Edição 491 | 22 Agosto 2016

Transição ecológica como caminho para estancar a crise econômica

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Róber Iturriet Avila

“O trabalho de Giraud (2015) levanta questões cruciais para a economia mundial contemporânea. Por não ser um livro acadêmico, ele traduz conceitos econômicos e financeiros para o público leigo. Traz críticas que merecem elogios acerca da dominância financeira na economia, na política e na sociedade de maneira geral, o que ele chama de ‘voto implícito dos mercados financeiros’. Embora com tons utopistas, levanta a transição ecológica como possível saída para a crise vigente”, analisa Róber Iturriet Avila. E resume: “o livro está centrado em quatro pontos: I) na crise financeira de 2007-08; II) na falsa elevação de preços pregressa dos imóveis; III) nos problemas da Zona do Euro; IV) em propostas alternativas ao por vir”.

Róber Iturriet Avila é doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística – FEE e diretor sindical do Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Fundações Estaduais do Rio Grande Do Sul - SEMAPI. 

O professor apresentará a obra de Gaël Giraud Ilusão financeira: dos subprimes à transição ecológica (São Paulo Loyola, 2015), no próximo dia 23, às 19h30, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU. 

Giraud estará na Unisinos participando do IV Colóquio Internacional IHU. Políticas Públicas, Financeirização e Crise Sistêmica, com proferindo duas conferências, respectivamente, nos dias 13 e 14.

No dia 12 de setembro, debaterá “O Ensino Social da Igreja à luz do pontificado do Papa Francisco”, às 14h30min, também na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.

Saiba mais sobre os eventos

Gäel Giraud ainda realizará um Curso para os alunos de pós-graduação da Escola de Gestão e Negócios da Unisinos. Ministradas em inglês, as aulas serão abertas ao público em geral. Além do encontro do dia 14 de setembro, dentro da programação do Colóquio, haverá outros dois encontros. Um será no dia 15 de setembro, a partir das 19h15min. O outro no dia dia 16 de setembro com duas sessões. A primeira inicia às 14h e a segunda às 17h15min. Mais informações podem ser obtidas na secretaria da Escola de Gestão e Negócios, telefone 51-3590-8186.

Gaël Giraud é diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique - CNRS, membro do Centro de Economia da Sorbonne e da Escola de Economia de Paris e professor associado na ESCP-Europe. Jesuíta, faz parte do conselho científico do Laboratório sobre Regulação Financeira e do Observatório Europeu Finance Watch. Além disso, leciona no Centre Sèvres, dos jesuítas, e é membro do conselho científico da Fundação Nicolas Hulot para a Natureza e o Homem. 

O trabalho de Gaël Giraud pode ser visto em seu sítio na internet www.gaelgiraud.net. É autor de vários livros, dos quais destacamos Ilusão financeira: dos subprimes à transição ecológica (São Paulo: Edições Loyola, 2015), Le facteur 12. Pourquoi il faut plafonner les revenus (Paris: Carnets Nord-Montparnasse éditions, 2012) e Vingt propositions pour réformer le capitalisme (Paris: Ed. Flammarion, 2009).

 

Confira algumas entrevistas e textos de Giraud publicados pelo IHU:

- Da dívida ecológica ao débito do sistema financeiro com os pobres. Entrevista com Gaël Giraud, publicada na revista IHU On-Line, número 469, de 03-08-2016.

 

- A ecologia econômica como alternativa às desigualdades. Entrevista com Gaël Giraud, publicada na revista IHU On-Line, número 449, de 04-08-2014.

 

- Uma "transição ecológica" para salvar a Europa. Artigo de Gaël Giraud, publicado nas Notícias do Dia de 13-05-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos- IHU.

 

- O jesuíta 2.0 que expõe bancos e finanças. Entrevista com Gaël Giraud, publicada nas Notícias do Dia de 11-05-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos- IHU.

 

- "A Europa tornou-se refém dos bancos e da austeridade que alimentam populismos". Entrevista com Gaël Giraud, publicada nas Notícias do Dia de 09-05-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos- IHU.

