Edição 367 | 27 Junho 2011

Uma vacina contra o desespero

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Márcia Junges

Mesmo que não faça revoluções, o riso estremece as bases do poder autoritário, revela nossa incompletude existencial e pode tornar nossa existência mais leve, pondera o psiquiatra e psicanalista Abrão Slavutsky

“O humor aceita a loucura humana e sorri diante dela. Faz refletir sobre a tragédia e ainda distende os nervos do mundo. É uma vacina contra o desespero que, por doses moderadas de ceticismo, nos imuniza contra a tendência de levarmos tão a sério a seriedade dos homens”. A constatação é do psicanalista e psiquiatra Abrão Slavutsky, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Em seu ponto de vistas, “o riso se encontra na encruzilhada do físico e do psíquico, do divino e do diabólico, do individual e do social, flutuando no equívoco e na indeterminação”. Além disso, funciona como elemento importante de resiliência e preocupa o poder, “seja ele político, religioso ou mesmo educacional”. E completa: “Num mundo em que tanto se fala em diminuir o peso, em dietas milagrosas, nos perigos da obesidade, seria bom pensarmos em como diminuir o peso dos sofrimentos e das angústias que carregamos”.

Abrão Slavutzky é psicanalista e médico psiquiatra com formação em Buenos Aires. Graduou-se em medicina em 1971, na Fundação Católica de Medicina do Rio Grande do Sul. Desde 2001, é colaborador do jornal Zero Hora e de diversas revistas. Entre outros, é um dos autores e organizadores de Seria trágico... se não fosse cômico - humor e psicanálise (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005), Quem pensas tu que eu sou? (São Leopoldo: Unisinos, 2009) e Psicanálise e cultura (Rio de Janeiro: Vozes, 1983). Alguns dos livros que organizou são O Dever da Memória- O Levante do Gueto de Varsóvia (Porto Alegre: AGE, 2003) e A paixão de ser – depoimentos e ensaios sobre a identidade judaica (Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1998).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Em que aspectos rir de si mesmo e dos outros é psicologicamente salutar?

Abrão Slavutzsky -
Há um velho ditado que reza: “Os médicos dizem que rir faz bem à saúde”. Não só os médicos diziam isso, mas, segundo Kant, três coisas podem fortalecer o homem contra as tribulações da vida: a esperança, o sono e o riso. Interessante que os filósofos, em geral tão sérios, não desprezaram o riso, tanto assim que Aristóteles criou a célebre frase: “O riso é próprio do homem”. Será mesmo verdade essa afirmação? Em 2001 foi publicado um instigante trabalho sobre o riso dos chipanzés, com fotos e filmes em que se percebem claramente seus risos. Esse trabalho revela como riem esses macacos a partir de jogos que fazem entre si. Nesse sentido, confirma-se o que Johan Huizinga  já havia escrito em seu livro Homo Ludens, de 1938, no qual afirma que os animais brincam e brincando riem, mesmo que seja um riso primitivo. Já os bebês começam a sorrir cedo, já no primeiro mês de vida, graças aos estímulos táteis e aos sons da voz de quem os cuida. E, à medida que crescem e aumentam as interações com seu meio, começam a brincar e rir, por exemplo, de esconder seu rosto e descobri-lo, “reaparecendo” – o famoso jogo do “cucu”.


IHU On-Line - Nessa lógica, como podemos compreender os tratamentos médicos que reconhecem o valor terapêutico do riso?

Abrão Slavutzsky -
Essa é uma crença que vem dos gregos, que sugeriam ser o riso benéfico à saúde, por ajudar na digestão, restabelecer a energia e mitigar a tristeza. Impressionante como nas últimas três décadas cresceram as investigações sobre o valor terapêutico do riso e da alegria. A concentração do hormônio do estresse no sangue, o cortisol, diminui quando as pessoas riem. Quando o cortisol se mantém elevado, cai a defesa imunológica e aumentam as possibilidades de infecções. Também a sensibilidade à dor diminui em estado de alegria, pois a liberação das endorfinas desencadeia no cérebro sentimentos de prazer, bloqueando a transmissão de estímulos dolorosos. Um parêntese: estou falando mais de temas que se afastam da psicanálise, e, de fato, o riso e a alegria têm sido mais estudados por outras áreas do conhecimento. Na psicanálise há certo vazio no estudo do riso e, principalmente, da alegria, às vezes até uma tendência a desprezá-los ou tomá-los como uma defesa maníaca, de modo que precisamos nos valer, cada vez mais, desses importantes estudos interdisciplinares. Na psicanálise, um bom ponto de partida para o exame do riso poderia ser a vivência de satisfação, um conceito introduzido por Freud no início de seus estudos sobre a realidade psíquica.


