Edição 224 | 20 Junho 2007

“Permacultura é trabalhar com a natureza e não contra ela”

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IHU Online

Para o médico veterinário, Eduardo José Diehl, a permacultura é uma ferramenta que nos “ajuda a enxergar soluções para que possamos ser o mais sustentável possível”. Ele alerta que é necessário buscar a sustentabilidade para diminuir as conseqüências do aquecimento global, da poluição da água e do solo. E, explica que, através da prática da permacultura, é possível desenvolver “soluções práticas para a continuidade da nossa espécie nesse planeta”. Diehl destaca que qualquer pessoa pode utilizar as idéias da permacultura, no cotidiano. “As pessoas podem realizar pequenas ações, como desligar a luz, produzir menos lixo, participar de programas de reciclagem, plantar alimentos orgânicos.”

Eduardo José Diehl é graduado em medicina veterinária, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele realizou o curso Permacultura Design e Consultoria, pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (IPEC) e, atualmente, participa do curso de mestrado do Núcleo Orientado para Inovação da Inovação da Edificação (NORIE) do programa de pós-graduação de Engenharia Civil da UFRGS.

Diehl desenvolve oficinas de compostagem e paisagismo sustentável, participando de palestras educativas e acompanhando projetos na área sócio-ambiental. Ele concedeu por telefone à IHU On-Line a entrevista que segue.

IHU On-Line – Quais são as vantagens que a permacultura proporcionará ao meio ambiente a longo prazo?
Eduardo José Diehl –
A permacultura é uma ferramenta que nos ajuda a fazer uma releitura do modo como estamos vivendo. Ela nos ajuda a enxergar soluções para que possamos ser o mais sustentável possível, aqui e agora. Mas isso pensando a longo prazo. No entanto, buscar a sustentabilidade não é algo para o futuro, uma vez que as conseqüências, como o aquecimento global, a poluição das águas, do solo, a contaminação de alimentos, já estão sendo vivenciados atualmente. Assim, a permacultura vem no sentido de contribuir para a reversão desta situação. Costuma-se dizer que ela é a cultura do óbvio, pois, se quisermos alimentos saudáveis, é obvio que temos de parar de colocar agrotóxicos e adubos químicos no solo; se quisermos água limpa, é necessário que paremos de usar tantos produtos químicos. Partindo desse contexto, é impossível não agir.

A permacultura traz as soluções práticas para a continuidade da nossa espécie nesse planeta, já que ela se dedica a um pensamento ecológico de sustentabilidade, focado na criação de sistemas eficientes, produtivos e auto-sustentáveis para as comunidades humanas.

IHU On-Line – O senhor afirma que a permacultura, além de estar de preocupada com a sustentabilidade ambiental a longo prazo, também preocupa-se com a sustentabilidade energética e econômica. De que maneira a sustentabilidade energética e, principalmente, a econômica podem ajudar o meio ambiente? 
Eduardo José Diehl –
Hoje, vivemos numa sociedade de consumo, atendendo a desejos ao invés de atender a necessidades. Se formos atender as nossas necessidades (alimentação saudável, água limpa, abrigo e transporte), vamos perceber que precisamos de muito menos do que estamos demandando. Então, tudo na vida está relacionado à energia, e tudo é energia. Nesse sentido, a permacultura está ocupada em otimizar essa energia, conforme afirma David Holmgren , um dos seus criadores. Para ele, o único cenário realmente sustentável nos próximos anos é o da energia decrescente, que consiste em reduzir a quantidade de energia que temos utilizado. Um exemplo é o petróleo. Atualmente, estamos no pico do petróleo, o que significa dizer que usamos mais da metade do produto disponível no subsolo e continuamos totalmente dependentes dele. Isso significa que devemos utilizar outras formas de energia, de forma eficiente, vivendo e consumindo de modo consciente. Isso está diretamente ligado a economia, uma vez que não podemos mais consumir de forma ilimitada, num planeta de recursos limitados.

É coerente e necessário que compreendamos a eficiência energética com a qual os sistemas vivos sempre viveram e procurar aprender com isto. Assim, a permacultura nos faz olhar para a natureza, entender e repetir os seus ciclos energéticos.

IHU On-Line - O senhor diz que a permacultura é viável em qualquer lugar. Isso quer dizer que cada família pode elaborar, em casa, práticas agrícolas tradicionais? Como cada família pode fazer bom uso dela?
Eduardo José Diehl -
Permacultura é bem mais do que práticas agrícolas tradicionais; ela é uma síntese de uma cultura permanente e se dedica a áreas que garantem a sobrevivência: água, energia, abrigo e alimento. E, nesses aspectos, todos podem contribuir, seja fazendo uso adequado da água, coletando água da chuva, armazenando, usando e reutilizando, independente do espaço que se tenha. Na questão alimentar, todos podem ter seu próprio cultivo, seja em pequenos jardins, seja em floreiras ou vasos, ou, ainda, em hortas comunitárias. Assim, todos podem saber de onde vem seu alimento.

