O retorno do religioso

Para o cientista social Michael Löwy, a religião ainda desempenha um papel essencialmente conservador na sociedade atual

Por: Márcia Junges, Moisés Sbardelotto e Patricia Fachin | Tradução Benno Dischinger

“Nossa sociedade está longe de ser ‘pós-metafísica’”, afirma Michael Löwy à IHU On-Line. Para ele, a hipótese de uma sociedade pós-religiosa “se revelou uma ilusão”. E enfatiza: “A religião continua a jogar um papel muito importante, talvez mais importante hoje do que há alguns anos”.
Na entrevista que segue, concedida à IHU On-Line por e-mail, entre uma série de viagens, o brasileiro radicado na França há mais de 40 anos diz que o “consenso” para a formulação de uma ética universal entre as religiões não é o entrave para tal prática. Para ele, é preciso apostar em “uma convergência em torno de princípios universais com caráter emancipador, em oposição ao monstruoso sistema de dominação e destruição do meio ambiente em que vivemos: o capitalismo”.  

Löwy é Cientista Social e leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da Universidade de Paris. Entre sua vasta obra, destacamos Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista (São Paulo: Cortez, 1985), As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (São Paulo: Cortez, 1998), A estrela da manhã. Surrealismo e marxismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002), Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história” (São Paulo: Boitempo, 2005) e Lucien Goldmann, ou a dialética da totalidade (São Paulo: Boitempo, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o papel das religiões atualmente? Numa sociedade pós-metafísica, qual é o espaço para a religião?

Michael Löwy – A religião não é sempre revolucionária. Com algumas exceções - como o Cristianismo da libertação na America Latina, e seus equivalentes em outras religiões -, seu papel é essencialmente conservador, e muitas vezes reacionário. Como dizia bem Marx, a religião pode ser tanto um protesto contra a miséria real, quanto um “ópio do povo”. Isso continua sendo valido, já que nossa sociedade está longe de ser “pós-metafísica”.

IHU On-Line - Podemos dizer que estamos numa sociedade pós-religiosa? O que isso significa?

Michael Löwy – Esta hipótese, formulada há algumas décadas - a “secularização” das sociedades - se revelou uma ilusão. A religião continua a ocupar um papel muito importante, talvez mais importante hoje do que há alguns anos. Isso vale não só para o mundo muçulmano, mas também para a América do Norte, a América Latina e a África. A Europa talvez seja uma exceção, mas mesmo na Europa assistimos a uma “volta do religioso”.

IHU On-Line - Quais as principais tendências e os grandes movimentos das religiões monoteístas com relação ao ser humano contemporâneo?

Michael Löwy – Cada grande religião monoteísta se divide em correntes teocráticas, autoritárias e intolerantes e correntes ecumênicas abertas ao diálogo com outras identidades e respeito a elas. As religiões também se dividem em correntes conservadoras ou libertárias segundo sua posição em relação ao capitalismo, ao neoliberalismo e à luta dos pobres por sua emancipação.

IHU On-Line - A Teologia da Libertação pode se apresentar como uma “releitura do Cristianismo”?

Michael Löwy – O Cristianismo da Libertação - vasto movimento social que encontrou na Teologia da Libertação sua expressão mais sistemática - é uma releitura do Cristianismo à luz da situação dos pobres na América Latina e nos países do Sul, referindo-se em particular ao paradigma do Êxodo, aos profetas bíblicos e a práticas das primeiras comunidades cristãs. O Cristianismo da Libertação utiliza alguns conceitos essenciais do marxismo, ao mesmo tempo para entender as causas da pobreza - o capitalismo - e para imaginar uma utopia social, uma sociedade sem classes, livre e igualitária.

IHU On-Line - Hans Küng, teólogo alemão, defende uma ética global entre as religiões e afirma que elas devem seguir princípios universais. Quais são as possibilidades e os entraves para esse consenso? Isso é possível?

Michael Löwy – O problema não é o “consenso” em geral, mas uma convergência sobre os princípios universais com caráter emancipador, em oposição ao monstruoso sistema de dominação e destruição do meio ambiente em que vivemos: o capitalismo.

IHU On-Line - Que contribuições as religiões monoteístas podem oferecer para a humanidade neste momento de crise (ambiental, financeira, de valores) em que se encontram?

Michael Löwy – Cada religião têm indivíduos, grupos, correntes, que propõem práticas emancipadoras, que criticam a civilização industrial capitalista, que apontam para alternativas radicais, ecológicas, humanistas, socialistas, democráticas.

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