 

- Clima e Europa: agora é a vez dos católicos. Artigo de Gäel Giraud, publicado nas Notícias do Dia de 02-12-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos- IHU.

 

- Gaël Giraud: o jesuíta que enfrenta os bancos. Entrevista com Gaël Giraud, publicada nas Notícias do Dia de 04-05-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos- IHU.

 

Eis o artigo.

 

I - Ilusão financeira: um resumo

O livro “Ilusão Financeira: dos subprimes à transição ecológica”, de Gaël Giraud, está centrado em quatro pontos: I) na crise financeira de 2007-08; II) na falsa elevação de preços pregressa dos imóveis; III) nos problemas da Zona do Euro; IV) em propostas alternativas ao por vir. O autor trabalhou no sistema financeiro e traduz os conceitos complexos de forma didática ao público leigo em economia. Essa primeira seção tratará brevemente desses pontos.

No primeiro capítulo do livro, ele trata a bolha imobiliária ocorrida nos Estados Unidos como um sistema de pirâmide do tipo ponzi . As dívidas imobiliárias eram quitadas mediante novas dívidas, na expectativa de que os imóveis persistissem em se valorizar. Entre 2001 e 2007, o valor dos imóveis dobrou nos EUA e o crédito ampliava-se 15% ao ano para o setor. Os créditos eram concedidos com carências e as renegociações partiam da hipoteca da casa mais valorizada.

De outro lado, os bancos repassavam esses ativos no mercado financeiro: o processo de securitização. Tal pulverização dos ativos ocorria em blocos, através dos Collateralized Debt Obligation - CDO . Esses, por sua vez, passavam pela avaliação de crédito pelas Agências de Risco, que estipulavam um rating para os ativos. Os CDOs somavam 470 bilhões de dólares em 2006 e mais do que quintuplicaram no ano seguinte: 2,5 bilhões de dólares.

O risco de inadimplemento poderia ser assegurado mediante o pagamento de um bônus dos Credit Default Swap - CDS . Tais títulos podiam ser adquiridos inclusive a quem não está envolvido no negócio. Os bancos de investimento vendiam CDS em operações sem cobertura e sem reservas obrigatórias, através do shadow banking . Em caso de sinistro, não havia garantias de capital suficiente para pagar. 

Muitos dos créditos eram concedidos a clientes com risco elevado: o subprime . As agências de risco não eram tão criteriosas para estipular tais ratings, concedendo logo o “AAA” . Os bancos tampouco estavam preocupados, uma vez que repassavam esses ativos via CDOs. Caso o cliente assumisse um crédito excessivo, havia a possibilidade de conceder o empréstimo e apostar contra o cliente no mercado, via CDS, a descoberto. Com a possibilidade de repassar o risco, a alavancagem do sistema financeiro chegou a 62, ou seja, os bancos emprestavam 98,4% dos ativos das hipotecas.

No sistema ponzi, as expectativas de fluxos não são suficientes para, sequer, quitar os juros presentes nas amortizações de crédito. Como era de se esperar, os imóveis não se valorizaram indefinidamente. Com dívidas elevadas e desaquecimento do mercado, os preços caíram. A elevação das inadimplências ativou o sistema de seguros (CDS). Porém, muitos deles estavam descobertos, levando a maior seguradora do mundo, a AIG, à falência, tendo sido nacionalizada pelo tesouro estadunidense. 

 

Revelação do sistema viciado

Era um sistema fraudulento e viciado. Os bancos sabiam que haveria quebradeira, mas repassavam os ativos com carimbo “AAA”, estipulados pelas agências de crédito também de maneira escusa. O dolo era tamanho que um dos diretores do Goldman Sachs , Greg Smith, pediu demissão no New York Times por não compactuar com a negociação de produtos pouco transparentes, disfarçados em siglas.

 

A crise estadunidense no mundo

A crise financeira que iniciou nos EUA se alastrou rapidamente para o mundo inteiro. A Espanha tinha uma dívida pública de 40% do PIB. Em quatro anos, chegou a quase 80%. Subsequentemente, o governo impôs austeridade, redução de direitos e de salários para “ajustar” a economia. A Irlanda assistiu quase todo seu sistema bancário falir, sendo o governo obrigado a nacionalizá-lo e, consequentemente, endividar-se. 

