Edição 224 | 20 Junho 2008

Perfil Popular - Jorge Lino Machado

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Jorge Lino Machado nasceu e foi criado em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Com a família sempre envolvida na indústria do calçado, Jorge conhece cada peculiaridade que esse trabalho traz. Ele começou cedo na indústria, aos 14 anos, e acompanhou cada crise. Hoje, aos 48 anos, trabalha no setor na segmentação de bolsas e acessórios e vê com preocupação a crise da indústria da região. “O governo não está ajudando com incentivos. Essa (crise) está mais longa e complicada.” Casado, Jorge fala com carinho de sua filha, Daniela, a primeira da família a cursar uma faculdade. “Acredito muito no talento dela. Sei que está no caminho correto, com garra e vontade.”

Origens
De uma família de seis irmãos, Jorge cresceu em Novo Hamburgo, no bairro Guarani. “O bairro era pequeno. Quando meu pai foi morar ali, era um dos primeiros moradores.” Os pais trabalhavam na indústria do calçado até a crise a atingir. “O meu pai se aposentou em uma única fábrica, que existe até hoje, a Calçados Jacó. Em Novo Hamburgo, hoje, ficam só os escritórios. A fábrica mesmo foi para a Bahia. Já a fábrica em que a minha mãe trabalhou a vida toda, a Calçados Vila Nova, não existe mais.”

Infância
Crescendo em um bairro tranqüilo, Jorge teve uma infância alegre. “O brinquedo da gente era futebol. A gente também soltava pandorga, andava de carrinho de lomba. Não tinha esses brinquedos eletrônicos.”

Estudos
Jorge cursou o Ensino Fundamental no Colégio Novo Hamburgo, mas abandonou os estudos aos 14 anos para trabalhar. “Em uma família grande, com muitos irmãos, fui para o trabalho.” Jorge começou nas Calçados Requinte, que, atualmente, não existe. Aos 18 anos, ele foi chamado para o serviço militar, e quando voltou não tinha a mesma vontade para estudar. “Comecei a trabalhar, mas fiquei tentando voltar a estudar. Consegui terminar o segundo grau e parei.” Jorge planejava fazer um curso técnico na área, mas, novamente, a situação financeira falou mais alto. “Como eu já tava no ramo dos calçados, ficou difícil sair da fábrica e sobreviver da bolsa. Financeiramente eu iria regredir. Fiquei nas fábricas e fui aprendendo na prática. Nunca fez falta esse diploma técnico.”

Dificuldade
Jorge conta que todos os irmãos trabalhavam para ajudar no sustento da família. “Tu não consegue manter uma família de seis irmãos trabalhando com calçados. Todos nós estudávamos, mas precisamos de roupas, calçados, alimentação, e todo mundo teve que trabalhar. Trabalhar era uma necessidade.” Os irmãos de Jorge tiveram rumos diferentes. João Luiz está na China, pois a fábrica de calçados em que trabalhava se mudou para o país. Já Loreci ainda trabalha na região dentro da indústria calçadista.
 
Trabalho
Hoje, com a crise da indústria, a segmentação está presente no setor. Jorge trabalha na Cravo e Canela, que também produz outras três marcas, focando nos acessórios, como bolsas e cintos. “Tenho orgulho de trabalhar com calçados. Hoje, trabalhando em outro segmento, sinto falta de trabalhar só com calçado, pois me sinto deslocado. Na linha de tecidos, as máquinas são outras, tudo é novo pra mim. É uma coisa diferente.” Jorge tem orgulho de pertencer ao setor calçadista. “Toda a minha família sempre trabalhou neste ramo e eu gosto muito de seguir nele também.”

Casamento
Como não podia deixar de ser, Jorge conheceu sua esposa, Maria Aparecida, em uma fábrica de calçados, a Erno, em Estância Velha. Ele trabalhava em uma filial, no almoxarifado, e ela na matriz, no departamento pessoal. Na unificação da fábrica, Jorge teve sua oportunidade. Hoje o casal tem uma filha de 19 anos, Daniela, que cursa Jornalismo na Unisinos. “Minha família está continuando o meu projeto. A faculdade era o nosso objetivo, mas financeiramente não tinha condições. Optamos por adquirir uma casa e daí veio a Dani. Ali começou outro processo. Nossa vida se resumiu à Daniela.”

Crise
Logo que conheceu Maria Aparecida, a fábrica em que o casal trabalhava fechou. “Ela foi trabalhar na Cristófoli, com os primos dela. Eu fui trabalhar nessa fábrica em que estou até hoje. Jorge se preocupa com a atual crise, diferenciando-a das anteriores sofridas pelo setor. “O calçado no Rio Grande do Sul teve muitos altos e baixos, mas nunca crises longas. Essa última aí está judiando mais. O governo não está ajudando com incentivos. Essa está mais longa e complicada.” Ele ressalta que mesmo com uma marca consolidada fica difícil superar este momento da indústria. “Em virtude de muitas estarem passando por momentos ruins, a concorrência diminui também. Quem conseguiu diminuir a fábrica, está conseguindo se manter.” Jorge ainda se preocupa com as conseqüências para o futuro das fábricas. “Tu não sabe realmente o dia de amanhã. A gente tem tentado outros segmentos e está começando a dar certo, mas não sabemos do futuro.” Ele destaca as iniciativas que devem ser tomadas pelas fábricas para contornar a crise. “Temos que ter um diferencial. Pra se trabalhar em nível de consumidor, temos que pensar grande. Temos que investir em máquinas e pessoal para poder crescer.”

Futuro
Como a maioria dos trabalhadores brasileiros, Jorge se preocupa com o futuro e a sua aposentadoria. “Parece que este sonho está mais longe, em virtude de que tu não consegue te aposentar. Com as novas leis ainda vou ter que trabalhar mais uns cinco anos para poder me aposentar.”

Sonho
A filha Daniela é o sonho de Jorge. “Vou ficar torcendo para a Daniela continuar dando certo. Acredito muito no talento dela. Sei que está no caminho correto, com garra e vontade.”


Jorge é católico, mas não costuma freqüentar a igreja. “Acredito em Deus. Não acredito muito no padre. Cada um tem seu Deus. Não precisa ir todo o domingo rezar. A fé está nas coisas que tu faz.”

Política
“Tá tudo errado. Nada é sério.” Jorge é enfático quando fala de política no Brasil. Ele destaca o potencial do país, mas ressalta os problemas que o preocupa. “Tu paga tanto imposto que teria que ter todos os recursos possíveis. Se tu precisasse de um médico, teria que ter a ambulância na porta da tua casa. Tu paga e não usufrui de nada.” Ele ainda é otimista quanto ao futuro do Brasil. “Mesmo assim temos um país bom de viver. Temos como dar a volta, é só fazer uma política séria.” Jorge critica a falta de apoio do governo para o setor calçadista neste momento difícil. “Acho que eles não estão ajudando muito o setor calçadista e moveleiro. O setor de calçados e madeira são os mais prejudicados. Já o setor metalúrgico vai bem. As políticas são diferentes para os setores. Os agricultores não recebem também investimento.”

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