Edição 385 | 19 Dezembro 2011

Hildegard e Hadewijch: mística da luz viva, mística do amor

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Moisés Sbardelotto

Em Hildegard de Bingen, o símbolo por excelência é a luz. “Minha alma não carece em nenhum momento da luz que eu chamo sombra de luz viva”, afirmava. Já Hadewijch de Antuérpia expressa o que há de mais terno, ousado e sublime no amor de Deus e humano, explica Felisa Elizondo

Não é possível separar em Hildegard de Bingen suas duas características fundamentais: mística e visionária. “A ‘visão’ – afirma Felisa Elizondo, professora do Instituto Superior de Pastoral – ISP da Universidade Pontifícia de Salamanca, de Madri – é um gênero que tem componentes tais como relatos bíblicos, imagens e certa vontade de ensinar aos outros, juntamente com uma dimensão profética que o diferenciam de outras formas de experiência interior”. Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Felisa analisa a “luz, em sua intensidade variável, e o uso das cores”, dois usos simbólicos nos escritos de Hildegard que “‘dizem’ o que é dificilmente exprimível”. Nela, “o símbolo por excelência é a luz”, afirma. Outra mística analisada por Felisa é Hadewijch de Antuérpia. “A ‘mística do Amor’ tem em Hadewijch um expoente de relevo singular e supõe a reação a uma teologia que, por influência de diversos filósofos, falava da incognoscibilidade de Deus e levava à separação entre as disputas teológicas e a espiritualidade”, afirma. “‘Dominada por um Amor apaixonado’, como ela mesma reconhece, Hadewijch cantou como poucos o desejo, a calma e a tempestade, o gozo e o tormento do amor”, explica Felisa.

Felisa Elizondo é licenciada em Filosofia e Letras (Estudos Clássicos) e doutora em Teologia pela Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino, em Roma. É professora encarregada da cátedra do Instituto Superior de Pastoral – ISP da Universidade Pontifícia de Salamanca e da de San Dámaso, de Madri. Publicou Conocer por experiencia: un estudio sobre el tema en la Suma Teológica (Madri: Ediciones de la Revista Española de Teología, 1992); Las mujeres en la Iglesia: una cuestión abierta (Madri: SM, 1997); Jesús y la dignidad de la mujer (Madri: SM, 2003) e diversos artigos sobre temas de sua especialidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em sua opinião, qual é a relação entre o feminino e a mística?

Felisa Elizondo – Há uma constatação de que as mulheres estiveram séculos à margem da teologia acadêmica, mas viveram a fé e cultivaram a relação com Deus que costumamos qualificar de mística. Nomes como os das duas Matildes  e o de Teresa de Ávila, entre outros, bastariam para demonstrar isso, embora não se devessem esquecer os das outras mais, que, sem alcançar essa notoriedade, fizeram o mesmo.
Não tenho certeza – embora a afirmação venha de longa data – de que haja uma maior afinidade entre as mulheres e a religiosidade, e inclusive entre o ser mulher e a experiência mística, embora seja possível que circunstâncias concretas, como as que caracterizaram a existência de muitas formas de vida religiosa feminina, tenham propiciado a interiorização e a vivência de uma oração afetiva.

IHU On-Line – Em linhas gerais, quem foi Hildegard de Bingen? Quais são os pontos centrais de suas visões místicas e de sua espiritualidade?

Felisa Elizondo – Hildegard de Bingen (1098-1179), abadessa, visionária e mística, chamada de “a Sibila do Reno”, representa uma admirável exceção com relação ao habitual clichê das mulheres da Idade Média: pelo seu caráter, seus dotes, sua biografia, sua cultura, sua autoridade e pela preservação de seus escritos.
As visões reunidas em Scivias – o livro mais conhecido –, ou o Livro das obras de Deus, têm o tom do autêntico, pois ela mesma reconhece que elas lhe sobrevêm desde a infância; ela aceita a orientação de uma mestra; submete sua experiência ao juízo de especialistas como São Bernardo. O Papa Eugênio aprova sua doutrina e reconhece sua missão profética, depois que, no sínodo de Trier, o abade de Claraval interveio em seu favor.

