Edição 287 | 30 Março 2009

Perfil Popular - Luís Carlos de Souza

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Bruna Quadros e Graziela Wolfart

Aos 37 anos de idade, Luís Carlos de Souza carrega o dom da poesia. Ele trabalha no departamento de limpeza da Dalkia, empresa que presta serviços à Unisinos. Para Luís, trabalhar na universidade é a realização de um sonho. Um sonho que lhe dá tanta satisfação quanto o ofício da escrita, ao qual ele vem se dedicando há algum tempo. Quando esteve na redação da IHU On-Line para falar sobre suas experiências e sua visão de mundo, Luís Carlos mostrou como sua vida se constrói com a alegria em família, o apoio dos amigos e o prazer em fazer o que se gosta.

 

Há 37 anos, nascia na Vila Esperança, em São Leopoldo o jovem Luís Carlos de Souza, filho mais novo entre os seis que seu Francisco e dona Geni tiveram. De lá, a família se mudou para perto da estação de trem da cidade, onde vive até hoje. Luís Carlos lembra que a vida não era fácil, era tudo precário, pois só o pai trabalhava. Seu Francisco ajudava a fazer montarias para cavalo e a mãe, Geni, era dona de casa.

Como era o filho mais moço, Luís se lembra de quase sempre ter que brincar sozinho. “Até na escola a professora estranhava que eu estava sempre sozinho, mas já era costume.” O que ele mais gostava era de jogar futebol. “Eu me dava bem com os meus irmãos e eles às vezes até pagavam o pato das artes que eu fazia, por eu ser o mais novo. Eu nunca levava a pior, tudo sobrava para os mais velhos”, lembra, rindo.

Ao recordar os momentos da infância, Luís afirma que o pai lhe ensinou a ser sempre honesto. Ele dizia “se vocês estão errados, baixem a cabeça e escutem. Mas, se vocês estiverem com a razão, ninguém pode tirar ela de vocês. Podem discutir com qualquer um, porque ninguém é melhor do que ninguém”. E isso ficou para a vida toda.

Estudos e emprego

Até os 11 anos de idade, Luís havia concluído a quinta série do antigo primeiro grau. Depois parou e só voltou a estudar com 30 anos, à noite, terminando o Ensino Fundamental. “Eu sabia que precisar estudar por causa do trabalho. Chegava em qualquer lugar para pedir emprego e exigiam o primeiro grau. Eu tinha a profissão que eles pediam, mas não tinha o estudo”, explica. Ele confessa que pretende continuar a estudar, quem sabe até fazer o curso de Letras.

Luís Carlos começou a trabalhar com 14 anos, em Novo Hamburgo, em uma fábrica de calçados, para ajudar no orçamento em casa. Trabalhou também em uma empresa na Avenida São Borja, em São Leopoldo, que fechou. E faz quase três anos que está na Unisinos, trabalhando na Dalkia. “Trabalho na limpeza do câmpus, varro, limpo as salas de aula, lavo os toldos que têm que lavar, trabalhando sempre em equipe. Eu adoro trabalhar aqui. Me sinto bem, era um sonho que eu tinha de trabalhar aqui dentro”.

Poesia e inspiração

Já faz algum tempo que, nas horas vagas, Luís Carlos também é poeta. Ele conta que começou a escrever “de brincadeira”. “Fazia bilhetinhos para minha esposa, deixava na geladeira.” Aos poucos, ele foi pegando gosto e hoje escrever já se tornou um hábito. “Se estou em casa, pego papel e caneta. Olho um filme, uma novela e até as conversas das pessoas servem de inspiração. Se gosto de uma frase eu já encaixo, faço um texto. Virou mania para mim.” Seus escritos são publicados no Jornal do DCE da Unisinos. “Me sinto realizado escrevendo, eu gosto mesmo”, descreve. Quando seus textos são publicados ele sente como se tivesse ganhado um prêmio, “uma medalha na olimpíada”. E confessa que, se pudesse, gostaria de viver disso.

