Edição 491 | 22 Agosto 2016

Comunicação cidadã: de fonte a mídia

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João Vitor Santos

Cybeli Moraes entende que é preciso conhecer os veículos de comunicação tradicionais para então subvertê-los à lógica da comunicação cidadã

Por Há quem acredite que o primeiro passo para se resolver um problema, um desafio, é encará-lo de frente. Somente quando se sabe exatamente o tamanho, as artimanhas e as potencialidades da fera é que se é capaz de levá-la à lona. É mais ou menos nessa perspectiva que a doutora em Comunicação Social Cybeli Moraes tece sua reflexão acerca da comunicação para cidadania. Para ela, os veículos tradicionais de comunicação, a dita mídia hegemônica, podem ser postos a serviço do comum, e não apenas servir as lógicas do mercado da informação. “É por meio do profundo conhecimento de como os veículos de comunicação hegemônicos costumam fazer comunicação, que é possível detectar como não queremos nos comunicar”, aponta. “Essa percepção acaba levando a uma atitude concreta: passar para o patamar de fonte a mídia, com a liberdade de construir veículos de comunicação os mais variados e plurais possíveis”, completa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Cybeli ainda reflete sobre o papel da tecnologia nessa inserção social no mundo da comunicação e informação. “A tecnologia, felizmente, está apressando processos de reconhecimento e de força da comunicação na construção de uma cidadania plena”. Ou seja, se antes era preciso muito tempo e conhecimento de processos midiáticos para colocar uma informação em circulação, hoje isso se dá de forma muito mais rápida através do que ela chama de “redes sociais digitais”. “Tendo a crer que certos usos da tecnologia vêm empoderando pessoas e coletivos que antes não se enxergavam e não eram vistos. É o que é próprio da tecnologia atual”, formula.

Cybeli Moraes é jornalista, mestra e doutora em Comunicação Social pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, professora de assessoria de comunicação e de imprensa no curso de Jornalismo da mesma instituição. Ainda ministra atividades de produção de produtos para a comunicação digital. Há 13 anos, atua como assessora de imprensa, com passagem por órgãos da iniciativa pública e privada na área cultural.

Na terça-feira, 30 de agosto, Cybeli ministra a oficina Linguagens de Comunicação para a Cidadania, a partir das 14h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU. Saiba mais.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como pensar a comunicação numa perspectiva para a formação cidadã?

Cybeli Moraes - Mais do que um instrumento que pode ser usado para a formação, a comunicação precisa ser pensada como o próprio espaço, ainda que virtual, onde se dá a cidadania. Sou cidadão quando tenho acesso e também porque posso fazer circular informações que percebo relevantes a uma determinada comunidade. Então, pensar uma comunicação a serviço da cidadania é possibilitar maneiras de apropriação e adaptação de veículos, de formatos, de códigos úteis para que se possa empoderar ideias a fim de realizá-las de alguma maneira.

 

IHU On-Line - Qual o papel de Organizações Não Governamentais – ONGs, associações e grupos de formação na construção de uma ideia de comunicação para cidadania?

Cybeli Moraes - Um destes papéis a ser desempenhados é o de ampliar o espectro comunicativo que possuímos hoje, das ONGs, associações e grupos se colocarem como fontes relevantes e primárias, capazes de traduzir e mediar com competência sobre temas que ela conhece com propriedade e entende serem relevantes socialmente. Mais do que saber se comunicar para ocupar um lugar de fonte oficial, o desafio está em ser a fonte emissora de informações que qualquer cidadão pode e vai buscar quando quer compreender determinados assuntos. 

 

IHU On-Line - Como, ao trabalhador com grupos, associações e ONGs, incentivar iniciativas que de fato articulem a comunicação como instância de formação, não apenas repetindo modelos e padrões estabelecidos por veículos de comunicação hegemônicos?

Cybeli Moraes - Os veículos ditos hegemônicos têm um papel crucial em nossa sociedade: mais do que nos informar sobre aquilo que consideram relevante, nos ensinam a determinar o próprio senso de relevância, muitas vezes pelo tratamento dado a certa notícia — o espaço que ela ocupa, o formato, as vozes aptas a falar, os elementos ilustrativos utilizados... Todos estes detalhes nos dizem e nos ensinam, de certa forma, o que é ou não é importante, e como deve ser tratado um tema menos ou mais relevante. Se as organizações — as fontes — perceberem este modus operandi e se comprometerem em criar estratégias para alterá-lo, ainda que em pequenas doses, no sentido de gerar tensões e estranhamentos entre tradicionais e novos padrões, acredito que esta é uma forma de mudar o que não nos serve mais.

