Edição 287 | 30 Março 2009

“O capitalismo é essencialmente um sistema irracional, instável e injusto”

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Patrícia Fachin

Na perspectiva do economista Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o capitalismo sobreviverá ainda mais injusto, irracional, instável e mais regulado. Nessa batalha, a esquerda continuará lutando por liberdade, dignidade e felicidade, assegura

Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, o economista aponta o “salvacionismo apresentado pela fórmula ‘keynesianismo + regulacionismo’” como superado e insuficiente para acalmar os ânimos do mercado e reestruturar a economia. Na ótica da esquerda, alerta, “a saída está na ‘purificação’ do grande capital com recursos públicos financiados pela taxação dos ganhos do capital financeiro nos últimos anos, bem como a redistribuição de riquezas e na apropriação dos meios de produção estratégicos pelo Estado”. A alternativa, dispara, é “a reestruturação do aparelho produtivo e a reconfiguração do poder econômico a favor da classe trabalhadora”. Nessa busca pela “purificação”, Gonçalves lembra que “recursos públicos não podem ser usados para salvar o grande capital sem condicionalidades que favoreçam o trabalhador”.
           
Ao comentar a possibilidade de investir novamente em políticas nacionalistas, ideia defendida por alguns intelectuais da esquerda, ele é enfático: “O nacionalismo é espaço preferencial dos quinta-colunas, porque o nacionalismo é o biombo para a proteção do grande capital e a maior exploração do trabalhador”. Nesse momento de turbulência e instabilidade internacional, nasce uma “excelente oportunidade para punir o capital”, ressalta.

Reinaldo Gonçalves é economista, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Obteve o título de mestre em Economia, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), e de doutor em Letters And Social Sciences, pela University of Reading, na Inglaterra. Professor da UFRJ, também é co-autor de A economia política do governo Lula (Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o senhor entende por esquerda, atualmente? Como ela deveria se posicionar diante dessa turbulência e em especial do que o senhor chama de “fracasso civilizatório”?

Reinaldo Gonçalves - Ser de esquerda é reconhecer que o capitalismo é um sistema irracional que inibe a capacidade do ser humano dar sentido à vida, ou seja, viver com dignidade, felicidade e liberdade. Ser de esquerda é o combate permanente por um projeto de orientação socialista. É ignorância imaginar que ser de esquerda se restringe a defender bandeiras como progresso econômico, reforma social, democracia e interesses nacionais. Partes do centro e da direita também defendem estas bandeiras, de uma forma ou de outra. É má-fé imaginar que a distinção entre esquerda e direita se restringe ao ideário econômico via a armadilha binária “estado versus mercado”. Defender um Estado que é capturado por grupos dirigentes corruptos não é ser de esquerda. Ser de esquerda implica compromisso com distribuição de riqueza (maior igualdade possível na distribuição de riqueza, renda e conhecimento), controle social do estado (combater a apropriação do estado por grupos dirigentes e grupos econômicos) e uso social do excedente econômico (planejamento e propriedade pública dos principais meios de produção).

IHU On-Line – Qual é a relação que podemos estabelecer entre esquerda e partidos políticos? Ainda há no Brasil algum partido que possa ser caracterizado como de esquerda?

Reinaldo Gonçalves - É má-fé e ignorância a declaração da direção nacional do PT eleita em 2005 de que “tem plena consciência do que está em jogo, tanto para o Brasil quanto para a América Latina: não permitiremos o retorno, ao governo federal, de partidos comprometidos com o ideário neoliberal, com os interesses do capital financeiro e dos Estados Unidos. Por isto mesmo, o Partido dos Trabalhadores envidará todos os seus esforços para que a esquerda saia vitoriosa nas eleições de 2006”. Vejam a contradição: o governo Lula – apoiado pelo PT – implementa um modelo liberal periférico (ou seja, um neoliberalismo de terceira categoria), transformando o Brasil em verdadeiro paraíso fiscal e é visto por Washington como parceiro bem comportado (por exemplo, na OMC, na América do Sul e no Haiti). Temos aqui mais um exemplo do processo de “africanização” do Brasil. O Brasil tem se mostrado como um fracasso civilizatório nas últimas décadas: desestabilização macroeconômica, vulnerabilidade externa, esgarçamento do tecido social, degradação política e deterioração institucional. Esta visão da direção nacional do PT a respeito da distinção entre esquerda e direita expressa, além de oportunismo, a degradação das instituições políticas no Brasil. O fracasso civilizatório não se expressa unicamente na degradação do Executivo, Legislativo e Judiciário, mas também na deterioração das organizações da sociedade civil. Portanto, é evidente que o PT não é um partido de esquerda. Ele se transformou no instrumento de poder de grupos de dirigentes com ânsia de poder para alavancar glória, riqueza, poder e, em alguns casos, luxúria. O PT se transformou num “partideco”. Qual é a diferença entre o PT e o PMDB? Nenhuma, exceto quanto aos “beneficiários principais”, ou seja, aqueles que usam o partido para fins privados. 

