Edição 367 | 27 Junho 2011

IHU Repórter

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Márcia Junges, Stefanie Telles, Rafaela Kley e Graziela Wolfart

Seu nome é Jorge Otávio Pinto Pouey de Oliveira, mas todos o conhecem por Frank Jorge. Ele é músico, multi-instrumentista e uma importante figura do cenário do rock and roll gaúcho. Aqui na Unisinos é um dos coordenadores e professor do curso de Formação de Produtores e Músicos de Rock. Na entrevista a seguir, ele conta aspectos marcantes da sua trajetória pessoal e profissional. Saiba um pouco mais sobre este porto-alegrense apaixonado por música, literatura e comunicação, cujas raízes vêm da fronteira do Brasil com o Uruguai e Argentina, elementos fundamentais para entender o surgimento de Amigo Punk, um de seus grandes sucessos.
Frank na Unisinos: docência e música agora inseparáveis

Origens – Venho de uma família muito rica culturalmente. Meu pai é de Uruguaiana, médico, filho de família que trabalhava com agropecuária. Não cheguei a conviver muito com ele porque faleceu quando eu ainda era pequeno. Desde sempre vivi em Porto Alegre, de onde minha mãe é natural. Mas a família dela veio de Santana do Livramento. Então, minhas origens vêm do interior do nosso estado, da fronteira com o Uruguai e Argentina – Uruguaiana e Paso de Los Libres por parte de pai e, por parte da minha mãe, Santana do Livramento e Rivera. Quando meu pai veio estudar medicina em Porto Alegre, conheceu minha mãe, se casou e teve filhos. Gosto sempre de comentar que tive uma infância muito legal, rica de convivências, com todos os irmãos juntos. Tenho três irmãs e dois irmãos antes de mim. Sou o caçula desses seis. A família era muito ligada à música e à leitura. Minha mãe, mesmo não tendo feito curso superior, tinha uma formação bacana, sólida, cultural, de gostar muito de ler, de música, MPB, tango. Meu pai, quando vivo, viajou muito com mamãe pela Argentina, Uruguai em congressos de medicina. De lá trazia discos tanto de tango como dos Beatles, que estavam saindo nos anos 1960. Usufruí desse ambiente de bens culturais, e isso me marcou profundamente. Eu tinha uma diversidade cultural muito grande em casa, que não é a realidade de todo mundo, embora hoje se tenha a internet. Acho que os filhos ficam um pouco à mercê do que a internet mostra; não há um guia para dizer que isso aqui é bacana, isso aqui é cool, isso não é.

Porto-alegrense – Sou porto-alegrense. Morei um tempo no bairro Bom Fim, um outro período no bairro Mon’t Serrat, mas sempre indo e voltando no Bom Fim. De um modo ou de outro, sou muito vinculado a esse lugar.

Influências – Costumava ouvir orquestras de tango, Paixão Cortes, Celly Campelo, Mutantes, Beatles, Roberto Carlos. Esse acesso e a importância de entender com naturalidade o acesso à informação ampla foi vital para o que eu viria fazer.

Irmãos – Meus irmãos não têm envolvimento formal com a música. A mais velha, mais próxima de mim, é nutricionista, e tenho um irmão jornalista, uma irmã fisioterapeuta, uma bióloga e outra fisioterapeuta. Já na minha adolescência, acompanhando a cena musical de Porto Alegre, no final dos anos 1970, surge todo um cenário de música pop brasileira. Era um cenário de música popular e brega muito sólido no Brasil, resquícios da Bossa Nova, Chico, Caetano, Gil, pouca coisa de rock, mas alguns heróis dos anos 1970. Mas nos anos 1980 é que vai surgir um apelo forte para eu começar a tocar violão, e passei a estudar o instrumento com 14 anos.

