Crise abre espaço para a política do comum

Diante da crise internacional, Michael Hardt, filósofo estadunidense, propõe o desenvolvimento da política do comum

Por: Patrícia Fachin | Tradução Sander Jeanne e Ana Paula Penkala

Entre as críticas feitas pela esquerda ao neoliberalismo, destaca-se a necessidade de regular o mercado através do controle estatal da economia baseada principalmente nas propostas do economista John Maynard Keynes. Atrelada a esse pensamento que emergiu para mitigar os efeitos adversos dos ciclos econômicos, “isso é tudo o que grande parte da esquerda é capaz de propor”, nesse momento em que o mundo revive o colapso econômico dos anos 30, aponta Michael Hardt.

Em entrevista concedida com exclusividade à IHU On-Line, por e-mail, ele diz que concorda com medidas de regulação e controle estatal, necessários para amenizar e proteger a sociedade dos “desastres e perigos que as políticas neoliberais produziram”. Entretanto, Hardt vai além e enfatiza a necessidade de pensar em um novo modelo político. “Em uma visão mais ampla, penso que o comum ficou fora dessa equação”, lamenta. E dispara: “Muito frequentemente, hoje vemos o mundo e nossas vidas como divididos entre o público e o privado, como se essas fossem as únicas alternativas”. Recordando os ensinamento de um dos intelectuais mais solicitados no século XXI, Hardt completa: “Marx disse: ‘A propriedade privada nos tornou estúpidos” – e, neste caso, nos tornou cegos ao comum’”.

Para o pesquisador, a crise simboliza o fim do neoliberalismo, que ainda vai perdurar por pouco tempo, mas isso não representa o fim do capitalismo. “Estamos em um período de interregno no qual a ideologia e a estratégia do capitalismo acabaram e uma nova ainda não começou”, conclui.

Teórico literário e filósofo político, Hardt leciona na Duke University, na Carolina do Norte. Parceiro intelectual de Antonio Negri, escreveu com o autor italiano as obras Império (Rio de Janeiro: Record, 2001) e Multidão. Guerra e democracia na era do império (Rio de Janeiro: Record, 2005). No ano passado, Hardt lançou em parceria com Gregory Conti e Christian Marazzi, a obra Capital and languange (MIT Press, 2008). Com Christian Marazzi confira a entrevista “Política do comum: uma fonte direta de valor econômico”, publicada em 23-03-2009 nas Notícias do Dia do sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU (ww.unisinos.br/ihu).

IHU On-Line - Qual é a resposta da esquerda diante desse cenário de catástrofe econômica, social e ecológica?

Michael Hardt - As respostas mais visíveis da esquerda para a crise financeira e econômica se focam na mudança de mercados livres pela regulação estatal e de propriedade privada para propriedade pública. Tem se tornado uma hipótese dominante a de que corporações capitalistas e mercados requeiram um nível muito mais alto de regulação e controle estatal do que estiveram sujeitos nos últimos trinta anos.

Na verdade, é interessante o quão rápido a visão dominante mudou, especialmente na mídia. A ideologia do neoliberalismo e suas estratégias econômicas de privatização foram difundidas extraordinariamente. Nos Estados Unidos, qualquer um que criticou o neoliberalismo e alertou sobre seus perigos foi ridicularizado ou ignorado pelos meios de comunicação. Até mesmo governos de esquerda pelo mundo foram forçados, em muitos casos, a adotar estratégias neoliberais. Nos últimos seis meses, houve uma extraordinariamente rápida mudança profunda, tanto que a Newsweek pode proclamar em sua capa: “Somos socialistas agora”.

IHU On-Line – Isso representa o fim do capitalismo e do neoliberalismo? Como a teoria do império contribui para pensar esse cenário? 

Michael Hardt - Não, não é o fim do capitalismo, mas eu diria que sim, o neoliberalismo está morto. Estamos em um período de interregno no qual a ideologia e a estratégia do capitalismo acabaram e uma nova ainda não começou. Dizer que o neoliberalismo está morto não quer dizer que não possa ainda ter poderosos e horríveis efeitos. Por exemplo, nos Estados Unidos, dar dinheiro do governo para salvar os bancos (e talvez as corporações de automóveis) é outra forma de transferir dinheiro público para mãos privadas, o que é típico do neoliberalismo. As estratégias neoliberais sempre funcionaram melhor em tempos de crise e desastre, como diz Naomi Klein.

Mas o neoliberalismo está morto no sentido de que não tem futuro. Vai perambular por alguns poucos anos mais, talvez trazendo destruição, mas o neoliberalismo é agora um zumbi. É ainda uma reação instintiva de vários em posições de poder que ainda não têm nenhuma outra ideia.

Parece-me que, por trás da maior parte das críticas da esquerda ao neoliberalismo nos últimos anos, está a hipótese do keynesianismo ou alguma outra forma de controle e regulação estatal da economia. Agora, quando o neoliberalismo é tão repentinamente desacreditado, isso é tudo o que grande parte da esquerda é capaz de propor: em vez de mercados livres, controle estatal; em vez de fazer tudo propriedade privada, fazê-lo propriedade pública.

IHU On-Line - Que parâmetros deveriam compor as ações de uma nova esquerda?

