Aumento da produtividade e a manutenção de postos de trabalho

“Para uma sociedade que busca um desenvolvimento na evolução, a redução da jornada é uma forma de distribuir os ganhos econômicos para que as pessoas tenham maior disponibilidade de tempo para outras atividades e outras responsabilidades”, defende Clemente Ganz Lucio

Por: Graziela Wolfart

Otimista diante da significativa redução do desemprego no Brasil, o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lucio, traz dados animadores da realidade dos últimos anos: “saímos de uma média da ordem de 22% de desemprego e estamos com uma taxa inferior a 10%. Portanto, é uma redução muito significativa do desemprego em geral, incluindo postos de trabalho formais e informais. O que tem de importante também nesse processo é que predomina a oferta de postos de trabalho assalariados, com carteira de trabalho assinada. Hoje, dependendo da região, de cada 10 postos de trabalho gerados, de 7 a 9 são formais, com carteira assinada e com sistema de proteção social vinculado”. No entanto, reitera, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, a evidência de que, na estrutura do mercado de trabalho brasileiro, os salários estão baixos, há precarização dos postos de trabalho, e muitas vezes as condições de saúde não são adequadas. “Mas uma coisa é o trabalhador estar empregado, lutando para melhorar as condições de trabalho. Outra coisa é estar desempregado, sem salário, sem renda, o que é um problema muito mais grave”.

Clemente Ganz Lucio é diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos – Dieese desde 2004. É também professor na PUC-SP e diretor do instituto Observatório Social, com sede em São Paulo. Na Universidade Federal do Paraná, graduou-se em Ciências Sociais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os desafios que se apresentam ao mundo do trabalho hoje, considerando principalmente a questão da terceirização e da precarização?

Clemente Ganz Lucio – Temos hoje no Brasil uma perspectiva que vem se consolidando há alguns anos de incremento dos postos de trabalho, o que é uma boa notícia. Ao mesmo tempo, precisamos observar a qualidade desses postos de trabalho, em especial no que se refere às condições de remuneração e às condições de trabalho em geral, ou seja, às condições de saúde, de segurança e todos esses elementos que caracterizam um posto de trabalho. Há ainda um volume muito grande de postos de trabalho com péssimas condições. Além disso, temos um processo de incremento desses postos de trabalho associado ao uso de tecnologia, o que aumenta, em grande medida, a intensidade e o ritmo do trabalho. Isso, muitas vezes, só vem a agravar os problemas de saúde que já existem em função da precarização. No aspecto específico da relação entre empresas, um fenômeno que ganhou muita participação no mercado de trabalho brasileiro são os postos terceirizados. Há um volume bastante grande de trabalhadores que são contratados por empresas terceiras, muitas vezes com o objetivo primeiro de redução de custos, o que rebate sobre os salários e condições de trabalho nas empresas que prestam serviços para outras.

IHU On-Line – Qual sua visão sobre a redução da jornada de trabalho como alternativa para a questão do desemprego?

Clemente Ganz Lucio – Hoje o problema do desemprego não é considerado o principal em nossa sociedade, como era há cerca de 10 anos. O que temos são situações em que faltam trabalhadores para desenvolver atividades em alguns setores. Por exemplo, em muitas regiões falta mão de obra no setor da construção civil. Mas tudo isso não significa que, nesse momento, não deveríamos reduzir a jornada de trabalho, justamente pensando no longo prazo e no incremento da produtividade numa situação futura de crise, para que o desemprego não volte a ser um problema. A redução da jornada de trabalho também visa ampliar a possibilidade de postos de trabalho. No curto prazo, pensando na situação brasileira, a redução da jornada visaria fundamentalmente a disponibilização de mais tempo para o trabalhador investir em outras atividades (culturais, de cuidado com a família ou investimento em formação profissional e educação em geral), no sentido da sua qualificação ou da sua qualidade de vida. Outra dimensão associada à redução da jornada de trabalho é o aumento do tempo de deslocamento médio que o trabalhador precisa para chegar ao local de trabalho, por conta do crescimento das cidades. Portanto, a redução compensaria uma parte desse tempo que, no geral, não é contado como jornada de trabalho. Em terceiro lugar, a redução da jornada sem redução de salário significa, de alguma maneira, ganho de produtividade. Se as empresas estão tendo ganho de produtividade, uma forma de repartirem esse ganho com os trabalhadores é reduzindo a jornada, porque, uma vez a produtividade aumentando, o trabalhar pode trabalhar menos e produzir comparativamente até mais. E a redução da jornada de trabalho também significa uma oportunidade para gerar mais postos de trabalho, na medida em que o volume de trabalho se mantém ou aumenta e, se a jornada é menor, são necessários mais trabalhadores para cumprir a tarefa. Para uma sociedade que busca um desenvolvimento na evolução, a redução da jornada é uma forma de distribuir os ganhos econômicos para que as pessoas tenham maior disponibilidade de tempo para outras atividades e outras responsabilidades.

