Milho Crioulo, o estandarte contra o avanço dos transgênicos no Equador

A pesquisadora e ativista Elizabeth Bravo relata a experiência e o desafio equatoriano de manter o país livre de milho transgênico

Por: Andriolli Costa/Tradução: André Langer

No início de 2013, um relatório divulgado durante o Dia Mundial da Terra declarava o Equador como uma área livre de milho transgênico. O estudo, realizado em 15 províncias do país com mais de 400 variedades de milho crioulo, híbrido e industrial durante os últimos dois anos, foi produzido por uma ação conjunta das ONGS Acción Ecológica, Rede por uma América Livre de Transgênicos - RALLT e Coordenadoria de Defesa dos Manguezais – C-CONDEM. Escolhido por ser a cultura mais importante do país, além de ser o segundo maior cultivo transgênico em nível mundial, o fato foi uma resposta às pressões mundiais para a produção com sementes transgênicas.

De acordo com a pesquisadora e ativista equatoriana Elizabeth Bravo, este resultado é fruto de uma forte presença do governo do país para coibir a presença de organismos transgênicos desde 2008, quando uma emenda constitucional foi instaurada no país dando a palavra final sobre o assunto. “A incorporação desse texto foi o resultado de quase duas décadas de resistência à entrada de transgênicos no país, por parte de organizações camponesas e de ecologistas”, relembra ela. “Foi uma iniciativa que nasceu totalmente na sociedade civil.”

A luta contra o avanço da transgenia, no entanto, não é uma batalha fácil de ser vencida. A soja, por exemplo, é o cultivo com maior utilização da tecnologia em nível mundial. Para Bravo, o posicionamento da soja neste patamar vem de um longo processo de décadas que mudou o padrão alimentar em todo o planeta. “Promoveu-se a carne branca (de frango alimentado com soja) como um alimento saudável, a margarina (feita com óleo de soja) como uma alternativa à manteiga, a carne vegetal (de soja) para os vegetarianos”, afirma ela, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Estimativas apontam que, apenas nos Estados Unidos, cerca de 92% do grão possui alterações genéticas e ir contra esta tradição de produtividade é um desafio considerável.

Elizabeth Bravo possui licenciatura em Ciências Biológicas e doutorado em Ecologia de Microrganismos. É professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Ambiente e Sociedade da Universidad Andina Simon Bolivar – UASB. É autora de Agrocombustíveis, cultivos energéticos e soberania alimentar na América Latina (Bela Vista: Expressão Popular, 2007). Atualmente coordena a RALLT e é membro da Acción Ecológica, que atua no Equador defendendo os direitos coletivos e a sustentabilidade em assuntos como o petróleo, a mineração, a privatização da vida, das sementes e da água. Também atua como diretora do Instituto de Estudios Ecologistas del Tercer Mundo.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Como é a sua atividade de coordenação da RAALT e na Acción Ecológica? Como estes grupos trabalham para combater a difusão das sementes transgênicas no Equador? 

Elizabeth Bravo – Na Acción Ecológica seguimos os temas da soberania alimentar. Temos feito algumas pesquisas sobre a contaminação genética no milho equatoriano e não encontramos nenhuma evidência de que nosso milho esteja contaminado com transgênicos. Fazemos lobby em diversas instâncias de poder sobre estas problemáticas e trabalhamos com organizações de camponeses, indígenas e consumidores para alertá-los sobre os impactos potenciais dos cultivos transgênicos. 

Como RALLT, fazemos um boletim semanal com informações e análises das problemáticas dos organismos transgênicos na América Latina e no mundo e dinamizamos processos nos diferentes países, de acordo com seus processos nacionais.

 

IHU On-Line - De acordo com um levantamento divulgado no Dia Mundial da Terra, no início de 2013, o Equador foi considerado área livre de milho transgênico. Por que isso ocorreu? Foi um incentivo aplicado pelo governo? 

Elizabeth Bravo - Em 2008, houve uma mudança na Constituição do Equador. Nela se declarou o que país era “livre de sementes e cultivos transgênicos” (art. 401) e proibiram-se “os organismos geneticamente modificados prejudiciais à saúde humana ou que atentem contra a soberania alimentar ou os ecossistemas” (art. 15). A incorporação desse texto foi o resultado de quase duas décadas de resistência à entrada de transgênicos no país, por parte de organizações camponesas e de ecologistas. Durante os anos 2011-2013, um grupo de organizações realizou um monitoramento participativo para identificar a presença ou não de contaminação genética em nosso país. Esta foi uma iniciativa que nasceu totalmente na sociedade civil.

 

IHU On-Line - Com o milho sendo a cultura mais importante do país, qual o impacto deste acontecimento? É uma demonstração de que é possível resistir à pressão para o uso dos organismos geneticamente modificados para a produtividade?