Segundo Giraud, a Grécia entrou na zona do Euro porque havia interesse de outros países em fornecer produtos a ela, como o caso dos equipamentos militares adquiridos da França. Em paralelo ao excesso de crédito concedido à Grécia, os bancos apostavam contra o país no mercado financeiro, pouco preocupados, portanto, com o risco de default. 

Os planos de austeridade subsequentes causam recessão, elevação do desemprego e redução dos salários reais. Os países do sul europeu foram forçados a diminuir seu padrão de vida para ganhar competitividade (ajuste). Flexibilização do mercado de trabalho e desmonte do Estado social. À medida que os Estados Nacionais salvam os bancos, ampliam seu risco e sua dívida.

 

Ditadura dos investidores

Além da Ilusão Financeira do mercado imobiliário, os ativos alteram de preços por notícias quaisquer. “Manchas solares” afetam os valores dos ativos no mercado financeiro e ampliam a especulação. Giraud (2015) aponta que os mercados financeiros impõem suas políticas aos governos, tendo mais poder do que o eleitor. É a “ditadura dos investidores”. Os governos nos diversos países são obrigados a seguir o script do mercado. E a despeito dos crashes frequentes, os mercados persistem desregulamentados e com influência política. Essa é a força da ilusão financeira.

Na crise, as sugestões dos financistas são as mesmas: redução de salários, redução de direitos sociais e previdenciários, flexibilização do mercado de trabalho. Isso ao tempo em que cometem fraudes no sistema financeiro e restringem informações de suas péssimas condições de liquidez. De acordo com o autor, os bancos comerciais não têm recursos para pagar os empréstimos contraídos com o Banco Central Europeu - BCE. Ele prevê um período longo de queda de preços e estagnação para a Europa.

 

Linhas de fuga

Já no capítulo 7, o autor faz algumas sugestões após críticas à arbitrariedade na definição da taxa de inflação “aceitável” (2% a.a). Mesmo com tantas crises periódicas, a desregulamentação persiste, assim como a independência dos Bancos Centrais, herança conservadora de Milton Friedman . É uma aposta na “credibilidade”: risível fé ingênua nos mercados. Desta feita, o autor sugere o fim da inútil e destruidora austeridade, reestruturação das dívidas, fim da “neutralidade” da autoridade monetária, renúncia à regra de Taylor , estabelecendo outras metas aos Bancos Centrais e não apenas o combate à inflação. 

Giraud recorda das recomendações de Basileia III  como provisões suplementares dos bancos em períodos de bonança. Ele sugere ainda restrições legais à securitização de letras de crédito e a separação entre os bancos de crédito e os de investimento, para que os recursos poupados sejam direcionados para a economia real e não para a financeira. Segundo o autor, é falso o discurso que alega que os mercados financiam as atividades dos bancos comerciais, eles ficam tão somente na ciranda financeira. Ele lembra ainda que os principais bancos do mundo têm filiais em paraísos fiscais e que, sem a cumplicidade dos bancos, a evasão fiscal é impossível.

 

Euro e União Europeia

Com relação ao Euro, Giraud é cético. Ele propõe uma Federação Europeia antes que as regras atuais sepultem o bloco. Cerca de 1% do PIB europeu iria para o orçamento confederado. Um dos principais problemas do Euro é que ele fixa uma taxa de câmbio entre os seus membros, os quais são heterogêneos em termos de produtividade e de inflação. Sob a mesma taxa de juros, a do BCE, o juro real é diferente nos países e os capitais tendem aos países mais deflacionistas, como a Alemanha, por exemplo. Já os países mais inflacionistas tendem a se endividar para financiar seus déficits.