IHU On-Line – Que outras forças de esquerda ganham destaque na conjuntura atual?

Reinaldo Gonçalves - Naturalmente, o PSOL se destaca como partido de esquerda. Por outro lado, o PCdoB tornou-se um capataz do governo Lula e está em processo avançado de apodrecimento tendo em visto o seu processo de procura de cargos. O Partido Socialista parece que desapareceu, enquanto o PDT também foi cooptado pelo governo Lula.  As organizações da sociedade civil se enfraqueceram sobremaneira durante o governo Lula. Vejam o lamentável caso da CUT, que se tornou um instrumento do governo para controlar a classe trabalhadora. A Força Sindical nunca valeu grande coisa e continua na mesma. Boa parte das ONGs foram cooptadas via projetos do governo federal, inclusive, com recursos do Banco Mundial. Viraram empresas de consultoria. O MST, por seu turno, foi fragilizado com as políticas assistencialistas do governo Lula: o Bolsa-família foi uma das armas de maior impacto em termos do processo de destruição do MST.  Por estas e outras razões é que afirmamos que a herança de Lula será ainda mais trágica do que a de Fernando Henrique. Vejam o meu livro A economia política do Governo Lula (co-autoria com Luiz Filgueiras).

IHU On-Line – Uma esquerda renovada deveria investir mais no nacionalismo e percebê-lo como alternativa nesse momento? De que maneira isso pode ser feito?

Reinaldo Gonçalves - O nacionalismo pode ser uma armadilha visto que é bandeira tanto da esquerda quanto da direita. Diria mesmo que a direita tem maior propensão ao nacionalismo. Desconfio dos intelectuais e formadores de opinião nacionalistas que são “queridinhos” da direita e da esquerda. Geralmente, o nacionalismo escamoteia o verdadeiro problema, que é o conflito de classes e grupos de interesses dentro de cada país. O maior perigo – que desvia o foco do combate – é o nacionalismo com alguma dose de defesa do Estado e da distribuição de renda.

Invariavelmente, esta posição negligencia a concentração de riqueza e poder, bem como o controle do Estado-nacional pelos setores dominantes e por grupos dirigentes incompetentes e corruptos. Setores e grupos estes que, também invariavelmente, são internacionalizados. Intelectuais frequentemente se escondem por trás do nacionalismo por conservadorismo, venalidade, covardia ou incompetência. Veja, por exemplo, o que tem acontecido durante o governo Lula. Houve uma avalanche de nova geração de analistas de política externa concentrados na crítica ao governo Bush. Estas “novas autoridades” se eximiram de criticar a política externa de Lula, marcada por muita alegoria e pouco enredo. E, o que é pior, ficaram silenciosos (coniventes e cúmplices) com políticas e estratégias que aumentaram a vulnerabilidade externa da economia brasileira, inclusive, nas esferas produtiva (maior desnacionalização) e financeira (desregulamentação e liberalização). Naturalmente, muitos deles fora presenteados com consultorias generosas do governo federal. Se Dante tivesse escrito a Divina Comédia cinco, seis séculos depois, teria criado um círculo especial no Inferno para os nacionalistas da proto-esquerda e da direita. No campo da esquerda, o nacionalismo é o espaço preferencial dos quinta-colunas porque o nacionalismo é o biombo para a proteção do grande capital e a maior exploração do trabalhador. Todo o cuidado é pouco com o discurso nacionalista – devemos desconfiar sempre. Com frequência ele pode ser altamente negativo para a classe trabalhadora. Entretanto, não devemos desprezar o nacionalismo de centro ou de direita, visto que há momentos em que ele pode ser útil. A pergunta é sempre a mesma: a que interesses atende determinado discurso?

IHU On-Line – Qual seria a alternativa, então?

Reinaldo Gonçalves – Não há dúvida que as diretrizes estratégicas são a redução da vulnerabilidade externa estrutural do país e a criação de espaços para implementação de políticas econômicas consistentes com o crescimento econômico, a redistribuição de riqueza e mudança na estrutura de poder econômico. A reconfiguração do poder econômico é condição necessária. Os setores dominantes (agronegócio e bancos) operam no sentido de aumentar a vulnerabilidade externa e a fragilidade sistêmica do país. Para ser mais objetivo, a exportação de commodities não é o futuro e, sim, o passado do Brasil. Esta atividade tem sido estimulada pelo governo Lula, que também estimula a exportação de capitais pelas empresas brasileiras. Isto tudo enfraquece o país. Naturalmente, cabe a reversão da liberalização e da desregulamentação financeira, principalmente, via controle de capitais externos. O fato concreto é que o governo Lula implementa um modelo liberal periférico de terceira categoria. Este modelo (e este governo) têm que ser combatidos.

IHU On-Line - Quais são as propostas da esquerda frente à crise financeira internacional?