Deve-se levar em conta que a “visão” é um gênero que tem componentes tais como relatos bíblicos, imagens e certa vontade de ensinar aos outros, juntamente com uma dimensão profética que o diferenciam de outras formas de experiência interior. Hildegard se mostra, sobretudo, como visionária sem que por isso seja possível lhe negar o caráter de mística.
A respeito de Hildegard e da carta que citaremos, uma estudiosa escreve: “Suas visões, inclusive no estado de vigília, não são alucinações, fazem-na penetrar ‘com os olhos e ouvidos do homem interior’, no domínio dos ‘sentidos espirituais’, onde o que se vê e o que se escuta é percebido em uma luz sobrenatural, ‘sombra de luz viva’, e às vezes, excepcionalmente, nessa mesma luz. Isso é o que expressa – continua essa especialista – no fim do Liber vitae meritorum: ‘O homem que vê essas coisas e as transcreve, vê e não vê, sente as coisas terrenas e, ao mesmo tempo, não as sente. Não é por si mesmo que apresenta as maravilhas de Deus, mas sim agarrado como uma corda pela mão do músico para produzir um som que não vem dele, mas do toque de outro’. Em suma, para recolher uma expressão que foi aplicada a outros poetas, Hildegard é ‘atravessada pelo Eterno’”.

E acrescenta: “Toda situação concreta se traduz imediatamente nela em imagens e símbolos, percebidos, por outra parte, à luz de Cristo em relação com sua missão redentora. Quanto às grandes obras, oferecem panoramas inspirados, recriados pela visionária em uma grande síntese da história do mundo e da salvação”.
As visões balizam a vida de Hildegard desde a sua infância e estão no início do seu profetismo. Elas têm semelhanças com as dos profetas do Antigo Testamento e até começam com o estilo profético do qual fala São Gregório Magno em suas Homilias sobre Ezequiel. De fato, ela apela, de vez em quando, ao que viu e ouviu para reivindicar credibilidade ao que escreve. E chega a ameaçar até que serão apagados do Livro da vida aqueles que não lhe derem crédito ou adulterarem sua mensagem.

As visões de Hildegard, nas quais são chamativos tanto a luminosidade como o colorido, referem-se à Divindade, à Criação e à Salvação, ao Filho do Homem, à Igreja e à situação e ao destino da humanidade. Também estão presentes descrições do Antigo Testamento, como as que se referem ao Templo. E os códices que contêm suas obras abundam de belíssimas miniaturas que poderiam muito bem ter sido inspiradas por ela mesma. A luz, em sua intensidade variável, e o uso das cores são simbólicos e “dizem” o que é dificilmente exprimível.

IHU On-Line – Ao discernir suas visões, Hildegard de Bingen recebeu a aprovação do abade Bernardo de Claraval e do Papa Eugênio III. Como se deu a relação entre ela e a Igreja do seu tempo?

Felisa Elizondo – Não eram tempos fáceis na cristandade. Seu nascimento coincide com a Primeira Cruzada, e a situação que lhe coube viver era a de uma Igreja com imperadores que intervinham em assuntos eclesiásticos, e bispos e abades convertidos em senhores feudais. Em algumas das visões, ela deixa entrever que o quadro dos homens da Igreja não é precisamente edificante.
É conhecida a tensão entre Hildegard e os eclesiásticos de Mainz por uma decisão atrevida da abadessa de sepultar um perseguido. E sua recusa a obedecer quando, como castigo, é proibido o canto em sua abadia; canto que, como ela argumenta, é, de algum modo, voz do Espírito. Sua carta aos prelados que haviam castigado as freiras ao silêncio por causa da desobediência da abadessa é uma defesa da música e do canto que reflete uma concepção que aparece mais vezes em seus escritos: a harmonia do universo e a harmonia original da criatura e do Criador, uma harmonia à qual a voz e a música evocam e estão chamadas a restaurar: “Na voz de Adão, antes da queda, estava toda a doçura e toda a harmonia da arte musical (…). Por isso vós e todos os prelados deveis ter cuidado antes de fechar com um juízo a boca de uma assembleia que canta a Deus e proibir-lhe de celebrar e receber os sacramentos. Velai para que Satanás, que arranca o homem da harmonia celeste e das delícias do paraíso, não vos equivoque em seus juízos (...). Refleti: assim como o corpo de Cristo assumiu a carne da virgindade intacta de Maria pelo Espírito Santo, assim também o cântico de louvores, eco da harmonia celeste, está enraizado na Igreja pelo Espírito Santo. O corpo é o vestido da alma que dá vida à voz. Por isso convém que o corpo, unido à alma, cante de viva voz os louvores de Deus” .

Nessa carta pode-se perceber claramente o tom profético com que Hildegard admoesta, o mesmo que se encontra nos livros que reúnem suas visões e nas Cartas. De fato, ainda em vida, foi-lhe reconhecida grande autoridade, o que lhe permitiu uma liberdade de movimentos e de palavra que outras mulheres de seu tempo não tiveram, nem sequer as dos séculos subsequentes. Em seu epistolário encontram-se várias cartas dirigidas a papas, a conhecidos teólogos e mestres espirituais e ao próprio imperador Frederico I, o Barba Ruiva .
Por tudo isso, sua figura tem muito de excepcional, e só Catarina de Sena pode ser comparada a ela em alguns aspectos.

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