Outro problema é que a concorrência intrabloco ocorre via deflação salarial. Dessa maneira, os países que se recusam a reduzir salários perdem competitividade e ganham em inflação, sem poder desvalorizar suas moedas. A partir desse diagnóstico, o autor propõe que haja mais de uma taxa de juros estabelecida pelo BCE, orçamento único que compense as discrepâncias econômicas e até taxas de câmbio distintas. Haveria ao menos duas zonas: a Norte e a Sul. Ou então uma união fiscal completa, a qual encontra resistência da Alemanha.

Para o autor, há um divórcio entre a elite e o povo europeu. O primeiro confia e saúda o mercado de capitais desregulamentado, mas não visualiza os custos sociais impostos pelos mercados para ampliar a competitividade. Esse custo cai sobre o segundo, visto como o “arcaísmo gaulês” em que não se pode confiar, sob o ângulo dos “educados”. Esses últimos não visualizam também que sua poupança não financia a produção e está no cassino internacional dos mercados, enxergam apenas a remuneração. Uma lógica financeira mortífera que impõe custos ao povo e ganhos a poucos.

 

Transição produtiva

Outro tema central do livro é a transição produtiva para bases mais sustentáveis do ponto de vista ecológico. O consumo de petróleo levará a um desastre ecológico, na visão do autor. Estima-se que haja uma elevação de até 5°C, distância que nos separa da última era glacial, 40 mil anos atrás. Tal incremento levará a crescentes inundações, migrações, quebras agrícolas e outras catástrofes. Para tais questões, são propostas a redução do consumo de carne e de garrafas descartáveis, maior utilização de transportes coletivos, como o trem, redução de consumo de energia na construção e utilização de energias descarbonizadas. Para o autor, uma das formas de financiar a transição energética poderia ser por meio da criação monetária, que já existe, através da multiplicação bancária, mas que é utilizada para incrementar o cassino financeiro.

 

II - Considerações críticas ao livro

Algumas críticas podem ser desferidas ao trabalho de Giraud (2015). O autor constata que durante os anos de maior crescimento econômico o consumo de petróleo aumentou persistentemente. Após 1979, entretanto, o incremento foi menor. O autor sugere que o consumo de petróleo impulsionou o crescimento econômico. Ele argumenta que com o menor consumo de petróleo, a renda per capita no mundo não cresceu mais do que 1% ao ano, em média.

Diante dessa suposição, em uma transição ecológica, a taxa de crescimento seria menor, uma vez que o consumo de petróleo também seria menor. Ele chega a fazer um exercício com uma taxa de crescimento futura de 1%, devido à transição ecológica e o fator energético dado. Ou seja, ele supõe que a variação do consumo de combustíveis determina o crescimento. Entretanto, há uma inversão causal patente aqui. O crescimento econômico exige maior consumo de petróleo e não o contrário.

O período de menor crescimento econômico coincide com o início da égide neoliberal, que, devido ao menor crescimento e à elevação dos custos, exigiu menos petróleo em termos relativos. Pós-1980, o mundo cresceu menos, mas a perda não foi para todos. Os mais ricos elevaram sua riqueza de maneira mais rápida, levando a uma ascensão abrupta da concentração de renda e de riqueza (Piketty, 2014). Tais fatos não são levados em conta por Giraud (2015).

 

Distopias e utopias

Giraud lamenta uma era de distopias, ou seja, as utopias foram deixadas de lado. Isso ocorreu principalmente após a década de 1980. Ele define implicitamente a sua utopia predileta: a transição ecológica. Como uma utopia, esta figura em seu trabalho como “a” solução para “todos” os problemas: para o planeta, para o meio ambiente, para o conflito do Euro, para a financeirização, etc. Há uma forma de salvar a todos, uma Terra prometida, um novo Jardim do Éden que está visível em sua ótica. O autor chega a visualizar uma possibilidade de reindustrializar a Europa com um comércio mais oneroso devido à transição ecológica: improvável!

O autor sugere que as empresas tenham mais responsabilidade social, sendo essa sua principal função e não a maximização de dividendos. Uma boa utopia. 