Reinaldo Gonçalves - A estratégia por trás de medidas específicas é, naturalmente, enfraquecer o grande capital e fortalecer o trabalhador. Recursos públicos não podem ser usados para salvar o grande capital (por exemplo, a compra de ações do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil) sem condicionalidades que favoreçam o trabalhador. Redes de proteção social devem ser implementadas. A crise é uma excelente oportunidade para punir o grande capital e implementar o maior controle dos meios de produção estratégicos pelo Estado, visto que os preços dos ativos estão menores.

IHU On-Line – O senhor demonstra pessimismo ao avaliar as estratégias do Brasil diante da crise financeira internacional. Na sua opinião, a esquerda tem condições de se utilizar desse momento e pensar um novo modelo político, econômico e ambiental para o Brasil?

Reinaldo Gonçalves - Sem dúvida alguma. O “rei fica nu” na crise, visto que é cada vez mais evidente que o governo Lula se posiciona a favor dos setores dominantes (agronegócio, empreiteiras e bancos) e dos grupos mais retrógrados da sociedade brasileira. Isto permite uma visão mais clara da real situação política, econômica e social do país. E, em particular, fica evidente a mediocridade do governo Lula.
 
IHU On-Line – Como avalia a atuação das diferentes esquerdas na América Latina ao que se refere à crise financeira internacional? Os projetos de cada país têm determinado as consequências perante a crise?

Reinaldo Gonçalves - As esquerdas somente têm maior influência em três países: Bolívia, Venezuela e Equador. Nestes países, há um esforço coerente no sentido de se reduzir a vulnerabilidade externa, aumentar a autonomia de políticas domésticas e estabelecer as bases de projetos de orientação socialista. No restante, há muita alegoria e pouco enredo, ou então pura mistificação, pois o que se procura atender prioritariamente são os interesses dos setores dominantes e dos grupos dirigentes. 

IHU On-Line – O que a turbulência financeira ensina sobre a condução da economia e o capitalismo?

Reinaldo Gonçalves - A crise atual, apesar de suas especificidades e gravidade, não nos ensina nada do que já não sabíamos há muito tempo. O capitalismo é essencialmente um sistema irracional, instável e injusto. O protocolo de contenção de crises já é conhecido no âmbito da Ciência Econômica há muito tempo. Há 200 anos de teoria e experiência. A questão central é identificar e escolher ganhadores e perdedores.

IHU On-Line – Muitos economistas dizem que, embora as ideias de Keynes e Marx sejam úteis para compreender esse momento, elas não são suficientes para acabar com a instabilidade econômica. Que outras alternativas a esquerda pode oferecer nesse sentido?

Reinaldo Gonçalves - Definitivamente o salvacionismo representado pela fórmula “keynesianismo + regulacionismo” , que enfatiza a expansão dos gastos públicos, não resolve o problema ainda que ajude a suavizar o impacto do crise. A saída schumpeteriana (progresso técnico que traz novos bens, serviços e maior produtividade) precisa da coordenação e do planejamento inexistentes no capitalismo. A saída dos gastos bélicos (guerra) só se aplica a poucos países. A internacionalização da produção (exportação de bens e serviços) não funciona no contexto de crise global. Na ótica da esquerda, a saída está na “purificação” do grande capital com recursos públicos financiados pela taxação dos ganhos do capital financeiro nos últimos anos, bem como na redistribuição da riqueza (via reforma tributária) e na apropriação dos meios de produção estratégicos pelo Estado. Ou seja, a saída não é o salvacionismo com a socialização dos prejuízos, mas, sim, a reestruturação do aparelho produtivo e a reconfiguração do poder econômico a favor da classe trabalhadora.

IHU On-Line - Vivemos um momento de superação do capitalismo? O capitalismo sobreviverá ao século XXI?

Reinaldo Gonçalves - No horizonte previsível, o capitalismo sobreviverá. A médio prazo, teremos um capitalismo injusto, irracional e instável e, provavelmente, mais regulado. A longo prazo, a disputa terá, de um lado, as forças de direita defendendo mais desregulamentação e liberalização e, do outro lado, as forças de esquerda defendendo projetos de orientação socialista. O centro continuará como aliado natural da direita, exceto nos momentos de crise aguda. A luta é dura e permanente. Não precisamos de virtudes teologais (fé, esperança e caridade) para derrotar o capitalismo. Precisamos, sim, das virtudes cardinais (força, justiça, prudência e temperança) e da crença no mecanismo desafio-resposta: quanto maior o desafio, maior é a luta por um futuro marcado por liberdade, dignidade e felicidade. E a única boa notícia é que não morreremos de tédio!

Leia mais...

>> Reinaldo Gonçalves já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. O material está disponível na página eletrônica do sítio do IHU (www.unisinos.br/ihu).

Entrevistas:

• “Capitalismo de compadres”. MP 443 e o balcão de negócios. Publicada em 30-10-2008;

• Fracasso para o governo, vitória para o povo brasileiro. Publicada em 02-08-2008;

• O combate à desregulamentação financeira americana. Ainda há tempo? Edição número 253, de 07-04-2008, intitulada Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania civil e religiosa;

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