Música – Comecei a tocar violão em 1981. Mal sabia eu que viria a trabalhar com música de verdade, compondo, tocando, fazendo shows. Comecei a tocar porque eu gostava de música, mas não tinha uma formatação, uma clareza que seria, de certo modo, um ofício, uma profissão. Esse período vai de 1981 até 1986, uma época adolescente, confusa e deslocada do mundo, como qualquer adolescente, em qualquer época. E eu estava ali tocando violão, terminando o ensino fundamental, depois o ensino médio, mas completamente sem saber o que faria da vida. Tinha uma margem de grande prazer e identificação com música, com literatura, mas não me enxergava como um artista. Servi o Exército em 1985, e em 1983, 1984 tive as primeiras bandas, que são importantes pela ideia da largada, de dar um start, ter coragem e cara de pau para fazer um show. Estou falando do Prisão de ventre, banda anterior à Graforreia Xilarmônica. Mas essa questão de profissionalização ocorre em 1986, quando saio do quartel e entro nos Cascavelletes. Isso tem ainda a ver com aquilo que comentei: eu não tinha noção de que entrar naquela banda estava sendo uma profissionalização e foi o que aconteceu. Com 20 anos de idade, tocar numa banda, num cenário histórico, num contexto brasileiro e riograndense, que estava repleto de bandas novas, foi algo marcante. O Cascavelletes tinha uma linguagem muito própria, e daí estreou no bar Ocidente em 1986 e, em seguida, estava fazendo abertura de shows do Capital Inicial, em Porto Alegre.

Curso de Letras – De 1986 em diante foi um ritmo frenético. Esse foi o ano em que, além da estreia do Cascavelletes, entrei no curso de Letras da PUC. Eu tinha uma noção e interesse pela academia, por uma profissão reconhecida pela interface do conhecimento, do saber científico. Isso aconteceu sem uma imposição familiar. Minha mãe tinha respeito por cada um de nós em nossas escolhas, mas estava implícito na maneira como funcionava a família, como enxergava o mundo, o quanto era importante que cada um tivesse a sua passagem pelo ensino superior. Fiz Letras por gostar muito de Literatura. Cursei a graduação conciliando a fase de efervescência juvenil, e tocando com os Cascavelletes. Foi bem bacana, muito rico, tive professores excelentes, assisti a vários seminários e palestras importantes. Ficava extasiado. Entre colegas falávamos muito sobre literatura, em criar um grupo de estudos, um grupo literário. A graduação durou de 1986 a 1992. Em 1991 nasceu meu primeiro filho, o Rafael, hoje estudante de Letras na UFRGS.

Aventuras literárias – Nos anos 1990, já vivia uma outra realidade, de estar atuando ainda com bandas, principalmente com Graforreia Xilarmônica, Julio Renny, e estar correndo atrás de outras possibilidades de ganhos dentro da área da Literatura. No final dessa década surge o Sarau Elétrico, com a Kátia Sumann e o Augusto Fischer. Comecei a carreira de escritor, mas muito destrambelhada (com o perdão da palavra). De tanto que lia crônicas e gostava de escritores mais escatológicos, mais irreverentes, comecei a tentar escrever algo assim e aí, com o Sarau, tive que gerar uma produção textual para ler. Isso porque além de ler outros escritores, tinha um momento em que eu lia alguma coisa minha, inédita. Isso foi gerando material, acabei lançando quatro livros, mas não era um projeto literário, era uma literatura possível que estava ao meu alcance fazer, que era um texto meio despretensioso, às vezes um conto, um poema. É na década de 2000 que vou dar um “pique” maior nessa perspectiva, porque nasce meu segundo filho, em 1999. Então, é nos anos 2000, que encaro de uma maneira pragmática a necessidade de seguir sendo músico. Sempre fui uma pessoa de não trabalhar só com um nicho do mercado musical, “só com shows em bares”. Eu dialogava já com a Câmara Riograndense do Livro, com as secretarias de cultura, tentava ter uma rede muito ampla de relações, de laços fortes e fracos, que ia gerando uma perspectiva de trabalho e de ganhos, uma continuidade. Todo problema de um artista é a continuidade: tu desenvolves um disco, um trabalho e tem que divulgar bem, distribuir bem, fazer shows e tu tens que estar sempre pensando no próximo passo. Vais fazer o quê? Gravar outro material? Vais tentar gravar em outros estados? Então, nos anos 2000 foi importante manter a atividade musical. Comecei a lançar discos solo, só como Frank Jorge, mas já tentando trabalhar como redator em produtora de vídeo.