IHU On-Line - Em que medida o rir de si mesmo demonstra a incompletude da nossa verdade?

Abrão Slavutzsky -
Antes de responder à pergunta, uma observação sobre o riso: há muitos tipos de risos – o amigável, o sardônico, o agressivo, o sarcástico, o angelical, o ingênuo, o do bebê. Percebo que as perguntas enveredaram por um caminho que coloca o riso mais ao lado da saúde, do saudável, do bem, quando muitas vezes o riso como expressão de alegria pode ser sádico, malvado ou arrogante de triunfo. Com efeito, o riso se encontra na encruzilhada do físico e do psíquico, do divino e do diabólico, do individual e do social, flutuando no equívoco e na indeterminação. Exponho aqui uma conclusão expressa por Gorges Minois em seu livro História do riso e do escárnio, leitura que indico fortemente.

O riso, não só revela a incompletude, como tende a ser malvisto diante do sagrado, seja o sagrado religioso, seja o ideológico e até na educação. O riso tende a ser tomado, às vezes, como irreverente, como um deboche. Todos os autoritarismos buscam disciplinar os risos: do que se pode rir e do que não se pode.

No riso, como no amor, o corpo se fusiona com o espírito. Aliás, Jacques Le Goff criticou a Freud que em seu importante livro Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905) não se referiu a esta importante questão do riso se manifestando no corpo e não só no psiquismo. No riso de uma piada o corpo expressa o poder do jogo de palavras que liberam desejos eróticos ou agressivos de quem ri.


IHU On-Line - As pessoas deveriam rir mais de si mesmas? O riso tornaria a vida mais leve?

Abrão Slavutzsky -
Não sei se as pessoas deveriam rir mais de si mesmas ou mesmo rir mais. Não acredito muito em sugestões do tipo “riam mais e sejam felizes”, “riam de si mesmas e conheçam o paraíso na terra”, e assim por diante. Respeito a necessidade humana de trilhar caminhos sedutores na busca desesperada da felicidade, mas me reservo uma atitude de suspeita. Não conheço caminhos fáceis que nos levem a encontrar uma vida mais leve. Além do que vivemos em sociedade, e vamos convir que a sociedade humana não é das mais bondosas – basta ver o poder da crueldade .


IHU On-Line - A vida, afinal, pode ou não ser mais leve?

Abrão Slavutzsky -
Eis o ponto transcendental de nossa conversa. Talvez todas as terapias, psicanalíticas ou não, busquem, em verdade, tornar a vida mais leve, isto é, fazer com que a leveza alivie o peso de nossos sofrimentos, que não são poucos. Sofremos porque há desequilíbrios naturais, porque somos vulneráveis às doenças, porque as relações humanas são complexas – ora intensas, quase sempre tensas. Ninguém escapa às agressões e ninguém é só amor, pelo contrário. Viver é muito perigoso, escreveu Guimarães Rosa  em seu Grande sertão: veredas. Viver é tensão, mas viver, felizmente, também é tesão. Portanto, frente ao peso da existência, talvez seja útil buscar a leveza da música, da dança, da conversa amiga, e ler, por exemplo, as Seis propostas para o próximo milênio, de Italo Calvino , em especial a primeira de suas conferências, que é justamente sobre a leveza. Perdi a conta de quantas vezes já me deliciei com esta pequena obra-prima, em que o autor afirma ter passado a vida buscando diminuir o peso das palavras, procurando a leveza, mesmo não tendo nada contra as palavras pesadas ou contra o peso. Num mundo em que tanto se fala em diminuir o peso, em dietas milagrosas, nos perigos da obesidade, seria bom pensarmos em como diminuir o peso dos sofrimentos e das angústias que carregamos.