Do ponto de vista teórico, para defender sua argumentação, o autor alega que os humores do público não afetam o volume de dinheiro em circulação e por isso as “manchas solares” devem ser ignoradas. Embora a volatilidade dos “mercados” deva ser criticada, é preciso cautela. John Maynard Keynes (1964)  tratou com profundidade a capacidade que as expectativas e a crença sobre o presente e sobre o futuro têm para afetar variáveis reais como emprego, produto e renda. Ou seja, as expectativas importam. Não afetam a quantidade de moeda em circulação, mas alteram a velocidade dessa circulação, que, subsequentemente, impacta nas variáveis reais.

Do ponto de vista de pressupostos filosóficos, o autor parte da visão de um homem mais cooperativo do que competitivo. Essa discussão filosófica é ampla e inesgotável, partindo de Thomas Hobbes , Bernard Mandeville , John Locke , Jean-Jacques Rousseau , David Hume , Francis Hutcheson , Jeramy Bentham  e outros tantos autores que travaram um belo debate, sem respostas definitivas, mas não tratadas por Giraud (2015).

 

Outras questões

Cabe também levantar outras questões que foram tratadas no livro, mas não de maneira profunda. A principal delas é a configuração do sistema financeiro internacional e a repercussão política desse arranjo. Um olhar histórico, particularmente, traz alguns ensinamentos relevantes. Um deles foi o que ocorreu no mundo após a crise de 1929, nessa seara, que foi o fim do Padrão-Ouro - PO . Uma conjunção de três elementos merecem destaque: a fragilidade da Grã-Bretanha (GB) no período pós Primeira Guerra Mundial - PGM, a incapacidade dos EUA de assumirem as responsabilidades que eram da GB e a própria crise da década de 1930.

Houve nesse período uma dificuldade de estabilizar as taxas de câmbio, em paralelo ao crescimento de especulações contra as moedas e convívio com taxas elevadas de inflação. A GB, comprometida defensora do PO, optou por retomar a taxa de câmbio pré-PGM, no intuito de restabelecer a confiança em sua moeda, nos bancos ingleses, assegurando, adicionalmente, o valor de ativos estrangeiros. Esta escolha, entretanto, envolvia muitos custos, uma vez que requeria políticas deflacionistas . 

Observar os detalhes do período de fim do PO e da transição hegemônica do século XX auxilia a entender o período contemporâneo. Na atualidade, a economia mundial se encontra desequilibrada, com países acumulando superávits recorrentes, ao passo que outros acumulam déficits. Em particular, os EUA que acumulam déficits não apenas na balança comercial, mas também déficits fiscais, advindos das guerras praticadas e do custo da crise. Erros esses que a GB incorreu e que a deixaram submissas aos EUA. A história pode ensinar que sem um ajuste do comércio internacional e nas contas externas americanas, a mudança de poder entre países pode se repetir.

E mesmo após os EUA se afirmarem como hegemônicos, houve períodos de instabilidade financeira que fragilizaram sua posição. Os déficits em transações correntes em que incorria a economia norte-americana desde o final dos anos 1950 inviabilizaram a manutenção da paridade dólar-ouro, levando o governo desse país a anunciar, em 1971, o fim da conversibilidade fixa. Foram abandonadas as paridades das demais moedas em relação ao dólar e os controles financeiros dos países europeus, levando à derrocada final do sistema de Bretton Woods  em 1973. 

Esse processo se deve a um período de instabilidade. A dissolução do bloco soviético e a ascensão da China como player no comércio internacional compuseram dois dos principais condicionantes de quase trinta anos cunhados por Dooley et al (2005) como “Bretton Woods II”. De acordo com os autores, o surgimento de países periféricos capazes de financiar o desequilíbrio norte-americano representa uma evolução do sistema monetário internacional acertado em 1944.

Ainda no centro do sistema, os EUA têm seus desequilíbrios financiados pelos asiáticos. Já os países europeus foram relegados a um plano de menor importância, dados o pífio crescimento do PIB e as altas taxas de desemprego dos países da zona do Euro. A abundância de poupança desequilibra os fluxos de capital para os EUA. Em paralelo, há a codependência com os países asiáticos. 