Experiência em TV – Fui convidado, muito em função do Sarau elétrico, a trabalhar na TV Educativa, durante o governo Olívio Dutra. Não tinha noção de como era trabalhar em TV, mas aprendi a trabalhar, a fazer produção, roteiro, edição de fita, que nem era digital ainda. Fiz curso de radialista, para ter uma mínima condição do ponto de vista de regulamentação do ofício, não sendo jornalista, o que agregou muito. Fiquei quase três anos na TV Educativa e fazendo no período um programa de rádio na FM Cultura, isso sempre tocando o dia a dia familiar, minha proximidade com minha mãe, com meus irmãos, dentro das minhas condições. E, a essa altura, já tinha os dois filhos, Rafael e Érico, e, seguindo essa sequência, depois da TVE em 2003, eu atuo na Usina do Gasômetro por um ano como diretor, que também foi outra atribuição. É também o ano (2004) que nasce minha terceira e última filha, a Glória, que já está com seis anos. Minha esposa se chama Daniela e é professora de inglês.

Outros caminhos profissionais e entrada na Unisinos – Em 2005, começo a trabalhar na Secretaria de Cultura de São Leopoldo, que viria a ser a minha ponte com a Unisinos, pela proximidade geográfica. O Fabrício Carpinejar me convidou para ser o seu secretário adjunto. Ele seria o secretário de cultura, mas neste ínterim desistiu e aí eu me construí como alguém disponível para trabalhar na Secretaria de Cultura. Estava iniciando a Secretaria, e de certo modo não deixei de ser um fundador da Secretaria de Cultura de São Leopoldo. Fiquei ali por um ano e meio e, no decorrer de 2006, o Fabrício me convidou para conhecer a unidade acadêmica de graduação da Unisinos. O Gustavo Borba atuava com os novos projetos e a ideia que o Fabrício tinha era que eu constituísse um curso de música diferente. Nessa história com a Unisinos sempre tive uma relação muito boa, muito intensa. É um namoro que está durando muito, no sentido de surpreender minhas expectativas e da própria Universidade, com um nível de satisfação também pelo que tanto eu quanto o professor Sefrin estamos atingindo. Fiz um rascunho singelo do que poderia ser um curso de música diferente dos cursos tradicionais de música erudita, de licenciatura, composição e regência. Pensei em um curso diferente, agregando saberes na área do Direito, de software de áudio, da história da música popular. Fomos construindo um nível de sensibilidade e atenção tão interessante que o curso de Formação de Produtores e Músicos de Rock foi ofertado no final de 2006 e a primeira turma já entrou no início de 2007. Já formamos cinco turmas, e na medida em que o curso foi sendo organizado e tendo a previsão de lançamento de coletânea de trabalho autoral, bem como de projeto-festival, também lançamos cinco coletâneas de trabalhos autorais dos alunos e fizemos cinco festivais fora do câmpus Unisinos, em Porto Alegre. Ano passado, entrei em uma especialização em docência no ensino superior, aqui na Unisinos, curso que foi formatado com muito zelo, com um corpo docente excelente. Passei pela seleção do mestrado do PPG em Comunicação aqui da Unisinos. E agora estou muito feliz, independentemente da correria, de manter a coordenação do curso com o professor Sefrin, com a docência, com o fato de estar estudando. Esta tem sido minha realidade.

Rádio – Agora recebi um convite da rádio Ipanema para produzir e apresentar um programa, que vai se chamar “Crocâncias diversas”. É uma expressão que gosto muito de utilizar. Independentemente dos desafios e dos (dis)sabores, a gente não pode perder uma certa alegria, um humor, uma visão mais crocante das coisas. Muito mais do que cumprir com assiduidade, com profissionalismo. Sim, isso tudo é importante, mas tem que enxergar a graça das coisas.

Unisinos – O bacana de entender uma universidade jesuíta e ler alguma coisa da história da Companhia de Jesus, da pedagogia inaciana, é que você vai percebendo a construção de saberes e competências como um ideal muito bacana, muito singelo. Minha vida inteira teve muito desta perspectiva de não se enxergar acovardado, sem capacidade de trabalhar os desafios. E é o que a gente faz no dia a dia: pensar em uma integração para que o aluno consiga ter um bom domínio dos conteúdos que vão fazer diferença no mercado, e que vá fazer diferença na vida dele, na convivência e experiência que os professores conseguem transmitir e construir. Vejo isso de uma maneira muito bonita e me sinto muito identificado com estes preceitos, que são caros.

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