Edição 390 | 30 Abril 2012

Trabalho coletivo e opção de futuro. O depoimento de um catador

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

José Alencar Ponciano Pereira, mais conhecido como Dico, é presidente da Associação de Trabalhadores Urbanos de Resíduos Orgânicos e Inorgânicos – Aturoi, de São Leopoldo. Ele conversou com a redação da IHU On-Line na última semana sobre sua experiência e como ele se sente inserido no mercado de trabalho brasileiro.

Prova viva de que há alternativas ao trabalho assalariado na busca de ocupação e renda, Dico declara que, depois de dez anos de trabalho informal, conseguiu se organizar com seu grupo de amigos catadores para buscar uma renda mensal através da reciclagem de lixo por meio do cooperativismo e do associativismo. Também militante do Movimento dos Trabalhadores Desempregados – MTD, Dico fazia trabalhos sociais e se reuniu com alguns amigos que também estavam desempregados para fazer coleta de resíduos buscando a reciclagem. “No início, era um refúgio. A gente fazia esse trabalho porque era complicado trabalhar de carteira assinada. Então, nos primeiros momentos aquilo era um escape para nós. Hoje, vemos a reciclagem de outra forma. Quem está dentro não quer mais sair. Paramos de entregar currículos por aí, porque as pessoas foram vendo que tem possibilidade de trabalhar e garantir nosso sustento com isso”, relata. 

Dico percebe que pessoas de pouca escolaridade e com mais de 30 anos não conseguem emprego facilmente. “É preciso um bom currículo e uma boa carteira, caso contrário não consegue mais espaço nas empresas”. Então, continua ele, “as pessoas se refugiam em uma opção alternativa de trabalho para sustentar suas famílias. E a opção de trabalho com a reciclagem é uma escolha de futuro. É o que eu sempre digo: hoje plantamos para colher amanhã”.

A Associação de Trabalhadores Urbanos de Resíduos Orgânicos e Inorgânicos – Aturoi conta com 16 associados. Cada um ganha de 500 a 600 reais por mês. O grupo foi prejudicado por um incêndio ocorrido em fevereiro de 2011, que gerou um prejuízo de aproximadamente 150 mil reais. “Perdemos um trabalho de nove anos”, lamenta o catador.

Dico conta que são poucos os associados da Aturoi que contribuem para o INSS. “De 2007 a 2011, antes do incêndio, todos pagavam. Na época eram 20 associados, mas depois dessa tragédia ficamos três meses desempregados e as dificuldades financeiras abalaram a todos. Foi difícil conseguir manter o grupo organizado. Mas eu sempre digo que o trabalho social e coletivo é muito sério e se as pessoas não tivessem consciência disso, o grupo tinha se dissociado com esse incêndio. Mesmo com todas as dificuldades conseguimos nos manter”.

Segundo Dico, o lucro da associação é dividido em partes iguais entre todos os associados, sem prioridade nenhuma para a diretoria. “Muitos me questionam por trabalhar dessa forma e como eu já precisei muito, não acho justo, não vejo porque um ser beneficiado mais do que o outro”, explica.

O catador está animado, pois agora a Aturoi vai passar para a modalidade de cooperativa, em função de um convênio estabelecido com a Prefeitura de São Leopoldo, pelo qual a Associação recebe 4,5 mil reais trimensais do poder público municipal.

“O que nós queremos é tirar os catadores autônomos das ruas. Sei que a vantagem é não precisar cumprir horário, sem responsabilidade maior comigo e com as pessoas em volta. E também tem a questão financeira. Converso com alguns catadores que dizem que conseguem tirar de 800 a mil reais por mês. Então eles me perguntam ‘qual é a vantagem de entrar no empreendimento?’”. Mas Dico insiste e replica que a coleta seletiva alcança apenas 50% da cidade, ou seja, ela ainda vai crescer. E ele apela à comunidade de São Leopoldo para que lute pela ampliação deste importante serviço. “Para tirar os catadores da rua, queremos que eles ganhem o mesmo que ganham hoje, só que organizados com nós. Pense bem, não precisar mais sair na rua com sua carreta, como eu vejo mães com filhos, crianças pequenas. Queremos evitar esses riscos. Além disso, nós, no coletivo, temos outros benefícios que estamos buscando por meio de um projeto com a prefeitura, de auxilio à renda, um tipo de “bolsa ajuda”, que completa com dinheiro e com apoio na formação dos associados”. A preocupação com a formação vem, conforme os relatos de Dico, do fato de haver muitos jovens catando material nas ruas. “Isso não é o futuro para eles. Queremos pensar em outro futuro. E quanto mais pessoas organizarmos, mais força teremos para buscar sucesso nos nossos projetos”.

Saiba mais sobre a trajetória de Dico em http://bit.ly/IISfDF 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição