Edição 385 | 19 Dezembro 2011

Maria Madalena, a mulher que amou Jesus

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Moisés Sbardelotto

Maria Madalena está ligada ao que se chama de o rosto feminino de Deus. Para Salma Ferraz, “passaram-se quase dois milênios para que a Igreja Católica começasse a repensar o papel desta mulher”

Maria Madalena, a “mulher que amou Jesus” está ligada ao que se chama de o rosto feminino de Deus. Para Salma Ferraz, pós-doutora em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, Madalena vai além das “mulheres complexas e de uma biografia sensacional” do Primeiro Testamento, já que estas “não contaram na História do Cristianismo” tanto quanto essa mulher de Mágdala. Entretanto, “passaram-se quase dois milênios para que a Igreja Católica começasse a repensar o papel desta mulher”, lamenta.

Nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Salma analisa a relação entre a mística de Madalena e os relatos literários sobre essa mulher que “deixou seduzir-se pelo olhar de um Galileu que mudou a história do Ocidente”. Mas esclarece: “não há aqui nenhuma inferência sexual”. Em síntese, a mística media o “abismo entre fé e razão”. E a literatura reproduz “a experiência dessa mediação”.

Salma também questiona por que “nunca interessou à Igreja nascente uma figura de mulher importante dentro de sua hierarquia”. “Veja o absurdo”, afirma: “O homem já chegou à lua, e a Igreja Católica e muitas igrejas protestantes ainda negam o sacerdócio às mulheres”.

Salma Ferraz graduou-se em Letras pelas Faculdades Integradas Hebraico Brasileira Renascença de São Paulo, e especializou-se em Literatura Brasileira e Literatura Infantil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É mestre e doutora em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e pós-doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina e atua no Programa de Pós-Graduação de Literatura com a linha de Pesquisa Teopoética, estudos comparados entre Teologia e Literatura. Com Waldecy Tenório e Teresa Arrigoni, é coautora do livro Maria Madalena: Das páginas da Bíblia para a ficção (EDUEM, 2011). Dentre suas obras, também destacamos Pólen do Divino (FURB, 2011); No princípio era Deus e ele se fez Poesia (UFAC, 2008); e As faces de Deus na obra de um ateu (UFJF, 2004).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – “Prostituta”, “discípula amada”, “apóstola dos apóstolos”, “esposa de Jesus”, “esposa de João, o discípulo amado”: afinal, quem foi, em sua opinião, a Maria Madalena histórica?

Salma Ferraz –
Poderíamos falar que Madalena foi tudo isso e muito mais. Alcunhada de prostituta por conta de erro célebre em um sermão que misturou os rostos das mulheres bíblicas numa só: o erro de exegese ocorreu no sermão proferido na Páscoa do ano 591 pelo Papa Gregório, O Grande , que, além de adjetivar a pecadora de Lucas 7 como prostituta, confundiu-a com Madalena, cuja libertação e conversão estão narradas na sequência, no capítulo 8 de Lucas. Na realidade, o Papa Gregório anunciou que Maria Madalena, a mulher pecadora, e Maria de Betânia eram uma só. Nasceu desse erro a ideia de que Madalena fosse uma prostituta.
Discípula amada ela realmente foi, afinal seguia Jesus com seus bens e com seu coração e estava na cruz no momento final. Apóstola dos apóstolos cabe perfeitamente à Madalena, já que foi a primeira a proclamar que Jesus havia ressuscitado.

Com relação à Madalena histórica podemos nos basear numa plataforma mínima: os Evangelhos canônicos e o Evangelho de Maria Madalena, texto tardio em forma de fragmentos do século III. Os narradores dos evangelhos sinóticos relatam episódios da vida de Madalena, atestam sua existência, mesmo com certa má vontade, pois sempre frisaram o fato de terem sido expulsos demônios dela. Pelas marcas deixadas nesses textos, podemos afirmar que Madalena existiu.


