Edição 287 | 30 Março 2009

Está caindo o “muro de papel” da nova finança. Será o fim do capitalismo?

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Patricia Fachin | Tradução Benno Dischinger e Maria Cristina Tagliari

Para o economista italiano Mario Deaglio, a esquerda não encontra alternativas para a crise, pois seguiu, durante os últimos 20 anos, uma posição bastante conservadora

“A esquerda teve medo de aplicar a análise marxiana - talvez modificando-a - à situação atual; demonstrou uma inferioridade tanto teórica como política com relação ao mercado, do qual aceitou a hegemonia; não soube construir quase nada com base nos valores das democracias sociais europeias dos anos 50 e 60.” A opinião é do economista italiano Mario Deaglio, professor de Economia internacional da Universtà di Torino, Italia. Em entrevista concedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line, ele avalia a postura da esquerda desde a queda da União Soviética e a considera conservadora. “As posições da esquerda são principalmente conservadoras, procura-se defender direitos e prerrogativas (as 'conquistas') dos trabalhadores que já têm um trabalho e são relativamente anciãos”, aponta. Para ele, nas sociedades ricas, “a esquerda deu muita importância aos problemas dos aposentados e pouquíssima aos dos jovens”.

Quase 20 anos se passaram desde a queda do Muro de Berlim e do colapso do regime socialista na União Soviética, e agora “está caindo o ‘muro de papel’”, aponta Deaglio. Esses momentos históricos “mostram a incapacidade dos modelos tradicionais frente às mudanças das tecnologias e das sociedades”, considera. Nesse emaranhado, a esquerda “se encontra hoje numa situação de desastre ideológico, amadurecido lentamente, enquanto que a direita hiperliberalista se encontra num desastre ideológico surgido improvisamente com a crise financeira”, explica. 

Deaglio dedica-se a investigação científica sobre as economias ocidentais modernas e os problemas gerados pela globalização; trata especialmente de temas como a distribuição de renda, economia subterrânea e poupança. Ele trabalhou em vários jornais e revistas, incluindo The Economist e Panorama, e atualmente é economista do jornal La Stampa.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Diante da crise financeira internacional, como o senhor percebe a estrutura das economias ocidentais modernas? É possível pensar em uma mudança na estrutura capitalista?

Mario Deaglio - De um ponto de vista externo, as modernas economias ricas se encontram num mundo improvisamente mudado: no período de 2000 a 2006, mais da metade da nova produção mundial (ou seja, do aumento do produto bruto) provém da Ásia sul-oriental. Nos 200 anos anteriores, provinha da área atlântica (que agora representa 27%). Não se trata de simples mudança de localização das multinacionais ocidentais; de fato, estão surgindo novas multinacionais de países emergentes, entre os quais a China, Índia, Brasil, Rússia, que nos últimos anos realizaram aquisições relevantes de empresas europeias e americanas. Em síntese: não são mais os ricos de antes que estão no comando. Desse modo, o baricentro econômico do mundo está se deslocando.

De um ponto de vista interno, a crise financeira atingiu as economias ricas com uma intensidade e violência extraordinária. Isto colocou em discussão as funções da “nova burguesia” que dominou a finança nos últimos 20 anos. Frequentemente, de modo relutante, os governos precisam intervir para salvar bancos, sociedades de seguros e outras empresas financeiras. Também neste caso, há um deslocamento de poder, da finança privada, e portanto do mercado para o Estado. Resta verificar se se trata de um fenômeno passageiro ou de uma transformação duradoura. No momento, considero mais provável a segunda hipótese.

IHU On-Line – Considerando os inúmeros impactos gerados pela crise no mundo do trabalho, em especial no que diz respeito às demissões, como deve ocorrer a distribuição de renda nessas economias? A desigualdade tende a aumentar ou os países emergentes podem representar uma alternativa para a crise?

Mario Deaglio - Todos os governos dos países avançados, os quais sofrerão mais os efeitos da crise, deverão intervir, de maneira mais ou menos incisiva, para redistribuir a renda dos “novos ricos” ( a “nova burguesia”) aos “novos pobres” (os jovens intelectuais com escassas possibilidades de trabalho estável). Não é certo que esta intervenção seja suficiente para resolver os problemas, e isto deixe de fora os “pobres tradicionais”, ou seja, os operários e os empregados tradicionais, cujo lugar de trabalho está em risco. Por isso estão acumulando – e se acumularão ainda mais – tensões e ressentimentos que poderiam resultar numa oposição violenta, principalmente nas grandes cidades, no decorrer do próximo verão europeu.