IHU On-Line – Que mudanças estruturais envolvendo o trabalho e o emprego estão em curso no Brasil hoje?

Clemente Ganz Lucio – Primeiro, há uma mudança estrutural associada a uma estratégia de desenvolvimento, caso o Brasil sustente por mais dez, vinte anos, a experiência de termos um mercado de trabalho que vive uma situação de baixo desemprego ou, muitas vezes, de pleno emprego. Permanecendo uma situação dessas, o que é ótimo do ponto de vista da atividade econômica, nosso país poderá ter uma experiência renovada de imigração de trabalhadores vindos da América Latina e do norte da Europa, procurando o Brasil como um país que recebe trabalhadores imigrantes para atuar de forma regular. Outra mudança importante nessa situação que chamamos de “pleno emprego” é que há um revigoramento da ação sindical que pode buscar partilhar os ganhos econômicos do ponto de vista do salário e das condições de trabalho. Mais uma mudança importante que poderá ser aprofundada é que o incremento econômico deverá suscitar, junto às empresas, investimentos em ganho de produtividade. Se se materializarem hoje os recursos da comunicação, da informática, da eletrônica e da mecânica, poderão trazer, por um lado, intensificação no ritmo de trabalho, aumento de produtividade, e, por outro lado, provavelmente, no médio prazo, poderá suscitar a discussão de perda ou redução de postos de trabalho em alguns setores pela introdução da tecnologia. Poderemos, em médio prazo, voltar a ter problemas de desemprego não mais associado necessariamente à ausência de crescimento econômico, que foi o que vivemos nos últimos anos, mas um desemprego setorial associado a uma nova tecnologia, o que exigirá a requalificação de muitos trabalhadores e poderá deixar alguns desempregados. É uma luta permanente em buscar o equilíbrio entre o aumento da produtividade e a manutenção de postos de trabalho, com todas as pessoas ocupadas.

IHU On-Line – Que interpretação pode ser feita da queda do desemprego no Brasil? Esse dado é realmente animador?

Clemente Ganz Lucio – O resultado geral é de uma redução muito significativa do desemprego. Pelas taxas que o Dieese calcula de desemprego metropolitano nos últimos anos, nós saímos de uma média da ordem de 22% de desemprego e estamos com uma taxa inferior a 10%. Portanto, é uma redução muito significativa do desemprego em geral, incluindo postos de trabalho formais e informais. O que tem de importante também nesse processo é que predomina a oferta de postos de trabalho assalariados, com carteira de trabalho assinada. Hoje, dependendo da região, de cada 10 postos de trabalho gerados, de 7 a 9 são formais, com carteira assinada e com sistema de proteção social vinculado. É evidente que, na estrutura do mercado de trabalho brasileiro, os salários estão baixos, há precarização dos postos de trabalho, e se é uma empresa que presta serviços terceirizados muitas vezes o posto de trabalho é formal, mas é precário, com condições de saúde não adequadas. Mas uma coisa é o trabalhador estar empregado, lutando para melhorar as condições de trabalho. Outra coisa é estar desempregado, sem salário, sem renda, o que é um problema muito mais grave. O contexto atual é diferente dos anos 1990, quando tínhamos baixíssimas ofertas de postos de postos de trabalho e nela predominavam postos informais. De cada 10, seis eram informais e quatro eram formais. Há uma mudança de qualidade em relação à carteira de trabalho e à proteção social. No entanto, carteira de trabalho não resolve outras dimensões que precisam ser transformadas ao longo das lutas que o movimento sindical tem que fazer por melhores condições de salário, de trabalho, pela regulamentação da terceirização no sentido de evitar a precarização. Há uma luta enorme para que a qualidade dos postos de trabalho seja aquela que nós esperamos.

