Edição 352 | 29 Novembro 2010

“Classe média, renda e crédito são sinônimos do capitalismo”

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Graziela Wolfart

José Dari Krein percebe que a identificação do povo brasileiro com o lulismo se dá muito mais pela progressão no consumo do que por uma identidade política criada com o governo

“O crédito no capitalismo é algo absolutamente central, importantíssimo”. A afirmação é do economista José Dari Krein, professor na Unicamp. No entanto, se o acesso ao crédito pode acarretar uma crise social no futuro “ainda é cedo para saber”, defende. Na entrevista que segue, concedida por telefone à IHU On-Line, Dari explica que “o que pode colocar uma crise no futuro não é o acesso ao crédito ou não. O que começa a criar dificuldades em relação ao acesso ao crédito é quando se passa a entrar em crise econômica, quando se tem desempenho econômico pífio, quando volta a crescer a inflação e a gerar desemprego. A questão da crise social no futuro está muito mais relacionada com a dinâmica e o desempenho da economia do que com o acesso ao crédito. É claro que, se quisermos ter mecanismos de controle da inflação, podemos criar regras dificultando o acesso ao crédito, como uma das alternativas. Ao invés de aumentar a taxa de juros, limita-se o crédito”. Para o pesquisador, “quando se tem crescimento econômico, como tivemos no período recente, é muito mais fácil acomodar os diferentes interesses presentes na sociedade, inclusive fazer melhores políticas públicas. É impossível imaginar uma política de valorização do salário mínimo sem ter como pressuposto o crescimento econômico”.

Graduado em Filosofia pela PUC-PR, José Dari Krein tem mestrado e doutorado em Economia Social e do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas, onde atualmente é professor no Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor percebe a emergência de uma nova classe média com o lulismo? O que a caracteriza e como surge?


José Dari Krein –
Com o melhor desempenho da economia nos últimos anos, especialmente de 2004 em diante, e também como se tinha antes uma situação de estagnação da economia e uma mobilidade social até decrescente, o que aconteceu no período recente é que ascendeu ao consumo uma quantidade expressiva de pessoas que antes tinham uma perspectiva de consumo bem mais limitada. O que se caracteriza com isso e com o melhor desempenho no mercado de trabalho, com o aumento do salário e com o acesso ao crédito, é a formação de uma classe média baixa, mais robusta numericamente, mas não a classe média tradicional. É uma classe média que consegue ter acesso a determinados bens, que conseguiu aumentar a sua renda, mas não podemos considerá-la uma classe média tradicional. Trata-se de uma melhora expressiva, mas não dá para associar isso automaticamente ao que se chama de lulismo. Não existe uma fidelidade de segmento clara com o lulismo. A identidade se dá muito mais pela progressão no consumo do que por uma identidade política criada com o governo. Onde existe uma fidelidade maior com o chamado lulismo é com os segmentos mais empobrecidos da sociedade, que tem dependência mais direta, que tinham condições de vida bem piores e que, com a elevação do salário mínimo, com as políticas de transferência de renda, com o acesso ao crédito e com emprego, têm uma ligação maior com o chamado lulismo do que essa classe média que ascende ao consumo no período recente.

IHU On-Line - Como o senhor vê a questão do crédito no Brasil hoje, por exemplo, o caso do Banco Panamericano? O que isso significa? Pode acarretar uma crise social no futuro?

José Dari Krein – Classe média, renda e crédito são sinônimos do capitalismo. No caso brasileiro, o acesso ao crédito se viabilizou pela inflação mais baixa. Nossa taxa de juros continua muito elevada, mas o alongamento das prestações também facilitou. O cálculo principal que boa parte das pessoas faz quando compra um produto não é quanto está pagando de juros, mas se a prestação cabe no seu rendimento mensal. O crédito no capitalismo é algo absolutamente central, importantíssimo. Se isso pode acarretar uma crise social no futuro, ainda é cedo para saber. Os indicadores hoje mostram que o endividamento das famílias ainda não é algo fora de controle. O que pode colocar uma crise no futuro não é o acesso ao crédito ou não. O que começa a criar dificuldades em relação ao acesso ao crédito é quando se começa a entrar em crise econômica, quando se tem desempenho econômico pífio, quando volta a crescer a inflação e a gerar desemprego. A questão da crise social no futuro está muito mais relacionada com a dinâmica e o desempenho da economia do que com o acesso ao crédito. É claro que, se quisermos ter mecanismos de controle da inflação, podemos criar regras dificultando o acesso ao crédito, como uma das alternativas. Ao invés de aumentar a taxa de juros, limita-se o crédito.

IHU On-Line - Como ficam os movimentos sociais sob a ótica dessa nova classe média que surgiu com o lulismo?

José Dari Krein – É algo legítimo as pessoas pensarem na melhoria da sua condição de vida. Tanto que essa melhoria fez com que boa parte das pessoas tivesse um certo receio de que as coisas que estão mais ou menos caminhando num sentido mais positivo poderiam não continuar num governo com outra perspectiva. E essa é a razão fundamental da vitória de Dilma. Boa parte da votação da presidente eleita é para preservar as conquistas alcançadas no período recente. Essa preservação do que está sendo conquistado tem uma relação direta com a ampliação do consumo. Do ponto de vista sindical, há um fortalecimento dos sindicatos na categoria profissional em torno da questão salarial, com algum pequeno aumento salarial. Se olharmos do ponto de vista mais geral, há uma preocupação de parte expressiva dos segmentos da classe média com a estruturação das políticas públicas, especialmente da saúde e da educação. Esses dois temas ganharam grande importância na campanha eleitoral de 2010, porque se houve uma melhoria na questão salarial, de emprego e do acesso ao crédito, a mesma melhoria não é perceptível nas políticas sociais especialmente voltadas à saúde e à educação. Para se consolidar uma classe média, esses são dois campos fundamentais que precisam ser mais desenvolvidos. Vejo aqui um movimento meio silencioso na sociedade, e o processo eleitoral revelou. Junto a isso, aparece a questão ecológica por parte da classe média mais tradicional. São temas que emergiram como preocupação no pleito eleitoral, junto com a ética e a questão da corrupção.

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