IHU On-Line - Por que o humor é um dom precioso?

Abrão Slavutzsky -
Escrevi, a respeito, um ensaio, O precioso dom do humor, que faz parte do livro Seria trágico... se não fosse cômico - humor e psicanálise (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005), que Kupermann e eu organizamos. Parti de uma frase expressa por Freud no final de seu breve ensaio O humor, de 1927, quando ele tinha 71 anos e sua teoria da psicanálise estava mais ou menos concluída. Fiquei espantado com sua afirmação de que o humor é um dom precioso e raro. Como nunca havia deparado com tanto entusiasmo por parte do sóbrio Sig, decidi investigar em sua correspondência e sua obra que qualidade humana havia despertado tanta emoção nele como o bom humor. Não encontrando, me perguntei: porque na história da psicanálise o tema do humor foi quase desprezado? Difícil questão, mas creio que ela está ligada à sedução exercida pelos traumatismos psicológicos ligados a violências, a separações, a rupturas, a perdas que são pesadas e vinculadas a ações e ao trágico. Feito esse pequeno passeio, retorno à questão do humor como dom precioso. O equivalente psicológico da resistência física é a resiliência , uma espécie de energia mental cuja força psicológica é capaz de suportar crises e frustrações e ainda encontrar algo positivo mesmo em experiências dolorosas. O humor é importante fator de resiliência, fortalece o psiquismo, a alma (psique em grego é alma) e ajuda as pessoas. O contrário do humor é a mortificação. Daniel Sibony em seu recente livro – Le sens Du rire et de L’humour – define o humor como a arte de inventar um consolo que nos faz rir de nós mesmos. Talvez, todos nós, em alguma medida, nós levamos muito a sério, uma seriedade pesada que mortifica e nos deixa mau humorados.


IHU On-Line - Se o humor é um dom precioso, ele não deveria ser mais estudado?

Abrão Slavutzsky -
Uma boa pergunta a se fazer às faculdades de Psicologia, aos cursos de psiquiatria e aos institutos de Psicanálise. Comecei a estudar o humor de forma sistemática faz dez anos e cheguei à conclusão de que ainda há muito, por aprender. Felizmente, hoje já existem vários grupos nos Estados Unidos e na Europa que estão publicando profusamente sobre o humor, com destaque para o livro recente de Roy Martin, uma compilação incrível sobre as mais diferentes facetas do humor, que ainda não foi traduzido para o português. Em psicanálise começam a se escrever livros, revistas sobre o tema, mas não soube de um só congresso sobre o tema até hoje!


IHU On-Line - Desculpe a indiscrição, mas estás escrevendo sobre o humor?

Abrão Slavutzsky -
Não só desculpo, como agradeço (risos). Desde 2005, antes mesmo do lançamento de Seria trágico... se não fosse cômico, decidi escrever o meu livro sobre humor. Pensei que seria algo para dois anos, no máximo, e já estou nisso há quase seis... Aliás, a Unisinos contribuiu para o atraso do meu trabalho – sempre precisamos de algum bode expiatório –, pois interrompi por um ano e meio as atividades em função do Quem pensas tu que eu sou?,. De qualquer forma, decidi não me apressar para concluí-lo, pois para estar à altura do que pretendo expor preciso melhorar meu sentido do humor, passando isso para o texto, o que não é fácil!


IHU On-Line - Qual é o laço que une tragédia e comédia?

Abrão Slavutzsky -
Nos festivais gregos de teatro, em que teve início a história da tragédia e da comédia, ambas as manifestações integravam os espetáculos, que duravam o dia inteiro. Tanto uma como a outra eram igualmente importantes. Aliás, Tchekhov  afirmou que a realidade humana pode ser vista através de duas janelas, a da tragédia e a da comédia. Woody Allen , em seu filme Melinda & Melinda, trata exatamente dessa questão. E o mesmo se poderia dizer de tantos filmes de Chaplin que versam sobre a pobreza, o sofrimento, a tragédia da guerra e do nazismo – O Grande Ditador à frente – desde um ângulo cômico. A tragédia é, como se sabe, imitação de ações de caráter elevado; ela coloca o homem na situação de agir, sendo a ação mais importante que o personagem. Já a comédia imita homens, homens inferiores que são hipocondríacos, como na peça de Molière  O doente imaginário, ou medrosos, avarentos, enfim, ridículos, para que possamos rir deles e neles (que na verdade somos nós) descarregar nossos medos e angústias. Aliás, só Molière conseguiu escrever comédias que superassem as tragédias. No cinema, tivemos um Chaplin, hoje um Woody Allen, mas a condição humana tende a valorizar, como já disse, o traumático e o dramático.