IHU On-Line – Por que podemos falar de Maria Madalena como uma “mística”, tendo tão poucos elementos bíblicos (ao menos nos evangelhos canônicos) sobre essa mulher de Magdala? Em que consistiria a “mística” de Maria Madalena?

Salma Ferraz –
Talvez esta mística esteja ligada ao que se chama de o rosto feminino de Deus. As mulheres que o Cristianismo retirou da Bíblia são meio problemáticas. Lógico que no Velho Testamento temos mulheres complexas e de uma biografia sensacional, mas estas não contaram na história do cristianismo. O que contou e que entrou para a história cristã foram figuras como Eva, a pecadora, e Maria, mãe de Jesus, que concebeu sem ter amado. É do Evangelho de Maria Madalena, encontrado em 1896 e só publicado em 1955, que aparece a noção de uma discípula que teria recebido ensinamentos secretos de Jesus, só a ela caberia revelar aquilo que os discípulos não entendiam. Juntam-se a isso lendas que dão conta de que, após a morte de Jesus, Madalena teria se retirado e vivido em contemplação.


IHU On-Line – Em linhas gerais, como Maria Madalena foi retratada na literatura mundial? Como se deu esse trânsito da Bíblia para a literatura?

Salma Ferraz –
As funções de discípula e apóstola, funções primordiais de Madalena, foram ofuscadas pela fusão e confusão em torno de sua tríplice face, criando-se uma espécie de contínuo poético: a suposta pecadora que ungiu os pés de Jesus foi identificada com a mulher quase apedrejada por adultério, com a mesma que esteve aos pés da cruz e que preparou unguentos para a unção do corpo de Jesus no sepulcro. Tudo isso passou a fazer parte do que denominamos tradição madalênica, confirmada pela pintura e pelos filmes da vida de Cristo. Bernardino de Sena , em um sermão latino escrito e pregado na Idade Média, aponta os topos madalênicos da designada Magna peccatrix: busca de prazer, beijos/luxúria, penteado/vaidade, olhar lascivo, caminhar suspeito, tentação, beleza do corpo, abundância de bens/riqueza e muita liberdade. As pinturas da Idade Média e do Renascimento mantêm a tradição madalênica ao retratá-la com longos cabelos, na maioria das vezes, loiros ou ruivos, vaso de perfume e manto vermelho. Na Idade Média, Madalena torna-se, a partir desses topos, padroeira dos perfumistas, dos cabeleireiros, dos fabricadores de luvas e leques e das meretrizes arrependidas. Ou seja, Madalena apresenta-se como um personagem monumental para a pintura, a ficção e a música. Marguerite Yourcenar , com seu livro Maria Madalena ou a Salvação, publicado em Paris, em 1936, e no livro intitulado Fogos, e Saramago  no seu Evangelho Segundo Jesus Cristo souberam explorar de forma especial todas as possibilidades dessa personagem.


IHU On-Line – Na obra de José Saramago, autor de seu interesse de pesquisa, como é narrada a figura de Maria Madalena? Em que a literatura de Saramago aprofunda ou se desvia dos Evangelhos, ao falar de Madalena?

Salma Ferraz –
Em Saramago, Madalena é a verdadeira discípula de Jesus, intervém no Sagrado ao não permitir que Jesus ressuscite Lázaro, afinal “ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes”. Jesus, diante deste laivo de sabedoria, não realiza o milagre e sai para chorar. E Madalena, mesmo amando Jesus, não o deixa desistir da cruz. Afirma para Jesus que “terias de ser mulher para saberes o que significa viver com o desprezo de Deus...”, ou seja, reivindica um papel para a mulher e reconhece que o Deus do Velho Testamento é misógino. Saramago junta detalhes dos sinóticos com detalhes do Evangelho de Madalena e recria com sua imaginação fértil outra Madalena. Retrata a discípula amada, contrariamente aos Evangelhos, realmente como meretriz, para mostrar como ela se redime justamente pelo sexo, pois quando passa a se relacionar com Jesus, seu corpo se fecha para outros. Para Saramago, o sexo é um pecado como qualquer outro, ao contrário da Igreja Católica e do protestantismo em geral, que acentuam uma carga extra sobre esse pecado.


IHU On-Line – Ao falar sobre a vida de Maria Madalena, a senhora fala de uma “antiodisseia da discípula amada”. Em que sentido?

Salma Ferraz –
No sentido de que se passaram quase dois milênios para que a Igreja Católica começasse a repensar o papel desta mulher. A marca da prostituta foi amalgamada nesses 20 séculos de tradição cristã. Somente no Concílio Vaticano II (1969)  a Igreja Romana reafirmou não existir relação entre Madalena e a mulher quase apedrejada por adultério. Talvez, tudo isso tenha acontecido porque nunca interessou à Igreja nascente uma figura de mulher importante dentro de sua hierarquia. Veja o absurdo: o homem já chegou à lua, e a Igreja Católica e muitas igrejas protestantes ainda negam o sacerdócio às mulheres. Nesse sentido é que falo de uma antiodisseia, uma má vontade em realmente resgatar seu papel fundamental, como atestam os Evangelhos.


IHU On-Line – Um dos momentos mais marcantes da experiência mística de Maria Madalena foi ter sido a primeira pessoa – e mulher – a ver Jesus ressuscitado? Qual o significado desse relato, segundo a seu ver?

Salma Ferraz –
Isso não é pouca coisa. Madalena e as outras mulheres estavam junto à cruz enquanto os discípulos amedrontados estavam escondidos. Elas foram ungir o corpo de Jesus, e foi para Madalena que ele apareceu. Jesus consolou Madalena: “Mulher, por que choras?”. Madalena reconhece, sem titubear, a voz de Jesus e o chama de Raboni, “mestre” em hebraico. Diante de tal manifestação de carinho e reverência, é estranho o silêncio dos evangelistas ao narrarem o episódio da cruz, em que Jesus nada fala a Madalena. Ou talvez o silêncio ali falasse mais do que todas as palavras.


IHU On-Line – Entre as definições utilizadas pela senhora para abordar Maria Madalena estão “a mulher que tentou seduzir Deus” e “a mulher que amou o amor”. Qual o significado dessas imagens?

Salma Ferraz –
A primeira citação diz respeito ao conto de Marguerite Yourcenar – Maria Madalena ou a Salvação –, na qual Madalena tenta seduzir Jesus, para que não morra, para que não corra em direção ao túmulo. Portanto, é a minha fala em cima do conto da escritora belga-francesa. A segunda expressão refere-se ao conto do magnífico escritor e monge beneditino Júlio de Queiroz , intitulado Amor ao Amor. Nesse conto, Madalena ama, no sentido de deixar tudo e seguir o mestre apenas com o chamado do olhar. Para mim e para Júlio de Queiroz, Maria Madalena foi aquela que amou Jesus, amou o olhar do Mestre, deixou seduzir-se pelo olhar de um Galileu que mudou a história do ocidente. Não há aqui nenhuma inferência sexual.


IHU On-Line – Em sua opinião, como a literatura colabora para aguçar a percepção sobre Deus ou o Mistério? Que vínculos percebe entre literatura e mística?

