempo, sobre a questão da “intratemporalidade” e da “gênese vulgar do tempo”, Agostinho é convocado de forma decisiva para a sua compreensão do tempo. Todavia, num texto de 1928, Heidegger não deixa de aludir às reflexões clássicas sobre o tempo: Aristóteles, Plotino, Agostinho, Kant, Hegel, Bergson e Husserl, que são determinantes para o esclarecimento da questão da transcendência e da temporalidade enquanto nihil originarium.

IHU On-Line – Qual é a atualidade da obra de Heidegger no contexto em que vivemos?

Maria Manuela Brito Martins – A atualidade da obra de Heidegger é contínua. Como já referimos, ela ainda está em curso de publicação. O pensamento de Heidegger exige um esforço constante de leitura e releitura. A sua especulação é importante, quer para o domínio da reflexão filosófica, quer para o domínio da reflexão teológica. Verifica-se ainda que, além destes dois domínios, um outro se lhe pode acrescentar, como é o caso da psicanálise. A atualidade da obra de Heidegger constitui para nós, de fato, algo de fundamental. A sua obra trespassa o tempo. Por outro lado, Heidegger dialoga com aqueles que foram e marcaram o caminho da especulação filosófica ao longo dos tempos. Só por isso Heidegger não poderá deixar de ser invocado. Relativamente ao pensamento Antigo, Heidegger efetua uma “atualização” e reatualização do modo de refletir desses autores para o nosso espaço temporal hodierno. Quanto ao período medieval, também não deixa de utilizá-lo, convocando-o aqui e acolá. O mais provável é que não o tenha feito de forma contínua, nem tenha desenvolvido algumas das suas melhores intuições a este respeito. Porém e apesar disso, Heidegger parece insistir numa transição do pensamento escolástico para a modernidade, extraindo deste último as consequências mais fulcrais para o seu próprio pensamento.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Maria Manuela Brito Martins – O próprio Heidegger afirma sobre o seu percurso filosófico que este é um caminho de pensamento (Denkweg). Nesse sentido, o “filósofo profissional” trilha caminhos que são necessários desbravar e prolongar. A nosso ver, há ainda o trabalho de recuperação dos textos de Agostinho que Heidegger convoca ao longo das suas obras. Este trabalho não está feito ainda. Além disso, não será este o único e maior trabalho a fazer, mas sim o de conseguir obter certa compreensão global dos motivos augustinianos no centro da especulação heideggeriana, quer do primeiro período, quer do segundo período, tendo em conta a diversidade de registos especulativos que o pensador lhe atribui no decurso do seu pensamento.

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