Edição 385 | 19 Dezembro 2011

A mídia globalizada como base cultural da plutonomia

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Bruno Lima Rocha

Vez por outra o alto nível decisório dos financistas globais se encarrega de um momento sincero. O Citigoup Research, uma subdivisão da Citigroup Global Markets (este por sua vez um braço do Citigroup), gerou um conceito chamado de Plutonomy (plutonomia, um neologismo para plutocracia, mando e governo dos ricos). Tais documentos ganharam difusão mundial através do filme de Michael Moore (Capitalismo, uma história de amor, 2009) e para nossa pesquisa serve como fonte original.

A definição dos consultores da gigante financeira é de um mundo que tende a naturalizar a concentração de renda e aumentar a capilaridade das marcas e hábitos do consumo de luxo. Ao contrário do que se difunde no senso comum, isso não seria um “desequilíbrio societário ou ecológico”, mas sua própria natureza.

Segundo os analistas Ajay Kapur, Niall Macleod e Narendra Singh (ver este documento em http://theparagraph.com/files/docs/CitigroupPlutonomyRept2_200603.pdf), a globalização transnacional também opera reforçando sua adesão, fertiliza corações e mentes através das tecnologias de disseminação de novas mídias como downloads de internet, TV a cabo e satélite. Essas vias vêm aumentando as audiências desproporcionalmente, e por consequência geram adesão para a cultura das celebridades, com estrelas midiatizáveis tais como: jogadores de pense golfe e futebol, pilotos de corrida, protagonistas da indústria do entretenimento, supermodelos, desenhistas, os chefes de cozinha das celebridades, etc.

Tais ícones do capitalismo têm provedores contentes com esta ascensão, como os controladores das vias de distribuição de informações e dados binários em escala mundial (como o Sistema Swift de compensação interbancária e as transnacionais das redes físicas da internet), os advogados de transnacionais e banqueiros que intermedeiam globalização e produtividade, os CEOs em que conduzem o processo de convergência globalizada com tecnologia, gerando assim um aumento da produtividade. Dessa forma, aumenta a economia com a remuneração da força de trabalho, logo transformando em ganhos diretos (via empresas), ou indiretos, via repasses de recursos coletivos, através do Estado. Assim, a mídia como entretenimento e desinformação estrutural, contribui para a materialização da plutonomia como forma contemporânea de dominação capitalista.

Fica difícil entender um golpe quando só o que se sente é o impacto, e não é perceptível a autoria do ataque. Essas empresas pouco ou nada se constrangem diante de instituições da modernidade republicana. Para além da acumulação de tipo selvagem, obedecendo a uma lógica rentista que, por vezes, prescinde do emprego direto para existir, o capital em sua forma financeira opera por dentro do aparelho de Estado (como nos Bancos Centrais e a defesa de sua “independência” e “tecnicidade”), faz trafegar seus bens simbólicos (dígitos binários representando algum valor ou a expectativa deste) e difunde sentido em escala de massas através de mídia generalista e especializada. Essa forma de empreendimento e negócio do capitalismo é, por definição, aparentemente fictícia, tem natureza especulativa e é incapaz de gerar valor real em escala societária.
O fato é que os cidadãos do planeta se veem diante de um paradoxo dominante. De um lado, os mecanismos fundamentais para explicar racionalmente o modelo capitalista de civilização não são localizados em instituições formativas, como nas organizações empresariais de mídia ou mesmo nas instituições de ensino. De outro, a dimensão cultural que essa dominância toma, compreendendo cultura tanto como norma (ser e dever ser) e representação (narrativas, estéticas, comunicação no sentido amplo), é retroalimentada pela superexposição a marcas e valores típicos do modus vivendi do topo da pirâmide social e de seus novos heróis, a classe mundial gerencialista.

Esses são a nova classe dominante no mundo das sociedades anônimas (S.A.), onde a propriedade acionária se pulveriza, e as economias se atravessam por fundos de investimento (boa parte deles oriundos da poupança da força de trabalho, como os fundos de pensão) e a relação com o Estado em alto nível decisório é visceral. Haja vista, no Brasil, o pânico no andar de cima gerado pela Operação Satiagraha, quando a Polícia Federal por pouco não expôs ao país a penetração de um grupo de investimento de risco, no caso o Opportunity, por dentro das elites dirigentes e das frações de classe dominante.
O mesmo se dá em escala planetária, quando os estadunidenses cunham dois termos conceitualmente perfeitos. Too big to fail and too big to jail! – ou seja, “Grande demais para falir e grande demais para ir preso!”. Os operadores de bancos de investimentos, empresas de seguros, consultorias financeiras, megacorretoras e bancos hipotecários Merril Lynch, Lehman Brothers, Fannie Mae, Freddie Mac, AIG, todos sem exceção foram alvos de investigações federais nos EUA, tiveram falências declaradas sendo depois salvos ou incorporados, sempre com aos recursos oriundos do Tesouro dos EUA. Até o presente momento ninguém foi punido, estes dirigentes empresariais e financeiros seguem empregados em universidades de ponta, no governo do Império ou em outras megacorporações (sempre com bônus de “produtividade”). O resultado foi um empobrecimento, o alastramento da bolha imobiliária fraudulenta (golpe da pirâmide) levando a insolvência para os bancos europeus (que também entraram na jogatina) e aumentando o endividamento público dos Estados Unidos. Já esta dívida opera como lastro das reservas dos países do planeta, com China, Japão, Reino Unido, os países da OPEP e o Brasil entre os cinco maiores detentores de títulos do tesouro do Império (dados de 2011, Serasa Experian).

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