Edição 352 | 29 Novembro 2010

ALAIC: história, diálogos e perspectivas

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César Bolaño

A Associação Latino-americana de Pesquisadores da Comunicação – ALAIC (em espanhol) é uma entidade com mais de trinta anos de existência, que teve um papel fundamental num momento crucial da luta pela democratização da comunicação: o período dos debates, nos anos 1970, sobre a chamada “nova ordem mundial de informação e comunicação” – Nomic, culminando com o famoso Relatório MacBride, da Unesco e a saída dos Estados Unidos, Grã Bretanha e Japão dessa entidade, que passou a sofrer uma endêmica falta de recursos para cumprir os seus objetivos de agência da ONU para a cultura e a educação. Era a época, no bojo da Guerra Fria, da organização dos países não alinhados, que desempenharam um papel de relevo no processo, contrariando os interesses das duas potências hegemônicas, ao reivindicar maior equilíbrio nos fluxos internacionais de informação.

A ALAIC surge nesse contexto, representando, no campo da comunicação, o pensamento social latino-americano, participando ativamente do diálogo acadêmico no interior da International Association for Media and Communication Research – IAMCR, a grande associação mundial de pesquisadores da comunicação. O fim dos debates sobre a Nomic, com o arquivamento, na prática, do relatório MacBride, levaram ao virtual desaparecimento da ALAIC, transformada, segundo seus próprios componentes, num clube de amigos que observava, ao longo dos anos, o crescimento do campo da comunicação na América Latina, especialmente no Brasil, onde José Marques de Melo encabeçara o vitorioso projeto de criar uma entidade nacional de pesquisadores da comunicação tão forte como acabou se tornando a Intercom.
Chamado a reconstruir a entidade, ao final dos anos 1980, Marques de Melo aproveitou a realização do congresso da IAMCR de 1992, no Guarujá, para organizar o primeiro congresso da ALAIC, em Embu-Guaçu, na grande São Paulo. A partir de então, sob sua presidência e, em seguida, de Enrique Sanchez Ruiz, Margarida Kunsch e Erick Torrico, a entidade adquiriu sua feição atual, de associação acadêmica, realizando congressos bianuais, com seminários bianuais intercalados, publicando livros e revistas e organizando os diferentes campos específicos da comunicação nos seus mais de 20 grupos de trabalho. A entidade, como o campo da comunicação na América Latina em geral, se consolidava academicamente, a partir da expansão dos cursos de graduação e pós-graduação, ao mesmo tempo em que refluía o pensamento crítico em todo o mundo e em todos os campos, no bojo dos processos globais que levaram ao fim da Guerra Fria e à implantação do neoliberalismo.

Minha eleição para a presidência da ALAIC – após um processo longo de debates internos que culminaram com a mudança dos estatutos, em 2008, e a definição de um novo regulamento interno, no ano seguinte – marcará, esperamos, sem recuar na institucionalização acadêmica, consolidada desde 1992, uma retomada da preocupação central com o pensamento crítico latino-americano, com a interdisciplinaridade e com uma modernização das estruturas internas da entidade, voltada para o reforço das subáreas representadas pelos GT, visando uma nova inserção no debate acadêmico internacional. Uma das peças-chave dessa mudança é o processo de reforma dos GT, iniciada na gestão anterior, a partir da criação de uma comissão, que tive o prazer de coordenar e da qual participavam também a atual vice-presidente, Dra. Delia Crovi, e o atual diretor científico da entidade, Dr. Gustavo Cimadevilla.

A ideia por trás da reforma e também da nossa candidatura – que incluía, ademais, dos nomes citados, os de Eliseo Colon (diretor de relações internacionais), Fernando Paulino (diretor administrativo) e Carlos Arroyo (diretor de comunicação) – é a de organizar o debate interno, incorporando jovens pesquisadores, valorizando as grandes contribuições do velho e bom pensamento social crítico do latino-americano, visando ampliar a capacidade de interlocução do pensamento comunicacional do subcontinente no campo internacional. Uma das iniciativas nesse sentido, além da reforma dos GT, é a criação de uma segunda revista da entidade, online e em inglês, contando com um apoio da Unesco para o seu primeiro número, a sair no primeiro semestre de 2011.

O próprio diálogo retomado com a Unesco e com outras entidades importantes, como o Ciespal, ou a Alas, ou a nossa participação numa iniciativa tão importante, mais uma vez encabeçada por José Marques de Melo, como a da Confederação ibero-americana das entidades científicas do campo da comunicação (Confibercom), mostram o sentido do debate internacional em que estamos empenhados. Um momento importante desse processo se dará em julho de 2011, no seminário bianual da entidade, em São Paulo, paralelamente ao primeiro congresso da Confibercom, quando será lançado o primeiro número do nosso Journal of Latin American Communication Research.

O debate interno, por outro lado, inclui ainda uma nova relação com as associações nacionais de pesquisadores da comunicação da América Latina, que hoje são cinco: Amic (México), Intercom (Brasil), Aboic (Bolívia), Invecom (Venezuela) e Seicom (Equador). Iniciativas de criação de novas associações do gênero estão em curso hoje com o apoio da ALAIC.
Finalmente, estamos centrando esforços na constituição das representações regionais definidas nos novos estatutos. Quatro foram criadas até o momento: Cone Sul (Argentina, Chile, Brasil, Uruguai e Paraguai), coordenada por Valério Brittos; Região andina (Bolívia, Peru, Equador), coordenada por Pablo Escandon; Bacia amazônica (Colômbia, Venezuela e norte do Brasil), coordenada por Maria Ataíde; Centro, Norte América e Caribe, coordenada por Lucila Inojosa. A ideia é dividir esta última em duas, assim que as condições objetivas o permitam.

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