Nos países emergentes, a situação é muito variável. Nações com um forte mercado interno e uma boa balança comercial podem dirigir o crescimento das exportações aos consumos (privados, mas principalmente públicos). Neste sentido, está se mobilizando o plano chinês de relançamento, e na mesma direção irão a Índia, o Brasil e talvez a Rússia e a Indonésia (cujas dimensões econômicas estão no limite daquilo que seria necessário). Para todos estes países, o crescimento deveria continuar, mesmo em ritmo reduzido, e, se a difícil política de conversão do crescimento terá sucesso, a grande crise comportará somente uma leve flexão no ritmo de aumento da produção. Os pequenos países da África sub-sahariana estão em maior desvantagem e podem encontrar-se imediatamente em condições críticas (não por acaso já tivemos motins e trocas violentas de governo).

IHU On-Line – A falência do sistema financeiro mundial está relacionado com seu comentário publicado no La Stampa, em 8-5-2002, de que a esquerda perdeu talvez uma parte de seu significado tradicional?

Mario Deaglio - Quando caiu a União Soviética, pensou-se que o capitalismo tivesse vencido sem reservas. Quase 20 anos depois da queda do muro de Berlim, está caindo o “muro de papel” da nova finança. Os fenômenos estão relacionados: mostram a incapacidade dos modelos tradicionais frente às mudanças das tecnologias e das sociedades. A esquerda, particularmente, encontra-se em dificuldade para analisar os novos tipos de trabalho (não repetitivos, não facilmente expressos em termos de horas homem/máquina, exigem frequentemente iniciativa pessoal).

IHU On-Line – Nesta mesma publicação, o senhor diz também que as forças políticas, e a esquerda em particular, deveriam recomeçar a pensar alto, bem além de uma simples permanência (conservação) dos direitos tradicionais. Nesse sentido, que avanços e reformas teóricas e práticas deveriam surgir da esquerda, em especial num momento de crise como esse?

Mario Deaglio - Se eu soubesse com precisão, teria resolvido os problemas da esquerda! Nas sociedades ricas, a esquerda deu muita importância aos problemas dos aposentados e pouquíssima aos dos jovens. São necessárias revisões importantes; precisa-se considerar (não necessariamente adotar) projetos e experiências como aquelas do “salário de cidadania” a ser dado a todos, do “capital” para dar aos jovens quando completam 18 anos (um esquema parcialmente seguido na Grã Bretanha pelo governo Blair), do microcrédito para os jovens e organizações de atividades gratuitas (muitas destas se desenvolvem na internet, e em mais “grupos de aquisição” por parte de núcleos de consumidores etc).

IHU On-Line – Para resolver os impasses da crise atual, economistas de todo o mundo recorreram às teorias de Keynes e Marx. Em que medida essas teorias podem ser úteis para esse momento? Chegou a hora de pensar em uma profunda renovação prática e teórica?

Mario Deaglio - Nem em Marx nem em Keynes encontramos uma receita pronta que nos cure da crise atual; em ambos encontramos acenos úteis. De Marx, me parece importante o conceito de “modo de produção”, do qual provém a distribuição de renda. Isto porque o “modo de produção” está mudando muito rapidamente. É necessário, então, unir ao tradicional raciocínio econômico, baseado no indivíduo, aquele marxiano, baseado na classe. De Keynes, me parece importante o conceito de despesa pública financiada em déficit, que será depois recuperado terminada a crise; e a ideia de que, com o aumento da renda e da riqueza, os consumos privados tendem a aumentar num ritmo inferior, por isso uma intervenção pública crescente surge como estruturalmente necessária.
Em resumo, me parece que Keynes possa servir para implantar políticas de curta duração para sair da crise e que seja necessário considerar, entre outras coisas, as ideias de Marx para implantar políticas de longo período.

IHU On-Line – Quais são as propostas da esquerda frente à crise? Em que sentido ela pode desempenhar um papel relevante na dialética da crise mundial?

Mario Deaglio - As posições da esquerda são principalmente conservadoras. Procura-se defender direitos e prerrogativas (as “conquistas”) dos trabalhadores que já têm um trabalho e são relativamente anciãos. O resultado é que os jovens não a seguem. Na minha opinião, deveria-se agir no sentido que indiquei nas duas respostas anteriores.