Michael Hardt - Nas decisões governamentais imediatas no que concerne à crise, certamente concordo que um aumento de regulação e controle estatais são necessários como proteção contra todos os desastres e perigos que as políticas neoliberais produziram. Mas, em uma visão mais ampla, penso que o comum ficou fora dessa equação. Muito frequentemente, hoje vemos o mundo e nossas vidas como divididos entre o público e o privado, como se essas fossem as únicas alternativas. Marx disse: “A propriedade privada nos tornou estúpidos” – e, neste caso, nos tornou cegos ao comum.

IHU On-Line - Em que consiste a política do comum?

Michael Hardt - O comum deve ser compreendido em dois registros diferentes. O comum é a Terra e tudo o que pertence a ela – terra, água, ar, florestas e assim por diante. Por outro lado, o comum é o resultado do trabalho humano que dividimos, como ideias, imagens, conhecimento, linguagens, códigos e afetos. Parte do desafio apresentado pelo conceito de comum é relacionar esses dois domínios comuns. Se deve chamar o primeiro de comum natural e o segundo de comum artificial, mas a divisão entre o natural e o artificial rapidamente se desfaz. Um fator importante que une esses dois domínios é que devemos dividir o comum com livre acesso a ele para que sobreviva e seja produtivo Os dois domínios são muito diferentes, principalmente pelo fato de que o comum "natural" é limitado, enquanto que o comum "artificial" é reprodutível. Eu sou fascinado pelo modo como estes dois “comuns” se relacionam e como podemos criar uma política os entenda juntos.

IHU On-Line – Como a produção artificial do comum se relaciona com o capitalismo cognitivo?

Michael Hardt - Um número de economistas usa o termo “capitalismo cognitivo” para indicar as formas com que a produção do comum está se tornando cada vez mais central na economia capitalista. Toni Negri  e eu também usamos os temos “produção imaterial” e “produção biopolítica” para nos referirmos a diferentes aspectos desse fenômeno. Uma razão para eu não usar o termo “capitalismo cognitivo” é que me parece que ele super-enfatiza os aspectos mental e intelectual dessas formas de produção e subenfatiza seus aspectos corporal e afetivo. Prefiro focar no trabalho afetivo, por exemplo, que é tão importante em ocupações de trabalhadores da saúde, educadores, prestadores de serviços e outros. De qualquer forma, todas essas diferentes concepções estão tentando dominar aspectos das formas recém dominantes de produção do comum.

IHU On-Line - Como a política do comum pode contribuir para resolver os problemas sociais e econômicos da sociedade?

Michael Hardt - Devemos manter em mente que as políticas do neoliberalismo visam privatizar não apenas os bens comuns, mas também o comum. Indústrias extrativistas (como a do petróleo) foram centrais nas políticas neoliberais e todos os elementos naturais como a água, foram alvo da privatização. O comum “artificial” também foi objeto de várias formas legais de privatização, como patentes e direitos autorais [copyrights]. A assim chamada biopirataria é um bom exemplo disso, na medida em que envolve corporações capitalistas fazendo propriedade privada através de patentes de conhecimentos indígenas e recursos partilhados, como o conhecimento das propriedades medicinais de uma planta.

Incidentalmente, não penso que “pirataria” seja um nome preciso para esta prática neoliberal, porque piratas roubam propriedade privada. Aqui, em vez disso, corporações estão assaltando o comum e o transformando-o em propriedade privada. Um ponto central aqui é que o comum é destruído ou se torna menos produtivo quando é feito privado (e também, eu acrescentaria, quando é feito público, ou seja, objeto de gerenciamento estatal). Trabalhadores da internet e todos os tipos de produtores de conhecimento já notaram faz tempo o quanto o livre acesso à informação e conhecimento são necessários para a futura produção de conhecimento. Em comunidades científicas, por exemplo, cientistas precisam ter acesso em comum aos resultados de trabalhos anteriores e a todo o arquivo de conhecimento para que possam produzir novos conhecimentos, o que deve ser feito comum para outros cientistas. Quando o conhecimento é privatizado, pelo contrário, a futura produção de conhecimento é dificultada. Essa lógica funciona para uma ampla variedade de atividades que produzem o comum. Quando as linguagens se tornam privadas elas não podem mais comunicar; quando códigos são privados se tornam menos produtivos; quando afetos são privados eles param de criar relações sociais.

Uma vez que a produção do comum se torna mais central na economia capitalista, uma contradição nas relações capitalistas fica cada vez mais grave. Por outro lado, o capital deve expropriar valor desses tipos de produção do comum como propriedade privada. Por outro lado, toda vez que o comum é feito privado se torna menos produtivo.

IHU On-Line - Ainda a partir da crise financeira, como podemos pensar em novas dimensões no mundo trabalho e na instituição do comum?

Michael Hardt - Essa é uma das lições que Toni Negri e eu buscamos em nosso novo livro, Commonwealth [Comunidade].  O título, infelizmente, não tem boa tradução para o português. Penso que o termo em inglês deva ser usado (ou um título diferente deva ser criado). Em inglês, de qualquer forma, intentamos duas coisas com o título. Primeiro, é uma referência às nossas riquezas comuns, tanto o mundo material que devemos aprender a compartilhar [em comum] (caso contrário continuaremos a destruí-lo) quanto o mundo imaterial das ideias, conhecimentos, e afetos que devem permanecer comuns e abertos ao acesso para que sejam produtivos. Segundo, commonwealth em inglês significa uma forma de governo, institucional. Então nosso objetivo nesse livro é articular uma alternativa às formas republicanas baseadas em propriedade privada ou àquelas baseadas em propriedade pública. Isso seria um autogoverno autônomo e aberto do comum.

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