Salma Ferraz –
Paulo já define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem”. A fé é um verdadeiro e maravilhoso escândalo para a razão, é um salto no abismo. É o mistério dos mistérios. E então entra a mística para mediar esse abismo entre fé e razão. E a literatura, para reproduzir a experiência dessa mediação. Cito aqui o grande poeta amazonense Max Carphentier : “Pois bem, Senhores, só uma diferença existe entre o profeta e o poeta. O profeta faz descer a Beleza dos céus para a terra, e o poeta faz a Beleza subir da terra para os céus. E não se sabe qual é a maior glória: se descer com uma estrela para a terra, ou se subir com uma rosa para o céu. Sei, porém, que o sério verso arrancado do sofrimento é a forma exponencial de oração, e a página branca que recebe o verso é da mesma substância da pedra dos altares, e o estado de graça dos poetas tanto glorifica Deus como o êxtase dos santos. Desde os primeiros tempos, tendes visto, a Fé se socorreu da Poesia para instituir os pássaros que acordam as nossas dores brancas, as nossas dores cinzas, dentro do silêncio tão difícil e tão necessário do Senhor dos Mundos. Assim, muitos espíritos sentiram que a Poesia é um ato litúrgico perfeito, o eficaz rosário, o instantâneo caminho de Damasco dos místicos mais belos, e daqueles que, não sendo místicos, combatem pelo amor”.


IHU On-Line – Segundo a senhora, qual a natureza específica da linguagem mística em geral, muitas vezes marcada por afirmações (ou narrações) ousadas, radicais? Quais modalidades discursivas, literárias, semânticas marcam a simbologia mística?

Salma Ferraz –
Tenho que citar o autor Max Carphentier novamente: “Sabeis que no início foi o Verbo, e o Verbo continha todos os princípios e todas as imagens. Daí que a realidade e o mistério, a essência e a aparência, o tangível e o intangível, o que foi e o que será, o possível e o impossível estão contidos no Verbo, na palavra, matéria prima de tudo e alma da Poesia. (...) O que o verso movimentado pela fé e pela dor pode ser, até agora, a maneira mais intensa e mais fiel de colocar a natureza humana face a face com a Divindade”.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Salma Ferraz –
Sim. Não entendo o erro da atribuição do adjetivo prostituta a Madalena, a manutenção e estigmatização dessa brilhante mulher como tal. Efetivamente, ela nunca foi meretriz; aliás, parece ter sido uma mulher de muitas posses.

Na biografia de Jesus, há duas mulheres com biografias, digamos, um pouco heterodoxas: Raabe e Tamar. A prostituta Raabe, por esconder os espias, foi salva por Josué durante a conquista de Jericó. Habitou entre os israelitas e casou-se com Salmon. Ela gerou a Boaz, que foi bisavó de Davi, entrando assim na linhagem de Jesus.

Por sua vez, Tamar, a viúva negra do Velho Testamento, teve dois maridos, e nenhum deles (Er e Onã) lhe deu filhos. Seu sogro, Judá, de enganador – vendeu seu irmão José e enganou seu pai Jacó –, passa agora a ser enganado. Ele não quer dar o terceiro filho para Tamar, com medo de que ele também morra. Novamente quer enganar sua nora, que se mostra muito mais astuta. Ela se disfarça de prostituta e coabita com seu sogro Judá, pedindo como garantia seu cajado e seu anel. Ao saber que sua nora estava grávida, que havia adulterado, Judá ordena que ela seja apedrejada e depois queimada. Tamar dá um xeque-mate no Patriarca ao mostrar os pertences do pai de seu filho. Judá afirma: “Ela é mais justa do que eu”. Tamar torna-se mãe dos gêmeos Perez e Zerá, e a linhagem de Perez vai até o rei Davi. E é da linhagem de Davi que virá Jesus.
O que quero dizer é que, na linhagem de Jesus, entrou uma efetiva prostituta, Raabe, e outra que se fez passar por tal, Tamar. E elas nunca sofreram a discriminação que Madalena, que não era meretriz, sofreu. Mistérios.


Leia Mais...

Salma Ferraz
já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* O Jesus de Pagola. Edição 336 da Revista IHU On-Line, de 06-07-2010

* Teologia da libertação: a contribuição mais original da América Latina para o mundo. Edição 214 da Revista IHU On-Line, de 06-07-2010

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