Seu autor de preferência é Mario Quintana, “não só pelo que ele escreveu, mas pela pessoa que ele foi. Meu amigo, o professor Pedro Osório, me deu um livro dele de presente. Pela TV, eu achava ele super simpático, com uma visão de futuro incrível. E isso me inspira”, explica.

Família

Luís Carlos é casado há 15 anos com a Rose e eles têm um filho de 10, o Leonardo. “Fiz tudo normal, direitinho. Não foi aquela coisa de ter que casar porque engravidou a guria.” O filho veio depois de cinco anos de casados. “Não foi um descuido, foi planejado”. Luís considera uma grande responsabilidade ser pai. E garante ser um pai participativo. “Procuro sempre ajudar meu filho nos estudos, incentivá-lo no que ele gosta de fazer. O que eu aprendi do meu pai eu procuro passar para ele. No meu tempo era tudo na rigidez. Hoje já não é tanto, procuro ensinar sem usar a violência, só conversando.” A família é o centro da vida do poeta. “Sem eles não teria sentido tocar em frente. Eu não me vejo separado ou sem filhos, me vejo como estou agora. Peguei o rumo certo.”

O dia mais feliz da sua vida foi quando nasceu o filho Leonardo. O bebê ficou 11 dias na UTI, porque nasceu prematuro. “Mesmo assim, apesar da preocupação, foi uma grande alegria.” E o momento que Luís lembra com mais tristeza foi a perda de um irmão, “que saiu de casa para jogar bola e voltou dentro de um caixão. Morreu envolvido em uma briga”.

Fé e espiritualidade

Luís é evangélico, mas diz que não é “praticante” há algum tempo. Ele define sua fé da seguinte maneira: “eu acredito em duas coisas só - Deus e o diabo. O resto eu não acredito. Esse negócio de botar cartas, búzios, isso não faz minha cabeça, não acredito. Também não acho que a pessoa morre e volta. Não. A pessoa morreu, morreu, não vai voltar pra fazer nada, nem pra te pedir, nem pra te assustar. Cada um tem seu tempo no mundo”.

Política no Brasil

Na opinião de Luís, a política brasileira atualmente está melhor, “porque antes estava horrível”. E ele explica: “antigamente o povo, os pobres, eram muito pouco ajudados. O governo só ajudava as pessoas de posse e eles mesmos, que só queriam enriquecer. Agora tem esses programas que antes não tinha. Muitos falam do Lula, mas para mim está ótimo, ele está ajudando muita gente. Não estou dizendo que é perfeito, mas é que tem muita coisa para se fazer. Nos outros governos só se conquistavam as coisas no grito, na revolução, tinha que fazer passeata, greve. Agora não precisa mais disso”.  

Gentilmente em sua visita à nossa revista, Luís Carlos de Souza nos cedeu um poema de sua autoria, que publicamos a seguir.

Palavras somente palavras e nada mais

Estou esperando a minha chance surgir
Andando na corda bamba cuidando pra não cair
Tentando descobrir por onde devo ir
Saboreando os momentos tentando evoluir
Sabendo como chegar tendo medo de sentir
Quem sabe eu possa conquistar o meu espaço
Seguir sempre em frente sem voltar atrás
Talvez esteja com muita vontade e pouca emoção
Dividido entre o desejo e a razão
Um menino esperto cheio de idéias geniais
Um simples humano em meio aos demais
Querendo simplificar as palavras e as questões
Sendo sempre exato mantendo as ambições
Com o mundo por espelho e a vida por caminho
Carente sem amor totalmente sem carinho
Sendo aquele pássaro solitário na imensidão
Querendo ficar para sempre na palma da tua mão
Olhando no profundo de teus olhos no oculto do teu ser
Lutando contra o tempo sem vontade de viver
Estando sempre presente em cada amanhecer
Sorrindo para o acaso chorando sem entender
Matando um grande sonho para um novo Fazer.

L. C. Souza

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