Edição 352 | 29 Novembro 2010

A memória, uma categoria central do cristianismo

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges | Tradução Ana Casarotti

Problema do cristianismo não são as crenças, mas os sujeitos, afirma José Antonio Zamora, com base no pensamento de Johann Baptist Metz. A memória é fundamental para entendermos o que moveu as injustiças em outros tempos

“Metz sempre tem dito que o problema do cristianismo não tem sido de crenças, senão de sujeitos, e neste sentido há uma proximidade entre a Teologia da Libertação e a Teologia Política, na medida em que os processos práticos de constituição dos sujeitos são processos históricos, sociais, processos de luta por chegar a ser sujeitos, por chegar a constituir-se como sujeitos em condições sociais e históricas dadas”. A análise é do filósofo José Antonio Zamora na entrevista que concedeu, pessoalmente, à IHU On-Line. Em seu ponto de vista, “há uma relação muito estreita e de muito diálogo entre a Teologia da Libertação e a Teologia Política”. Orientando do renomado teólogo Johann Baptist Metz, Zamora considera o pensamento de seu mestre como importante no panorama europeu. Metz mobiliza a memória, categórica fundamental da cultura judaico-cristã, como “categoria crítica da cultura moderna, dos processos de constituição da subjetividade dos sujeitos e da liberdade moderna”. Ainda sobre a memória, Zamora pontua que não é possível se falar em justiça para o presente “se não somos capazes de descobrir os mecanismos que têm produzido vítimas no passado, porque, senão, nosso combate pela justiça atual está condenando a reproduzir a injustiça passada. E então temos algo que aprender da memória do sofrimento passado para o presente. Nesse sentido, a solidariedade atual carrega uma herança - a herança das esperanças e a herança dos fracassos, das mutilações, das destruições que têm sofrido os sujeitos no passado”.

Zamora foi conferencista do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana, em 14-09-2010, com o tema Temporalidade capitalista, exploração da vida humana e tempo messiânico. Docente no Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC da Espanha, é autor de, entre outros, Th. W. Adorno: pensar contra la barbarie (Madrid: Trotta, 2004) e Ciudadania, multiculturalidad e inmigración (Navarra: Verbo Divino, 2003). Estudou Filosofia, Psicologia e Teologia na Universidade Pontifícia de Comillas, em Madri. Doutorou-se na Universidade de Münster, na Alemanha, com uma tese sobre Theodor Adorno, orientada por Johann Baptitst Metz.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Poderia traçar um panorama intelectual da Espanha hoje?

José Antonio Zamora -
Não é fácil traçar um panorama intelectual de um país que é composto por uma realidade tão complexa, ampla e diversa. Na realidade, assim como acontece nos países desenvolvidos, os intelectuais espanhóis têm formado parte daquilo que se poderia descrever como indústria da cultura. Somos um elemento a mais dessa indústria. Aqueles intelectuais que produzem saberes que são diretamente utilizáveis nos processos produtivos, ou nas organizações, na administração, na urbanização social, têm uma função de produzir saber numa sociedade que se chama de “sociedade do conhecimento”. Talvez o mais difícil é a posição dos intelectuais críticos e a relativa autonomia que a sociedade e a cultura burguesa concedeu a eles, pois é algo que vai se perdendo. Ao intelectual resta integrar-se à cultura de massas, como o fazem diversos intelectuais na Espanha, que participam da cultura mediática (filósofos, literatos, autores reconhecidos com grandes vendas ao público). Eles são, evidentemente, intelectuais que têm uma postura crítica, mas têm que produzir um tipo de discurso que é assumível pelo mercado. Dizer que existe algo como um pensamento espanhol é uma afirmação difícil, sobretudo em função dos efeitos da guerra civil e o exílio subsequente. O panorama intelectual espanhol tem vivido muito da importação, de correntes europeias, francesas, italianas, e é difícil afirmar que exista um pensamento filosófico e de outro tipo que possa distinguir-se.


IHU On-Line - O senhor foi orientando do renomado teólogo Johann Baptist Metz . Qual é a importância da obra deste teólogo para a Teologia da Libertação?

José Antonio Zamora -
Eu acredito que a Teologia da Libertação e a Teologia Política, a nova Teologia Política de Metz, são duas teologias irmãs, que poderíamos chamar de teologias pós-idealistas, que colocam no centro da teologia a práxis e a constituição dos sujeitos crentes. Metz sempre tem dito que o problema do cristianismo não tem sido de crenças, senão de sujeitos, e neste sentido há uma proximidade entre a Teologia da Libertação e a Teologia Política, na medida em que os processos práticos de constituição dos sujeitos são processos históricos, sociais, processos de luta por chegar a ser sujeitos, por chegar a constituir-se como sujeitos em condições sociais e históricas dadas. Esse é um elemento constitutivo do discurso teológico. A diferença que podemos traçar ente a Teologia da Libertação e a Teologia Política é algo geral. Contudo, a diferença entre essas teologias e a doutrina social da Igreja é que, em grande medida, esta parte da existência de um corpus dogmático e se pergunta sobre sua realização na história por meio da dimensão política e ética. O que vem a dizer a Teologia da Libertação e a Teologia Política é que o político é constitutivo do próprio discurso dogmático e do próprio discurso teológico. Assim, o teológico é político.
A Teologia Política se entende mais como uma teologia corretiva, como uma teologia de crítica da religião burguesa, que é a religião da maioria na Europa. Estabelecida, a Teologia Política é uma teologia bastante sozinha, e evidentemente que é reclamada por sujeitos eclesiais ou sujeitos crentes, que leem o mundo da fé a partir dessa teologia. Há uma relação muito estreita e de muito diálogo entre a Teologia da Libertação e a Teologia Política.