Para aqueles que não querem plantar alguns alimentos, podem consumi-los por meio de feiras de produtores orgânicos, próximas à sua casa. Assim, dá para ir caminhando, sem necessidade de utilizar o carro, e trazer, para dentro da residência, alimentos que são muito mais sustentáveis do que os produzidos no sistema vigente de agricultura. Essa é uma visão permacultural que pode ser aplicada no cotidiano.

Quanto ao abrigo, existem várias maneiras das pessoas melhorarem a climatização para aquecer a casa, secar roupa, por exemplo, adequando a casa de forma a melhorar a qualidade de vida. No caso da eficiência energética, no dia-a-dia, as pessoas podem realizar pequenas ações, como desligar a luz, a televisão, produzir menos lixo, participar de programas de reciclagem, boicotar o que não é necessário. O ponto central é buscar as alternativas e observar a natureza, independente do local onde estejamos. Se buscarmos as informações, com certeza as respostas virão.

IHU On-Line – Quais são as soluções práticas e os benefícios que a permacultura pode trazer para os agricultores?
Eduardo José Diehl –
O principio básico da permacultura é trabalhar com a natureza e não contra ela. Percebe-se muito, hoje, no modelo agrícola vigente, um trabalho contra a natureza. Um caso clássico é o uso de herbicidas, que acaba eliminando a expressão natural da natureza. Há uma série de práticas agrícolas, como, por exemplo, os cultivos em agrofloresta, produção buscando maior biodiversidade; saneamento básico, gerenciando as águas que saem das casas; trabalhar com solo coberto; e criar estabilidade no sistema. Essas práticas fazem com que o agricultor tenha menos necessidade de trazer energias e nutrientes de fora do sistema do qual ele trabalha. Outra questão é a percepção das energias que passam por uma propriedade agrícola, como os ventos, os quais podem ser utilizados como energia para ajudar a diminuir a quantidade de lenha para secar o grão ou servir como quebra-ventos, trazer menos prejuízo com a queda de flores. Outra prática pode ser a do armazenamento da água da chuva no solo, com o uso de curvas de nível e o uso material orgânico cobrindo este solo. Todas essas práticas têm um baixo custo financeiro, e, com essa visão da permacultura, o agricultor consegue fazer um manejo mais sustentável dos recursos naturais que ele dispõe no seu local.

Essa é uma forma de se conectar e trabalhar com a natureza, e não contra ela. Dos 10000 anos de agricultura, só nos últimos 50 anos é que começamos a envenenar a terra, poluir a água e depender do petróleo. Há uma grande incoerência nessas atitudes.
 
IHU On-Line – Existem cursos de permacultura? Como essa prática está sendo divulgada entre os agricultores? Elas são aceitas?
Eduardo José Diehl -
Existem cursos de Permacultura sendo irradiados por vários institutos e indivíduos também. O curso idealizado por Bill Molison , o PDC – Permacultura Design e Consultoria, de 72 horas, ensina, por meio de teorias e práticas de planejamento de espaços, a utilizar princípios e leitura de paisagem, zoneamento, setorização, elementos chave da Permacultura.
Existem muitos projetos sendo desenvolvidos com agricultores, no IPEP – Instituto de Permacultura e Ecovilas da Pampa, em Bagé, no Rio Grande do Sul. O instituto está desenvolvendo, juntamente com os agricultores, o projeto Construção de tecnologias sociais e os conhecimentos de sustentabilidade para comunidades urbanas e rurais. O projeto resgata e produz sementes crioulas junto a pequenos agricultores de comunidades tradicionais de todo o Rio Grande do Sul. Esses grupos também têm atuado em comunidades quilombolas e no MST, tendo por enfoque a construção de cisternas (reservatórios de água) e bioconstruções, criando casas com mais qualidade ambiental e baixíssimo custo financeiro, através da utilização de materiais locais, como farpas de palha.

Nos cursos oferecidos pelo IPEP, existem bolsas que são direcionados a projetos sociais e a agricultores familiares, objetivando a difusão e o acesso a essas técnicas.

IHU On-Line – Como está o processo de conscientização da população em relação à permacultura?
Eduardo José Diehl -
A permacultura ainda é um assunto bastante novo para a maioria das pessoas, em virtude do pouco enfoque dado pelos grandes meios de comunicação em massa para esse assunto. Mas, em virtude da questão da sustentabilidade e do aquecimento global estarem em voga, mais indivíduos estão procurando e se aprofundando no tema. Aos poucos, a permacultura está sendo absorvida pelas pessoas, e elas estão demandando por permacultura. Estamos vivendo um momento bem interessante, no qual a população está tomando contato com as ações e conceitos da permacultura. Em pouco tempo, essa será uma visão de mundo muito presente na população, pelo momento que estamos passando. É importante ver a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro como um sistema vivo, e nós temos que nos sentir pertencentes a esse sistema. A permacultura nos oferece uma percepção desse sistema vivo. Mostra-nos que podemos contribuir positivamente para aumentar a eficiência energética e conseguir fazer com que essa teia da vida inter-relacionada no sistema, na qaul  estamos inseridos, consiga buscar o caminho da sustentabilidade.

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