IHU On-Line - Por que o riso ocupa um papel tão importante na história da humanidade e é objeto de tanta preocupação?

Abrão Slavutzsky -
Será mesmo que o riso é tão importante assim? Pode ser, mas na Bíblia ele aparece pouco e às vezes é até criticado, como o foi o riso erótico de Sara, a primeira matriarca do povo judeu. Também no Cristianismo o riso nem sempre foi bem visto, em especial na Idade Média, como tão bem nos relata Umberto Eco em O nome da rosa. O riso na História e, em especial, o humor tiveram no poder um inimigo, pois este não deseja ser criticado, desvalorizado. Bergson, em seu clássico estudo sobre o riso, escreve que o poeta trágico evita chamar nossa atenção sobre a materialidade de nossos heróis, que por isso não sentam, não fazem suas necessidades fisiológicas, etc. O riso sempre preocupou o poder, seja ele político, religioso ou mesmo educacional.


IHU On-Line - O riso tem um caráter rebelde? Em que aspectos o riso se configura numa desconstrução do poder?

Abrão Slavutzsky -
O riso? Não necessariamente; afinal, os nazistas, stalinistas e outros “istas” dessa natureza riam e riem. O problema do poder sempre foi o humor: este sim, por sua rebeldia, por sua irreverência, é essencialmente uma força desconstrutiva. O humor não faz nenhuma revolução, mas ele não perdoa as falhas dos poderosos nem qualquer forma de autoritarismo. Tivemos no Brasil o exemplo do Pasquim, um jornalzinho que todas as semanas procurávamos com entusiasmo nas bancas de jornais para rir do perigoso poder militar, que terminou por fechá-lo. Na Alemanha nazista os humoristas eram perseguidos, o mesmo acontecendo em outras ditaduras. O humor é rebelde pois sempre busca o outro lado de tudo, logo questiona o poder sempre.


IHU On-Line - Há um humor tipicamente brasileiro, uma linguagem dessa natureza que nos diferencie dos demais países?

Abrão Slavutzsky -
O humor brasileiro é alegre e sacana como o personagem O amigo da onça, de Péricles, ou como o saudoso “Fradim”, do Henfil , e ainda o grosso alegre Analista de Bagé, de L. F. Verissimo . O povo brasileiro tem na alegria – nossa festa maior é o carnaval – uma de suas marcas. Nosso país é desorganizado em seu planejamento – como os preparativos para a Copa do Mundo uma vez mais atestam –, e é ainda injusto socialmente, mas segue o que em parte preconiza a sabedoria chinesa: comer a metade, caminhar o dobro e rir o triplo. Somos conhecidos como um povo que sabe rir, e nosso humor tem na alegria uma referência. De fato, ele é bem menos melancólico que o bom humor judeu, ou o quase sério humor inglês.


IHU On-Line - Por que homens e mulheres acham graça de coisas diferentes?

Abrão Slavutzsky -
Engraçado, mas creio que já foram mais marcantes essas diferenças. Um exemplo: hoje as mulheres riem mais, sentem-se mais livres para rir em público, ao contrário de antes, quando tinham de ser mais reservadas. A mulher contemporânea é mais sofisticada, e fazê-la rir tende a ser mais difícil. Aliás, fazer uma mulher rir ou sorrir é meio caminho andado para uma conquista amorosa. As mulheres são mais finas que os homens, em geral. Gostam de rir de nós, homens e de nossas arrogâncias e fragilidades, no que fazem bem. Nós homens, por nossa vez, às vezes somos das piadas mais grosseiras, e nossos risos podem ser mais ingênuos que os das mulheres. Na verdade, nunca havia pensado nessa relação do humor com o gênero; estou aqui tentando dizer alguma coisa para satisfazer a curiosidade da entrevistadora.