Elizabeth Bravo – Saber que o milho equatoriano não é transgênico foi muito importante, pelo papel que este cultivo exerce. O milho não é só importante como alimento, mas está presente em várias facetas da vida cotidiana no mundo rural e em seu calendário agrofestivo. Através do milho reforça-se o tecido social das comunidades, pois nas fases de colheita e de semeadura ativam-se várias formas de solidariedade, como o mutirão e outras. Esta relação de proximidade com o milho seria simplesmente impossível se o milho fosse transgênico, pois ao ser manipulado para resistir a um herbicida, a semente alterada impossibilita a coexistência com outros cultivos, como o feijão, a abóbora e as ervas medicinais. E, ao mudar a forma de produção, mudam-se também as relações que se tecem em torno do cultivo.

 

IHU On-Line - Quais os riscos para a saúde coletiva e do próprio meio ambiente que estão implicados no uso de transgênicos?

Elizabeth Bravo – Cada dia há maiores evidências sobre os impactos dos cultivos transgênicos na saúde e no ambiente. Mensalmente, saem novos artigos científicos que relatam estes impactos. Na região latino-americana os impactos mais imediatos estão associados ao pacote tecnológico, ou seja, ao aumento do uso de herbicidas que afetaram uma população de mais de 10 milhões de pessoas assentadas nas zonas de influência das plantações de soja transgênica.

 

IHU On-Line - É possível pensar nos transgênicos como a grande resposta para a fome no mundo ou este é apenas o modo como o discurso vem sendo divulgado? 

Elizabeth Bravo – Não. Os transgênicos são controlados por um reduzidíssimo grupo de empresas que têm como objetivo fundamental o lucro, e não resolver a fome no mundo. Na verdade, são empresas que lucram com a fome no mundo. Senão, vejamos o que estão fazendo estas empresas na África: com o pretexto de ajudar a resolver os problemas de nutrição no continente, estão introduzindo sementes transgênicas acompanhadas de um pacote tecnológico que os fará dependentes, que poderá acabar com a produção independente de alimentos.

 

IHU On-Line - A soja transgênica é o cultivo com maior uso de biotecnologia em todo o mundo. Por que isso acontece?

Elizabeth Bravo – Houve um longo processo para posicionar a soja como um dos cultivos mais importantes em nível mundial, que foi impulsionado pela Associação de Produtores de Soja dos Estados Unidos e apoiado por diferentes governos de turno. Juntos, conseguiram que, em poucas décadas, se mudasse o padrão alimentar em todo o mundo. Promoveu-se a carne branca (de frango alimentado com soja) como um alimento saudável, a margarina (feita com óleo de soja) como uma alternativa à manteiga, a carne vegetal (de soja) para os vegetarianos. A soja estava presente nos programas de ajuda alimentar estadunidense para que a população se acostumasse com este produto; e agora o biodiesel de soja é apresentado como uma solução para a mudança climática. A soja é um cultivo muito versátil; pode ser usada em uma grande quantidade de processos agroindustriais, mas principalmente na alimentação de aves e suínos de maneira industrial.

 

IHU On-Line - Em 2008 a Constituição do Equador era bastante fechada ao uso de organismos transgênicos. Esta decisão, mais tarde, veio sendo constantemente questionada. Como está a situação no país atualmente?

Elizabeth Bravo – No momento estamos em uma espera para ver que mudanças vão ocorrer a este respeito. Nestes dias apareceu nas rádios do Equador uma inserção publicitária promovendo o milho e o feijão transgênicos da Embrapa. Creio que estão preparando o caminho para que as pessoas vejam os transgênicos com mais simpatia.

 

IHU On-Line – O Congresso Equatoriano, no ano de 2009, aprovou a entrada de sementes terminator no país. Como você enxerga esta medida? E como percebe a contradição entre esta decisão e a defesa de uma cultura de milho livre de transgenia?

Elizabeth Bravo – Foram aprovados os insumos transgênicos, cuja capacidade de reprodução está desativada, ou seja, alimentos terminator. Mas ainda não há produção de cultivos terminator no mundo, embora vejamos com preocupação o debate que se está travando no Brasil a este respeito. Sobre a contradição, sim, claro que há uma contradição que reflete como o partido no governo é constituído por vertentes ideológicas muito dessemelhantes.

 

IHU On-Line - Qual é a visão dos grandes e pequenos produtores rurais equatorianos ante a questão dos transgênicos? Eles estão bem informados sobre os riscos e benefícios que tais produtos implicam?

Elizabeth Bravo – Embora não seja percebida dessa maneira, há uma consciência entre os agricultores de que não lhes convêm cultivar transgênicos, mesmo quando não sabem com todo o rigor científico quais poderiam ser suas consequências.

 

IHU On-Line - Em 2013 faz dez anos da entrada dos produtos transgênicos no Brasil. Como você vê o papel de nosso país na questão dos organismos geneticamente modificados diante do Mercosul? 

Elizabeth Bravo – O Brasil é um promotor dos cultivos transgênicos na região. No caso do Paraguai, é dramático, pois a produção de soja transgênica é feita exclusivamente com tecnologia e capital brasileiros. Há uma grande quantidade de brasileiros que vão ao Paraguai para comprar terras para produzir soja. Por outro lado, muito da soja que se produz no Mercosul sai através de portos brasileiros.

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