IHU On-Line – Quais os caminhos para reduzir a informalidade do trabalho no país?

Clemente Ganz Lucio – O fato de uma pessoa optar por não ter um vínculo assalariado não é necessariamente ruim. Quando um pedreiro, um eletricista, um carpinteiro, um jardineiro, um atendente que cuida de famílias, ou um enfermeiro que faz um atendimento resolve fazer do seu trabalho uma prestação de serviços, muitas vezes ele tem uma renda e uma condição de trabalho muito melhores do que as de um assalariado. Se perguntarmos para um pedreiro que faz reformas em residências, ele dirá que não quer ser um assalariado. Ele quer continuar a fazer aquele trabalho, pois ganha muito mais, com melhores condições de trabalho. Além disso, é feliz fazendo o que faz e tem boas condições de vida. A questão para esse trabalhador é como ele, fazendo essa atividade autônoma, pode ter um sistema de proteção social associado. Ele pode ser um trabalhador autônomo, na chamada economia informal, mas não precisa ser informal no sentido de estar fora da lei. Ele pode ser um trabalhador por conta própria e estar plenamente legalizado, contribuindo para a Previdência e sendo beneficiário dela, aposentando-se na velhice da mesma forma que um trabalhador assalariado. Na agricultura familiar vemos muito isso. O agricultor familiar não é um assalariado e também não é um grande empresário. Ele tem uma produção e não precisa estar na ilegalidade. Então, hoje temos uma oferta de postos de trabalho bastante interessante. Assim mesmo, há um conjunto de trabalhadores que quer continuar fazendo sua atividade autônoma ou por conta própria. E isso não é ruim para a economia.

IHU On-Line – Em que medida os trabalhadores brasileiros (formais e informais) possuem acesso ao crédito e à tecnologia?

Clemente Ganz Lucio – O acesso ao crédito vem crescendo para todos os trabalhadores. A agricultura familiar, por exemplo, tem acesso a um crédito dez vezes maior ao que tinha na década de 1990. O trabalhador assalariado hoje tem acesso ao crédito consignado com taxas de juros extremamente interessantes comparadas aos anos 1990. Hoje o crédito para o consumo está dado de forma bastante ampliada. O acesso ao crédito para investimento na micro e pequena empresa também existe de forma facilitada. O crédito passou a ser um instrumento bem difundido na sociedade brasileira, o que não era nos anos 1980 e 1990. Então, essa é uma mudança importante, pois ele ajuda a alavancar o crescimento econômico. Já a tecnologia apresenta uma dificuldade maior no caso dos pequenos empreendimentos. No caso dos trabalhadores em geral, a tecnologia vai chegando na vida, no dia a dia, com o celular, o microcomputador, o cartão eletrônico para receber o salário, a aposentadoria, o Bolsa Família e para movimentar a conta bancária. A tecnologia está entrando para facilitar a vida dos trabalhadores do ponto de vista do serviço. O problema é que, quando a tecnologia entra na dimensão do trabalho, ela acaba intensificando o ritmo e pode causar doenças, estresse. Então, ela tem vantagens e desvantagens. Pode melhorar a vida das pessoas, que usam a tecnologia para facilitar o cotidiano e, ao mesmo tempo, intensifica o trabalho.

 

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“O momento é de repartir os ganhos que as empresas vêm obtendo” – Entrevista publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 12-09-2008, disponível em http://bit.ly/IDym2A

Por um pacto mundial do emprego – Entrevista publicada na revista IHU On-Line número 291, de 04-05-2009, disponível em http://bit.ly/JyKcxL

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