Ou seja, é por meio do profundo conhecimento de como os veículos de comunicação hegemônicos costumam fazer comunicação, que é possível detectar como não queremos nos comunicar. Essa percepção acaba levando a uma atitude concreta: passar para o patamar de fonte a mídia, com a liberdade de construir veículos de comunicação os mais variados e plurais possíveis, com o auxílio de toda a tecnologia que está aí hoje.

 

IHU On-Line - Qual é o papel da comunicação na intermediação da relação entre o poder público estatal e a população? Como fazer a informação circular dos gabinetes para as ruas e das ruas para os gabinetes?

Cybeli Moraes - Uma conhecida pesquisa citada nas obras do professor Jorge Duarte  revela que as pessoas não acessam políticas públicas pelo simples fato de não saberem que elas existem. Essa falta de conhecimento tem sim um componente de desinteresse e descrédito da população por todo nosso sistema político atual. No entanto, ocorre principalmente pela falta de desejo e reconhecimento da força da comunicação como vetor de mudanças.

Há uma série de ferramentas que podem ser utilizadas, desde publicações customizadas até agentes multiplicadores, passando pelas redes sociais digitais — instrumentos não faltam para fazer circular a informação. O que falta é usá-los a partir de uma estratégia delimitada, que precisa ser revista periodicamente. Por exemplo, uma ouvidoria: ela surge para ser um canal de melhoramento, por onde se dão processos de inovação, mas os públicos internos e externos a entendem, muitas vezes, como um balcão de reclamações. No começo é natural que ocorra essa confusão, mas é necessário paciência e tutoramento para fazer o processo funcionar da maneira que foi desenhado — e esse desenho também precisa ser calibrado de tempos em tempos.

 

IHU On-Line - Como traduzir os resultados de pesquisas sobre determinados públicos para os próprios públicos?

Cybeli Moraes - Compreendendo o repertório, os interesses, os códigos e os sentimentos do público para o qual se quer falar. É o que faz, por exemplo, ser mais eficaz transformar resultados de pesquisas em um post do BuzzFedd , ou em um jogo de palavras cruzadas, do que propriamente conquistar duas páginas inteiras de matéria em um jornal de grande circulação. É preciso deixar para trás certos preconceitos em relação às traduções: ao traduzir, sempre se perde algo, mas o objetivo é nobríssimo — fazer chegar o que realmente interessa, atualizar mensagens perenes para diferentes públicos.

 

IHU On-Line - Como compreende o papel da tecnologia dentro dessa perspectiva de comunicação para a cidadania?

Cybeli Moraes – A tecnologia, felizmente, está apressando processos de reconhecimento e de força da comunicação na construção de uma cidadania plena. As redes sociais digitais são barulhentas, aparentemente desconexas, os aplicativos são muito úteis, mas ainda são realidades distantes de muitas populações. O entendimento de uma economia da colaboração é crescente, embora ainda visto com certo ceticismo por setores mais conservadores. Mas, tendo a crer que certos usos da tecnologia vêm empoderando pessoas e coletivos que antes não se enxergavam e não eram vistos. E o que é próprio da tecnologia atual: este processo é muito mais veloz hoje. O reconhecimento da diferença, com todo o ruído que tal processo acarreta, já me parece um ganho social inestimável que precisa ser potencializado por cada cidadão.


IHU On-Line - Em que medida as redes sociais podem ser um dos caminhos para estreitar os laços entre os aparelhos estatais e a população? Como elas se constituem enquanto caminho de mão dupla?

Cybeli Moraes – As redes sociais digitais encurtaram, de certa forma, o processo de circulação de uma mensagem e ampliaram a lupa que é colocada sobre uma informação. Se antes um cidadão tinha que ter acesso a um programa de rádio muito ouvido para denunciar algo que daí chegaria ao governo, passando pelas traduções do jornalista, do veículo, e das assessorias de imprensa, agora ele publica uma foto e um depoimento e, dependendo de sua rede e do termômetro social do dia, o assunto pode ser compartilhado de forma local e global. Mas é preciso salientar: tal processo não garante, por si só, uma real mão dupla. Volta-se ao exemplo da ouvidoria: se não existir o entendimento de que as pessoas precisam ser ouvidas e de que suas considerações interessam para alterar processos, não estamos usando estas ferramentas para o fim criado.■

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