IHU On-Line - Há, se bem me lembro, uma frase importante de Wittgenstein  sobre o humor não?

Abrão Slavutzsky -
Sem exagerar, a frase é importantíssima (risos). Ele escreveu que o humor, mais do que um estado de espírito, é uma visão de mundo. Se essa frase fosse pensada por quem elabora os programas das faculdades de Psicologia e aquilo que devem estudar os “psi” – psicólogos, psiquiatras e psicanalistas –, o humor deveria ser incluído como disciplina. Há uma universidade na Espanha que há anos vem levando o humor mais a sério e tem feito um trabalho elogiável nessa área. Engraçado como na América do Norte e em alguns países da Europa estão bem mais adiantados que nós nessa matéria. Quem sabe um dia nós, intelectuais, possamos estudar mais o humor e assim introduzi-lo nas universidades e instituições “psi”, sempre tão formais e sisudas? Hoje o humor é importante não só na saúde física e na dita mental, mas também nas empresas, na economia, na propaganda. Aliás, Alfredo Fedrizzi organizou um livro sobre humor e propaganda - O humor abre corações. E bolsos.


IHU On-Line - O humor é sério?

Abrão Slavutzsky -
“O humor é sério, é mais do que sério, é a quintessência da seriedade”, como diz Millôr Fernandes. Na realidade, o humor é sério e não é; é um paradoxo em que convivem dois sentidos contrários ao mesmo tempo. Ele transcorre em um espaço transicional, um espaço de brincadeira, revelando lucidez e alegria mesmo na desilusão. A lógica do humor é paradoxal, semelhante à do inconsciente, em que os contrários geram graça. Do inconsciente irrompem as verdades recalcadas; já o humor revela as outras faces da realidade, que estão além das aparências. O humor aceita a loucura humana e sorri diante dela. Faz refletir sobre a tragédia e ainda distende os nervos do mundo. É uma vacina contra o desespero que, por doses moderadas de ceticismo, nos imuniza contra a tendência de levarmos tão a sério a seriedade dos homens. O humor é marginal – e, se isso não é bom para as instituições, é ótimo para o humor, que se mantém livre, com seu olhar rebelde: Hay gobierno? Soy contra. Seu olhar sobre o reino do humano sempre busca o outro lado de tudo, o lado ridículo do sério, o sério do ridículo.

Com isso mantém uma da realidade uma distância saudável, erigindo-se como valor existencial, isto é, como visão de mundo. Uma visão que goza da nossa vaidade e arrogância, dando prazer a alguns e dor a outros, pois mobiliza o amor e o ódio, o erotismo e a agressividade. Abençoado, portanto, quem tem o sentido do humor, pois só os bem-humorados aprenderam a arte de viver. Por isso Thomas More , autor da Utopia, criou esta prece: “Senhor, dai-me senso de humor, dai-me a graça de saber discernir uma brincadeira e partilhá-la com os demais”.

O humor não salva, mas alivia, e integra uma velha família, fundada pela polêmica verdade, que gerou o espírito; este se casou com uma dama chamada alegria, cujo filho é o humor. Este filho inquieto escapa às definições, é instável, solene, espirituoso, tristonho, crítico, alegre. O humor é a mais simpática das criações – até o sóbrio Freud, volto a frisar, escreveu que o dom do humor é precioso e raro. Um dom que permite sorrir, sem compulsão, da pulsão de morte: “Embora eu não tenha medo da morte, prefiro estar longe quando ela chegar” (risos).

No humor não há conclusões finais, lições de vida, orientações existenciais. Em todo caso, encerraria esta conversa, em que me fizeste falar muito, dizendo que a vida, como se diz, careceria de sentido sem a arte. Já uma vida sem humor teria muito significado.



Leia mais...

Confira outra entrevista concedida por Abrão Slavutsky e publicadas na IHU On-Line.

O Holocausto e o dever da memória. Entrevista publicada na IHU On-Line 323, de 29-03-2010

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