IHU On-Line – Como avalia a atuação da esquerda em escala mundial?  Governos de esquerda pressupõem alternativas à crise?

Mario Deaglio - Nos países pobres, muitos dos objetivos da esquerda tradicional me parecem ainda perseguíveis (maiores liberdades, maiores direitos sindicais, uma sensível correção na distribuição de renda, uma rede de serviços públicos que compreenda assistência sanitária e instrução). Nos países avançados, deveria-se agir conforme indiquei anteriormente, na resposta à quarta pergunta.

IHU On-Line – Para o senhor, há atualmente um vazio teórico das esquerdas ou um “desencontro metodológico” na busca de bases comuns para uma teoria? Que lições a crise apresenta à esquerda?

Mario Deaglio - A esquerda teve medo de aplicar a análise marxiana - talvez modificando-a - à situação atual; demonstrou uma inferioridade tanto teórica como política com relação ao mercado, do qual aceitou a hegemonia; não soube construir quase nada com base nos valores das democracias sociais europeias dos anos 50 e 60. Por isso, se encontra hoje numa situação de desastre ideológico, amadurecido lentamente, enquanto que a direita hiperliberalista se encontra num desastre ideológico surgido improvisamente com a crise financeira.

Para ambos, do meu ponto de vista, pode valer a constatação de que há coisas boas no mercado, mas que o mercado é um remédio muito potente, com efeitos colaterais potencialmente graves. Por isso, deve ser tomado nas doses corretas, que variam dependendo dos tempos. Os políticos tem a tarefa de estabelecer as “doses de mercado” adequadas; na atual fase histórico-econômica, estas doses devem ser reduzidas, mesmo sendo difícil saber o quanto.

IHU On-Line – Sendo a questão ecológica o grande desafio do século XXI, como o senhor vê a atuação da esquerda nesse sentido?

Mario Deaglio - A direita hiperliberalista apostou na capacidade de encontrar soluções de mercado para os problemas ecológicos (por exemplo, com o mercado das emissões poluidoras, com políticas baseadas em incentivos e impostos para incentivar, no sentido ecológico o comportamento dos indivíduos).

A esquerda deveria, ao contrário, aprofundar o tema das políticas públicas, com intervenções diretas, de tipo constritivo, relacionadas ao ambiente, principalmente para problemas como o desmatamento tropical, a escassez de água, a redução dos recursos dos oceanos, começando pela pesca.

Um bom resultado deveria conter um “mix” entre as duas colocações, mas a segunda é extremamente carente. Tem muito trabalho a ser feito também com relação ao impacto da produção no ambiente; muitas previsões feitas 20 ou 30 anos atrás não se realizaram (a essas alturas Veneza e as Maldivas deveriam estar embaixo d’água). Os climatologistas frequentemente ignoram conceitos econômicos fundamentais que os induzem a superestimar o emprego futuro de recursos.
 
IHU On-Line – As análises propostas por Negri e Hardt em relação ao mundo do trabalho, são pertinentes nesse momento de crise global? Como o senhor percebe os conceitos de Império e Multidão nesse sentido?

Mario Deaglio - O trabalho de Negri e Hardt constitui-se – no meu conhecimento-  na única resposta articulada da esquerda aos problemas da globalização de mercado. O fato que tenha tido pouco impacto, constitui uma confirmação da fraqueza ideológica da esquerda.

Também Negri e Hardt, porém, parecem não ter dado a devida importância à mudança que está ocorrendo no próprio conceito de trabalho, e consequentemente de “mundo de trabalho”. Num planeta onde 70% da produção é do setor de serviços, ou seja, produtos invisíveis, não armazenáveis, que frequentemente não exigem mais a concentração física dos trabalhadores, os quais podem ser encontrados em qualquer parte do mundo, instantaneamente através da internet, me parece que também esta análise seja suficiente.

Mais pertinente é a sua análise do Império,  ou seja, da economia e da política global centrada num só país dominante (os Estados Unidos). Ao meu ver, o Império perdeu muitas das suas prerrogativas com esta crise - que poderia ser uma crise final -, seria necessário alcançar soluções que repitam, em escala mundial, aquelas alcançadas na Europa com o Congresso de Viena  após a queda de Napoleão  (porém, sem o seu conteúdo político conservador): um equilíbrio de potências, um conjunto de regras comportamentais frequentemente não escritas, uma harmonia mundial. Percebo que são indicações vagas, mas quando se começa a construir alguma coisa absolutamente nova, tudo tende a ser vago.

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