IHU On-Line - Como Metz influencia a Igreja de nossos dias? E que contribuições traz para uma ligação mais estreita entre a Teologia, a memória e a solidariedade?

José Antonio Zamora –
Poderíamos dizer que a teologia de Metz tem sido muito importante. Ela tem tido certo peso no panorama teológico europeu, mas eu não supervalorizaria sua influência eclesial. Há uma diferença com respeito à Teologia da Libertação, então digamos que essa influência, talvez em torno ao Concílio Vaticano II, se dá na medida em que teve um renascer da Igreja e uma valorização de certas posições teológicas. Pensemos em tantos teólogos que nesse momento têm tido relevância, como Hans Küng  ou o próprio Metz, a revista Concilium, e evidentemente a contribuição que teve Metz para a renovação do panorama teológico. Dessa maneira, também a renovação da Igreja tem sido muito importante. Mas se podemos dizer que movimentos eclesiais reclamam para si mesmos a Teologia Política, pois isso é mais difícil de nomear naturalmente, tem havido os movimentos especializados da ação católica, que em grande medida na Europa têm importado a Teologia da Libertação de maneira errônea, como se fosse uma espécie de transfusão de sangue jovem. Entretanto, os grupos e as comunidades cristãs de base e os grupos especializados da ação católica têm olhado para a própria América Latina e nesse sentido são muito poucos os que têm sabido ver o que aportava a Teologia Política não no panorama teológico, mas na realidade eclesial. Eu digo que tem havido muito aporte da teologia de Metz na Europa e em muitos outros cantos.



Teoria Crítica e Teologia Política

Por outro lado, sobre o vínculo entre teologia, memória e solidariedade, digamos que a Teologia Política é uma teologia que coloca a lembrança e a memória como uma categoria central do cristianismo. Essa categoria recebe sua importância naturalmente tomando em consideração a perspectiva que o cristianismo é uma comunidade que se manteve no tempo e que vive dessa referência rememorativa. O que Metz faz é mobilizar essa categoria tão importante da cultura judaico-cristã como uma categoria crítica da cultura moderna, dos processos de constituição da subjetividade dos sujeitos e da liberdade moderna. Seu ponto de encontro é com pensadores como Theodoro Adorno , Walter Benjamin  e Max Horkheimer . Como a Teoria Crítica , que tem revelado que o projeto de emancipação moderno é um projeto que não se tem ilustrado sobre si mesmo e no qual o sujeito não é consciente de suas próprias contradições na afirmação da sua liberdade, de sua autonomia, digamos que a racionalidade moderna, na medida em que tem destruído sua capacidade de memória, tem fechado os olhos frente a seus próprios déficits. É necessário recompor a relação com o passado e, sobretudo, com o passado das vítimas, dos sujeitos que têm sido aniquilados, destruídos. É preciso reconstruir a relação com o passado das injustiças que têm sofrido nossos antecessores, reconhecer a dívida que o presente tem sobre o passado e tem aniquilado para se redimir da cegueira à própria pretensão de autonomia absoluta e liberdade do sujeito moderno.


Discurso da Teologia Política

Tudo isso é muito típico da Teologia Política, e não sei se a teologia pública se entende assim. A Teologia Política nunca fala só para os sujeitos crentes. O discurso da Teologia Política acredita que o discurso sobre Deus é um discurso relevante para o mundo, então seu interlocutor não são só os sujeitos eclesiais, senão nos sujeitos em geral, é o mundo. Então, quando se pensa em determinadas categorias como solidariedade e memória, o discurso da Teologia Política é destinado a ter uma incidência crítica no meio da sociedade, no meio da história, no meio do mundo, como comumente fala Metz. Quando Metz fala com pessoas fora da igreja, do mundo, fala de Deus de um modo que questione suas categorias seculares. Quando fala para pessoas da igreja, o faz com uma linguagem secular para questionar-lhes um discurso autossuficiente, teológico.
Evidentemente, nós não podemos reclamar uma justiça para o presente se não somos capazes de descobrir os mecanismos que têm produzido vítimas no passado, porque, caso contrário, nosso combate pela justiça atual estará condenando a reproduzir a injustiça passada. E então temos algo que aprender da memória do sofrimento passado para o presente. Nesse sentido, a solidariedade atual carrega uma herança - a herança das esperanças e a herança dos fracassos, das mutilações, das destruições que têm sofrido os sujeitos no passado.


Para compreender Metz é necessário situar-se na Alemanha e atentar para as diferenças das suas regiões. Até sua aposentadoria, Metz viveu em Münster, na Westfalia. Os habitantes dessa região são camponeses muito fechados, pouco comunicativos. Metz é natural da Baviera, onde os “bárbaros” têm uma relação natural com a religião e uma relação religiosa com a cerveja. Metz, em particular, tem uma personalidade muito expansiva e aconchegante. Com os estudantes vindos da Espanha ou da América Latina ele era especialmente muito cordial.
Metz sempre teve um círculo de discípulos muito amplo. Assim, se formava um colóquio de doutorandos numeroso, de pessoas de todo o mundo. Para um estudante que faz doutorado com Metz, essa é uma fonte de enriquecimento constante, porque, além de seu aporte intelectual, há todo o grupo de estudantes das mais variadas partes do mundo. Entre os colóquios dos doutorandos nunca se falava das teses, muito raramente. O assunto era, quase sempre, o debate teológico atual. Esses colóquios programados em forma de seminário era algo muito enriquecedor porque, quando se faz uma tese, tendemos a nos comportar como um cavalo de viseiras, como se só houvesse o nosso próprio trabalho. Com esse círculo, nossos horizontes se abriam, porque continuamente estávamos falando de filósofos, de problemas de ciências sociais, de novas teologias.

Últimas edições

  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição