A terra, os pobres, os animais: uma visão ecológica da vida

A Criação é o espaço de vida para todos os elementos do universo. Por isso, afirma o teólogo luterano Haroldo Reimer, há a necessidade de tempos de pausa, de descanso, de ócio. Como diria um famoso pensador judeu, o “sábado da criação abre o mundo para a eternidade”

Por: Moisés Sbardelotto

Para compreender a natureza como Criação, é necessário partir, justamente, da Bíblia, onde o cosmos é narrado a partir de um ato criador de Deus, conforme o livro do Gênesis. Para o teólogo luterano Haroldo Reimer, pesquisador do Antigo Testamento e defensor de uma “hermenêutica ecológica” dos relatos bíblicos, “a Criação é o espaço cultural engendrado por Deus em meio ao caos”. Por isso, momentos como o “Tempo para a Criação” ou a Campanha 10:10:10 são espaços de celebração em que “as pessoas e as comunidades de fé podem contribuir com elementos próprios de sua tradição, lida e interpretada à luz das demandas ambientais atuais, para a criação de uma consciência ecológica e a formatação de uma ética ambiental de cuidado”, afirma, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Porém, diante das mudanças climáticas, é preciso buscar um novo ethos ecológico, que ultrapasse o mandato de “crescer e se multiplicar” da Bíblia – que “hoje precisa ser revisto”, segundo Reimer – e que revalorize o outro binômio no conjunto dos textos bíblicos, que ressalta a dimensão do “cultivar e guardar”. Por isso, os pobres, os animais e a terra “devem ser pensados como elementos integrantes de uma mesma grande casa”, defende o teólogo. Nesse sentido, Reimer propõe uma releitura instigante do relato de Deuteronômio 23, 12-15, em que esgoto e santidade estão intimamente relacionados. Por meio de um gesto muito humano e ao mesmo tempo repugnante, o texto bíblico convida a reconhecer concretamente os resultados da ação humana no ambiente.

Haroldo Reimer é teólogo luterano, doutor em Teologia pela Kirchliche Hochschule Bethel, da Alemanha, e pós-doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. É também professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC-Goiás e da Universidade Estadual de Goiás - UEG. Também é docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e do Programa de Pós-Graduação em História da PUC-Goiás. É autor, dentre outros, de Toda a Criação: Bíblia e Ecologia (Oikos Editora, 2006) e Gênesis – Casa Comum: Espaço da Vida, Cuidado e Felicidade (Cebi, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em termos bíblicos, qual a importância e o significado do conceito “Criação”?

Haroldo Reimer – O termo “Criação” está profundamente assentado no imaginário religioso ocidental. Trata-se, pois, de um conceito importante. Ele tem a sua base no chamado relato da Criação nos capítulos iniciais do livro bíblico de Gênesis. Trata-se de um texto fundamental para assentar a ideia de que o mundo ou o cosmo, tal como nós o conhecemos, é resultado da ação criadora de um Deus transcendente. Este, num conjunto de ações criadoras, distribuídas nos seis dias da criação, teria disposto os elementos constitutivos do mundo natural, atribuindo ordem e sentido ao mundo criado. Esses conteúdos marcaram e continuam a marcar o jeito de pensar de milhões de pessoas, que deduzem desse relato um sentido para a sua própria existência e sua relação com o entorno ambiental. Desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, a ideia deste Deus criador foi amalgamada com ideias provenientes do mundo filosófico grego, como, por exemplo, a ideia do motor não movido de Aristóteles, o qual é entendido filosoficamente como a causa não gerada de todos os elementos do mundo natural.

Hoje, a partir do estado de questão da pesquisa, se reconhece o relato da Criação no livro de Gênesis como uma narrativa mítica, por meio da qual a comunidade dos antigos hebreus, por meio de seus mentores intelectuais, projeta a origem última de seu mundo, bem como a ordem e o sentido dos elementos existentes neste universo criado pela ação ou palavra criadora de Deus. O mito é entendido aqui em sentido positivo como uma forma de linguagem da qual se utilizam as religiões e/ou as comunidades para expressar reconhecimentos profundos de sua estrutura cultural. Mitos transcendem culturas determinadas, revelando diálogo com outros grupos. Há sempre elementos justificadores de estruturas presentes nos relatos míticos, reveladores também da estrutura e das relações de poder no tempo da formatação dos relatos.
No relato bíblico, criação é o espaço cultural engendrado por Deus em meio ao caos. Essa dimensão é importante: criação é intervenção no ambiente no sentido de um ordenamento. Há passagens em que o verbo hebraico “criar” designa, por exemplo, abertura de clareiras em meio à mata para a instalação de estruturas que permitem a vida comunitária. Também a aço de instalação de aldeias ou cidades pode ser designado como um ato criador, tendo, neste caso, a ação humana como elemento constitutivo. Em alguns relatos do entorno cultural do antigo Israel, isto é, do mundo do antigo Oriente próximo, a ação de reis metamorfoseada de ação divina resulta na criação de cidades.

No caso das páginas iniciais do livro de Gênesis, o mundo criado, isto é, ordenado pela palavra da divindade, resulta no espaço vital para os humanos em compartilhamento com os demais elementos da Criação, isto é, do mundo natural entendido como criado. Os humanos fazem parte de uma “comunidade da Criação”. Dentro dela, os humanos ocupam posição de destaque, tal como a noção de “imagem e semelhança”. Também ocupam funções de governança. Essa atividade de governança é expressa por modos distintos. Em geral prevalece no imaginário a noção de subjugação e domínio, registrada em Gênesis 1, 26-18. Mas, ao lado dessa atuação autoritária e violenta, outra passagem insiste em dizer que a tarefa dos humanos consiste em “cultivar e guardar”. Este binômio deve ser recepcionado mais fortemente hoje em dia face aos desafios ambientais.

Importante também é reconhecer, que no relato da criação, os elementos da natureza não humana têm seu valor próprio, intrínseco, desvinculado de sua funcionalidade em favor dos humanos. O próprio relato, estruturado numa dinâmica de sete dias, é revelador de uma estrutura de tempo. O tempo de trabalho e intervenção no ambiente está restrito a seis dias, devendo prevalecer no sétimo dia um tempo de graça e descanso. Solenemente se afirma no relato que, neste dia, o próprio Deus descansou (hebraico: shabat) de seus afazeres, abençoando esse tempo de descanso e ócio ou também de oração e reflexão. Na mentalidade hebraica, com extensa recepção no mundo cristão, o dia de descanso se revela importante como um tempo para a própria criação, isto é, os humanos e o próprio ambiente natural, possam recompor as suas energias. O dia de descanso não está destinado somente para os humanos, mas também os animais e a própria terra devem poder descansar neste tempo especial (cf. Êxodo 20,8-11; Êxodo 23,10-12). Especial destaque sempre é dado também aos pobres. Aqui se revela a noção de que a criação é o espaço de vida para todos os elementos do universo e que, além da necessidade de intervenção constante no ambiente, há a necessidade de tempos de pausa, de descanso, de ócio. Um famoso pensador judeu se expressou dizendo que o “sábado da criação abre o mundo para a eternidade”.
Esses são elementos que podem e devem ser trazidos à memória das pessoas e das comunidades que celebram, refletem e oram pela integridade da criação.

IHU On-Line – O tema proposto para este ano é Criação florescente: Um momento para a celebração e o cuidado. Como esses dois aspectos – celebração e cuidado da Criação – podem ser compreendidos bíblica e teologicamente?

Haroldo Reimer – A dimensão celebrativa brota da fé, do reconhecimento profundo de que o mundo existente é fruto da ação criadora, mantenedora e recriadora de Deus. Deriva também da consciência das pessoas e das comunidades que creem em Deus de que elas têm tarefas proféticas e constantemente trazem à memória elementos fundantes da relação dos humanos com o ambiente como expressão de seu próprio modo de crer. Uma comunidade que celebra pode advertir profeticamente as pessoas e o mundo acerca de sua forma de vida muitas vezes devastadora do ambiente. Por meio da celebração, as pessoas podem lograr obter subsídios para reordenar a sua relação com o ambiente. Nesse sentido, o papel das igrejas e das comunidades de fé é esboçar e projetar possibilidades de vivência e de relações que impliquem em relações de cuidado. O termo “cuidado”, aqui, é entendido como indicador para um paradigma ecológico, resultado de uma “mutação” no jeito de pensar. Indica uma ética de responsabilidade para com as gerações presentes e futuras, como foi bem expresso pelo filósofo judeu-alemão Hans Jonas. Esse é um ideário recepcionado em muitas normas e textos legislativos em países democráticos. Pela celebração, as pessoas e as comunidades de fé podem contribuir com elementos próprios de sua tradição, lida e interpretada à luz das demandas ambientais atuais, para a criação de uma consciência ecológica e a formatação de uma ética ambiental de cuidado. Relembrar, por exemplo, que o descanso ou o ócio faz parte da existência humana e que esta não se resume e se plenifica no trabalho incessante, na ininterrupta intervenção no ambiente ou no consumo excessivo, é um serviço importante da celebração. Assim, as duas coisas podem e devem andar juntas: em fé, celebrar pela Criação entendida como dádiva divina e, em ações (respostas), ajudar a propor caminhos de existência sustentável.

IHU On-Line – O senhor fala de uma “hermenêutica ecológica”. De que forma os relatos bíblicos podem nos inspirar a assumir uma nova postura com relação à Criação? Que relatos “ecológicos” estão presentes na Bíblia e que podem nos servir de inspiração?

Haroldo Reimer – Hermenêutica é um termo muito em uso na atualidade. Alguns autores até dizem que vivemos um tempo hermenêutico. Eu utilizo o termo no sentido clássico de “arte e ciências dos processos interpretativos”. É uma arte, que se pode ter por dom ou que se aprimora pelo cultivo. É algo que lembra a dimensão artística ou o virtuosismo. Nos processos interpretativos, podem ser potencializados elementos ou perspectivas distintas que revelam existencialidades e dimensões históricas do sujeito interpretante.
Falar de uma “hermenêutica ecológica” significa estabelecer um diálogo frutífero entre os desafios ou as demandas das crises ambientais e as projeções utópicas ou heterotópicas de futuro. O elemento fundante é a ideia de que o mundo em que vivemos é o espaço de vida que temos e que precisamos preservar. Essas são noções que derivam de reconhecimentos das últimas três ou quatro décadas, basicamente a partir do momento em que o “mundo moderno” começou a se dar conta da finitude dos recursos naturais. A partir daí se abriu a possibilidade de analisar criticamente a própria ação coletiva dos humanos na “aldeia global”.
Uma hermenêutica ecológica aplicada aos textos bíblicos implica em buscar ler textos bíblicos em perspectiva ecológica, isto é, em sintonia com demandas e crises ambientais e com projeções de vida integral para as gerações presentes e futuras. Aí é o sujeito interpretante que interroga os textos bíblicos acerca de seu potencial ecológico, isto é, se faz a pergunta a respeito de se e como os textos bíblicos revelam reconhecimentos dos antigos acerca de sua relação com o ambiente. Temos que nos dar conta de que se trata de textos pré-modernos, que podem, contudo, contribuir para a formação de uma consciência ecológica ou de uma ética ambiental.

Há uma série de textos bíblicos que podem ser “garimpados” numa leitura em perspectiva ecológica. Um deles, claro, é o relato da criação em Gênesis. Entender que o mundo criado resulta de atividade de intervenção, mas que essa intervenção deve ser limitada ou balanceada por momentos ou tempos de descanso ou de “graça”, para todos os elementos da Criação. Os tempos de pausa se destinam aos humanos, aos animais e à própria terra (Êxodo 23, 10-12). Deve haver tempos especiais de reestruturação de relações econômicas geradoras de relações de dependência, com remissão ou perdão de dívidas impagáveis e possibilidade de reinício de vida em liberdade (Êxodo 21, 2-11; Deuteronômio 15, 12-18). Aí transparece a importante noção de “gratuidade”, como se evidencia nas palavras (românticas) de Jesus quando sugere olhar os “lírios dos campos”.
Eu tenho insistido em trazer à memória um texto do livro de Deuteronômio (23, 12-15), no qual se estabelece a relação entre esgoto e santidade. Trata-se aí de um tema prosaico relativo às necessidades fisiológicas de toda pessoa. Recomenda-se que, em havendo a vida comunitária, as pessoas busquem lugares fora do acampamento para fazer suas necessidades, cavando buracos para tal. O detalhe interessante no texto, muitas vezes omitido nas traduções, é a recomendação de que, após “fazer o seu serviço”, a pessoa deve ser voltar e ver o resultado. Para mim, este termo “virar-se” ou “voltar-se” é significativo. Trata-se de reconhecer concretamente os resultados de sua ação no ambiente. Aí já se antecipa a noção de “conscientização”, que implica em dar-se conta dos resultados das ações ou das intervenções humanas no ambiente. O termo hebraico derivado do verbo shub remete em outros contextos para um processo de mudança de orientação, de conversão, de algo que, depois, em grego, é expresso pelo importante conceito de “metanoia”. O ser humano deve se dar conta dos resultados tantas vezes nefastos de sua intervenção no ambiente. Isso pode abrir a possibilidade de reorientação mais sábia e menos danosa de sua vida individual e coletiva, objetivando, assim, diminuir o peso da “pegada humana” sobre a Terra. Um acampamento higiênico é relacionado com a presença do Sagrado, de Deus. É um texto que liga, pois, santidade com esgoto, podendo ser potencializado para ações individuais e especialmente para ações de políticas públicas preventivas e possibilitadoras de qualidade de vida.



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