Bibow (2010) salienta que o papel do dólar como a moeda de troca internacional é um dos principais fatores que contribuiu para a crise de 2007-08. O autor argumenta que o gasto americano financiado pelo público, em vez do débito privado, proveria uma dinâmica mais sustentável para o crescimento global. Para ele, o sistema Bretton Woods II, proposto por Dooley et al. (2005), deve tornar-se um sistema Bretton Woods III, em que a política fiscal e a dívida pública americana administrariam o crescimento dos Estados Unidos e do mundo. Desta feita, é conveniente olhar a magnitude dos mercados financeiros e sua influência política e social a partir de prismas históricos que trazem ensinamentos sobre os períodos de transição global. Adicionalmente, há que levar em conta o papel do dólar e dos EUA para compreender a crise vigente. O próprio modus operandi do sistema financeiro internacional merece um estudo acurado para um entendimento mais substantivo.

 

Questões cruciais para economia mundial

O trabalho de Giraud (2015) levanta questões cruciais para a economia mundial contemporânea. Por não ser um livro acadêmico, ele traduz conceitos econômicos e financeiros para o público leigo. Traz críticas que merecem elogios acerca da dominância financeira na economia, na política e na sociedade de maneira geral, o que ele chama de “voto implícito dos mercados financeiros”. Embora com tons utopistas, levanta a transição ecológica como possível saída para a crise vigente. Há que reforçar, entretanto, que o livro tem insuficiências, como algumas que foram tratadas acima.

Contudo, a crise que se arrasta desde 2007 pode trazer alterações estruturais para o mundo, tais quais ocorreram na década de 1930 e na década de 1970.  Ao se assumir a visão de Polanyi (2000)  de que o excesso liberal trouxe a sua ruína, estaríamos diante de um novo cataclisma econômico e social, haja vista o crescimento das finanças internacionais em decorrência da liberalização pós-1980. As turbulências sociais e alterações políticas estão em alto relevo na Europa, nos EUA e na América Latina, ao menos. Possibilidades essas que trazem inúmeras reflexões, principalmente quando a crise foi originada no centro econômico mundial.■

 

Referências Bibliográficas

BIBOW, J. The Global Crisis and the Future of the Dollar: Toward Bretton Woods III? Working Paper no. 584. New York: Levy Economics Institute of Bard College, 2010.

BLOCK, F.L. Las Orígenes Del Desorden Económico Internacional. Fondo de Cultura, 1980.

DOOLEY, M. P., FOLKERTS-LANDAU, D., GARBER, P. International Financial Stability, Deutsche Bank, 2005.

GIRAUD, Gäel. Ilusão financeira: dos subprimes à transição ecológica. São Paulo: Edições Loyola, 2015.

KEYNES, J. M.  The General Theory of Employment, Interest and Money. New York: HBS, 1964.

PIKETTY, Thomas. Capital in the twenty-first century. Londres:  The Belknap press of Harvard University press, 2014. 

POLANYI, Karl. A grande Transformação – Origens da nossa época. 5.ed.  Rio de Janeiro: Campus, 2000. 

 

Leia mais...

- O capital no século XXI e sua aplicabilidade à realidade brasileira. Artigo de Róber Iturriet Avila e João Batista Santos Conceição, publicado no Caderno IHU ideias número 234.

 

- Taxação sobre patrimônio e renda. Alternativas ao ajuste fiscal. Entrevista especial com Róber Iturriet Avila, publicada nas Notícias do Dia de 12-06-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- O risco de disrupção na estratégia de aniquilar o PT. Artigo de Róber Iturriet Avila, reproduzido nas Notícias de 12-08-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- Não haverá mea-culpa da velha mídia brasileira frente à crise atual? Artigo de Róber Iturriet Avila, reproduzido nas Notícias de 22-10-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- O Governo que a direita queria? Artigo de Róber Iturriet Avila, reproduzido nas Notícias de 24-07-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- A descabida indexação do valor de aposentadoria ao salário mínimo. Artigo de Róber Iturriet Avila, reproduzido nas Notícias de 04-08-2105, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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